Questão 58 - PAS - UFLA 1 Etapa 2025-2027
Leia os poemas I e II, extraídos da obra Sonetos, de Luís de Camões, para responder à questão.
Poema I
Este amor que vos tenho, limpo e puro,
de pensamento vil nunca tocado,
em minha tenra idade começado,
tê-lo dentro nesta alma só procuro.
De haver nele mudança estou seguro,
sem temer nenhum caso ou duro fado,
nem o supremo bem ou baixo estado,
nem o tempo presente nem futuro.
A bonina e a flor asinha* passa;
tudo por terra o inverno e estio
deita, só para meu amor é sempre maio.
Mas ver-vos para mim, senhora, escassa,
e que essa ingratidão tudo me enjeita,
traz este meu amor sempre em desmaio*.
*asinha: subitamente
*desmaiar (portugal/regionalismo): festejar o início do
mês de
Poema II
Posto me tem fortuna* em tal estado,
e tanto a seus pés me tem rendido!
não tenho que perder já, de perdido,
não tenho que mudar já, de mudado.
Todo o bem para mim é acabado;
daqui dou o viver já por vivido;
que, aonde o mal é tão conhecido,
também o viver mais será escusado.
Se me basta querer, a morte quero,
que bem outra esperança não convém,
e curarei um mal com outro mal.
E, pois do bem tão pouco bem espero,
já que o mal este só remédio tem,
não me culpem em querer remédio tal.
*fortuna: destino
Sonetos, de Luís de Camões. Texto proveniente de: A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro/USP. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000164.pdf. Acesso em 08 mai. 20
Leia as proposições:
(I) No poema I, ainda que Camões trate do amor sob uma perspectiva individualizada, o eu-lírico interpreta suas experiências amorosas de forma idealizadora e universalizante, valorizando a dimensão de pureza, de imaterialidade e de perenidade desse sentimento.
(II) O poema I pressupõe uma figura feminina envolta em uma aura de beleza e de encantamento e uma compreensão da superioridade do amor inalcançável sobre o amor consumado, reafirmando, assim, preceitos renascentistas; no poema II, por meio do uso recorrente de antíteses e paradoxos, o poeta cria um universo de incertezas e desestabilizações, gerando tensão existencial e pessimismo, recursos que antecipam características da estética barroca.
(III) Tanto o poema I quanto o poema II exploram a sensação de impotência diante de um destino que tudo destrói, expondo um eu-lírico conflituoso que se esforça para tentar compreender opostos inconciliáveis, como “presente/futuro”, “morte/esperança”.
Assinale a alternativa CORRETA.
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