Questões de EFAF Filosofia - Temática
744 Questões
Questão 4 10176132
IFCE* 1° Ano 2009/1AMAR O PRÓXIMO PODE NÃO SER UM PRODUTO BÁSICO DO INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA – MAS TAMBÉM NÃO O É O AMOR-PRÓPRIO, TOMADO COMO MODELO DO AMOR AO PRÓXIMO
Amor-próprio – o que significa isso? O que eu amo “em mim mesmo”? O que eu amo quando amo a mim
mesmo? Nós, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos animais, sejam os
próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes – mas, quando se trata de amor-próprio, nossos caminhos
se separam e seguimos por conta própria.
[5] É verdade que o amor-próprio estimula a gente a se “agarrar à vida”, a tentar a todo custo permanecer
vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pôr fim à nossa vida de modo prematuro ou abrupto, ou
melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptidão física para tornar efetiva essa resistência. Nisso, contudo,
nossos primos animais são mestres em experiências, não menos que os mais dedicados e habilidosos viciados
em ginástica e maníacos por saúde. Nossos primos animais (com exceção daqueles “domesticados”, que nós,
[10] seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem à nossa sobrevivência, e não à
deles) não precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos e em forma. Tampouco precisam
do amor-próprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma é a coisa certa a fazer.
A sobrevivência (animal, física, corpórea) pode viver sem o amor-próprio. Para dizer a verdade, poderia
acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivência e do
[15] amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções opostas... O amor-próprio pode rebelar-se
contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas à ameaça. Pode nos levar
a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser vivida.
Pois o que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que
amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos
[20] reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.
Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor – a negação do status
de objeto digno do amor – alimenta a autoaversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é
oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora
fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos.
[25] E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança,
que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim termos o direito de nos
entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos
tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos
ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que
[30] somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em
consideração.
Se os outros me respeitam, então obviamente deve haver “em mim” – ou não deve? – algo que só eu
lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros – não existem? – que ficariam satisfeitos e gratos por
isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente
[35] substituída e descartada. Eu “faço diferença” para outros além de mim. O que digo e sou e faço tem importância
– e isso não é apenas um voo da minha fantasia. O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante
e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.
Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a “amar o
próximo como a si mesmo” (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas
[40] razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e
confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. A exortação nos leva a
pressupor que o próximo de fato representa esses valores – ao menos até prova em contrário. Amar o próximo
como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um – o valor de nossas
diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e
[45] agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.
BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Zahar, Rio de Janeiro: 2004.
Em: “... compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos animais, sejam os próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes...” (linhas 2 e 3), só será coerente a compreensão de que, em relação à distância, os sentidos estão
Questão 2 10176125
IFCE* 1° Ano 2009/1AMAR O PRÓXIMO PODE NÃO SER UM PRODUTO BÁSICO DO INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA – MAS TAMBÉM NÃO O É O AMOR-PRÓPRIO, TOMADO COMO MODELO DO AMOR AO PRÓXIMO
Amor-próprio – o que significa isso? O que eu amo “em mim mesmo”? O que eu amo quando amo a mim
mesmo? Nós, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos animais, sejam os
próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes – mas, quando se trata de amor-próprio, nossos caminhos
se separam e seguimos por conta própria.
[5] É verdade que o amor-próprio estimula a gente a se “agarrar à vida”, a tentar a todo custo permanecer
vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pôr fim à nossa vida de modo prematuro ou abrupto, ou
melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptidão física para tornar efetiva essa resistência. Nisso, contudo,
nossos primos animais são mestres em experiências, não menos que os mais dedicados e habilidosos viciados
em ginástica e maníacos por saúde. Nossos primos animais (com exceção daqueles “domesticados”, que nós,
[10] seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem à nossa sobrevivência, e não à
deles) não precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos e em forma. Tampouco precisam
do amor-próprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma é a coisa certa a fazer.
