Questão 39 - UECE 2º Fase 1º Dia 2017/2
Texto
Adeus, lentilha
Sem a pressão de estar na praia certa
e na festa exata, livre de superstições e dos
[95] fogos à meia-noite, o Réveillon longe do
Brasil trouxe uma certeza: é preciso criar a
cada segundo o sentido dos dias.
Para nós, brasileiros, passar o
Réveillon longe do calor é, à primeira
[100] sensação, começar o ano com o pé direito em
terra de canhoto. Para variar e virar a casaca
de vez, encarei de frente o dia 31 a curta
distância da tímida Barcelona de dezembro –
é na capital da Catalunha que vivo
[105] atualmente –, sem o relento tropical e o
arder das multidões em chamas nas praias
do Rio ou da Bahia. Perto do mar (afinal,
cariocas e andorinhas nunca voam de costas
para o Atlântico) para saudar Iemanjá, mas
[110] sem a menor chance de pular as sete ondas e
congelar para sempre em 2016, graças a um
desejo de sopro familiar passei a data em
Lisboa, onde os abraços são mais acalorados,
a comida faz as vezes de beijo de avó e a
[115] alma cá dentro se acalma sob o sol de um
inverno generoso.
A “passagem d’ano” na terrinha peca
pela falta de excessos, mas é justamente na
ausência de rompantes que se rompe com o
[120] passado sem grandes expectativas para o
futuro, o que é libertador e alivia. Sem as
mandingas que, dando resultados ou não,
repetimos a cada virada com a mesma
devoção que os portugueses têm na festa de
[125] Santo Antônio, e os catalães, no dia de São
João (quando, no solstício de verão, saem
pelas ruas vestidos de branco) celebrei a
chegada de 2017 à moda da casa. Ou quase:
por mais que o preto seja o traje uníssono
[130] em Portugal, me dei a licença poética e
mística de quebrar o protocolo ao vestir
branco da cintura para cima (não quis violar
a “regra” de todo, afinal nunca se sabe o dia
primeiro de amanhã) e um par de meias
[135] novas da cor sugerida pelas astrólogas sem
medo de parecer um alienígena.
Para eles era evidente que eu não era dali;
para mim, era uma dúvida se eu deveria
estar ali. Ficou claro no look, nas gracinhas
[140] das dancinhas e no incessante refil das
tacinhas que eu era o convidado trapalhão. E
estava na minha cara a interrogação, cara de
quem não viu uma lentilha sobre a mesa,
cara de estranho no ninho que não viu o
[145] ninho de ovos envolvendo o pernil... cara de
quem pergunta: “cadê as gemas e o açúcar
que vocês comem o ano inteiro?” E nem o
pernil havia!!! Sobreviver a um Réveillon sem
pinta de Réveillon parecia tarefa impossível
[150] (a prova de fogo seria a falta de fogos) e eu
precisava de um sinal qualquer que fizesse
meus olhos enxergarem que se tratava de
uma festa de Ano-Novo. E nada.
Aparentemente nada mudaria ao meu redor
[155] de 31 de dezembro para 1º de janeiro.
Ao mesmo tempo, estar livre da
obrigação de ser feliz da porta (e do post)
para fora, de estar na praia certa, na festa
exata, no look preciso, no bronze ideal me
[160] soou perfeito para entrar 2017 sem a
esperança travestida de ilusão, o otimismo
disfarçado de alienação. A passagem
suavemente se fez sem o rito, a quebra. E o
Day after tornou-se um dia a mais, o
[165] primeiro do ano novo, mas com jeito da
continuação de uma história sem pausa, sem
pressa. Assim, no minuto 1 de 1º de janeiro,
ficou entendido que é preciso criar a cada
segundo o sentido dos dias. E num piscar de
[170] olhos e no passar ligeiro do tempo, eis que o
ano-bom foi anunciado com a euforia de uma
notícia extraordinária. Entre brindes e os
adoráveis “beijinhos grandes” que os “tugas”
tanto trocam e nos tocam, dei a noite por
[175] encerrada sem precisar explicar em
português claro por que 2016 não vai deixar
saudade.
(Débora ChodiK. Vougue. p. 122.)
Atente ao que se diz sobre o seguinte trecho: “...o arder das multidões em chamas nas praias do Rio ou da Bahia” (linhas 105-107).
I. O verbo “arder” foi substantivado, o que lhe concentra o significado (estar em chamas, abrasado; incendiar-se; queimar).
II. Há, no emprego do verbo “arder” uma intenção hiperbólica, o que provoca uma ênfase expressiva, que resulta do exagero da significação linguística.
III. O trabalho linguístico da cronista, nesse trecho, dá ênfase a um dos cinco sentidos: o tato.
Está correto o que se diz em
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