Questão 3 - UCS Verão 2023
Instrução: A questão referem-se ao texto abaixo.
Timidez como virtude
Luiz Felipe Pondé
Outro dia ouvia uma colega, muito inteligente e bonita, dizer da “gastura” que sentia em ouvir pessoas
falando sobre suas qualidades intelectuais, realizações e títulos. Estando eu presente no momento desse
infeliz self marketing que causou a “gastura” no estômago da minha jovem colega, entendi bem o que ela
dizia.
[5] O ______ de falar das próprias realizações sempre existiu. Mas, hoje, é diferente: ser brega e fazer self
marketing virou uma “ciência”. Hoje, a velha máxima que “toda virtude verdadeira é tímida” se transformou
em uma informação urgente.
Toda virtude verdadeira é tímida. Sempre. Sim, sei que somos seres de contínua baixa
autoestima, e que o mundo prima por nos ferrar todo dia: gorda, burro, brocha, histérica, mal-amado, enfim,
[10] adjetivos feitos para destruir a já frágil autoestima que temos. E que, portanto, muitas vezes nos faz cair
na tentação de reafirmar nossos feitos na cara dos outros. Mas há uma diferença quando fazemos isso em
claro momento de desespero e quando fazemos isso achando que estamos abafando. O fato comentado
pela minha colega era este segundo caso.
Por que toda virtude verdadeira é tímida? Antes de tudo, porque a vocação constante à vaidade que
[15] nos assola deixa a virtude insegura com relação ______ si mesma. Essa dinâmica entre a dúvida da virtude
versus a certeza da vaidade é tema, por exemplo, da clássica polêmica da graça entre Santo Agostinho
(354 – 430) e Pelagius (360 – 420).
Outro traço da virtude é ser desatenta consigo mesma. Por isso, alguns afirmam que a maior de todas
as virtudes seria a humildade, uma vez que essa é o oposto simétrico da vaidade. O cotidiano da virtude
[20] não é checar a si mesma continuamente no espelho para ver o quão ______ ela tem sido em ser ela
mesma. Essa desatenção consigo mesma é traço essencial da virtude. Associada a ela está a percepção
de “naturalidade” que toda virtude verdadeira transparece.
Somos naturalmente “equipados” com a capacidade de identificar a leveza com a qual alguém age de
modo virtuoso. Assemelhando-se à manifestação da graça, a leveza da virtude tímida e natural equipara-se
[25] à beleza sem vaidade.
Essa “naturalidade” da virtude está descrita por Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) quando em seu “Ética
a Nicômaco” ele diz que a virtude deve se transformar em uma segunda natureza.
Não se trata de negar o esforço consciente em busca do comportamento virtuoso, segundo o filósofo.
O esforço é real e consciente. Portanto, a timidez da virtude não é fruto de sua inconsciência como
[30] comportamento. A timidez é fruto da naturalidade (segunda natureza, nos termos do filósofo) que caracteriza
uma virtude madura.
Timidez aqui é quase uma metáfora, não para a insegurança enquanto tal, mas para a virtude instalada
no cotidiano do virtuoso que se deixa perceber pelo ato, e não pelo anúncio do ato.
A ética é uma ciência prática. A ideia de fazer marketing da ética é como se afirmar que um círculo é
[35] quadrado. Dizer que a virtude é prática e jamais teórica significa dizer que só o outro reconhece a virtude em
você. A virtude é da ordem do ato e não do discurso. Se você falar da sua virtude, você jamais convencerá
uma pessoa razoavelmente inteligente e madura da veracidade da sua afirmação. Porque quem precisa
anunciar sua própria virtude é porque a prática dessa virtude não é suficiente para ser reconhecida.
Por isso, afirma-se que a virtude é pública, jamais privada. É silenciosa, mas sua existência é atestada
[40] pelo olhar do outro que a vê acontecer no mundo, sem anunciar que está acontecendo. O histórico do seu
comportamento, reconhecido ao longo do tempo pelas pessoas à sua volta (mesmo as que lhe odeiam), se
constituirá na substância do seu caráter. Esse caráter, ao longo da vida, se constituirá, por sua vez, no seu
destino. Por isso, afirma-se que virtude é destino. Sendo ela uma segunda natureza, realizada no silêncio
do esforço prático sem tagarelice, a virtude (ou a ausência dela) pode se transformar em uma maldição
[45] mesmo. Nada garante que virtude traga “felicidade”.
No nosso mundo tagarela, marcado pela breguice do self marketing, a virtude não deve ser apenas
tímida, mas a própria timidez se torna, a cada dia, uma virtude em si mesma. E esta é um animal do silêncio.
Semelhantes ______ ela são a discrição, a delicadeza, a elegância e a contenção. A busca dessas virtudes
como forma de sabedoria é um desafio para o século 21.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/09/timidez-como-virtude.shtml. Acesso em: 21 jul. 2022. (Adaptado.)
Assinale a alternativa que apresenta afirmação correta sobre o emprego de sinais de pontuação, considerando como critérios o sentido original da frase e a correção gramatical.
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