Questões de EFAF Filosofia - Temática
744 Questões
Questão 3 10176128
IFCE* 1° Ano 2009/1AMAR O PRÓXIMO PODE NÃO SER UM PRODUTO BÁSICO DO INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA – MAS TAMBÉM NÃO O É O AMOR-PRÓPRIO, TOMADO COMO MODELO DO AMOR AO PRÓXIMO
Amor-próprio – o que significa isso? O que eu amo “em mim mesmo”? O que eu amo quando amo a mim
mesmo? Nós, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos animais, sejam os
próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes – mas, quando se trata de amor-próprio, nossos caminhos
se separam e seguimos por conta própria.
[5] É verdade que o amor-próprio estimula a gente a se “agarrar à vida”, a tentar a todo custo permanecer
vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pôr fim à nossa vida de modo prematuro ou abrupto, ou
melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptidão física para tornar efetiva essa resistência. Nisso, contudo,
nossos primos animais são mestres em experiências, não menos que os mais dedicados e habilidosos viciados
em ginástica e maníacos por saúde. Nossos primos animais (com exceção daqueles “domesticados”, que nós,
[10] seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem à nossa sobrevivência, e não à
deles) não precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos e em forma. Tampouco precisam
do amor-próprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma é a coisa certa a fazer.
A sobrevivência (animal, física, corpórea) pode viver sem o amor-próprio. Para dizer a verdade, poderia
acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivência e do
[15] amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções opostas... O amor-próprio pode rebelar-se
contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas à ameaça. Pode nos levar
a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser vivida.
Pois o que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que
amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos
[20] reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.
Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor – a negação do status
de objeto digno do amor – alimenta a autoaversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é
oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora
fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos.
[25] E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança,
que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim termos o direito de nos
entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos
tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos
ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que
[30] somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em
consideração.
Se os outros me respeitam, então obviamente deve haver “em mim” – ou não deve? – algo que só eu
lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros – não existem? – que ficariam satisfeitos e gratos por
isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente
[35] substituída e descartada. Eu “faço diferença” para outros além de mim. O que digo e sou e faço tem importância
– e isso não é apenas um voo da minha fantasia. O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante
e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.
Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a “amar o
próximo como a si mesmo” (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas
[40] razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e
confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. A exortação nos leva a
pressupor que o próximo de fato representa esses valores – ao menos até prova em contrário. Amar o próximo
como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um – o valor de nossas
diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e
[45] agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.
BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Zahar, Rio de Janeiro: 2004.
As diversas interrogações, ao longo do texto, ajustam-se ao pressuposto de que sejam
Questão 12 10172126
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2008Rápida Utopia
Ação à distância, velocidade, comunicação, linha de montagem, triunfo das massas,
Holocausto: através das metáforas e das realidades que marcaram esses 100 últimos anos,
aparece a verdadeira doença do progresso.
Primeira regra: não se pode julgar um século, sobretudo alguns anos antes de seu fim,
[5] sem recolocá-lo na devida perspectiva histórica. Pensem no que teria respondido um geógrafo
do século XV se lhe tivessem pedido uma síntese de seu século em 1º de janeiro de 1490. Ou
no que feríamos respondido se nos tivessem pedido um balanço de 1989 um mês antes da
queda do Muro de Berlim e da revolução na Romênia.
Segunda regra: quem julga? O julgamento de um cidadão do mundo ocidental é
[10] diferente do de um biafrense que morre de fome. Mas, se essa regra é válida para cada
século, ela o é um pouco menos para o nosso. Para o bem ou para o mal, o modelo ocidental
se impõe gradativamente sobre uma grande parte do planeta. Um camponês chinês está hoje,
para o bem ou para o mal, mais próximo de um camponês francês do que estava há dois
séculos.
[15] Terceira regra: não se pode avaliar emocionalmente um século estando dentro dele e
sem proceder a comparações estatísticas. O número de pessoas que hoje morrem de fome no
mundo nos causa horror. Mas o número de pessoas que morriam de fome no século passado
também nos deve causar horror, sobretudo se o comparamos à população mundial da época.
(...)
