Questão 12 - Unaerp Processo Seletivo 2024/2
ENTERREM SEUS MORTOS
Um javaporco está atravessado na pista, é um dos grandes. Dificilmente esses animais são atropelados, pois permanecem dentro da mata, evitando cruzar a estrada. Esse trecho da saída 23 é mais estreito, portanto um dos lados da pista precisou ser interditado. Um caminhão está parado no acostamento e o motorista desce ao ver Edgar caminhar até o animal.
— Aquele lá vinha em alta velocidade e quando viu o bicho morto aí tentou desviar, mas… — aponta o motorista para um carro batido contra uma árvore. Edgar não tinha visto o veículo acidentado, já que somente a traseira permanecia visível e todo o resto estava cercado pelo matagal.
— Eu dei uma espiada e parece que o motorista não resistiu.
Edgar se abaixa para remover uma das partes do animal. Joga-a na caçamba e retorna para buscar o restante. — Eu já chamei o resgate, mas nada de ele chegar — diz o caminhoneiro.
Edgar apanha mais algumas partes do animal e joga tudo na caçamba sem dizer uma palavra. Entra na caminhonete e o motorista se aproxima da janela. Edgar segura uma prancheta e preenche o relatório da ocorrência.
— Ei, amigo, e aquele lá?
— Não é minha função. Eu só carrego animais.
Edgar Wilson arranca com a caminhonete e dirige o mais rápido que pode para o depósito. Estaciona sua unidade e segue para os fundos até um anexo do galpão onde guardam materiais que precisam de reparo. Retira de cima do freezer algumas caixas de papelão, empurra-o até uma tomada e liga. O aparelho faz um estrondo como se as engrenagens despertassem depois de muitos anos sem atividade. Edgar regula a temperatura para o nível mínimo e busca o corpo da mulher enrolado na lona. Coloca-o no chão e retira a lona. Deposita o corpo no freezer e baixa a tampa. Dobra a lona e retorna à sua unidade, de onde remove os abutres e o javaporco, recolhido em pedaços. Larga-os num carrinho de rolimã e os deixa no depósito, próximo do moedor.
Antes de retornar à sua unidade, Edgar Wilson vai até o refeitório e já pode sentir o cheiro de alho refogado. Precisa de um pouco de café e suspira ao ver a garrafa térmica em cima de uma mesinha no canto do refeitório. Apanha um copo descartável e o enche. Ainda está bem quente. Lá fora, acende um cigarro. Tira cinco minutos de folga. Quando termina o cigarro, o café está no fim. Um dos funcionários do depósito chama Edgar Wilson com um aceno. Toma em um só gole o que resta no fundo do copo, joga ali a guimba do cigarro e o deixa sobre uma mureta.
— Pois não? — diz Edgar Wilson.
— O gerente quer falar com você.
Edgar não responde, mas arqueia sutilmente as sobrancelhas. Caminha até o interior do prédio de três andares onde funciona a central de controle e a administração do depósito. Sobe as escadas até o segundo andar e caminha devagar e firme por um corredor que vai dar no escritório do gerente, cujo nome está gravado numa plaquinha colada à porta: J. J. Gusmão. Enquanto segue esses poucos passos, pensa no que falará sobre o corpo da mulher dentro do freezer. Talvez custe o seu emprego, porém, neste momento, de nada adianta se lamentar. Ele fez uma escolha. Poderia deixá-la ser devorada pelos abutres até sobrar somente a caveira. Mas para ele aquela mulher valia tanto quanto um abutre e tinha o direito de ser recolhida como o resto dos animais mortos.
MAIA, Ana Paula. Enterrem seus mortos. São Paulo: Cia das Letras, 2018.
A frase de desfecho do conto “Mas para ele aquela mulher valia tanto quanto um abutre e tinha o direito de ser recolhida como o resto dos animais mortos” confere à escolha de Edgar Wilson um aspecto:
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