Questão 5 - ACAFE Medicina - Inverno 2024/2
Texto 2
Nossa língua cotidiana está algo distanciada da língua portuguesa, que é a oficial e, num certo sentido, é uma língua importada. Não raro viajamos entre toponímicos tupi. Na cidade de São Paulo, transito regularmente entre o Butantã e Carapicuíba e o Embu, aonde levo meus alunos, periodicamente, para uma aula de rua. Ou os levo ao Museu Paulista, no Ipiranga, para outra aula, ou à Moóca, para observações etnográficas sobre uma festa italiana. Faço tudo isso dentro da língua tupi. Como posso ir do rio Guaíba à Paraíba ou ao Pará ou ao Piauí sem achar que estou falando uma língua estrangeira, que ela não é.
Em escolas rurais de povoados do Mato Grosso, do Pará e do Maranhão, observei um fato curioso. Uma vez que as crianças escrevem como falam, não é raro que acrescentem de preferência um "r" às palavras oxítonas, a letra usada como acento agudo: "ater", em vez de "até"; "Joser", em vez de "José". Algo que tem sua curiosa legitimidade no modo como se escrevia oficialmente o português até meados do século 19, letras fazendo as vezes de acentos e sinais. A própria língua falada, no confronto com a escrita, oferece às crianças inteligentes a chave de adaptação de uma à outra: se elas dizem "falá" e vêm que a palavra escrita é "falar", logo entendem que o "r" é aí acento, e não letra para ser pronunciada.
É comovente a reação dos jovens quando descobrem que são falantes do que resta de uma língua que já foi a língua do povo brasileiro e que conhecem um grande número de sons e palavras tupi. O que lhes dizem ser erro e ignorância é, na verdade, história social, valorosa sobrevivência da nossa verdadeira língua brasileira. Se não fosse assim, seria impossível rir daquela história de dois mineiros que resolveram temperar a prosa com café. E foram para a cozinha. Água fervida, coador pronto, um pergunta para o outro: "Pó pô o pó?". E o outro responde, firme: "Pó pô!".
De fato, somos um povo bilíngue, e o reconhecimento desse bilinguismo seria fundamental no trabalho dos educadores, em particular para enriquecer a compreensão da língua portuguesa, última flor do Lácio, inculta e bela, mais bela ainda porque invadida por esse outro lado da nossa identidade social, que teimamos em desconhecer.
Adaptado de: MARTINS, José de Souza. A proibição da língua brasileira. Folha de São Paulo, São Paulo, 20, julho de 2003. Opinião. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2007200309.htm. Acesso em: 30 de abril de 2024.
Texto 3
Podemos dizer que o Tupi foi falado até o final do século XVII, após o que se foi transformando na Língua Geral, em seus dois principais ramos, a Amazônica e a Meridional. A Língua Geral Amazônica transformou-se, no século XIX, no Nheengatu. Ela começou a se formar no Maranhão e no Pará da língua falada pelos tupinambás que ali estavam e que foram aldeados pelos missionários jesuítas, juntamente com muitos outros índios de outros idiomas e etnias. A Língua Geral Meridional desapareceu completamente no início do século XX. Essa se irradiara a partir da Capitania de São Vicente para Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e para as capitanias do sul do país, seguindo o rastro dos paulistas que avançavam com suas entradas e bandeiras. Há indícios de que tenha também havido uma língua geral na costa leste do Brasil, no sul da Bahia.
A Língua Geral Amazônica foi aquela em que se expressou a civilização cabocla ribeirinha do Norte, que se definiu a partir da inserção dos índios no mundo do colonizador branco mediante sua escravização ou pela mestiçagem. Dezenas de povos indígenas diferentes a falaram. Índios de diferentes línguas e culturas conheciam-na. Foi por meio das línguas gerais que a América indígena encontrou-se com a América portuguesa. Elas representavam um encontro de mundos. Nascia, finalmente, o Brasil.
Adaptado de: NAVARRO, E. DE A. O último refúgio da língua geral no Brasil. Estudos Avançados, v. 26, n. 76, p. 245 254, set. 2012. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0103-40142012000300024. Acesso em 30 de abril de 2024.
A partir da leitura dos textos 2 e 3, analise as afirmativas.
I. Em ambos os textos, nota-se alternância no uso das pessoas do discurso, porém com um mesmo objetivo de marcar impessoalidade, de modo a construir a credibilidade no discurso.
II. A língua brasileira, tal como compreendida pelo narrador do texto 2, tem suas raízes na língua Nheengatu, que se espalhou até as capitanias do sul devido às entradas e bandeiras.
III. Sob a perspectiva do professor do texto 2, a Língua Geral mencionada no texto 3 não teria desaparecido completamente, mas sobrevivido em toponímicos e pronúncias típicas da fala brasileira no Sul e Sudeste.
IV. Em áreas rurais de estados como o Maranhão, o professor observou crianças representarem na escrita um fenômeno que remonta às influências que o português recebeu da língua dos tupinambás.
É CORRETO o que se afirma em:
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