A sobrevivência (animal, física, corpórea) pode viver sem o amor-próprio. Para dizer a verdade, poderia
acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivência e do
[15] amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções opostas... O amor-próprio pode rebelar-se
contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas à ameaça. Pode nos levar
a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser vivida.
Pois o que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que
amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos
[20] reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.
Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor – a negação do status
de objeto digno do amor – alimenta a autoaversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é
oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora
fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos.
[25] E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança,
que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim termos o direito de nos
entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos
tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos
ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que
[30] somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em
consideração.
Se os outros me respeitam, então obviamente deve haver “em mim” – ou não deve? – algo que só eu
lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros – não existem? – que ficariam satisfeitos e gratos por
isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente
[35] substituída e descartada. Eu “faço diferença” para outros além de mim. O que digo e sou e faço tem importância
– e isso não é apenas um voo da minha fantasia. O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante
e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.
Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a “amar o
próximo como a si mesmo” (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas
[40] razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e
confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. A exortação nos leva a
pressupor que o próximo de fato representa esses valores – ao menos até prova em contrário. Amar o próximo
como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um – o valor de nossas
diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e
[45] agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.
BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Zahar, Rio de Janeiro: 2004.
A relação da dependência amor-próprio/amor do próximo, confirma-se em
I. “Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados.” (linha 21)
II. “O amor-próprio é constituído a partir do amor que nos é oferecido por outros.” (linhas 22 e 23 )
III. “Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos.” (linha 24)
IV. “Então concluímos que somos respeitados.” (linhas 29 e 30 )
Marque o correto.
Questão 1 10176050
IFCE* 1° Ano 2009/1AMAR O PRÓXIMO PODE NÃO SER UM PRODUTO BÁSICO DO INSTINTO DE SOBREVIVÊNCIA – MAS TAMBÉM NÃO O É O AMOR-PRÓPRIO, TOMADO COMO MODELO DO AMOR AO PRÓXIMO
Amor-próprio – o que significa isso? O que eu amo “em mim mesmo”? O que eu amo quando amo a mim
mesmo? Nós, humanos, compartilhamos os instintos de sobrevivência com nossos primos animais, sejam os
próximos, os nem tão próximos ou os bem distantes – mas, quando se trata de amor-próprio, nossos caminhos
se separam e seguimos por conta própria.
[5] É verdade que o amor-próprio estimula a gente a se “agarrar à vida”, a tentar a todo custo permanecer
vivo, a resistir e enfrentar o que quer que ameace pôr fim à nossa vida de modo prematuro ou abrupto, ou
melhor ainda, a melhorar nosso vigor e aptidão física para tornar efetiva essa resistência. Nisso, contudo,
nossos primos animais são mestres em experiências, não menos que os mais dedicados e habilidosos viciados
em ginástica e maníacos por saúde. Nossos primos animais (com exceção daqueles “domesticados”, que nós,
[10] seus donos humanos, despimos de seus dons naturais para melhor servirem à nossa sobrevivência, e não à
deles) não precisam de especialistas para lhes dizer como se manterem vivos e em forma. Tampouco precisam
do amor-próprio para lhes ensinar que manter-se vivo e em forma é a coisa certa a fazer.
A sobrevivência (animal, física, corpórea) pode viver sem o amor-próprio. Para dizer a verdade, poderia
acontecer melhor sem ele do que em sua companhia! Os caminhos dos instintos de sobrevivência e do
[15] amor-próprio podem correr paralelamente, mas também em direções opostas... O amor-próprio pode rebelar-se
contra a continuação da vida. Ele nos estimula a convidar o perigo e dar boas-vindas à ameaça. Pode nos levar
a rejeitar uma vida que não se ajusta a nossos padrões e que, portanto, não vale a pena ser vivida.
Pois o que amamos em nosso amor-próprio são os eus apropriados para serem amados. O que
amamos é o estado, ou a esperança, de sermos amados. De sermos objetos dignos do amor, sermos
[20] reconhecidos como tais e recebermos a prova desse reconhecimento.
