Questão 7 - UPE SSA 3ª Fase - 1º Dia 2024
Texto 2
MANUEL
Mas esses dois? Você mesma via daqui e comentava o que eles faziam com João Grilo e os outros empregados da padaria!
JOÃO GRILO
Se é por mim, não há dificuldade, porque eu sou tão sem-vergonha, que já me esqueci de tudinho.
MANUEL
Devia ter esquecido lá, João. Pode alegar alguma coisa em favor deles?
A COMPADECIDA
O perdão que o marido deu à mulher na hora da morte, abraçando-se com ela para morrerem juntos.
MANUEL
Isso pode se dizer em favor dele. Mas ela?
ENCOURADO
Enganava o marido com todo mundo.
MULHER
Porque era maltratada por ele. Logo no começo de nosso casamento, começou a me enganar. A senhora não sabe o que eu passei, porque nunca foi moça pobre casada com homem rico, como eu. Amor com amor se paga.
A COMPADECIDA
Eu entendo tudo isso mais do que você pensa. Sei o que as mulheres passam no mundo, se bem que não tenha do que me queixar, porque meu marido era o que se pode chamar um santo.
JOÃO GRILO
Grande novidade!
A COMPADECIDA
O que, João?
JOÃO GRILO
Falei não.
ENCOURADO
Falou, sim. Ele disse: “Grande novidade.”
A COMPADECIDA
Na verdade, João tem toda razão. Falei assim por falar, mas que São José era um santo, não é nenhuma novidade.
ENCOURADO
A senhora está falando muito e vê-se perfeitamente sua proteção com esses nojentos, mas nada pôde dizer ainda em favor da mulher do padeiro.
A COMPADECIDA
Já aleguei sua condição de mulher, escravizada pelo marido e sem grande possibilidade de se libertar. Que posso alegar ainda em seu favor?
PADEIRO
A prece que fiz por ela antes de morrer. O mais ofendido pelos atos que ela praticava era eu e, no entanto, rezei por ela. Isso deve ter algum valor.
A COMPADECIDA
E tem. Alego isso em favor dos dois
MANUEL
Está recebida a alegação.
SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 35. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2005. p. 150-152. Excerto.
Texto 3
Até ali, Clara não dissera palavra; e Dona Salustiana, mesmo antes de saber que aquela moça era mais uma vítima da libidinagem do filho, quase não a olhava; e, se o fazia, era com evidente desdém. A moça foi notando isso e encheu-se de raiva, de rancor por aquela humilhação por que passava, além de tudo que sofria e havia ainda de sofrer.
Ao ouvir a pergunta de Dona Salustiana, não se pôde conter e respondeu como fora de si:
— Que se case comigo.
Dona Salustiana ficou lívida; a intervenção da mulatinha a exasperou. Olhou-a cheia de malvadez e indignação, demorando o olhar propositadamente. Por fim, expectorou:
— Que é que você diz, sua negra?
[...]
A velha continuou:
— Casado com gente dessa laia... Qual!... Que diria meu avô, Lord Jones, que foi cônsul da Inglaterra em Santa Catarina — que diria ele, se visse tal vergonha? Qual!
Parou um pouco de falar; e, após instantes, aduziu:
— Engraçado, essas sujeitas! Queixam-se de que abusaram delas... É sempre a mesma cantiga... Por acaso, meu filho as amarra, as amordaça, as ameaça com faca e revólver? Não. A culpa é delas, só delas...
Dona Margarida ia perguntar: "Que decide, então?" — quando se ouviram passos na escada. Era o dono da casa. Entrando e deparando-se-lhe aquele quadro, suspendeu os passos e parou no meio da sala.
Olhou tudo e todos e perguntou:
— Que há?
"Papai" — ia dizendo uma das filhas; — mas sabendo, por aí, quem era aquele homem, Clara correu para ele, ajoelhou-se e implorou:
— Tenha pena de mim, "Seu" Azevedo! Tenha pena de uma infeliz! Seu filho me desgraçou!
O velho Azevedo descansou os embrulhos, levantou a moça, fê-la sentar-se; e ele, sentando-se por sua vez, pôs-se a olhar, cheio de pena, o dorido rosto da rapariga. Todos os olhos se fixaram nele; ninguém respirava. Afinal, Azevedo falou:
— Minha filha, eu não te posso fazer nada. Não tenho nenhuma espécie de autoridade sobre "ele"... Já o amaldiçoei... Demais, "ele" fugiu e eu já esperava que essa fuga fosse para esconder mais alguma das suas ignóbeis perversidades... Tu, minha filha, te ajoelhaste diante de mim ainda agora. Era eu que devia ajoelhar-me diante de ti, para te pedir perdão por ter dado vida a esse bandido — que é o meu filho... Eu, como pai, não o perdoo; mas peço que Deus me perdoe o crime de ser pai de tão horrível homem... Minha filha, tem dó de mim, deste pobre velho, deste amargurado pai, que há dez anos sofre as ignomínias que meu filho espalha por aí, mais do que ele... Não te posso fazer nada... Perdoa-me, minha filha! Cria teu filho e me procura se...
Não acabou a frase. A voz sumiu-se; ele descaiu o corpo sobre a cadeira e os olhos se foram tornando inchados.
As filhas acudiram, a mulher também; e uma daquelas, chorando, pediu à Clara e à Dona Margarida:
— É favor, minhas senhoras; retirem-se, sim?
Na rua, Clara pensou em tudo aquilo, naquela dolorosa cena que tinha presenciado e no vexame que sofrera. Agora é que tinha a noção exata da sua situação na sociedade. Fora preciso ser ofendida irremediavelmente nos seus melindres de solteira, ouvir os desaforos da mãe do seu algoz, para se convencer de que ela não era uma moça como as outras; era muito menos no conceito de todos. [...]
BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. São Paulo: Ática, 2002. p. 131-133. (Fragmento)
Leia o texto a seguir, de autoria do grande crítico literário brasileiro Antonio Candido.
[...] a literatura pode ser um instrumento consciente de desmascaramento, pelo fato de focalizar as situações de restrição dos direitos, ou a negação deles, como a miséria, a servidão, mutilação espiritual. [...] ela tem muito a ver com a luta pelos direitos humanos.
CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: LIMA, Aldo de (org.). O direito à literatura. Recife: Editora da UFPE, 2012. p. 35.
Refletindo sobre a literatura como um direito humano, Candido destaca três possibilidades de negação de direitos. Podemos observar algumas dessas privações no Texto 2, um texto teatral, e no Texto 3, um romance. Em relação específica aos direitos das mulheres, como podemos associar essas possibilidades aos dois textos lidos?
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