[20] Ora, nosso século talvez tenha sido menos hipócrita que os outros. Ele enunciou regras
de convivência; certamente as violou, mas moveu e move processos públicos contra essas
violações. Isso não impede que elas se repitam, mas teve alguma influência sobre nossos
comportamentos cotidianos e sobre as probabilidades de um grande número de cidadãos,
sobretudo no mundo ocidental, viver por mais tempo, evitando abusos de poder de toda ordem.
[25] Hoje posso andar pela rua sem me fazer matar por alguém que queira manter sua
trajetória na mesma calçada que a minha, e sei que meus filhos não receberão cacetadas do
filho de um duque como meio de aprendizagem do poder. Indivíduos prepotentes tentam ainda
hoje expulsar uma mulher negra do ônibus, mas a opinião pública os condena.
Vejamos agora os aspectos ambíguos deste século. Ele terá sido o século das massas.
[30] Para o bem ou para o mal. Os direitos das massas foram reconhecidos: é muito Importante o
direito à palavra, à contestação, ao voto, exercer um cargo político, e não avaliamos o que isso
representa porque não vivemos em séculos em que era normal um artesão morar num casebre
imundo e um senhor que não tinha dinheiro para pagar-lhe mandar seus servidores baterem
nele. Experimente tratar a murros seu encanador que exige pagamento e compreenderá que
[35] alguma coisa mudou.
Nosso século é o da aceleração tecnológica e científica, que se operou e continua a se
operar em ritmos antes inconcebíveis. (...)
O custo dessa aceleração da descoberta é a hiperespecialização. Estamos em via de
viver a tragédia dos saberes separados: quanto mais os separamos, tanto mais fácil submeter
[40] a ciência aos cálculos do poder. Esse fenômeno esta intimamente ligado ao fato de ter sido
neste século que os homens colocaram mais diretamente em questão a sobrevivência do
planeta.
O equivalente tecnológico da separação dos saberes foi a linha de montagem. Nesta,
cada um conhece apenas uma fase do trabalho. Privado da satisfação de ver o produto
[45] acabado, cada um é também liberado de qualquer responsabilidade. Poderia produzir, e isso
ocorre com frequência, venenos sem que o soubesse. Mas a linha de montagem permite
também fabricar aspirina em quantidade para o mundo todo. E rápido. Tudo se passa num
ritmo acelerado, desconhecido dos séculos anteriores. Sem essa aceleração, o Muro de Berlim
poderia ter durado milênios, como a Grande Muralha da China. É bom que tudo se tenha
[50] resolvido no espaço de trinta anos, mas pagamos o preço dessa rapidez. Poderíamos destruir
o planeta num dia.
Nosso século foi o da comunicação instantânea. Hernán Cortés pôde destruir uma
civilização e, antes que a notícia se espalhasse, teve tempo para encontrar justificativas a seus
empreendimentos. Hoje, massacres da Praça da Paz Celestial, em Pequim, tornam-se
[55] atualidade no momento mesmo em que se desenrolam e provocam a reação de todo o mundo
civilizado. Mas informações simultâneas em excesso, provenientes de todos os pontos do
globo, produzem um hábito. O século da comunicação transformou a informação em
espetáculo. Arriscamo-nos a confundir a todo instante a atualidade e o divertimento.
Nosso século presenciou o triunfo da ação à distância. Hoje, aperta-se um botão e
[60] entra-se em comunicação com Pequim. Aperta-se um botão e um país inteiro explode. Aperta-
se um botão e um foguete é lançado a Marte. A ação à distância salva numerosas vidas, mas
irresponsabiliza o crime.
O século do triunfo tecnológico foi também o da descoberta da fragilidade. Um moinho
de vento podia ser reparado, mas o sistema do computador não tem defesa diante da má
[65] intenção de um garoto precoce. O século está estressado porque não sabe de quem se deve
defender nem como: somos demasiado poderosos para poder evitar nossos inimigos.
