Questões de EFAF História - Temática
1.155 Questões
Questão 11 15458917
EPSJV Técnico em Saúde 2019TEXTO
Em 14 de maio de 2014, a exposição “Kumbukumbu – África, Memória e Patrimônio” foi aberta ao público no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para auxiliar o entendimento da organização da exposição durante as visitas, em especial, guiadas, a equipe do Setor de Etnologia e Etnografia (SEE) publicou o guia “Conhecendo a Exposição Kumbukumbu do Museu Nacional”. Nesta publicação, podemos ler:
A sala da exposição de longa duração do Museu Nacional destinada aos objetos africanos, agora denominada Kumbukumbu: África, memória e patrimônio, apresenta um acervo diversificado de objetos adquiridos por meio de doações, compras e permutas. Além da beleza e do significado antropológico das peças, a coleção tem ainda uma importância histórica por ser um dos mais antigos acervos africanos do Brasil. São objetos trazidos de diferentes partes do continente entre 1810 e 1940, acrescidos de outros que pertenceram ou foram produzidos por africanos ou seus descendentes diretos no Brasil entre 1880 e 1950. A palavra Kumbukumbu foi escolhida para nomear a exposição porque na língua swahili, uma das mais faladas no continente africano, pode ser traduzida por memória e patrimônio. Ao comentar a palavra Kumbukumbu a partir de sua experiência pessoal, um estudante da Tanzânia chamado Gatera Mudahizi Maurice explicou, também em swahili, o significado da palavra:
Kumbukumbu é uma palavra swahili que significa memória ou o ato de colecionar. Como a história é considerada o estudo do passado, historiadores coletam itens do passado de diferentes fontes. Todas as coleções e documentações dos acontecimentos passados reunidas formam um museu que, basicamente significa Kumbukumbu. As exposições dos museus são usadas para mostrar as memórias e as coleções de acontecimentos passados. Kumbukumbu nos faz lembrar o passado que nos dá um caminho para o futuro. A Tanzânia, por exemplo, tem um grande número de museus que mostram muitas memórias do passado.
Essa exposição traz a público, portanto, exemplos do patrimônio material africano e nos ajuda a conhecer a história de grupos que habitaram aquele continente. O elo com o passado dos povos africanos é construído através da pesquisa histórica e antropológica, hoje realizada pela equipe do Setor de Etnologia e Etnografia, que embasa e sustenta o presente trabalho e as informações aqui apresentadas.
A presença de africanos e de seus descendentes no Brasil está marcada pela violência da escravidão e pelo pós-abolição. A última vitrine da exposição trata do modo como os africanos se instalaram e recriaram seu mundo a partir do final do século XIX, em particular na Bahia e no Rio de Janeiro. A vitrine está dividida em três segmentos: as apreensões da Polícia da Corte, a coleção Heloísa Alberto Torres e os estudos recentes produzidos no Museu Nacional. O primeiro segmento mostra objetos que pertenceram aos antigos candomblés do Rio de Janeiro conhecidos como zungus ou casas de dar fortuna. Ali se cultuavam inkices (bantu), orixás (yorubá) e voduns (jêjemahi). Perseguidas pela polícia, as casas eram invadidas e tinham seus objetos confiscados e levados às delegacias como provas materiais da prática de rituais alegadamente proibidos. Os frequentadores dessas casas eram perseguidos e presos. Sabendo da existência desses objetos no depósito da Polícia da Corte, o então diretor do Museu Nacional, Ladislau Netto, interessou-se por eles e passou a pedir que lhe fossem enviados para estudo. Na década de 1880, o Museu Nacional formou uma coleção que guarda as antigas técnicas de metalurgia e o conhecimento da arte da escultura em madeira, exemplos materiais das práticas religiosas dessa última geração de africanos e de seus descendentes diretos.
O segundo segmento apresenta uma coleção de objetos do Candomblé Nagô da Bahia formada pela antropóloga Heloísa Alberto Torres, então diretora do Museu Nacional, em 1940 e complementada em 1953. O candomblé nagô foi elaborado por africanos escravizados de língua yorubá trazidos para a Bahia. As esculturas em madeira representando os orixás foram esculpidas pelo artesão José Afonso de Santa Isabel. Além das esculturas, integram a coleção um agogô, instrumento bastante difundido na África Ocidental, duas bonecas vestidas à moda das mulheres da Bahia nos anos de 1940 e alguns “banquinhos de igreja” que, no candomblé nagô, eram de uso das pessoas de menor hierarquia (a yalorixá ou mãe de santo, por exemplo, senta-se em uma grande cadeira).