Em suma: para termos amor-próprio, precisamos ser amados. A recusa do amor – a negação do status
de objeto digno do amor – alimenta a autoaversão. O amor-próprio é construído a partir do amor que nos é
oferecido por outros. Se na sua construção forem usados substitutos, eles devem parecer cópias, embora
fraudulentas, desse amor. Outros devem nos amar primeiro para que comecemos a amar a nós mesmos.
[25] E como podemos saber que não fomos desconsiderados ou descartados como um caso sem esperança,
que o amor está, pode estar, estará prestes a aparecer, que somos dignos dele, e assim termos o direito de nos
entregar ao amour de soi e ter prazer com isso? Nós o sabemos, acreditamos que sabemos e somos
tranquilizados de que essa crença não é um equívoco quando falam conosco e somos ouvidos, quando nos
ouvem com atenção, com um interesse que trai/sinaliza uma presteza em responder. Então concluímos que
[30] somos respeitados. Ou seja, supomos que aquilo que pensamos, fazemos ou pretendemos fazer é levado em
consideração.
Se os outros me respeitam, então obviamente deve haver “em mim” – ou não deve? – algo que só eu
lhes posso oferecer. E obviamente existem esses outros – não existem? – que ficariam satisfeitos e gratos por
isso lhes ser oferecido. Eu sou importante e o que penso e digo também é. Não sou uma cifra, facilmente
[35] substituída e descartada. Eu “faço diferença” para outros além de mim. O que digo e sou e faço tem importância
– e isso não é apenas um voo da minha fantasia. O mundo à minha volta seria mais pobre, menos interessante
e promissor se eu subitamente deixasse de existir ou fosse para outro lugar.
Se é isso que nos torna objetos legítimos e adequados do amor-próprio, então a exortação a “amar o
próximo como a si mesmo” (ou seja, ter a expectativa de que o próximo desejará ser amado pelas mesmas
[40] razões que estimulam nosso amor-próprio) evoca o desejo do próximo de ter reconhecida, admitida e
confirmada a sua dignidade de portar um valor singular, insubstituível e não-descartável. A exortação nos leva a
pressupor que o próximo de fato representa esses valores – ao menos até prova em contrário. Amar o próximo
como amamos a nós mesmos significaria então respeitar a singularidade de cada um – o valor de nossas
diferenças, que enriquecem o mundo que habitamos em conjunto e assim o tornam um lugar mais fascinante e
[45] agradável, aumentando a cornucópia de suas promessas.
BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Zahar, Rio de Janeiro: 2004.
De acordo com a leitura amar a si e amar os outros têm objetos diferentes, mas
Questão 3 10784845
EPCAR 1° Ano - Língua Portuguesa 2007Texto
A força da linguagem
(...)
Podemos avaliar a força da linguagem tomando como
exemplo os mitos e as religiões.
A palavra grega mythos, como já vimos, significa
“narrativa” e, portanto, “linguagem”. Trata-se da palavra
[5] que narra a origem dos deuses, do mundo, dos homens, das
técnicas (o fogo, a agricultura, a caça, a pesca, o artesanato,
a guerra) e da vida do grupo social ou da comunidade.
Pronunciados em momentos especiais – os momentos
sagrados ou de relação com o sagrado –, os mitos são mais
[10] do que uma simples narrativa; são a maneira pela qual,
através das palavras, os seres humanos organizam a
realidade e a interpretam.
O mito tem o poder de fazer com que as coisas sejam
tais como são ditas ou pronunciadas. O melhor exemplo
[15] dessa força criadora da palavra encontra-se na abertura da
Gênese, na Bíblia judeu-cristã, em que Deus cria o mundo
do nada, apenas usando a linguagem: “E Deus disse:
faça-se!”, e foi feito. Porque Ele disse, foi feito. A palavra
divina é uma força criadora.
