Questão 1 - UECE 1ª Fase 2022/2
Texto
Ser leve e líquido
(Zygmunt Bauman)
A elite global contemporânea é
formada no padrão do velho estilo dos
“senhores ausentes”. Ela pode dominar sem
se ocupar com a administração,
[5] gerenciamento, bem-estar, ou, ainda, com a
missão de “levar a luz”, “reformar os modos”,
elevar moralmente, “civilizar” e com cruzadas
culturais. O engajamento ativo na vida das
populações subordinadas não é mais
[10] necessário (ao contrário, é fortemente
evitado como desnecessariamente custoso e
ineficaz) — e, portanto, o “maior” não só não
é mais o “melhor”, mas carece de significado
racional. Agora é o menor, mais leve e mais
[15] portátil que significa melhoria e “progresso”.
Mover-se leve, e não mais aferrar-se a coisas
vistas como atraentes por sua confiabilidade
e solidez — isto é, por seu peso,
substancialidade e capacidade de resistência
[20] — é hoje recurso de poder.
Fixar-se ao solo não é tão importante
se o solo pode ser alcançado e abandonado à
vontade, imediatamente ou em pouquíssimo
tempo. Por outro lado, fixar-se muito
[25] fortemente, sobrecarregando os laços com
compromissos mutuamente vinculantes, pode
ser positivamente prejudicial, dadas as novas
oportunidades que surgem em outros
lugares. Rockefeller pode ter desejado
[30] construir suas fábricas, estradas de ferro e
torres de petróleo altas e volumosas e ser
dono delas por um longo tempo (pela
eternidade, se medirmos o tempo pela
duração da própria vida ou pela da família).
[35] Bill Gates, no entanto, não sente remorsos
quando abandona posses de que se
orgulhava ontem; é a velocidade atordoante
da circulação, da reciclagem, do
envelhecimento, do entulho e da substituição
[40] que traz lucro hoje — não a durabilidade e
confiabilidade do produto. Numa notável
reversão da tradição milenar, são os grandes
e poderosos que evitam o durável e desejam
o transitório, enquanto os da base da
[45] pirâmide — contra todas as chances — lutam
desesperadamente para fazer suas frágeis,
mesquinhas e transitórias posses durarem
mais tempo. Os dois se encontram hoje em
dia principalmente nos lados opostos dos
[50] balcões das mega-liquidações ou de vendas
de carros usados.
A desintegração da rede social, a
derrocada das agências efetivas de ação
coletiva, é recebida muitas vezes com grande
[55] ansiedade e lamentada como “efeito
colateral” não previsto da nova leveza e
fluidez do poder cada vez mais móvel,
escorregadio, evasivo e fugitivo. Mas a
desintegração social é tanto uma condição
[60] quanto um resultado da nova técnica do
poder, que tem como ferramentas principais
o desengajamento e a arte da fuga. Para que
o poder tenha liberdade de fluir, o mundo
deve estar livre de cercas, barreiras,
[65] fronteiras fortificadas e barricadas. Qualquer
rede densa de laços sociais, e em particular
uma que esteja territorialmente enraizada, é
um obstáculo a ser eliminado. Os poderes
globais se inclinam a desmantelar tais redes
[70] em proveito de sua contínua e crescente
fluidez, principal fonte de sua força e garantia
de sua invencibilidade. E são esse derrocar, a
fragilidade, o quebradiço, o imediato dos
laços e redes humanos que permitem que
[75] esses poderes operem.
Se essas tendências entrelaçadas se
desenvolvessem sem freios, homens e
mulheres seriam reformulados no padrão da
toupeira eletrônica, essa orgulhosa invenção
[80] dos tempos pioneiros da cibernética
imediatamente aclamada como arauto do
porvir: um plugue em castores atarantados
na desesperada busca de tomadas a que se
ligar. Mas no futuro anunciado pelos
[85] telefones celulares, as tomadas serão
provavelmente declaradas obsoletas e de
mau gosto, e passarão a ser fornecidas em
quantidades cada vez menores e com
qualidade cada vez mais duvidosa. No
[90] momento, muitos fornecedores de
eletricidade exaltam as vantagens da
conexão a suas respectivas redes e disputam
os favores dos que procuram por tomadas.
Mas a longo prazo (o que quer que “longo
[95] prazo” signifique na era da instantaneidade)
as tomadas serão provavelmente banidas e
suplantadas por baterias descartáveis
compradas individualmente nas lojas e em
oferta em cada quiosque de aeroporto e
[100] posto de gasolina ao longo das estradas.
Essa parece ser a distopia feita sob
medida para a modernidade líquida.
BAUMAN, Zygmunt. Ser leve e líquido. In: BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Tradução de Plínio Dentzien. São Paulo: Zahar, 2008. p. 17-18.
A partir do texto, pode-se apontar as transformações ocorridas no mundo contemporâneo, principalmente, no tocante às relações entre os poderes globais que tendem a fragilizar as redes de ações coletivas.
O propósito dessa reorganização é
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