O último segmento desta vitrine apresenta alguns trabalhos recentemente produzidos no Museu Nacional relativos a temas da presença africana no Brasil. Além do Setor de Etnologia e Etnografia, que organizou a exposição e vem desenvolvendo estudos sobre algumas coleções, destacamos as pesquisas do Setor de Antropologia Biológica, do Laboratório de Arqueologia (Casa de Pedras) e do Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento (LACED).
(...)
A vitrine se encerra exibindo um conjunto de três objetos de procedência não identificada a fim de exemplificar a dimensão do que ainda desconhecemos dos muitos caminhos que percorreram os objetos que hoje compõem a coleção Africana do Museu Nacional. Trata-se de um exemplar de um opelé ifá e de dois edans usados por grupos yorubá. A ausência de informações mais completas deixa em aberto um arco de dúvidas e de questionamentos que só a continuidade da pesquisa poderá responder. Por isso, além de ser um lugar de guarda do passado, um museu é também uma instituição de pesquisa, voltada para o futuro e para a produção de novos conhecimentos.
(Disponível em http://www.museunacional.ufrj.br/dir/exposicoes/etnologia/LivroKumbukumbu.pdf, acessoem 14/06/2018)
Glossário
- inkices, orixás e voduns: são divindades do candomblé denominadas de acordo com cada grupo étnico, a saber: bantu, yorubá e jêjemahi.
- opelé ifá: colar aberto composto de um fio trançado de palha-da-costa ou fio de algodão.
- edans: símbolo usado em torno do pescoço.
Os termos sublinhados em “A palavra Kumbukumbu foi escolhida para nomear a exposição...” e “O candomblé nagô foi elaborado por africanos escravizados...” possuem, respectivamente, o sentido de:
Questão 10 15458910
EPSJV Técnico em Saúde 2019TEXTO
Em 14 de maio de 2014, a exposição “Kumbukumbu – África, Memória e Patrimônio” foi aberta ao público no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para auxiliar o entendimento da organização da exposição durante as visitas, em especial, guiadas, a equipe do Setor de Etnologia e Etnografia (SEE) publicou o guia “Conhecendo a Exposição Kumbukumbu do Museu Nacional”. Nesta publicação, podemos ler:
A sala da exposição de longa duração do Museu Nacional destinada aos objetos africanos, agora denominada Kumbukumbu: África, memória e patrimônio, apresenta um acervo diversificado de objetos adquiridos por meio de doações, compras e permutas. Além da beleza e do significado antropológico das peças, a coleção tem ainda uma importância histórica por ser um dos mais antigos acervos africanos do Brasil. São objetos trazidos de diferentes partes do continente entre 1810 e 1940, acrescidos de outros que pertenceram ou foram produzidos por africanos ou seus descendentes diretos no Brasil entre 1880 e 1950. A palavra Kumbukumbu foi escolhida para nomear a exposição porque na língua swahili, uma das mais faladas no continente africano, pode ser traduzida por memória e patrimônio. Ao comentar a palavra Kumbukumbu a partir de sua experiência pessoal, um estudante da Tanzânia chamado Gatera Mudahizi Maurice explicou, também em swahili, o significado da palavra:
Kumbukumbu é uma palavra swahili que significa memória ou o ato de colecionar. Como a história é considerada o estudo do passado, historiadores coletam itens do passado de diferentes fontes. Todas as coleções e documentações dos acontecimentos passados reunidas formam um museu que, basicamente significa Kumbukumbu. As exposições dos museus são usadas para mostrar as memórias e as coleções de acontecimentos passados. Kumbukumbu nos faz lembrar o passado que nos dá um caminho para o futuro. A Tanzânia, por exemplo, tem um grande número de museus que mostram muitas memórias do passado.
Essa exposição traz a público, portanto, exemplos do patrimônio material africano e nos ajuda a conhecer a história de grupos que habitaram aquele continente. O elo com o passado dos povos africanos é construído através da pesquisa histórica e antropológica, hoje realizada pela equipe do Setor de Etnologia e Etnografia, que embasa e sustenta o presente trabalho e as informações aqui apresentadas.
