Questão 39 - UECE Específicas 2 Fase 1 Dia 2025/2
[70] 19 DE JUNHO... A Vera ainda está doente. Ela disse
me que foi a lavagem de alho que eu dei-lhe que lhe fez
mal. Mas aqui na favela várias crianças está atacadas com
vermes.
O José Carlos não quer ir na escola porque está
[75] fazendo frio e ele não tem sapato. Mas hoje é dia de
exame, ele foi. Eu fiquei com medo, porque o frio está
congelando. Mas o que hei de fazer?
Eu saí e fui catar papel. Fui na Dona Julita, ela
estava na feira. Passei na sapataria para pegar o papel. O
[80] saco estava pesado. Eu devia carregar o papel em duas
viagem. Mas carreguei de uma vez porque queria chegar
em casa, porque a Vera estava doente e sozinha.
20 DE JUNHO... Dei leite para a Vera. O que eu sei é
que o leite está sendo despesas extras e está prejudicando
[85] a minha minguada bolsa. Deitei a Vera e saí. Eu estava tão
nervosa! Acho que, se eu estivesse num campo de batalha,
não ia sobrar ninguém com vida. Eu pensava nas roupas
por lavar. Na Vera. E se a doença fosse piorar? Eu não
posso contar com o pai dela. Ele não conhece a Vera. E
[90] nem a Vera conhece ele.
Tudo na minha vida é fantástico. Pai não conhece
filho, filho não conhece pai. ...
Não tinha papéis nas ruas. E eu queria comprar um
par de sapatos para a Vera. (...) Segui catando papel.
[95] Ganhei 41 cruzeiros. Fiquei pensando na Vera, que ia
bradar e chorar, porque ela quando não tem o que calçar
fica lamentando que não gosta de ser pobre. Penso: se a
miséria revolta até as crianças...
JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 10. ed. São Paulo: Ática, 2014.
O trecho “Tudo na minha vida é fantástico. Pai não conhece filho, filho não conhece pai. ...” (linhas 91-92) apresenta um tom
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