Questão 2 - UCS Inverno 2022
Instrução: A questão refere-se ao texto abaixo.
O ex-cinema de autor
Arnaldo Jabor
Estou escrevendo um novo filme, inspirado em um conto de Rubem Fonseca. O roteiro está quase
pronto, e diante de mim já se desenham os impasses do cinema contemporâneo. Como filmar? É fácil partir
para comédias ao gosto do público ou tentativas de imitar filmes de ação norte-americanos. Mas como
realizar um filme que busca refletir sobre a vida, sobre as tragédias ou comédias humanas num mundo tão
[5] fragmentado, em que a ficção ficou insignificante, frágil? A realidade parece ficção.
E as dúvidas continuam: com que linguagem devo abordar o fragmentário, o indizível, como criar uma
linguagem coerente para um mundo incoerente? Como buscar sentido na falta de sentido? Nem mesmo
temos mais a falta de sentido absurdista de Beckett, ou do nouveau roman, em que mesmo o desencanto
total almejava um sentido qualquer, uma disfarçada esperança.
[10] Como fazer um cinema de autor que não seja o reflexo da realidade, mas a realidade do reflexo?
Hoje, o que é importante? Não existe mais? Não adianta buscar uma qualidade, uma excelência, que foi
soterrada pela quantidade de informações e por uma dramaturgia falsamente nova, disfarçada no excesso
infinito de formas de registrar. Hoje nem o absurdismo descreve mais o absurdo... Há o desejo de obstruir
justamente possíveis epifanias dentro da sala escura. Não me refiro às novas experiências digitais na web,
[15] pois seu processo é imprevisível. Falo apenas da tela grande, da esperança de criar uma obra de arte,
como se dizia antigamente. E aí, eu penso: como vou fazer esse filme que escrevo?
O grande pensador André Bazin, o cara que mais entendia do assunto, uma vez definiu os vários
momentos da evolução da linguagem cinematográfica. Ele dizia: na época do cinema mudo, a linguagem
do filme evocava a realidade, como nos poemas dramáticos geniais de um Eisenstein ou em “A Paixão de
[20] Joana D’Arc”. Os cineastas faziam conexões poéticas que evocavam sentidos.
Depois dos anos 30, com o cinema falado, a linguagem ficou descritiva, submetida a cânones realistas
da vida. John Ford ou Hawks são exemplos de grandes realistas.
Nos anos 50 e 60, com o advento de equipamentos mais leves, herdeiros da pobreza do _____ italiano,
surgiu o Cinema Novo, longe dos estúdios, e assim nasceu, por exemplo, a nouvelle vague, e suas ondas
[25] influíram no mundo inteiro. Buscávamos a importância de uma verdade sobre a vida pessoal e social, a
ponto de até dizermos: “Este filme é uma droga, mas é importante”. Nessa época, o cinema tinha uma
forte importância cultural. Era visto como uma barreira contra a cultura de massas que já dominava o
panorama _____. Nossa ideia era atingir o público e fazê-lo pensar, equivocando-o e conscientizando-o. Os
filmes eram livres para criar uma nova dramaturgia, sem regras fixadas por produtores _____. O autor era
[30] absoluto. Godard, sem dúvida, foi o grande criador dessa época. Abria-se um tempo semelhante ao que foi
o modernismo, o cubismo etc. A liberdade era imensa para vermos a vida de ângulos jamais explorados, a
vida com outros olhos.
Porém, a partir da virada dos anos 70 para os 80, ressurgiram as (belas) regras da antiga poética grega.
Aristóteles ressuscitou e passou a ser o pau para toda obra do cinema comercial, a fórmula narrativa única
[35] e o pretexto para a conexão total com o grande público. Aristóteles, coitado, foi prostituído em todas as
produções, as mais bárbaras, as mais desonestas. Pobre Aristóteles – virou partitura não mais das tragédias
gregas, mas dos maiores abacaxis de Hollywood. O método narrativo de sua poética passou a justificar
uma máquina de sensações programadas. Somos levados por inúmeras direções: prazeres sádicos,
assassinatos explosivos, vinganças sem fim, tudo narrado como uma ventania, como uma tempestade de
[40] planos (cenas) curtos, nunca mais longos do que quatro segundos, tudo tocado por orquestras sinfônicas
plagiando Ravel para cenas românticas, Stravinsky para violências e guerras, tudo para não desgrudarmos
os olhos da tela. Não há mais tempo para um filme ser visto, refletido, com choro, risos, vida. O desejo dos
produtores é justamente apagar o drama humano dentro de nossas cabeças. O conflito é permanente, de
forma a impedir o observador de ver seus conflitos internos.
[45] Hoje, os roteiros são feitos em computador, de modo a não deixar respiros para o _____. É preciso
encher cada buraco, para que nada se infiltre na atenção absoluta. Mais importantes que as personagens,
são as coisas em volta. Sim, as coisas. Personagem é só um pretexto para mostrar o décor. E o décor é
um grande showroom dos produtos norte-americanos. As personagens são os maravilhosos aviões, os
supercomputadores, a genialidade técnica lutando por algum bem ininteligível.
[50] O cinema moderno perdeu a magia de antes, porque quanto mais se aperfeiçoam as maneiras de
penetrar na realidade, mais distante ela fica. Explico. Em meio a efeitos especiais espantosos, o humano
fica mais oculto. Quanto mais se fazem descobertas, mais fundo é o túnel do mistério. A máquina do mundo,
quanto mais aberta, mais fica vazia e misteriosa. A perfeição digital, contemporânea, reprodutiva, descreve
bem o mundo, mas não o condensa em poesia. Hoje, é imensa a quantidade de imagens que invadem
[55] nossos olhos. Tantas são que se anulam. Tanta é a exposição da realidade diante de nossos olhos que não
vemos mais nada.
A solução para mim talvez esteja na frase de Nelson Rodrigues: “Se a nossa época não gostar de
minhas peças, pior para nossa época”.
Disponível em: https://www.otempo.com.br/opiniao/arnaldo-jabor/o-ex-cinema-de-autor-1.1269424. Acesso em: 17 fev. 2022. (Adaptado.)
Sobre os sinais de pontuação presentes no texto, é correto afirmar que
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