A presença de africanos e de seus descendentes no Brasil está marcada pela violência da escravidão e pelo pós-abolição. A última vitrine da exposição trata do modo como os africanos se instalaram e recriaram seu mundo a partir do final do século XIX, em particular na Bahia e no Rio de Janeiro. A vitrine está dividida em três segmentos: as apreensões da Polícia da Corte, a coleção Heloísa Alberto Torres e os estudos recentes produzidos no Museu Nacional. O primeiro segmento mostra objetos que pertenceram aos antigos candomblés do Rio de Janeiro conhecidos como zungus ou casas de dar fortuna. Ali se cultuavam inkices (bantu), orixás (yorubá) e voduns (jêjemahi). Perseguidas pela polícia, as casas eram invadidas e tinham seus objetos confiscados e levados às delegacias como provas materiais da prática de rituais alegadamente proibidos. Os frequentadores dessas casas eram perseguidos e presos. Sabendo da existência desses objetos no depósito da Polícia da Corte, o então diretor do Museu Nacional, Ladislau Netto, interessou-se por eles e passou a pedir que lhe fossem enviados para estudo. Na década de 1880, o Museu Nacional formou uma coleção que guarda as antigas técnicas de metalurgia e o conhecimento da arte da escultura em madeira, exemplos materiais das práticas religiosas dessa última geração de africanos e de seus descendentes diretos.
O segundo segmento apresenta uma coleção de objetos do Candomblé Nagô da Bahia formada pela antropóloga Heloísa Alberto Torres, então diretora do Museu Nacional, em 1940 e complementada em 1953. O candomblé nagô foi elaborado por africanos escravizados de língua yorubá trazidos para a Bahia. As esculturas em madeira representando os orixás foram esculpidas pelo artesão José Afonso de Santa Isabel. Além das esculturas, integram a coleção um agogô, instrumento bastante difundido na África Ocidental, duas bonecas vestidas à moda das mulheres da Bahia nos anos de 1940 e alguns “banquinhos de igreja” que, no candomblé nagô, eram de uso das pessoas de menor hierarquia (a yalorixá ou mãe de santo, por exemplo, senta-se em uma grande cadeira).
O último segmento desta vitrine apresenta alguns trabalhos recentemente produzidos no Museu Nacional relativos a temas da presença africana no Brasil. Além do Setor de Etnologia e Etnografia, que organizou a exposição e vem desenvolvendo estudos sobre algumas coleções, destacamos as pesquisas do Setor de Antropologia Biológica, do Laboratório de Arqueologia (Casa de Pedras) e do Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento (LACED).
(...)
A vitrine se encerra exibindo um conjunto de três objetos de procedência não identificada a fim de exemplificar a dimensão do que ainda desconhecemos dos muitos caminhos que percorreram os objetos que hoje compõem a coleção Africana do Museu Nacional. Trata-se de um exemplar de um opelé ifá e de dois edans usados por grupos yorubá. A ausência de informações mais completas deixa em aberto um arco de dúvidas e de questionamentos que só a continuidade da pesquisa poderá responder. Por isso, além de ser um lugar de guarda do passado, um museu é também uma instituição de pesquisa, voltada para o futuro e para a produção de novos conhecimentos.
(Disponível em http://www.museunacional.ufrj.br/dir/exposicoes/etnologia/LivroKumbukumbu.pdf, acessoem 14/06/2018)
Glossário
- inkices, orixás e voduns: são divindades do candomblé denominadas de acordo com cada grupo étnico, a saber: bantu, yorubá e jêjemahi.
- opelé ifá: colar aberto composto de um fio trançado de palha-da-costa ou fio de algodão.
- edans: símbolo usado em torno do pescoço.
