Questões de EFAF Filosofia - Temática
744 Questões
Questão 12 10176204
IFCE* 1° Ano 2009/1AMAR O PRÓXIMO PODE NÃO SER UM PRODUTO BÁSICO DO INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA – MAS TAMBÉM NÃO O É O AMOR-PRÓPRIO, TOMADO COMO MODELO DO AMOR AO PRÓXIMO
Amor-próprio – o que significa isso? O que eu amo “em mim mesmo”? O que eu amo quando amo a mim
mesmo? Nós, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos animais, sejam os
próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes – mas, quando se trata de amor-próprio, nossos caminhos
se separam e seguimos por conta própria.
[5] É verdade que o amor-próprio estimula a gente a se “agarrar à vida”, a tentar a todo custo permanecer
vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pôr fim à nossa vida de modo prematuro ou abrupto, ou
melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptidão física para tornar efetiva essa resistência. Nisso, contudo,
nossos primos animais são mestres em experiências, não menos que os mais dedicados e habilidosos viciados
em ginástica e maníacos por saúde. Nossos primos animais (com exceção daqueles “domesticados”, que nós,
[10] seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem à nossa sobrevivência, e não à
deles) não precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos e em forma. Tampouco precisam
do amor-próprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma é a coisa certa a fazer.
A sobrevivência (animal, física, corpórea) pode viver sem o amor-próprio. Para dizer a verdade, poderia
acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivência e do
[15] amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções opostas... O amor-próprio pode rebelar-se
contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas à ameaça. Pode nos levar
a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser vivida.
Pois o que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que
amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos
[20] reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.
Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor – a negação do status
de objeto digno do amor – alimenta a autoaversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é
oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora
fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos.
[25] E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança,
que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim termos o direito de nos
entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos
tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos
ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que
[30] somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em
consideração.
Se os outros me respeitam, então obviamente deve haver “em mim” – ou não deve? – algo que só eu
lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros – não existem? – que ficariam satisfeitos e gratos por
isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente
[35] substituída e descartada. Eu “faço diferença” para outros além de mim. O que digo e sou e faço tem importância
– e isso não é apenas um voo da minha fantasia. O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante
e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.
Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a “amar o
próximo como a si mesmo” (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas
[40] razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e
confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. A exortação nos leva a
pressupor que o próximo de fato representa esses valores – ao menos até prova em contrário. Amar o próximo
como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um – o valor de nossas
diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e
[45] agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.
BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Zahar, Rio de Janeiro: 2004.
O acento gráfico de “pôr” (linha 6)
Questão 11 10176188
IFCE* 1° Ano 2009/1AMAR O PRÓXIMO PODE NÃO SER UM PRODUTO BÁSICO DO INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA – MAS TAMBÉM NÃO O É O AMOR-PRÓPRIO, TOMADO COMO MODELO DO AMOR AO PRÓXIMO
Amor-próprio – o que significa isso? O que eu amo “em mim mesmo”? O que eu amo quando amo a mim
mesmo? Nós, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos animais, sejam os
próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes – mas, quando se trata de amor-próprio, nossos caminhos
se separam e seguimos por conta própria.
[5] É verdade que o amor-próprio estimula a gente a se “agarrar à vida”, a tentar a todo custo permanecer
vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pôr fim à nossa vida de modo prematuro ou abrupto, ou
melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptidão física para tornar efetiva essa resistência. Nisso, contudo,
nossos primos animais são mestres em experiências, não menos que os mais dedicados e habilidosos viciados
em ginástica e maníacos por saúde. Nossos primos animais (com exceção daqueles “domesticados”, que nós,
[10] seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem à nossa sobrevivência, e não à
deles) não precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos e em forma. Tampouco precisam
do amor-próprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma é a coisa certa a fazer.
A sobrevivência (animal, física, corpórea) pode viver sem o amor-próprio. Para dizer a verdade, poderia
acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivência e do
[15] amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções opostas... O amor-próprio pode rebelar-se
contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas à ameaça. Pode nos levar
a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser vivida.
Pois o que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que
amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos
[20] reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.
Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor – a negação do status
de objeto digno do amor – alimenta a autoaversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é
oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora
fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos.
[25] E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança,
que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim termos o direito de nos
entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos
tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos
ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que
[30] somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em
consideração.
Se os outros me respeitam, então obviamente deve haver “em mim” – ou não deve? – algo que só eu
lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros – não existem? – que ficariam satisfeitos e gratos por
isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente
[35] substituída e descartada. Eu “faço diferença” para outros além de mim. O que digo e sou e faço tem importância
– e isso não é apenas um voo da minha fantasia. O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante
e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.
Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a “amar o
próximo como a si mesmo” (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas
[40] razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e
confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. A exortação nos leva a
pressupor que o próximo de fato representa esses valores – ao menos até prova em contrário. Amar o próximo
como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um – o valor de nossas
diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e
[45] agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.
BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Zahar, Rio de Janeiro: 2004.
