Questão 49 - UDESC Manhã 2025/2
TEXTO
Planta Baixa
[1] A noção de tempo é engraçada quando somos crianças. Depois entendi que não
tinha passado nem uma hora naquele apartamento, mas para mim uma hora equivalia
a um dia completo. Mamãe estava muito preocupada em não incomodar a patroa com
a minha presença, e de tempos em tempos ia ao quartinho me ver. Seu rosto muito
[5] negro aparecia pela metade na porta e espiava. Apenas os olhos grandes, brilhantes,
belos, pretos e o lenço imaculado e bem passado na cabeça surgindo e sumindo,
sumindo e surgindo…
[...]
Quando ter uma empregada que dorme no trabalho passou a ser algo caro e não
[10] de muito bom-tom, os corretores de imóveis chamariam esse local da casa de “quarto
reversível”, um nome para não chamar o quartinho de quartinho ou do que ele
realmente era: um lugar para serviçais, criadas, babás, domésticas, amas,
empregadas. Todos estes nomes que deram e dão até hoje a quem é “quase da
família”. Um lugar onde estivessem ao alcance do comando de voz, do olhar, ao
[15] alcance das mãos… A tempo e hora, vinte quatro horas por dia.
CRUZ, E. A. Solitária. Companhia das Letras. 1ª Edição. São Paulo, 2022, pp. 17-19.
Analise as proposições em relação à obra Solitária, de Eliana Alves Cruz, e ao Texto.
I. A leitura da obra leva o leitor a inferir a observância de uma denúncia veiculada, que, muitas vezes, configura o aniquilamento do ser humano, acentuado pela cor, pela pobreza e pela simplicidade da tarefa que executa, sendo atribuída uma condição de inferioridade.
II. A obra Solitária, embora seja um romance, é composta por três partes, e apresenta um fio condutor muito lógico. A primeira parte, Mabel, a narrativa é apresentada por Mabel; a segunda parte, Eunice, a narradora é Eunice, mãe de Mabel, e a terceira parte, Solitárias, na qual a autora coloca os quartos como narradores, personificando-os.
III. Ironia é uma figura de linguagem que consiste no emprego de uma palavra ou de uma expressão que procura sugerir um sentido completamente diferente do habitual e produz um humor sutil. Para ser identificada, ela depende do contexto e do conhecimento do interlocutor. Assim, pela leitura da obra, diz-se que há ironia em “Todos estes nomes que deram e dão até hoje a quem é “quase da família” (linhas 13 e 14).
IV. O segmento “Mamãe estava muito preocupada em não incomodar a patroa com a minha presença, e de tempos em tempos ia ao quartinho me ver” (linhas 3 e 4), corrobora para o foco do romance que são os personagens considerados como invisíveis pelas famílias consideradas elitizadas.
V. A leitura do sintagma “Quando ter uma empregada que dorme no trabalho passou a ser algo caro e não de muito bom-tom” (linhas 9 e 10), reforçada pela oração destacada, implica uma situação embaraçosa para os patrões, uma vez que a doméstica dorme durante o expediente de trabalho, ao invés de realizar suas atividades.
Assinale a alternativa correta.
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