Nos trechos “O primeiro segmento mostra objetos (...)”, “O segundo segmento apresenta uma coleção de objetos (...)”, “O último segmento desta vitrine apresenta alguns trabalhos (...), o recurso linguístico utilizado com valor atemporal para explicar a composição de cada segmento é:
Questão 9 15458903
EPSJV Técnico em Saúde 2019TEXTO
Em 14 de maio de 2014, a exposição “Kumbukumbu – África, Memória e Patrimônio” foi aberta ao público no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para auxiliar o entendimento da organização da exposição durante as visitas, em especial, guiadas, a equipe do Setor de Etnologia e Etnografia (SEE) publicou o guia “Conhecendo a Exposição Kumbukumbu do Museu Nacional”. Nesta publicação, podemos ler:
A sala da exposição de longa duração do Museu Nacional destinada aos objetos africanos, agora denominada Kumbukumbu: África, memória e patrimônio, apresenta um acervo diversificado de objetos adquiridos por meio de doações, compras e permutas. Além da beleza e do significado antropológico das peças, a coleção tem ainda uma importância histórica por ser um dos mais antigos acervos africanos do Brasil. São objetos trazidos de diferentes partes do continente entre 1810 e 1940, acrescidos de outros que pertenceram ou foram produzidos por africanos ou seus descendentes diretos no Brasil entre 1880 e 1950. A palavra Kumbukumbu foi escolhida para nomear a exposição porque na língua swahili, uma das mais faladas no continente africano, pode ser traduzida por memória e patrimônio. Ao comentar a palavra Kumbukumbu a partir de sua experiência pessoal, um estudante da Tanzânia chamado Gatera Mudahizi Maurice explicou, também em swahili, o significado da palavra:
Kumbukumbu é uma palavra swahili que significa memória ou o ato de colecionar. Como a história é considerada o estudo do passado, historiadores coletam itens do passado de diferentes fontes. Todas as coleções e documentações dos acontecimentos passados reunidas formam um museu que, basicamente significa Kumbukumbu. As exposições dos museus são usadas para mostrar as memórias e as coleções de acontecimentos passados. Kumbukumbu nos faz lembrar o passado que nos dá um caminho para o futuro. A Tanzânia, por exemplo, tem um grande número de museus que mostram muitas memórias do passado.
Essa exposição traz a público, portanto, exemplos do patrimônio material africano e nos ajuda a conhecer a história de grupos que habitaram aquele continente. O elo com o passado dos povos africanos é construído através da pesquisa histórica e antropológica, hoje realizada pela equipe do Setor de Etnologia e Etnografia, que embasa e sustenta o presente trabalho e as informações aqui apresentadas.
A presença de africanos e de seus descendentes no Brasil está marcada pela violência da escravidão e pelo pós-abolição. A última vitrine da exposição trata do modo como os africanos se instalaram e recriaram seu mundo a partir do final do século XIX, em particular na Bahia e no Rio de Janeiro. A vitrine está dividida em três segmentos: as apreensões da Polícia da Corte, a coleção Heloísa Alberto Torres e os estudos recentes produzidos no Museu Nacional. O primeiro segmento mostra objetos que pertenceram aos antigos candomblés do Rio de Janeiro conhecidos como zungus ou casas de dar fortuna. Ali se cultuavam inkices (bantu), orixás (yorubá) e voduns (jêjemahi). Perseguidas pela polícia, as casas eram invadidas e tinham seus objetos confiscados e levados às delegacias como provas materiais da prática de rituais alegadamente proibidos. Os frequentadores dessas casas eram perseguidos e presos. Sabendo da existência desses objetos no depósito da Polícia da Corte, o então diretor do Museu Nacional, Ladislau Netto, interessou-se por eles e passou a pedir que lhe fossem enviados para estudo. Na década de 1880, o Museu Nacional formou uma coleção que guarda as antigas técnicas de metalurgia e o conhecimento da arte da escultura em madeira, exemplos materiais das práticas religiosas dessa última geração de africanos e de seus descendentes diretos.
O segundo segmento apresenta uma coleção de objetos do Candomblé Nagô da Bahia formada pela antropóloga Heloísa Alberto Torres, então diretora do Museu Nacional, em 1940 e complementada em 1953. O candomblé nagô foi elaborado por africanos escravizados de língua yorubá trazidos para a Bahia. As esculturas em madeira representando os orixás foram esculpidas pelo artesão José Afonso de Santa Isabel. Além das esculturas, integram a coleção um agogô, instrumento bastante difundido na África Ocidental, duas bonecas vestidas à moda das mulheres da Bahia nos anos de 1940 e alguns “banquinhos de igreja” que, no candomblé nagô, eram de uso das pessoas de menor hierarquia (a yalorixá ou mãe de santo, por exemplo, senta-se em uma grande cadeira).
