Questão 5 - FACASPER 2024/2
O PRESTÍGIO DA VISÃO*
Gilda de Melo e Souza
Para o homem de hoje, mergulhado no universo sujeito ao olhar, é difícil conceber uma época ou uma cultura em que, na hierarquia dos sentidos, a visão não detenha prioridade. E, no entanto, o prestígio do olho é relativamente recente. A poesia do escritor renascentista francês Pierre de Ronsard (1524-1585) é testemunha disto, pois, discreta quanto às imagens visuais, é permeada de ruídos e perfumes do rumor agreste dos jardins e do murmúrio das águas. Mas, quando o homem-de-ar-livre é substituído pelo homem-de-estufa, originário da cidade, os sentidos corpóreos veem-se impelidos a ceder lugar aos mais nobres, o ouvido e a visão.
No início, a primazia cabe à audição, pois, embora o aparecimento da imprensa tenha imposto e disseminado a leitura, esta continua sendo feita em voz alta e na companhia de outros. Mas logo o emprego do vidro translúcido e a invenção das lentes – exemplo tão caro ao historiador norte-americano Lewis Mumford (1895-1990) – acelera a visualização progressiva do mundo; o hábito dos óculos amplia a jornada de trabalho e os anos de leitura, a utilização das lentes impulsiona o desenvolvimento da ciência moderna.
Aliás, a visualização da percepção é um fenômeno tipicamente urbano e desde o Renascimento havia atingido a arte, ampliando o espaço da pintura, que deixara de representar a relação exclusiva do sagrado e do profano para estabelecer uma visão múltipla, que explorava indiferentemente a proximidade e a distância, o homem e a paisagem, a batalha em campo aberto e o espaço fechado das festividades públicas. A pintura holandesa leva adiante esta vocação nova do olhar para apreender a intimidade, ao percorrer a casa e surpreender a mão dos afazeres domésticos, quando ela, a mão, costura, cozinha, varre o chão, ajeita o colar, calça a meia e, mesmo, cata a pulga. O espelho completa a longa trajetória que vai do excepcional ao insignificante, do público ao privado, do visível ao invisível, voltando os olhos para o ego e prosseguindo a pesquisa da alma solitária.
Mas o grande período da visão se inicia, em verdade, no século XIX, com a modernização das cidades, quando as grandes estruturas de ferro e vidro abrigam as exposições internacionais, as bibliotecas, as lojas de departamento (os grands magasins), e se generaliza nos lugares públicos o emprego das janelas rasgadas e das vitrinas. A caricatura, a crônica, o romance da época irão comentar com extraordinária agudeza o engodo dessa conquista recente que, na expressão de Baudelaire, irá permitir ao pobre, enfim, contemplar de perto a alegria do rico.
O século XIX vai instalar o olhar no trono, ao desenvolver as teorias ópticas, a pintura ocular do Impressionismo, a ilusão científica de pintores como Georges-Pierre Seurat (1859-1981) e Paul Signac (1863-1935), a invenção da fotografia. A reprodução mecânica da realidade será o primeiro passo para a grande revolução estética das artes visuais e para o grande acontecimento artístico mais importante do século, o cinema.
Assinale a opção que substitui corretamente a locução verbal presente em “… que deixara de representar a relação exclusiva do sagrado e do profano”.
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