Questão 43 - Campo Real Medicina 2024/1
Leia o seguinte excerto retirado do romance Casa de pensão (1884), de Aluísio Azevedo.
Havia na escola um rapazito, implicante e levado dos diabos, que se assentava ao lado dele [Amâncio] e com quem vivia sempre de turra.
Um dia pegaram-se mais seriamente. Amâncio teria então oito anos. Estava a coisa ainda em palavras, quando entrou o professor, e os dois contendores tomaram à pressa os seus competentes lugares.
Fez-se respeito. Todos os meninos começaram a estudar em voz alta, com afetação. Mas, de repente, ouviu-se o estalo de uma bofetada.
Houve rumor. O Pires levantou-se, tocou a campainha, que usava para esses casos, e sindicou do fato. Amâncio foi o único acusado.
– Sr. Vasconcelos! – gritou o mestre – por que espancou aquele menino?
Amâncio respondera humildemente que o menino insultara sua mãe.
– É mentira! protestou o novo acusado.
– Que disse ele?! perguntou o Pires.
Amâncio repetiu o insulto que recebera. Toda a escola rebentou em gargalhadas.
– Cale-se atrevido! berrou o professor encolerizado a tocar a campainha. – Mariola! Dizer tal coisa em pleno recinto de aula!
E, puxando a pura força o delinquente para junto de si, ferrou-lhe meia dúzia de palmatoadas.
Amâncio, logo que se viu livre, fez um gesto de raiva.
– Ah! ele é isso? exclamou o professor. – Tens gênio, tratante?! Ora espera! isso tira-se.
E voltando-se para o rapazito que levou a bofetada, entregou-lhe a férula e disse-lhe que aplicasse outras tantas palmatoadas em Amâncio.
Este declarou formalmente que não se submetia ao castigo. O professor quis submetê-lo à força; Amâncio não abriu as mãos.
Os dedos pareciam colados contra a palma.
O professor, então, desesperado com semelhante contrariedade, muito nervoso, deixou escapar a mesma frase que pouco antes provocara tudo aquilo.
Amâncio recuou dois passos e soltou uma nova bofetada, mas agora na cara do próprio mestre. Em seguida deitou a fugir, correndo.
Um “Oh!” formidável encheu a sala. O Pires, rubro de cólera, ordenou que prendessem o atrevido. A aula ergueu-se em peso, com grande desordem. Caíram bancos e derramaram-se tinteiros. Todos os meninos abraçaram sem hesitar a causa do mestre, e Amâncio foi agarrado no corredor quando ia alcançar a rua.
Mas quatro pontapés puseram em fugida os dois primeiros rapazes que lhe lançaram os dedos. Dois outros acudiram logo e o seguraram de novo, depois vieram mais três, mais oito, vinte, até que todos os quarenta ou cinquenta estudantes o levaram à presença do Pires, alegres, vitoriosos, risonhos, como se houvessem alcançado uma glória.
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. São Paulo: Editora Martins, 1968, p. 23-24.
Com base no excerto e na leitura integral do romance, é correto afirmar que o episódio da vida escolar de Amâncio revela:
![[Marketing] Primeira Questao](https://storage.estuda.com.br/banners/0_6e09902a8e108d73cce3c7b9272eb1de_simulado_home_treineiro_desk.png)