Questão 45 - URCA Dia 2° 2024/1
Leia o texto a seguir e responda à questão abaixo.
O AVESSO DO DIREITO À LITERATURA: POR UMA DEFINIÇÃO DE LITERATURA INDÍGENA
A literatura indígena no Brasil possui várias histórias. A mais facilmente identificável é aquela em que o índio foi sagrado herói-cavaleiro nas narrativas de cunho épico do final do século XIX. Quando se fala em literatura indígena no Brasil hoje, o senso comum, principalmente aquele pautado pelo letramento literário escolar, evoca o jovem guerreiro tupi de Gonçalves Dias, que solenemente pedia: "Meu canto de morte, guerreiros ouvi!". Ou "a bela tabajara de cabelos mais negros que as asas da graúna", de José de Alencar.
Qualquer iniciado nos estudos literários, bem como qualquer autor de literatura nativa que tem lutado pelo reconhecimento de sua arte, contudo, apontará o equívoco: trata-se de literatura indianista, em que a população autóctone estabelecida anteriormente à colonização ou um seu representante foi transformada em tema, objeto, matéria narrada. A expressão "literatura indígena" ou "literatura nativa", como prefere o escritor indígena Olívio Jekupé, por outro lado, pretende indicar uma apropriação original, em que o objeto assume o papel de sujeito autor, criador, artista.
O investimento estético na figura do indígena realizado pelos românticos brasileiros foi fundamental para o processo de emancipação da arte nacional, mas pouco contribuiu para o reconhecimento do valor autônomo da tradição oral da cultura ameríndia. Muito ao contrário: no texto que nossos intelectuais legitimaram como documento inaugural do Romantismo - o "Ensaio sobre a história da literatura no Brasil", publicado por Gonçalves Magalhães em 1836, os primeiros povos desta terra são declarados "raça extinta". Do mesmo modo, José de Alencar desaparece com os índios da paisagem tropical no afã de poder afirmar um passado lendário ao Brasil. Para que Peri e I Juca Pirama fossem Ulisses, Édipo ou Lancelot, os românticos extinguiram os nativos de sua terra pela segunda vez.
Na chamada fase interpretativa da formação do povo brasileiro, de Gilberto Freire a Darcy Ribeiro, todos aqueles que defenderam a tese da miscigenação participaram da terceira morte dos indígenas brasileiros. No plano étnico-cultural, a miscigenação se daria a favor da gestação de uma etnia nova, que teria unificado, na língua e nos costumes, os índios desengajados de seu viver gentílico, os negros trazidos da África e os europeus aquerenciados nas terras de Santa Cruz. A teoria da "mestiçagem", até então em voga, fundamentou um currículo desvinculado da realidade cultural brasileira, como assinala Maria da Penha Silva.
Depois disso, ainda levaríamos quase 50 anos para aceitá-los como cidadãos com direitos. A mentalidade eurocêntrica herdada da colonização retardou as consequências de experiências como a dos irmãos Vila Boas na década de 1940 e do desenvolvimento de disciplinas como a antropologia e a etnolinguística. Provas podem ser encontradas nas fotografias que documentam a existência de campos de concentração indígenas em nosso passado recente de ditadura militar.
(Texto de Tarsilla Couto de Britto, Sinval Martins de Sousa Filho e Glaucia Vieira Candido. Disponıvel em DOI: http://dx.doi.org/10.1590/2316-4018537/. Adaptado)
(URCA/2024.1) Considere as afirmações a seguir, relativas ao processo de construção de uma literatura brasileira articulada com a afirmação da nacionalidade recém-armada, e assinale a alternativa que contém o valor da soma das alternativas corretas:
I. Álvares de Azevedo - Muitos escritores do período sentiram-se tolhidos em seu manuseio da fuga ao real em virtude do peso do sentimento de missão, que exigia a descrição da realidade imediata ou a expressão de certos sentimentos de alcance geral. Álvares recusa esse sentimento de missão. [5]
II. Gonçalves Dias - O autor do I-Juca-Pirama sempre defendeu a importação contínua de ideias e costumes estrangeiros, sem corromper a "alma nacional original, americana, ou melhor, luso-americana", que aprendera a admirar em São Luís do Maranhão e, posteriormente, em Coimbra. [8]
III. Castro Alves - Para o poeta baiano, a civilização brasileira não recebeu influxo algum do elemento índio. Admite seu papel em nossa literatura, mas condena-o como "exclusivo patrimônio da literatura brasileira". [13]
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