Encontramos o meio de eliminar a sujeira, mas não o de eliminar os resíduos. Porque a sujeira
nascia da indigência, que podia ser reduzida, ao passo que os resíduos (inclusive os
radioativos) nascem do bem-estar que ninguém quer mais perder. Eis porque nosso século foi
[70] o da angústia e da utopia de curá-la. Com um superego mais forte, a humanidade se embaraça
num mal que conhece perfeitamente, confessa-o em público, tenta purificações expiatórias às
quais se juntam as igrejas e os governos e repete o mal porque ação à distância e linha de
montagem impedem identificá-lo no início do processo. Espaço, tempo, informação, crime,
castigo, arrependimento, absolvição, indignação, esquecimento, descoberta, crítica,
[75] nascimento, longa vida, morte... tudo em altíssima velocidade. A um ritmo de stress. Nosso
século é o do enfarte.
(ECO, Umberto. O segundo diário mínimo. 2. ed. Rio de Janeiro : Record, 1994 - Adaptado)
Ou no que teríamos respondido se nos tivessem pedido um balanço...” (linhas 6 e 7)
O termo sublinhado constrói-se pela contração da preposição em mais o pronome demonstrativo o.
Seu emprego no período acima justifica-se, pois:
Questão 10 10172089
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2008Rápida Utopia
Ação à distância, velocidade, comunicação, linha de montagem, triunfo das massas,
Holocausto: através das metáforas e das realidades que marcaram esses 100 últimos anos,
aparece a verdadeira doença do progresso.
Primeira regra: não se pode julgar um século, sobretudo alguns anos antes de seu fim,
[5] sem recolocá-lo na devida perspectiva histórica. Pensem no que teria respondido um geógrafo
do século XV se lhe tivessem pedido uma síntese de seu século em 1º de janeiro de 1490. Ou
no que feríamos respondido se nos tivessem pedido um balanço de 1989 um mês antes da
queda do Muro de Berlim e da revolução na Romênia.
Segunda regra: quem julga? O julgamento de um cidadão do mundo ocidental é
[10] diferente do de um biafrense que morre de fome. Mas, se essa regra é válida para cada
século, ela o é um pouco menos para o nosso. Para o bem ou para o mal, o modelo ocidental
se impõe gradativamente sobre uma grande parte do planeta. Um camponês chinês está hoje,
para o bem ou para o mal, mais próximo de um camponês francês do que estava há dois
séculos.
[15] Terceira regra: não se pode avaliar emocionalmente um século estando dentro dele e
sem proceder a comparações estatísticas. O número de pessoas que hoje morrem de fome no
mundo nos causa horror. Mas o número de pessoas que morriam de fome no século passado
também nos deve causar horror, sobretudo se o comparamos à população mundial da época.
(...)
[20] Ora, nosso século talvez tenha sido menos hipócrita que os outros. Ele enunciou regras
de convivência; certamente as violou, mas moveu e move processos públicos contra essas
violações. Isso não impede que elas se repitam, mas teve alguma influência sobre nossos
comportamentos cotidianos e sobre as probabilidades de um grande número de cidadãos,
sobretudo no mundo ocidental, viver por mais tempo, evitando abusos de poder de toda ordem.
[25] Hoje posso andar pela rua sem me fazer matar por alguém que queira manter sua
trajetória na mesma calçada que a minha, e sei que meus filhos não receberão cacetadas do
filho de um duque como meio de aprendizagem do poder. Indivíduos prepotentes tentam ainda
hoje expulsar uma mulher negra do ônibus, mas a opinião pública os condena.
Vejamos agora os aspectos ambíguos deste século. Ele terá sido o século das massas.
[30] Para o bem ou para o mal. Os direitos das massas foram reconhecidos: é muito Importante o
direito à palavra, à contestação, ao voto, exercer um cargo político, e não avaliamos o que isso
representa porque não vivemos em séculos em que era normal um artesão morar num casebre
imundo e um senhor que não tinha dinheiro para pagar-lhe mandar seus servidores baterem
nele. Experimente tratar a murros seu encanador que exige pagamento e compreenderá que
[35] alguma coisa mudou.
Nosso século é o da aceleração tecnológica e científica, que se operou e continua a se
operar em ritmos antes inconcebíveis. (...)
O custo dessa aceleração da descoberta é a hiperespecialização. Estamos em via de
viver a tragédia dos saberes separados: quanto mais os separamos, tanto mais fácil submeter
[40] a ciência aos cálculos do poder. Esse fenômeno esta intimamente ligado ao fato de ter sido
neste século que os homens colocaram mais diretamente em questão a sobrevivência do
planeta.