O último segmento desta vitrine apresenta alguns trabalhos recentemente produzidos no Museu Nacional relativos a temas da presença africana no Brasil. Além do Setor de Etnologia e Etnografia, que organizou a exposição e vem desenvolvendo estudos sobre algumas coleções, destacamos as pesquisas do Setor de Antropologia Biológica, do Laboratório de Arqueologia (Casa de Pedras) e do Laboratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento (LACED).
(...)
A vitrine se encerra exibindo um conjunto de três objetos de procedência não identificada a fim de exemplificar a dimensão do que ainda desconhecemos dos muitos caminhos que percorreram os objetos que hoje compõem a coleção Africana do Museu Nacional. Trata-se de um exemplar de um opelé ifá e de dois edans usados por grupos yorubá. A ausência de informações mais completas deixa em aberto um arco de dúvidas e de questionamentos que só a continuidade da pesquisa poderá responder. Por isso, além de ser um lugar de guarda do passado, um museu é também uma instituição de pesquisa, voltada para o futuro e para a produção de novos conhecimentos.
(Disponível em http://www.museunacional.ufrj.br/dir/exposicoes/etnologia/LivroKumbukumbu.pdf, acessoem 14/06/2018)
Glossário
- inkices, orixás e voduns: são divindades do candomblé denominadas de acordo com cada grupo étnico, a saber: bantu, yorubá e jêjemahi.
- opelé ifá: colar aberto composto de um fio trançado de palha-da-costa ou fio de algodão.
- edans: símbolo usado em torno do pescoço.
Sobre o texto, podemos afirmar que:
Questão 6 15458890
EPSJV Técnico em Saúde 2019TEXTO
Cinco visões sobre os 130 anos da abolição
Sancionada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea – oficialmente Lei Imperial 3.353 -, aboliu a escravidão depois de mais de três séculos de trabalho forçado no Brasil. Em maio de 2018, marco dos 130 anos da assinatura do documento, o Jornal da Unicamp entrevistou cinco historiadores que realizaram suas pesquisas de doutorado junto ao Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (Cecult) da Universidade.
(...)
Os historiadores entrevistados são professores de departamentos de história de universidades públicas do país, e autores de volumes da coleção que abordam a escravidão em debates atualizados na perspectiva da história social.
De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Enquanto a mortalidade de pessoas não negras diminuiu 12,2% entre 2005 e 2015, a taxa de homicídios de pessoas negras aumentou 18,2% no mesmo período. Os dados são do Atlas da Violência publicado no ano passado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A publicação reúne dados de 2015 sobre as mortes violentas no país. De acordo com outro estudo também realizado pelo Ipea, as atrocidades contra a população negra não são mera consequência socioeconômica. Descontados os efeitos de idade, sexo, escolaridade, estado civil e bairro de residência, o cidadão negro tem chances 23,5% maiores de sofrer assassinato em relação a cidadãos não negros. Se os impactos de mais de três séculos de brutalidade contra a população negra no Brasil são visíveis até hoje, fica a indagação: temos o que comemorar?
Protagonismo negro
Para a historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, professora da Universidade de Brasília (UNB), o 13 de maio tem desencadeado intensas disputas de narrativas ao longo do tempo. Se, por um lado, o fim da legalidade da escravidão é um marco importante, por outro, a fragilidade crônica da cidadania para pessoas negras, já bem antes da abolição, faz com que as reflexões em torno da data não possam ser feitas em tom de simples comemorações. “O preconceito de cor, o ódio de raça, o racismo, têm figurado como elemento estruturante da sociabilidade brasileira e da formação de suas instituições”, defende.
A historiadora argumenta que o Brasil é um país em que a experiência de nacionalidade foi encaminhada mediante esforços sucessivos de subalternização e da negação das possibilidades de acesso aos direitos de mulheres e homens negros. Se por muito tempo se tentou negar as heranças nefastas do passado escravista de nossa sociedade, vivemos um momento da afirmação na produção acadêmica do protagonismo negro na luta pela liberdade, em contraponto à versão hegemonizada do 13 de maio como concessão imperial. “Uma conquista importante tem sido alcançada mediante os resultados de pesquisas que estabelecem diálogos com o passado em outros termos. Entre essas novas possibilidades, destacam-se os estudos sobre liberdade e pós-abolição”, afirma.
