Questão 3 - CBMERJ Vestibular 2021
ABRIR-SE AO NOVO
Imagino qual não teria sido a surpresa causada por um rinoceronte em plena Europa do século
XVI. O ganda foi dado de presente pelo Sultão de Cambaia ao Vice-Rei da Índia, que o repassou
ao Rei Dom Manuel I que, por sua vez, quis dá-lo de presente para o Papa Leão X. Durante a
festa da Santíssima Trindade de 1515, Dom Manuel organizou, em plena Lisboa, o combate entre
[5] um de seus elefantes e o rinoceronte. O elefante, ao enxergar o rinoceronte, fugiu em desabalada
carreira, levando tudo e todos por diante. Resultado do combate: o ganda foi aclamado vencedor.
E de Lisboa se irradiou a narrativa que converteu o rinoceronte em patrono da boa blindagem e da
bravura dos militares.
Após o espetáculo, o rinoceronte foi enviado ao Papa, mas a embarcação que o levava naufragou na
[10] costa da Itália. Do pobre ganda só sobraram histórias. O pintor Albrecht Dürer, sem jamais ter visto
o rinoceronte, o desenhou em 1515, acrescentando detalhes insólitos como um chifre no dorso,
carapaças de crustáceo e escamas de réptil nas patas. Esta obra fixa a aparência de um rinoceronte
até fins do século XVIII.

A admiração estética é com frequência provocada pelo ineditismo. A nomeação do desconhecido
[15] opera para torná-lo assimilável a um entendimento que procura recobrar-se de uma comoção. Os
efeitos angustiantes do inusitado são tranquilizados por um nome. Entretanto, a ânsia de assimilação
do extraordinário ao rotineiro leva a tropeços classificatórios. Algo semelhante se passou no século
XIII com Marco Polo quando, em Java, ele se deparou com um rinoceronte e relatou então ter visto
um unicórnio, lamentando porém que ele fosse tão feio e agressivo, muito mais próximo de um
[20] grande búfalo do que de um cavalo, com patas de elefante, pelagem de búfalo e cabeça de javali.
Na classificação e na nomeação de um ente, muitas vezes somos levados a distorcer seus atributos
constitutivos indispensáveis, exatamente aqueles que fazem de uma coisa ela mesma e não outra,
segundo o princípio aristotélico da identidade: A=A.
Há uma espécie de resistência mental em se abrir uma nova rubrica no nosso esquema compreensivo
[25] movido por estoques de analogias, assim como uma certa relutância em se perceber o inédito a partir
dele mesmo, da sua singularidade ou excepcionalidade. Ver, interpretar, descrever e nomear não
são atos mentais automáticos e dependentes de alguma verdade substancial, mas sim construções
conjecturais da precária relação entre o mundo e a linguagem.
MARCUS FABIANO GONÇALVES Adaptado de insightinteligencia.com.br.
De acordo com o texto, o ineditismo estético é seguido de uma tentativa de nomeação.
Nesse contexto, a nomeação tem a função de:
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