Questão 13 - Unioeste Manhã 2025
Leia o texto e responda a questão.
CASO DE RECENSEAMENTO
O agente do recenseamento vai bater numa casa de subúrbio longínquo, aonde nunca chegam as notícias.
– Não quero comprar nada.
– Eu não vim vender, minha senhora. Estou fazendo o censo da população e lhe peço o favor de me ajudar.
– Ah moço, não estou em condições de ajudar ninguém. Tomara eu que Deus me ajude. Com licença, sim?
E fecha-lhe a porta.
Ele bate de novo.
– O senhor, outra vez? Não lhe disse que não adianta pedir auxílio?
– A senhora não me entendeu bem, desculpe. Desejo que me auxilie mas é a encher este papel. Não vai pagar nada, não vou lhe tomar nada. Basta responder a umas perguntinhas.
– Não vou responder a perguntinha nenhuma, estou muito ocupada, até logo!
A porta é fechada de novo, de novo o agente obstinado tenta restabelecer o diálogo.
– Sabe de uma coisa? Dê o fora depressa antes que eu chame meu marido!
– Chame sim, minha senhora, eu me explico com ele.
(Só Deus sabe o que irá acontecer. Mas o rapaz tem uma ideia na cabeça: é preciso preencher o questionário, é preciso preencher o questionário, é preciso preencher o questionário).
– Que é que há? – resmunga o marido, sonolento, descalço e sem camisa, puxado pela mulher.
– É esse camelô aí que não quer deixar a gente sossegada!
– Não sou camelô, meu amigo, sou agente do censo...
– Agente coisa nenhuma, eles inventam uma besteira qualquer, depois empurram a mercadoria! A gente não pode comprar mais nada este mês, Ediraldo!
O marido faz-lhe um gesto para calar-se, enquanto ele estuda o rapaz, suas intenções. O agente explicalhe tudo com calma, convence-o de que não é camelô nem policial nem cobrador de impostos nem enviado de Tenório. A ideia de recenseamento, pouco a pou co, se vai instalando naquela casa, penetrando naquele espírito. Não custa atender ao rapaz, que é bonzinho e respeitoso. E como não há despesa nem ameaça de despesa de qualquer ordem, começa a informar, obscuramente orgulhoso de ser objeto – pela primeira vez na vida – da curiosidade do governo.
– O senhor tem filhos, seu Ediraldo?
– Tenho três, sim senhor.
– Pode me dizer a graça deles, por obséquio? Com a idade de cada um?
– Pois não. Tenho o Jorge Independente, de 14 anos; o Miguel Urubatã, de 10; e a Pipoca, de 4.
– Muito bem, me deixe tomar nota. Jorge... Urubatã... E a Pipoca, como é mesmo o nome dela?
– Nós chamamos ela de Pipoca porque é doida por pipoca.
– Se pudesse me dizer como é que ela foi registrada...
– Isso eu não sei, não me lembro.
E voltando-se para cozinha:
– Mulher, sabes o nome da Pipoca?
A mulher aparece, confusa.
– Assim de cabeça eu não guardei. Procura o papel na gaveta.
Reviram a gaveta, não acham a certidão de registro civil.
– Só perguntando à madrinha dela, que foi quem inventou o nome. Pra nós ela é Pipoca, tá bom?
– Pois então fica se chamando Pipoca, decide o agente. Muito obrigado, seu Ediraldo, muito obrigado, minha senhora, disponham!
ANDRADE, Carlos Drummond de. Para gostar de ler: crônicas 2. Edição didática. São Paulo: Ática, 1978.
A ideia do recenseador ser um rapaz obstinado NÃO aparece apenas em
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