Ana Flávia retoma a participação importante de abolicionistas negros nas discussões do final do século XIX, que formularam projetos para o fim da escravidão e se posicionaram sobre as possibilidades de universalização da cidadania para todos os brasileiros. Figuras como Ferreira de Menezes, Luiz Gama, Machado de Assis, José do Patrocínio, Vicente de Souza, André Rebouças, entre tantos outros, refletiram a respeito das experiências da racialização e do racismo, e questionaram a viabilidade e a legitimidade de projetos de nação formulados pelas elites nacionais. “Essas informações são bastante relevantes no atual cenário, sobretudo para que possamos questionar a ideia de invisibilidade e ausência de homens e mulheres negras nas lutas políticas e institucionalizadas pelo fim da escravidão e outras agendas da cidadania no Brasil. O fato de projetos conservadores terem prevalecido sobre outros não pode ser entendido como a inexistência de outras possibilidades e dos sujeitos que a elas se dedicaram”, completa.
Estudos pós-abolição
Para Marcelo Balaban, professor do departamento de História da UNB, o 13 de maio é importante por celebrar um princípio, e reafirmar que a escravidão deve ser repudiada e combatida. No entanto, não se deve correr o risco de celebrar a data como um instante que marcou o fim da escravidão real. Em sua visão, 1888 instaurou o fim legal da instituição servil, uma vez que o trabalho escravo ainda é recorrente no país. A abolição definiu, então, o início de um novo e longo processo histórico de precarização das condições de vida e de ascensão social dos ex-cativos e seus descendentes. “Nesse sentido, a abolição da escravidão não foi um instante de reparação, ou de inclusão da população negra e mestiça no Brasil. O racismo assumiu novas formas, ganhou força e vem se reinventando desde então”, reflete o historiador. Os sentidos, conflitos e consequências desse processo recentemente vêm sendo estudados por um campo historiográfico, os estudos do pós-abolição.
(...)
O historiador defende que a data deve, então, ser entendida como um momento de reflexão sobre a força duradoura da segregação social da população negra iniciada durante o tempo da escravidão africana e continuada, ainda que de formas variadas, até os dias de hoje. “Essa segregação é, por vezes, menos evidente socialmente, e muitas vezes explícita, como no caso recente do violento assassinato da vereadora negra Marielle Franco”, relembra.
Direitos trabalhistas
O historiador Robério Santos Souza, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), salienta que em 1888 a maioria dos escravos já havia conquistado a liberdade, a partir de esforços próprios e muitas lutas. No entanto, naquele ano, o Brasil ainda era o último país das Américas a manter a escravidão. Ele pontua que, mesmo com o fim do regime escravista, as elites demonstravam o desejo de não abrir mão de sua política de domínio, insistiam em manter suas prerrogativas senhoriais, típicas do sistema escravista, mesmo na sociedade pós-abolição. “Isso colocava um árduo desafio para os recém-libertos: como viver em uma sociedade oficialmente sem escravidão, mas que insistia em manter condições e formas de trabalho que os faziam lembrar-se do sistema recém-abolido?”, questiona o historiador.
(...)
Na visão do historiador, a abolição inaugura uma nova fase na luta por cidadania e direitos pelos trabalhadores. Isso porque a população negra passa a enfrentar outras lutas, e algumas pautas continuam na agenda política até hoje, como a reforma agrária, que já era pautada no final do século XIX por alguns poucos abolicionistas como André Rebouças, o encarceramento e extermínio de jovens negros, e o racismo no Brasil. Afirma que em vez de promover políticas públicas, o Estado brasileiro e as elites, no pósabolição, foram habilidosos em estruturar a sociedade em hierarquias sociorraciais, mesmo sem criar leis segregacionistas, tal qual nos Estados Unidos e na África do Sul. Esse quadro, a seu ver, ajuda a explicar a desigualdade entre negros e brancos em relação a acesso a educação e saúde, ocupações, salário e, inclusive, a maior vulnerabilidade no mercado de trabalho (...).