O equivalente tecnológico da separação dos saberes foi a linha de montagem. Nesta,
cada um conhece apenas uma fase do trabalho. Privado da satisfação de ver o produto
[45] acabado, cada um é também liberado de qualquer responsabilidade. Poderia produzir, e isso
ocorre com frequência, venenos sem que o soubesse. Mas a linha de montagem permite
também fabricar aspirina em quantidade para o mundo todo. E rápido. Tudo se passa num
ritmo acelerado, desconhecido dos séculos anteriores. Sem essa aceleração, o Muro de Berlim
poderia ter durado milênios, como a Grande Muralha da China. É bom que tudo se tenha
[50] resolvido no espaço de trinta anos, mas pagamos o preço dessa rapidez. Poderíamos destruir
o planeta num dia.
Nosso século foi o da comunicação instantânea. Hernán Cortés pôde destruir uma
civilização e, antes que a notícia se espalhasse, teve tempo para encontrar justificativas a seus
empreendimentos. Hoje, massacres da Praça da Paz Celestial, em Pequim, tornam-se
[55] atualidade no momento mesmo em que se desenrolam e provocam a reação de todo o mundo
civilizado. Mas informações simultâneas em excesso, provenientes de todos os pontos do
globo, produzem um hábito. O século da comunicação transformou a informação em
espetáculo. Arriscamo-nos a confundir a todo instante a atualidade e o divertimento.
Nosso século presenciou o triunfo da ação à distância. Hoje, aperta-se um botão e
[60] entra-se em comunicação com Pequim. Aperta-se um botão e um país inteiro explode. Aperta-
se um botão e um foguete é lançado a Marte. A ação à distância salva numerosas vidas, mas
irresponsabiliza o crime.
O século do triunfo tecnológico foi também o da descoberta da fragilidade. Um moinho
de vento podia ser reparado, mas o sistema do computador não tem defesa diante da má
[65] intenção de um garoto precoce. O século está estressado porque não sabe de quem se deve
defender nem como: somos demasiado poderosos para poder evitar nossos inimigos.
Encontramos o meio de eliminar a sujeira, mas não o de eliminar os resíduos. Porque a sujeira
nascia da indigência, que podia ser reduzida, ao passo que os resíduos (inclusive os
radioativos) nascem do bem-estar que ninguém quer mais perder. Eis porque nosso século foi
[70] o da angústia e da utopia de curá-la. Com um superego mais forte, a humanidade se embaraça
num mal que conhece perfeitamente, confessa-o em público, tenta purificações expiatórias às
quais se juntam as igrejas e os governos e repete o mal porque ação à distância e linha de
montagem impedem identificá-lo no início do processo. Espaço, tempo, informação, crime,
castigo, arrependimento, absolvição, indignação, esquecimento, descoberta, crítica,
[75] nascimento, longa vida, morte... tudo em altíssima velocidade. A um ritmo de stress. Nosso
século é o do enfarte.
(ECO, Umberto. O segundo diário mínimo. 2. ed. Rio de Janeiro : Record, 1994 - Adaptado)
Sem essa aceleração, o Muro de Berlim poderia ter durado milênios, como a Grande Muralha da China”. (linhas 48 e 49)
A opção em que o termo destacado possui valor semântico semelhante ao da palavra em negrito no fragmento acima transcrito é:
Questão 6 10171987
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2008Rápida Utopia
Ação à distância, velocidade, comunicação, linha de montagem, triunfo das massas,
Holocausto: através das metáforas e das realidades que marcaram esses 100 últimos anos,
aparece a verdadeira doença do progresso.
Primeira regra: não se pode julgar um século, sobretudo alguns anos antes de seu fim,
[5] sem recolocá-lo na devida perspectiva histórica. Pensem no que teria respondido um geógrafo
do século XV se lhe tivessem pedido uma síntese de seu século em 1º de janeiro de 1490. Ou
no que feríamos respondido se nos tivessem pedido um balanço de 1989 um mês antes da
queda do Muro de Berlim e da revolução na Romênia.
Segunda regra: quem julga? O julgamento de um cidadão do mundo ocidental é
[10] diferente do de um biafrense que morre de fome. Mas, se essa regra é válida para cada
século, ela o é um pouco menos para o nosso. Para o bem ou para o mal, o modelo ocidental
se impõe gradativamente sobre uma grande parte do planeta. Um camponês chinês está hoje,
para o bem ou para o mal, mais próximo de um camponês francês do que estava há dois
séculos.