[20] Também vemos a força realizadora ou concretizadora
da linguagem nas liturgias religiosas. Por exemplo, na
missa cristã, o celebrante, pronunciando as palavras “Este é
o meu corpo” e “Este é o meu sangue”, realiza o mistério da
Eucaristia, isto é, a encarnação de Deus no pão e no vinho.
[25] Também nos rituais indígenas e africanos, os deuses e
heróis comparecem e se reúnem aos mortais quando
invocados pelas palavras corretas, pronunciadas pelo
celebrante.
A linguagem tem, assim, um poder encantatório, isto é,
[30] uma capacidade para reunir o sagrado e o profano, trazer os
deuses e as forças cósmicas para o meio do mundo, ou,
como acontece com os místicos em oração, tem o poder de
levar os humanos até o interior do sagrado. Eis por que, em
quase todas as religiões, existem profetas e oráculos, isto é,
[35] pessoas escolhidas pela divindade para transmitir
mensagens divinas aos humanos.
(...)
Independente de acreditarmos ou não em palavras
místicas, mágicas, encantatórias ou tabus, o importante é
[40] que elas existem, pois sua existência revela o poder que
atribuímos à linguagem. Esse poder decorre do fato de que
as palavras são núcleos, sínteses ou feixes de significações,
símbolos e valores que determinam o modo como
interpretamos as forças divinas, naturais, sociais e políticas
[45] e suas relações conosco.
Marilena Chaui
Sobre o Texto, NÃO se pode inferir que a/o
Questão 1 10784827
EPCAR 1° Ano - Língua Portuguesa 2007Texto
A força da linguagem
(...)
Podemos avaliar a força da linguagem tomando como
exemplo os mitos e as religiões.
A palavra grega mythos, como já vimos, significa
“narrativa” e, portanto, “linguagem”. Trata-se da palavra
[5] que narra a origem dos deuses, do mundo, dos homens, das
técnicas (o fogo, a agricultura, a caça, a pesca, o artesanato,
a guerra) e da vida do grupo social ou da comunidade.
Pronunciados em momentos especiais – os momentos
sagrados ou de relação com o sagrado –, os mitos são mais
[10] do que uma simples narrativa; são a maneira pela qual,
através das palavras, os seres humanos organizam a
realidade e a interpretam.
O mito tem o poder de fazer com que as coisas sejam
tais como são ditas ou pronunciadas. O melhor exemplo
[15] dessa força criadora da palavra encontra-se na abertura da
Gênese, na Bíblia judeu-cristã, em que Deus cria o mundo
do nada, apenas usando a linguagem: “E Deus disse:
faça-se!”, e foi feito. Porque Ele disse, foi feito. A palavra
divina é uma força criadora.
[20] Também vemos a força realizadora ou concretizadora
da linguagem nas liturgias religiosas. Por exemplo, na
missa cristã, o celebrante, pronunciando as palavras “Este é
o meu corpo” e “Este é o meu sangue”, realiza o mistério da
Eucaristia, isto é, a encarnação de Deus no pão e no vinho.
[25] Também nos rituais indígenas e africanos, os deuses e
heróis comparecem e se reúnem aos mortais quando
invocados pelas palavras corretas, pronunciadas pelo
celebrante.
A linguagem tem, assim, um poder encantatório, isto é,
[30] uma capacidade para reunir o sagrado e o profano, trazer os
deuses e as forças cósmicas para o meio do mundo, ou,
como acontece com os místicos em oração, tem o poder de
levar os humanos até o interior do sagrado. Eis por que, em
quase todas as religiões, existem profetas e oráculos, isto é,
[35] pessoas escolhidas pela divindade para transmitir
mensagens divinas aos humanos.
(...)
Independente de acreditarmos ou não em palavras
místicas, mágicas, encantatórias ou tabus, o importante é
[40] que elas existem, pois sua existência revela o poder que
atribuímos à linguagem. Esse poder decorre do fato de que
as palavras são núcleos, sínteses ou feixes de significações,
símbolos e valores que determinam o modo como
interpretamos as forças divinas, naturais, sociais e políticas
[45] e suas relações conosco.
