Questão 1 - UCS Verão 2021
Instrução: A questão referem-se ao texto abaixo.
A última página
Todos lemos a nós e ao mundo à nossa volta para vislumbrar o que somos e onde estamos. Lemos
para compreender, ou para começar a compreender. Não podemos deixar de ler. Ler, quase como respirar,
é nossa função essencial.
Mesmo em sociedades que deixaram registros de sua passagem, a leitura precede a escrita; o futuro
[5] escritor deve ser capaz de reconhecer e decifrar o sistema de signos antes de colocá-los no papel. Para a
maioria das sociedades letradas – para o islã, para as sociedades judaicas e cristãs como a minha, para os
antigos maias, para as vastas culturas budistas –, ler está no princípio do contrato social; aprender a ler foi
meu rito de passagem.
Depois que aprendi a ler minhas letras, li de tudo: livros, mas também notícias, anúncios, os títulos
[10] pequenos no verso da passagem do bonde, letras jogadas no lixo, jornais velhos apanhados sob o banco
do parque, grafites, a contracapa das revistas de outros passageiros no ônibus. Quando fiquei sabendo que
Cervantes, em seu apogeu à leitura, lia “até os pedaços de papel rasgado na rua”, entendi exatamente que
impulso o levava a isso. Essa adoração ao livro (em pergaminho, em papel ou na tela) é um dos alicerces
de uma sociedade letrada.
[15] A experiência veio a mim primeiramente por meio dos livros. Mais tarde, quando me deparava com
algum acontecimento, circunstância ou algo semelhante _____ sobre o qual havia lido, isso me causava
o sentimento um tanto surpreendente, mas desapontador de déjà vu, porque imaginava que aquilo que
estava acontecendo agora já havia me acontecido em palavras, já havia sido nomeado.
Meus livros eram para mim transcrições ou glosas ____ outro Livro colossal. Miguel de Unamuno, em
[20] um soneto, fala do tempo, cuja fonte está no futuro; minha vida de leitor deu-me a mesma impressão de
nadar contra a corrente, vivendo o que já tinha lido. Tal como Platão, passei do conhecimento para seu
objeto. Via mais realidade na ideia do que na coisa. Era nos livros que eu encontrava o universo: digerido,
classificado, rotulado, meditado, ainda assim formidável.
A leitura deu-me uma desculpa para a privacidade, ou talvez tenha dado um sentido à privacidade
[25] que me foi imposta, uma vez que, durante a infância, depois que voltamos para a Argentina, em 1955, vivi
separado do resto da família, cuidado por uma babá em uma seção separada da casa. Então, meu lugar
favorito de leitura era o chão do meu quarto, deitado de barriga para baixo, pés enganchados sob uma
cadeira. Depois, tarde da noite, minha cama tornou-se o lugar mais seguro e resguardado para ler ____
região nebulosa entre a vigília e o sono.
[30] O psicólogo James Hillman afirma que a pessoa que leu histórias ou para quem leram histórias na
infância “está em melhores condições e tem um prognóstico melhor do que aquela à qual é preciso apresentar
as histórias. [...] Chegar cedo na vida já é uma perspectiva de vida”. Para Hillman, essas primeiras leituras
tornam-se “algo vivido e por meio do qual se vive, um modo que a alma tem de se encontrar na vida”. A
essas leituras, e por esse motivo, voltei repetidamente, e ainda volto.
[35] Cada livro era um mundo em si mesmo e nele eu me refugiava. Embora eu soubesse que era incapaz
de inventar histórias como as que meus autores favoritos escreviam, achava que minhas opiniões
frequentemente coincidiam com as deles e (para usar a frase de Montaigne) “Passei a seguir-lhes o rastro,
murmurando: ‘Ouçam, ouçam’”.
Fonte: MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 20-24. (Parcial e adaptado.)
Assinale a alternativa que completa correta e respectivamente as lacunas nas linhas 16, 19 e 28.
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