Questão 9 - UEG Medicina 2024/2
Leia o texto a seguir para responder à questão.
A construção social do ser humano
A organização instintiva do homem pode ser descrita como subdesenvolvida, quando comparada com a de
outros mamíferos superiores. O homem tem impulsos, mas estes são consideravelmente desprovidos de
especialização e direção. Isso significa que o organismo humano é capaz de aplicar o equipamento que possui por
construção a uma ampla escala de atividades e, além disso, constantemente variável e em variação. Essa
[5] peculiaridade do organismo humano se funda em seu desenvolvimento ontogenético. Se examinarmos a questão em
termos de desenvolvimento orgânico, é possível dizer que o período fetal no ser humano se estende por todo o
primeiro ano após o nascimento. Importantes desenvolvimentos orgânicos, que no animal se completam no corpo da
mãe, se efetuam no lactente humano depois que se separa do útero. Nessa ocasião, porém, a criança humana não
somente está no mundo exterior, mas se inter-relaciona com este de muitos modos complexos.
[10] O organismo humano, por conseguinte, ainda está se desenvolvendo biologicamente quando já se acha em
relação com seu ambiente. Em outras palavras, o processo de se tornar homem se efetua na correlação com o
ambiente. Esse ambiente é ao mesmo tempo um ambiente natural e humano. Isto é, o ser humano em
desenvolvimento não somente se correlaciona com um ambiente natural particular, mas também com uma ordem
cultural e social específica, que é mediatizada para ele pelos outros significativos que o têm a seu cargo. Não apenas
[15] a sobrevivência da criança humana depende de certos dispositivos sociais, mas a direção de seu desenvolvimento
orgânico é socialmente determinada. Desde o momento do nascimento, o desenvolvimento orgânico do homem, e na
verdade uma grande parte de seu ser biológico enquanto tal, está submetido a uma contínua interferência socialmente
determinada.
Apesar dos evidentes limites fisiológicos estabelecidos para a gama de possíveis e diferentes maneiras de se
[20] tornar homem nessa dupla correlação com o ambiente, o organismo humano manifesta uma imensa plasticidade em
suas respostas às forças ambientais que atuam sobre ele. Isso é particularmente claro quando se observa a
flexibilidade da constituição biológica do homem ao ser submetida a uma multiplicidade de determinações
socioculturais. É um lugar comum etnológico dizer que as maneiras de se tornar e de ser humano são tão numerosas
quanto as culturas humanas. A humanização é variável em sentido sociocultural. Em outras palavras, não existe
[25] natureza humana no sentido de um substrato biologicamente fixo que determine a variabilidade das formações
socioculturais. Há somente a natureza humana, no sentido de constantes antropológicas (por exemplo, abertura para
o mundo e plasticidade da estrutura dos instintos) que delimita e permite as formações socioculturais do homem. Mas
a forma específica em que essa humanização se molda é determinada por essas formações socioculturais, sendo
relativa às suas numerosas variações. Embora seja possível dizer que o homem tem uma natureza, é mais
[30] significativo dizer que o homem constrói sua própria natureza, ou, mais simplesmente, que o homem se produz a si
mesmo.
Essa afirmação segundo a qual o homem se produz a si mesmo de modo algum implica uma espécie de visão
prometeica do indivíduo solitário. A autoprodução do homem é sempre e necessariamente um empreendimento
social. Os homens em conjunto produzem um ambiente humano, com a totalidade de suas formações socioculturais e
[35] psicológicas. Nenhuma dessas formações pode ser entendida como produto da constituição biológica do homem, que
fornece somente os limites externos da atividade produtiva humana. Assim como é impossível que o homem se
desenvolva como homem no isolamento, igualmente é impossível que o homem isolado produza um ambiente
humano. O ser humano solitário é um ser no nível animal (que, está claro, o homem partilha com outros animais).
Logo que observamos fenômenos especificamente humanos entramos no reino do social. A humanidade específica
[40] do homem e sua sociabilidade estão inextrincavelmente entrelaçadas. O homo sapiens é sempre, e na mesma
medida, homo socius.
BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. 36. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. p. 68-73. [Adaptado].
Em “o organismo humano manifesta uma imensa plasticidade em suas respostas às forças ambientais que atuam sobre ele” (linhas 20-21), o termo “plasticidade” pode ser substituído, sem prejuízo na coesão e no sentido, por
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