Marilena Chaui
Assinale a opção cuja palavra completa corretamente a afirmativa abaixo, relativa ao Texto.
Em seu texto, Marilena Chaui ____________ o poder encantatório da linguagem.
Questão 11 10736801
CMBH 6° Ano - Português 2007A PEDRA NO CAMINHO
Conta-se a lenda de um rei que viveu num país além-mar há muitos anos. Ele era muito sábio e não poupava esforços para ensinar bons hábitos a seu povo. Freqüentemente fazia coisas que pareciam estranhas e inúteis; mas tudo que fazia era para ensinar o povo a ser trabalhador e cauteloso.
– Nada de bom pode vir de uma nação – dizia ele – cujo povo reclama e espera que outros resolvam seus problemas. Deus dá as coisas boas da vida a quem lida com os problemas por conta própria.
Uma noite, enquanto todos dormiam, ele pôs uma enorme pedra na estrada que passava pelo palácio. Depois foi se esconder atrás de uma cerca, e esperou para ver o que acontecia.
Primeiro veio um fazendeiro com uma carroça carregada de sementes que ele levava para moagem na usina.
– Quem já viu tamanho descuido? – disse ele contrariadamente, enquanto desviava sua parelha e contornava a pedra. – Por que esses preguiçosos não mandam retirar essa pedra da estrada? – E continuou reclamando da inutilidade dos outros, mas sem ao menos tocar, ele próprio, na pedra.
Logo depois, um jovem soldado veio cantando pela estrada. A longa pluma do seu quepe ondulava na brisa, e uma espada reluzente pendia à sua cintura. Ele pensava na maravilhosa coragem que mostraria na guerra.
O soldado não viu a pedra, mas tropeçou nela e se estatelou no chão poeirento. Ergueu-se, sacudiu a poeira da roupa, pegou a espada e enfureceu-se com os preguiçosos que insensatamente haviam largado uma pedra imensa na estrada. Então, ele também se afastou, sem pensar uma única vez que ele próprio poderia retirar a pedra.
Assim correu o dia. Todos que por ali passavam reclamavam e resmungavam por causa da pedra colocada na estrada, mas ninguém a tocava.
Finalmente, ao cair da noite, a filha do moleiro por lá passou. Era muito trabalhadora, e estava cansada, pois desde cedo andava ocupada no moinho.
Mas disse a si mesma: “Já está quase escurecendo, alguém pode tropeçar nesta pedra à noite e se ferir gravemente. Vou tirá-la do caminho.”
E tentou arrastar dali a pedra. Era muito pesada, mas a moça a empurrou, e empurrou, e puxou, e inclinou, até que conseguiu retirá-la do lugar. Para sua surpresa, encontrou uma caixa debaixo da pedra.
Ergueu a caixa. Era pesada, pois estava cheia de alguma coisa. Havia na tampa os seguintes dizeres: “Esta caixa pertence a quem retirar a pedra.”
Ela abriu a caixa e descobriu que estava cheia de ouro.
A filha do moleiro foi para casa com o coração feliz. Quando o fazendeiro e o soldado e todos os outros ouviram o que havia ocorrido, juntaram-se em torno do local na estrada onde a pedra estava. Revolveram o pó da estrada com os pés, na esperança de encontrar um pedaço de ouro.
– Meus amigos – disse o rei –, com freqüência encontramos obstáculos e fardos no caminho. Podemos reclamar em alto e bom som enquanto nos desviamos deles se assim preferirmos, ou podemos erguê-los e descobrir o que eles significam. A decepção é normalmente o preço da preguiça.
Então o sábio rei montou em seu cavalo e com um delicado boa-noite retirou-se.
(Autor desconhecido. O Livro das Virtudes. Ed. Nova Fronteira, 1996)
A alternativa em que a palavra grifada corresponde a um substantivo é:
06
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