O acento indicativo de crase da expressão “à vida“ (linha 5)
Questão 10 10176183
IFCE* 1° Ano 2009/1AMAR O PRÓXIMO PODE NÃO SER UM PRODUTO BÁSICO DO INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA – MAS TAMBÉM NÃO O É O AMOR-PRÓPRIO, TOMADO COMO MODELO DO AMOR AO PRÓXIMO
Amor-próprio – o que significa isso? O que eu amo “em mim mesmo”? O que eu amo quando amo a mim
mesmo? Nós, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos animais, sejam os
próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes – mas, quando se trata de amor-próprio, nossos caminhos
se separam e seguimos por conta própria.
[5] É verdade que o amor-próprio estimula a gente a se “agarrar à vida”, a tentar a todo custo permanecer
vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pôr fim à nossa vida de modo prematuro ou abrupto, ou
melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptidão física para tornar efetiva essa resistência. Nisso, contudo,
nossos primos animais são mestres em experiências, não menos que os mais dedicados e habilidosos viciados
em ginástica e maníacos por saúde. Nossos primos animais (com exceção daqueles “domesticados”, que nós,
[10] seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem à nossa sobrevivência, e não à
deles) não precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos e em forma. Tampouco precisam
do amor-próprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma é a coisa certa a fazer.
A sobrevivência (animal, física, corpórea) pode viver sem o amor-próprio. Para dizer a verdade, poderia
acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivência e do
[15] amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções opostas... O amor-próprio pode rebelar-se
contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas à ameaça. Pode nos levar
a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser vivida.
Pois o que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que
amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos
[20] reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.
Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor – a negação do status
de objeto digno do amor – alimenta a autoaversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é
oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora
fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos.
[25] E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança,
que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim termos o direito de nos
entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos
tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos
ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que
[30] somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em
consideração.
Se os outros me respeitam, então obviamente deve haver “em mim” – ou não deve? – algo que só eu
lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros – não existem? – que ficariam satisfeitos e gratos por
isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente
[35] substituída e descartada. Eu “faço diferença” para outros além de mim. O que digo e sou e faço tem importância
– e isso não é apenas um voo da minha fantasia. O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante
e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.
Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a “amar o
próximo como a si mesmo” (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas
[40] razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e
confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. A exortação nos leva a
pressupor que o próximo de fato representa esses valores – ao menos até prova em contrário. Amar o próximo
como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um – o valor de nossas
diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e
[45] agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.
BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Zahar, Rio de Janeiro: 2004.
No trecho “O que amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados.” (linhas 18 e 19), os termos e a oração destacados, exercem, respectivamente, as funções de
Questão 9 10176175
IFCE* 1° Ano 2009/1AMAR O PRÓXIMO PODE NÃO SER UM PRODUTO BÁSICO DO INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA – MAS TAMBÉM NÃO O É O AMOR-PRÓPRIO, TOMADO COMO MODELO DO AMOR AO PRÓXIMO
Amor-próprio – o que significa isso? O que eu amo “em mim mesmo”? O que eu amo quando amo a mim
mesmo? Nós, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos animais, sejam os
próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes – mas, quando se trata de amor-próprio, nossos caminhos
se separam e seguimos por conta própria.
[5] É verdade que o amor-próprio estimula a gente a se “agarrar à vida”, a tentar a todo custo permanecer
vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pôr fim à nossa vida de modo prematuro ou abrupto, ou
melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptidão física para tornar efetiva essa resistência. Nisso, contudo,
nossos primos animais são mestres em experiências, não menos que os mais dedicados e habilidosos viciados
em ginástica e maníacos por saúde. Nossos primos animais (com exceção daqueles “domesticados”, que nós,
[10] seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem à nossa sobrevivência, e não à
deles) não precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos e em forma. Tampouco precisam
do amor-próprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma é a coisa certa a fazer.
A sobrevivência (animal, física, corpórea) pode viver sem o amor-próprio. Para dizer a verdade, poderia
acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivência e do
[15] amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções opostas... O amor-próprio pode rebelar-se
contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas à ameaça. Pode nos levar
a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser vivida.
Pois o que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que
amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos
[20] reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.
Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor – a negação do status
de objeto digno do amor – alimenta a autoaversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é
oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora
fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos.
[25] E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança,
que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim termos o direito de nos
entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos
tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos
ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que
[30] somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em
consideração.
Se os outros me respeitam, então obviamente deve haver “em mim” – ou não deve? – algo que só eu
lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros – não existem? – que ficariam satisfeitos e gratos por
isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente
[35] substituída e descartada. Eu “faço diferença” para outros além de mim. O que digo e sou e faço tem importância
– e isso não é apenas um voo da minha fantasia. O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante
e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.
Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a “amar o
próximo como a si mesmo” (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas
[40] razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e
confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. A exortação nos leva a
pressupor que o próximo de fato representa esses valores – ao menos até prova em contrário. Amar o próximo
como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um – o valor de nossas
diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e
[45] agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.
BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Zahar, Rio de Janeiro: 2004.
