Questão 3 - UNIUBE Medicina 2022
Leia a crônica “Cuidado com os velhos”, de Paulo Mendes Campos, para responder à questão.
Um professor criou um neologismo para uma arte (ou ciência) nova: eugeria, “velhice feliz”. Os gregos não tiveram o otimismo de juntar os dois elementos dessa palavra.
Andam a mexer muito com os velhos. Que a ciência procure dar-lhes meios efetivos de temperar a saúde, que as leis fixem recursos que lhes poupem penúrias e humilhações, que as famílias os acolham com respeito. Mas querer iludi-los com estimulantes morais, discutir as tristezas deles em público, isso é impertinência. Cuidá-los como crianças, engambelá-los, isso os ofende.
Envelhecer… Meu mestre, frade franciscano, dizia-nos que mesmo o mais santo dos papas gostaria de ser mais moço. Mas o homem tem de aguentar as consequências humanas com orgulho ou raiva: só um velho palerma, indigno da verdade, iria acreditar que não é velho, que a velhice não existe, que a vida é um sorriso.
Os velhos honrados sabem como se arrumar a um canto com pudor e gravidade. Deixá-los. Não precisam de nós, que os aborrecemos com as nossas frívolas consolações. Respeitemos o silêncio da idade; e que nos respeitem mais tarde ou daqui a pouco.
Violar a intimidade da velhice com frioleiras1 sentimentais, não. Pretender reanimar um espírito mais vivido e amargado e experiente que o nosso é de uma importunidade impiedosa.
Tantos gestos afetivos lesam mais que confortam, tantas solicitudes desastradas arranham feridas latentes. Nosso amor pela pessoa velha não deve ser uma opressão, uma tirania a inventar cuidados chocantes, temores que machucam. Façam o que bem entendam, cometam imprudências, desobedeçam a conselhos. Libertemos os velhos de nossa fatigante bondade. Que exagerem, se lhes der vontade, na comida e na bebida, esqueçam de tomar o remédio, fumem, apanhem sol, chuva, sereno. Não chatear demais os velhos. É nas imprudências que ainda encontram o gosto da vida. Não ter muito juízo é a sabedoria da velhice. Poupemos a eles nossa aflição. É por não desconhecerem as manhas da vida que tomam de vez em quando uma pitada de insensatez. E é por egoísmo que os moços, sobretudo os filhos, vigiam os velhos como se vingassem a infância.
Algumas frases devem ser banidas: “Está na hora de dormir”; “O senhor deve estar exausto”; “Amanhã eu levo a senhora ao médico à força”; “Fique sabendo que está proibida de ajudar a cozinheira”; “Onde já se viu um homem da sua idade deitar no ladrilho?”; “Olhe bem antes de atravessar a rua”; “Vá pela sombra!”; “Tome o remédio direitinho”; “Cuidado na escada!”; “Quantas vezes já lhe disse para não sair sem agasalho”; “A senhora não precisa fazer nada, que eu sei fazer tudo sozinha…”.
Esse tatibitate2 sentimental fere os velhos mais que a velhice. Palavras más, nascidas de um sentimento de amor mal administrado. Mostram que não basta ser bom, é preciso distinguir as bondades que não doam. Não basta gostar para impor-se como senhor. A alma do homem não é tão simples que só o exercício do afeto seja suficiente para satisfazê-la. Respeitemos os velhos sem antipatia, sem o sadismo de certos tipos de ternura.
Mas a verdade é que o mundo está cheio desses sentimentalões estabanados, que entram na intimidade dos outros derrubando e quebrando tudo.
(Paulo Mendes Campos. Primeiras leituras: crônicas, 2012.)
1frioleira: futilidade.
2tatibitate: gaguejo.
O cronista dirige-se diretamente a seu leitor no seguinte trecho:
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