Questão 8 - USS (Univassouras) Medicina 2024/2
TEXTO 1
SOBREVIVER NÃO É O SUFICIENTE
MARIA STOCKLER CARVALHOSA, DE 19 ANOS, COMEÇOU A PERDER A VISÃO NO INÍCIO DA ADOLESCÊNCIA. SEIS ANOS DEPOIS DO PRIMEIRO CHOQUE, ELA CONTA COMO REAPRENDEU, POUCO A POUCO, A LIDAR COM O MUNDO E DESCOBRIU UMA MANEIRA MAIS AMPLA DE VIVER A VIDA.
[1] Num dia qualquer de setembro de 2015, Maria Stockler Carvalhosa foi parar num dos melhores hospitais
do Rio de Janeiro com um problema de visão: acabara de cair no meio da sala de aula na frente de todo
mundo porque não percebera uma mochila no chão. Não estava enxergando bem. O diagnóstico errado
de hidrocefalia congênita levou a quatro cirurgias no cérebro (uma bem-sucedida bastaria). Um mês e meio
[5] e duas hemorragias depois, saiu das operações com um cateter, duas válvulas, um sifão no cérebro e sem
o problema resolvido. Sua visão piorara muito: já não enxergava quase nada. Correu para o Sírio Libanês,
em São Paulo, foi operada uma vez para resolver a obstrução provocada por um glioma, um tecido que
cresceu no cérebro e impedia a drenagem de um ventrículo. Depois, passou por mais duas cirurgias para
retirar todo o aparato que havia sido colocado erroneamente na sua cabeça no Rio de Janeiro. Nessa altura
[10] do campeonato, o dano estava feito: o nervo óptico, com a demora na solução do problema, já ficara muito
mais lesionado. Maria ficou quase cega. Baixa visão, como dizem os especialistas.
Minha mãe não gosta quando afirmo que, se pudesse, não voltaria no tempo. Todos nós sofremos muito.
É muito difícil, tenho milhares de dificuldades, não sou uma bobinha de achar que, uhu, fiquei cega, mas
tudo está lindo. Não é disso que estou falando. Gostaria de poder enxergar de novo. Mas voltar no tempo
[15] significaria abrir mão da Maria que sou hoje. E disso eu tenho orgulho.
A adolescente de recém-feitos 17 anos, que representou a América Latina no último TED ED, em novembro,
em Nova York, esforça-se arduamente para recuperar a visão. Mas voltar a ser aquela menina de antes da
tragédia, nem pensar: “Acho que agora vejo mais. Ver e escutar são sentidos que vão sendo apurados. Têm
relação com sensibilidade e empatia. E nisso eu sou melhor agora. Caí num buraco e saí dele uma gigante”.
[20] Maria hoje enxerga uma mancha branca na visão central: “Se eu ponho as mãos na frente, a mancha fica da cor
delas. Se olho pro chão, fica da cor do chão. Mas é uma mancha e não dá pra ver nada através dela. Além disso,
a minha visão periférica é bem restrita e há bolas piscando o tempo todo como se eu estivesse dentro de uma
árvore de Natal. Sabe quando você vê as nuvens e cria padrões? Então, é assim comigo o tempo todo.”
O trabalho para aprontar o discurso do TED durou todo o ano de 2018. Começou dedicando boa parte dos seis
[25] minutos de fala a narrar o erro do qual foi vítima. A família achou que não valia a pena: “Meus pais falaram que
eu era muito mais do que o que aquele médico fez de errado e eu concordei. Ter escolhido a imaginação como
o eixo do discurso foi muito importante. Se antes eu tinha uma mente inventiva, hoje a imaginação é parte do
meu dia a dia. As pessoas muitas vezes me descrevem uma situação e eu crio a cena, o roteiro, as imagens na
minha mente. Até 2015, eu via o que eu imaginava, mas só na minha cabeça. Agora eu imagino e vejo mesmo”.
[30] “Um dos primeiros livros que li logo depois de perder a visão foi “Feliz ano velho”, do Marcelo Rubens Paiva.
Acho que todo mundo que passa por uma experiência como a minha, ou a do autor, acaba renovando seu
ciclo de amizades.