[15] Terceira regra: não se pode avaliar emocionalmente um século estando dentro dele e
sem proceder a comparações estatísticas. O número de pessoas que hoje morrem de fome no
mundo nos causa horror. Mas o número de pessoas que morriam de fome no século passado
também nos deve causar horror, sobretudo se o comparamos à população mundial da época.
(...)
[20] Ora, nosso século talvez tenha sido menos hipócrita que os outros. Ele enunciou regras
de convivência; certamente as violou, mas moveu e move processos públicos contra essas
violações. Isso não impede que elas se repitam, mas teve alguma influência sobre nossos
comportamentos cotidianos e sobre as probabilidades de um grande número de cidadãos,
sobretudo no mundo ocidental, viver por mais tempo, evitando abusos de poder de toda ordem.
[25] Hoje posso andar pela rua sem me fazer matar por alguém que queira manter sua
trajetória na mesma calçada que a minha, e sei que meus filhos não receberão cacetadas do
filho de um duque como meio de aprendizagem do poder. Indivíduos prepotentes tentam ainda
hoje expulsar uma mulher negra do ônibus, mas a opinião pública os condena.
Vejamos agora os aspectos ambíguos deste século. Ele terá sido o século das massas.
[30] Para o bem ou para o mal. Os direitos das massas foram reconhecidos: é muito Importante o
direito à palavra, à contestação, ao voto, exercer um cargo político, e não avaliamos o que isso
representa porque não vivemos em séculos em que era normal um artesão morar num casebre
imundo e um senhor que não tinha dinheiro para pagar-lhe mandar seus servidores baterem
nele. Experimente tratar a murros seu encanador que exige pagamento e compreenderá que
[35] alguma coisa mudou.
Nosso século é o da aceleração tecnológica e científica, que se operou e continua a se
operar em ritmos antes inconcebíveis. (...)
O custo dessa aceleração da descoberta é a hiperespecialização. Estamos em via de
viver a tragédia dos saberes separados: quanto mais os separamos, tanto mais fácil submeter
[40] a ciência aos cálculos do poder. Esse fenômeno esta intimamente ligado ao fato de ter sido
neste século que os homens colocaram mais diretamente em questão a sobrevivência do
planeta.
O equivalente tecnológico da separação dos saberes foi a linha de montagem. Nesta,
cada um conhece apenas uma fase do trabalho. Privado da satisfação de ver o produto
[45] acabado, cada um é também liberado de qualquer responsabilidade. Poderia produzir, e isso
ocorre com frequência, venenos sem que o soubesse. Mas a linha de montagem permite
também fabricar aspirina em quantidade para o mundo todo. E rápido. Tudo se passa num
ritmo acelerado, desconhecido dos séculos anteriores. Sem essa aceleração, o Muro de Berlim
poderia ter durado milênios, como a Grande Muralha da China. É bom que tudo se tenha
[50] resolvido no espaço de trinta anos, mas pagamos o preço dessa rapidez. Poderíamos destruir
o planeta num dia.
Nosso século foi o da comunicação instantânea. Hernán Cortés pôde destruir uma
civilização e, antes que a notícia se espalhasse, teve tempo para encontrar justificativas a seus
empreendimentos. Hoje, massacres da Praça da Paz Celestial, em Pequim, tornam-se
[55] atualidade no momento mesmo em que se desenrolam e provocam a reação de todo o mundo
civilizado. Mas informações simultâneas em excesso, provenientes de todos os pontos do
globo, produzem um hábito. O século da comunicação transformou a informação em
espetáculo. Arriscamo-nos a confundir a todo instante a atualidade e o divertimento.
Nosso século presenciou o triunfo da ação à distância. Hoje, aperta-se um botão e
[60] entra-se em comunicação com Pequim. Aperta-se um botão e um país inteiro explode. Aperta-
se um botão e um foguete é lançado a Marte. A ação à distância salva numerosas vidas, mas
irresponsabiliza o crime.
