Questão 18 - UFSM 2° Dia 2011
Em O cortiço, de Aluísio Azevedo, uma aglomeração de trabalhadores pobres - com seus frangos e porcos, pequenas hortas, capinzal, árvore nos fundos - é abordada como realidade orgânica regida por leis biológicas. Embora situado em ambiente urbano, esse cortiço estava, no último quartel do século XIX, ainda muito vinculado à natureza. Aliás, a natureza ocupa longa descrição no capítulo XVI:
Ela ergueu-se finalmente, foi lá fora ao capinzal, pôs-se a andar agitada, falando
sozinha, a gesticular forte. E nos seus movimentos de desespero, quando levantava para o
céu os punhos fechados, dir-se-ia que não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra
aquela amaldiçoada luz alucinadora, contra aquele sol crapuloso1, que fazia ferver o sangue aos homens
[5] e metia-lhes no corpo luxúrias de bode. Parecia rebelar-se contra aquela natureza alcoviteira, que lhe roubara
o seu homem para dá-lo a outra, porque a outra era gente do seu peito e ela não.
E maldizia soluçando a hora em que saíra da sua terra; essa boa terra cansada, velha como que enferma;
essa boa terra tranquila, sem sobressaltos nem desvarios de juventude. Sim, lá os campos eram frios e
melancólicos, de um verde aloirado e quieto, e não ardentes e esmeraldinos e afogados em tanto sol e em
[10] tanto perfume como os deste inferno, onde em cada folha que se pisa há debaixo um réptil venenoso, como
em cada flor que desabotoa e em cada moscardo2 que adeja3 há um vírus de lascívia. Lá, nos saudosos
campos da sua terra, não se ouviam em noites de lua clara roncar a onça e o maracajá4, nem pela manhã, ao
romper do dia, rilhava5 o bando truculento das queixadas6; lá não varava pelas florestas a anta feia e terrível
quebrando árvores; lá a sucuruju7 não chocalhava a sua campainha fúnebre, anunciando a morte, nem a
[15] coral esperava traidora o viajante descuidado para lhe dar o bote certeiro e decisivo; lá o seu homem não seria
anavalhado pelo ciúme de um capoeira; lá Jerônimo seria ainda o mesmo esposo casto, silencioso e meigo,
seria o mesmo lavrador triste e contemplativo, como o gado que à tarde levanta para o céu de opala8 o seu
olhar humilde, compungido e bíblico.

Marque verdadeira (V) ou falsa (F) em cada afirmativa.
( ) Um narrador onisciente mergulha na consciência de Ana das Dores para descrever, do ponto de vista dela, o seu desespero diante da infidelidade do marido.
( ) Opõem-se a natureza de Portugal e a do Brasil; a de lá apresenta-se como cenário estático, domesticado, sagrado, cuja descrição privilegia imagens antropomórficas; a de cá é um meio dinâmico, indomado, desordenado, em que primam sinestesias, imagens profanas e verbos de ação.
( ) De acordo com o determinismo naturalista, Firmo, que matara Jerônimo com um golpe de navalha, será morto por outro capoeira, Porfiro.
( ) Conforme uma das facetas das teorias científicas da época, no intuito de ascender socialmente, o brasileiro nato e o próprio escravo anseiam pelo branqueamento, preferindo unir-se ao europeu. É o caso de Bertoleza e da amante em questão.
A sequência correta é
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