Assim como em “... viciados em ginástica” (linhas 8 e 9) e “maníacos por saúde” (linha 9), a relação entre os nomes e os complementos está correta em
Questão 8 10176173
IFCE* 1° Ano 2009/1AMAR O PRÓXIMO PODE NÃO SER UM PRODUTO BÁSICO DO INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA – MAS TAMBÉM NÃO O É O AMOR-PRÓPRIO, TOMADO COMO MODELO DO AMOR AO PRÓXIMO
Amor-próprio – o que significa isso? O que eu amo “em mim mesmo”? O que eu amo quando amo a mim
mesmo? Nós, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos animais, sejam os
próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes – mas, quando se trata de amor-próprio, nossos caminhos
se separam e seguimos por conta própria.
[5] É verdade que o amor-próprio estimula a gente a se “agarrar à vida”, a tentar a todo custo permanecer
vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pôr fim à nossa vida de modo prematuro ou abrupto, ou
melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptidão física para tornar efetiva essa resistência. Nisso, contudo,
nossos primos animais são mestres em experiências, não menos que os mais dedicados e habilidosos viciados
em ginástica e maníacos por saúde. Nossos primos animais (com exceção daqueles “domesticados”, que nós,
[10] seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem à nossa sobrevivência, e não à
deles) não precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos e em forma. Tampouco precisam
do amor-próprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma é a coisa certa a fazer.
A sobrevivência (animal, física, corpórea) pode viver sem o amor-próprio. Para dizer a verdade, poderia
acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivência e do
[15] amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções opostas... O amor-próprio pode rebelar-se
contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas à ameaça. Pode nos levar
a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser vivida.
Pois o que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que
amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos
[20] reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.
Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor – a negação do status
de objeto digno do amor – alimenta a autoaversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é
oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora
fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos.
[25] E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança,
que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim termos o direito de nos
entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos
tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos
ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que
[30] somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em
consideração.
Se os outros me respeitam, então obviamente deve haver “em mim” – ou não deve? – algo que só eu
lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros – não existem? – que ficariam satisfeitos e gratos por
isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente
[35] substituída e descartada. Eu “faço diferença” para outros além de mim. O que digo e sou e faço tem importância
– e isso não é apenas um voo da minha fantasia. O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante
e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.
Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a “amar o
próximo como a si mesmo” (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas
[40] razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e
confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. A exortação nos leva a
pressupor que o próximo de fato representa esses valores – ao menos até prova em contrário. Amar o próximo
como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um – o valor de nossas
diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e
[45] agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.
BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Zahar, Rio de Janeiro: 2004.
As formais verbais “deixasse” (linha 37) e “fosse” (linha 37) estão flexionadas no modo subjuntivo, indicando ações hipotéticas que poderão acontecer ou não.
Têm a mesma característica:
Questão 5 10176140
IFCE* 1° Ano 2009/1AMAR O PRÓXIMO PODE NÃO SER UM PRODUTO BÁSICO DO INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA – MAS TAMBÉM NÃO O É O AMOR-PRÓPRIO, TOMADO COMO MODELO DO AMOR AO PRÓXIMO
Amor-próprio – o que significa isso? O que eu amo “em mim mesmo”? O que eu amo quando amo a mim
mesmo? Nós, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos animais, sejam os
próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes – mas, quando se trata de amor-próprio, nossos caminhos
se separam e seguimos por conta própria.
[5] É verdade que o amor-próprio estimula a gente a se “agarrar à vida”, a tentar a todo custo permanecer
vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pôr fim à nossa vida de modo prematuro ou abrupto, ou
melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptidão física para tornar efetiva essa resistência. Nisso, contudo,
nossos primos animais são mestres em experiências, não menos que os mais dedicados e habilidosos viciados
em ginástica e maníacos por saúde. Nossos primos animais (com exceção daqueles “domesticados”, que nós,
[10] seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem à nossa sobrevivência, e não à
deles) não precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos e em forma. Tampouco precisam
do amor-próprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma é a coisa certa a fazer.
A sobrevivência (animal, física, corpórea) pode viver sem o amor-próprio. Para dizer a verdade, poderia
acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivência e do
[15] amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções opostas... O amor-próprio pode rebelar-se
contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas à ameaça. Pode nos levar
a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser vivida.
Pois o que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que
amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos
[20] reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.
Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor – a negação do status
de objeto digno do amor – alimenta a autoaversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é
oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora
fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos.
[25] E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança,
que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim termos o direito de nos
entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos
tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos
ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que
[30] somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em
consideração.
Se os outros me respeitam, então obviamente deve haver “em mim” – ou não deve? – algo que só eu
lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros – não existem? – que ficariam satisfeitos e gratos por
isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente
[35] substituída e descartada. Eu “faço diferença” para outros além de mim. O que digo e sou e faço tem importância
– e isso não é apenas um voo da minha fantasia. O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante
e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.
Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a “amar o
próximo como a si mesmo” (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas
[40] razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e
confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. A exortação nos leva a
pressupor que o próximo de fato representa esses valores – ao menos até prova em contrário. Amar o próximo
como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um – o valor de nossas
diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e
[45] agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.
BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Zahar, Rio de Janeiro: 2004.
Das análises do sentido dos termos destacados, somente uma corresponde ao emprego do texto. Identifique-a.
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