O século do triunfo tecnológico foi também o da descoberta da fragilidade. Um moinho
de vento podia ser reparado, mas o sistema do computador não tem defesa diante da má
[65] intenção de um garoto precoce. O século está estressado porque não sabe de quem se deve
defender nem como: somos demasiado poderosos para poder evitar nossos inimigos.
Encontramos o meio de eliminar a sujeira, mas não o de eliminar os resíduos. Porque a sujeira
nascia da indigência, que podia ser reduzida, ao passo que os resíduos (inclusive os
radioativos) nascem do bem-estar que ninguém quer mais perder. Eis porque nosso século foi
[70] o da angústia e da utopia de curá-la. Com um superego mais forte, a humanidade se embaraça
num mal que conhece perfeitamente, confessa-o em público, tenta purificações expiatórias às
quais se juntam as igrejas e os governos e repete o mal porque ação à distância e linha de
montagem impedem identificá-lo no início do processo. Espaço, tempo, informação, crime,
castigo, arrependimento, absolvição, indignação, esquecimento, descoberta, crítica,
[75] nascimento, longa vida, morte... tudo em altíssima velocidade. A um ritmo de stress. Nosso
século é o do enfarte.
(ECO, Umberto. O segundo diário mínimo. 2. ed. Rio de Janeiro : Record, 1994 - Adaptado)
Considere as frases abaixo e marque a alternativa correta.
I) O vocábulo “Romênia” é acentuado pelo mesmo motivo de “distância”.
II) Os vocábulos “camponês”, “chinês' e “artesão” têm o mesmo processo de formação de palavras.
III) Em “montagem”, percebe-se um encontro consonantal e um ditongo nasal decrescente.
IV) O texto continuaria respeitando a norma culta se fosse inserido o vocábulo “do” antes de “que” na linha 20.
Questão 4 10171951
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2008Rápida Utopia
Ação à distância, velocidade, comunicação, linha de montagem, triunfo das massas,
Holocausto: através das metáforas e das realidades que marcaram esses 100 últimos anos,
aparece a verdadeira doença do progresso.
Primeira regra: não se pode julgar um século, sobretudo alguns anos antes de seu fim,
[5] sem recolocá-lo na devida perspectiva histórica. Pensem no que teria respondido um geógrafo
do século XV se lhe tivessem pedido uma síntese de seu século em 1º de janeiro de 1490. Ou
no que feríamos respondido se nos tivessem pedido um balanço de 1989 um mês antes da
queda do Muro de Berlim e da revolução na Romênia.
Segunda regra: quem julga? O julgamento de um cidadão do mundo ocidental é
[10] diferente do de um biafrense que morre de fome. Mas, se essa regra é válida para cada
século, ela o é um pouco menos para o nosso. Para o bem ou para o mal, o modelo ocidental
se impõe gradativamente sobre uma grande parte do planeta. Um camponês chinês está hoje,
para o bem ou para o mal, mais próximo de um camponês francês do que estava há dois
séculos.
[15] Terceira regra: não se pode avaliar emocionalmente um século estando dentro dele e
sem proceder a comparações estatísticas. O número de pessoas que hoje morrem de fome no
mundo nos causa horror. Mas o número de pessoas que morriam de fome no século passado
também nos deve causar horror, sobretudo se o comparamos à população mundial da época.
(...)
[20] Ora, nosso século talvez tenha sido menos hipócrita que os outros. Ele enunciou regras
de convivência; certamente as violou, mas moveu e move processos públicos contra essas
violações. Isso não impede que elas se repitam, mas teve alguma influência sobre nossos
comportamentos cotidianos e sobre as probabilidades de um grande número de cidadãos,
sobretudo no mundo ocidental, viver por mais tempo, evitando abusos de poder de toda ordem.
[25] Hoje posso andar pela rua sem me fazer matar por alguém que queira manter sua
trajetória na mesma calçada que a minha, e sei que meus filhos não receberão cacetadas do
filho de um duque como meio de aprendizagem do poder. Indivíduos prepotentes tentam ainda
hoje expulsar uma mulher negra do ônibus, mas a opinião pública os condena.
Vejamos agora os aspectos ambíguos deste século. Ele terá sido o século das massas.
