Questão 12 - UEG 2024/1
Leia os textos 1 e 2 para responder à questão.
Texto 1
Também já afirmei que invento sim e sem o menor pudor. As histórias são inventadas, mesmo as reais, quando são contadas. Entre o acontecimento e a narração do fato há um espaço em profundidade; é ali que explode a invenção. Nesse sentido venho afirmando: nada que está narrado em Becos da memória é verdade, nada que está narrado em Becos da memória é mentira. Ali busquei escrever a ficção como se estivesse escrevendo a realidade vivida, a verdade. Na base, no fundamento da narrativa de Becos, está uma vivência que foi minha e dos meus. Escrever Becos foi perseguir uma escrevivência. Por isso busco a primeira narração, a que veio antes da escrita. Busco a voz, a fala de quem conta, para se misturar à minha. [...]
A entonação da voz da minha mãe me jogou no passado, me colocando face a face com o meu eu-menina. Fui então para o exercício da escrita. E como lidar com uma memória ora viva, ora esfacelada? Surgiu então o invento para cobrir os vazios de lembranças transfiguradas. Invento que atendia ao meu desejo de que as memórias aparecessem e parecessem inteiras. E quem me ajudou nesse engenho? Maria-Nova.
Quanto à parecença de Maria-Nova comigo, no tempo do meu eu-menina, deixo a charada para quem nos ler resolver. Insinuo, apenas, que a literatura marcada por uma escrevivência pode con(fundir) a identidade da personagem narradora com a identidade da autora. Essa con(fusão) não me constrange.
EVARISTO, Conceição. Da construção de Becos [Prefácio]. In: Becos da memória. 3. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2017. p. 11-12. (Adaptado).
Texto 2
As tardes na favela costumavam ser amenas. Da janela de seu quarto caiado de branco, Maria-Nova contemplava o pôr do sol. Era muito bonito. Tudo tomava um tom avermelhado. A montanha lá longe, o mundo, a favela, os barracos. Um sentimento estranho agitava o peito de Maria-Nova. Um dia, não se sabia como, ela haveria de contar tudo aquilo ali. Contar as histórias dela e dos outros. Por isso ela ouvia tudo tão atentamente. Não perdia nada. Duas coisas ela gostava de colecionar: selos e histórias que ouvia. [...]. Histórias boas, alegres e tristes eram as de Tio Totó e da tia, Maria-Velha.
Aquelas histórias ela colecionava na cabeça e no fundo do coração, aquelas ali haveria de repetir ainda.
EVARISTO, Conceição. Becos da memória. 3. ed. Rio de Janeiro: Pallas, 2017. p. 31-32.
No texto 1, Conceição Evaristo usa os termos “escrevivência”, “con(fundir)” e “con(fusão)” para se referir a uma forma de criação literária baseada na
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