Em agosto de 2021, o ministro da Educação, pastor Milton Ribeiro, disse em entrevista à TV Brasil (e depois
numa coletiva de imprensa) que os alunos com deficiência atrapalham o aprendizado dos outros na sala
[35] de aula, que existem alguns graus de deficiência que impossibilitam a convivência, e se declarou contra o
inclusivismo. Isso tudo é muito violento e grave, mas o pior é saber que ele não é o único que pensa assim.
Em todas as escolas em que passei, percebi que eu era sempre uma perturbação.
Eu sou cega, mas minha visão muda o tempo inteiro. Nesse processo descobri que ver não é só enxergar
com nitidez. Ver é a capacidade de compreender os fenômenos, e vai além da parte visual da realidade.
[40] Por meio da visão que ainda tenho, das imagens que já vi, dos meus outros sentidos, da tecnologia e das
conversas com outras pessoas, pude desenvolver uma forma de ver mais livre e abrangente que antes.
Disponível em: https://projetocolabora.com.br/ods8/jovem-brasileira-busca-superar-cegueira-com-tecnicas-inovadoras/ e https://piaui.folha.uol.com. br/materia/sobreviver-nao-e-o-suficiente/(Adaptado). Acesso em 30 de maio de 2024.
TEXTO 2
[1] A evolução tecnológica e a inovação dos recursos médicos tornaram crescentes e impulsionaram a busca
por procedimentos realizados pela Medicina no Brasil e, como consequência, o número de erros médicos
também aumentou. O erro médico advém de uma conduta inadequada, capaz de produzir dano à vida
ou agravo à saúde do seu paciente, por ação ou omissão do profissional médico, mediante imperícia,
[5] imprudência ou negligência. Essa situação tem se tornado cada vez mais comum nos cenários nacional e
internacional. No Brasil, não se tem uma dimensão exata do número de pessoas acometidas pelo erro médico,
como, também, não há pesquisas aprofundadas envolvendo a subjetividade e o sofrimento das vítimas
na literatura nacional. Pode-se observar, dentre outros aspectos, que vítimas de erro médico inicialmente
demoram para acreditar no que estão vivenciando, ficando perplexas e indignadas diante do erro médico
[10] do qual foram vítimas. Verificou-se que algumas souberam por outros profissionais da ocorrência do erro, e
nenhum dos médicos que cometeu o erro foi o responsável pelo suporte na condução da correção. Assumir
que errou foi pouco visto nos discursos e atitudes dos médicos envolvidos. Os sentimentos de ódio, raiva e
desespero tomam conta da vivência das vítimas. A rotina de vida se modifica, e as vítimas se tornam, muitas
vezes, dependentes e impossibilitadas de continuar com suas responsabilidades e afazeres. As narrativas das
[15] vítimas indicaram que cada indivíduo tem seu modo subjetivo de enfrentar e reagir ao erro, e o sofrimento
é um elemento peculiar a esse processo. O conceito de erro médico, formulado pelas vítimas, apresenta
uma conotação negativa e representa uma atuação profissional sem qualidade, retratando a realidade do
contexto sanitário que o país vive, sem respeito e consideração pelo paciente. Sobre o julgamento dos casos,
as vítimas destacaram a demora na deliberação do processo e sentiram-se surpresas quanto às brandas
[20] punições aplicadas aos médicos condenados. Com base nas reflexões, é possível apontar que o estigma
do erro médico tem uma forte ligação com juízos culturais e de valor impostos no país, o que dificulta a
sua aceitação tanto para a vítima quanto para o profissional. A relação médico e paciente tem se mostrado
desgastada, sem haver respeito e consideração à individualidade da pessoa como paciente, distanciando
o médico de uma prática humanizada e dos aspectos bioéticos. As narrativas permitem um pensar sobre o
[25] sofrimento psíquico das vítimas e ajudam a compreender melhor os aspectos emocionais, comportamentais
e sociais de uma vítima de erro médico no Brasil. A partir das análises, identificou-se a necessidade de um
olhar mais cauteloso e atento da Psicologia para o cuidado à saúde mental dos envolvidos no erro.
Adaptado de USP. Disponível em: /https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-12082015-153718/publico/mendonca_do.pdf. Acesso em 30 de maio de 2024.
É possível identificar, a partir da leitura e da estrutura dos dois textos, que são gêneros que pertencem, respectivamente, aos seguintes domínios discursivos:
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