[30] Para o bem ou para o mal. Os direitos das massas foram reconhecidos: é muito Importante o
direito à palavra, à contestação, ao voto, exercer um cargo político, e não avaliamos o que isso
representa porque não vivemos em séculos em que era normal um artesão morar num casebre
imundo e um senhor que não tinha dinheiro para pagar-lhe mandar seus servidores baterem
nele. Experimente tratar a murros seu encanador que exige pagamento e compreenderá que
[35] alguma coisa mudou.
Nosso século é o da aceleração tecnológica e científica, que se operou e continua a se
operar em ritmos antes inconcebíveis. (...)
O custo dessa aceleração da descoberta é a hiperespecialização. Estamos em via de
viver a tragédia dos saberes separados: quanto mais os separamos, tanto mais fácil submeter
[40] a ciência aos cálculos do poder. Esse fenômeno esta intimamente ligado ao fato de ter sido
neste século que os homens colocaram mais diretamente em questão a sobrevivência do
planeta.
O equivalente tecnológico da separação dos saberes foi a linha de montagem. Nesta,
cada um conhece apenas uma fase do trabalho. Privado da satisfação de ver o produto
[45] acabado, cada um é também liberado de qualquer responsabilidade. Poderia produzir, e isso
ocorre com frequência, venenos sem que o soubesse. Mas a linha de montagem permite
também fabricar aspirina em quantidade para o mundo todo. E rápido. Tudo se passa num
ritmo acelerado, desconhecido dos séculos anteriores. Sem essa aceleração, o Muro de Berlim
poderia ter durado milênios, como a Grande Muralha da China. É bom que tudo se tenha
[50] resolvido no espaço de trinta anos, mas pagamos o preço dessa rapidez. Poderíamos destruir
o planeta num dia.
Nosso século foi o da comunicação instantânea. Hernán Cortés pôde destruir uma
civilização e, antes que a notícia se espalhasse, teve tempo para encontrar justificativas a seus
empreendimentos. Hoje, massacres da Praça da Paz Celestial, em Pequim, tornam-se
[55] atualidade no momento mesmo em que se desenrolam e provocam a reação de todo o mundo
civilizado. Mas informações simultâneas em excesso, provenientes de todos os pontos do
globo, produzem um hábito. O século da comunicação transformou a informação em
espetáculo. Arriscamo-nos a confundir a todo instante a atualidade e o divertimento.
Nosso século presenciou o triunfo da ação à distância. Hoje, aperta-se um botão e
[60] entra-se em comunicação com Pequim. Aperta-se um botão e um país inteiro explode. Aperta-
se um botão e um foguete é lançado a Marte. A ação à distância salva numerosas vidas, mas
irresponsabiliza o crime.
O século do triunfo tecnológico foi também o da descoberta da fragilidade. Um moinho
de vento podia ser reparado, mas o sistema do computador não tem defesa diante da má
[65] intenção de um garoto precoce. O século está estressado porque não sabe de quem se deve
defender nem como: somos demasiado poderosos para poder evitar nossos inimigos.
Encontramos o meio de eliminar a sujeira, mas não o de eliminar os resíduos. Porque a sujeira
nascia da indigência, que podia ser reduzida, ao passo que os resíduos (inclusive os
radioativos) nascem do bem-estar que ninguém quer mais perder. Eis porque nosso século foi
[70] o da angústia e da utopia de curá-la. Com um superego mais forte, a humanidade se embaraça
num mal que conhece perfeitamente, confessa-o em público, tenta purificações expiatórias às
quais se juntam as igrejas e os governos e repete o mal porque ação à distância e linha de
montagem impedem identificá-lo no início do processo. Espaço, tempo, informação, crime,
castigo, arrependimento, absolvição, indignação, esquecimento, descoberta, crítica,
[75] nascimento, longa vida, morte... tudo em altíssima velocidade. A um ritmo de stress. Nosso
século é o do enfarte.
(ECO, Umberto. O segundo diário mínimo. 2. ed. Rio de Janeiro : Record, 1994 - Adaptado)
Segundo o texto, a separação dos saberes e das áreas de trabalho somente NÃO produziu o efeito apresentado na opção:
Questão 19 10785042
EPCAR 1° Ano - Língua Portuguesa 2007Texto
“A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade.”
(Octávio Paz)
Com relação ao texto acima, assinale a alternativa INCORRETA.
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