A desigualdade no Brasil tem cor
Ricardo Figueiredo Pirola, professor da Unicamp e pesquisador do Cecult, retoma que a Lei Áurea colocou um fim definitivo ao sistema escravista existente no Brasil, e em 13 de maio de 1888 as pessoas foram às ruas em diferentes cidades do país para comemorar o acontecimento.
(...)
O historiador pontua que, às vésperas da abolição, havia propostas, por exemplo, de se prolongar a escravidão até o começo do século XX. Os proprietários da província do Rio de Janeiro, entre outros, resistiram ao avanço do abolicionismo no país. “Seus representantes no legislativo nacional proferiram discursos inflamados contra a abolição. Também em São Paulo, que juntamente com o Rio de Janeiro e Minas Gerais eram as três províncias com maior número de escravos em 1888, a resistência senhorial contra o movimento abolicionista arrefeceu apenas depois das fugas em massa de escravos das fazendas”, salienta. Dessa forma, em sua opinião, seria um erro pensarmos a abolição como uma dádiva da princesa Isabel. Trata-se, então, de um evento complexo em que a resistência imposta pelos escravizados e a luta conduzida por livres abolicionistas tiveram papel decisivo no seu desfecho em 13 de maio de 1888.
Ele defende ainda que a desigualdade social no Brasil tem cor. “Negros e pardos, por exemplo, apresentam taxas maiores de desemprego do que a média nacional, ganham salários menores e raramente ocupam cargos de mando ou chefia em empresas. Nada disso é fortuito. É resultado de um desenrolar histórico que assentou a dominação e exclusão de grande parte da população a partir de padrões raciais”, conclui.
A capilaridade do racismo
Professora do departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Joseli Maria Nunes Mendonça defende que a data deva ser sempre comemorada. “O fato de a escravidão não ser mais uma instituição legalmente aceita em nossa sociedade não é pouca coisa”, afirma. Para ela, ainda que a abolição tenha resultado de muitas lutas travadas também pela própria população escravizada, o processo não se encerrou com a sanção da lei.
A professora destaca o combate às situações de trabalho análogas à escravidão, ainda bastante frequentes no país, e ao racismo que, em sua visão, passou a ser o principal instrumento de segregação da população negra, quando a escravidão deixa de ser a condição pela qual a discriminação se efetiva.
(...)
Joseli refuta o argumento das “heranças da escravidão”, e atribui o racismo dos tempos atuais fundamentalmente às políticas instauradas após a abolição. Para ela, isso se constata facilmente na força da oposição que as políticas afirmativas de reparação étnico-raciais recebem dos grupos que se pretendem hegemônicos. “Esse processo histórico instituiu o racismo como uma praga que tem em nossa sociedade uma capilaridade inimaginável. Ele é resultado de injustiças reiteradas caprichosa e perniciosamente nesses 130 anos que nos distanciam da abolição”, arremata.
(Disponível em https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2018/05/14/cinco-visoes-sobre-os-130-anos-daabolicao, acesso em 14/09/2017)
Vocabulário
Arrefecer - desanimar ou provocar o desânimo de
No último parágrafo do texto, as palavras capilaridade e perniciosamente podem ser substituídas, sem alteração de sentido, respectivamente, por:
Questão 5 15458885
EPSJV Técnico em Saúde 2019TEXTO
Cinco visões sobre os 130 anos da abolição
Sancionada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea – oficialmente Lei Imperial 3.353 -, aboliu a escravidão depois de mais de três séculos de trabalho forçado no Brasil. Em maio de 2018, marco dos 130 anos da assinatura do documento, o Jornal da Unicamp entrevistou cinco historiadores que realizaram suas pesquisas de doutorado junto ao Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (Cecult) da Universidade.
(...)
Os historiadores entrevistados são professores de departamentos de história de universidades públicas do país, e autores de volumes da coleção que abordam a escravidão em debates atualizados na perspectiva da história social.
De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Enquanto a mortalidade de pessoas não negras diminuiu 12,2% entre 2005 e 2015, a taxa de homicídios de pessoas negras aumentou 18,2% no mesmo período. Os dados são do Atlas da Violência publicado no ano passado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A publicação reúne dados de 2015 sobre as mortes violentas no país. De acordo com outro estudo também realizado pelo Ipea, as atrocidades contra a população negra não são mera consequência socioeconômica. Descontados os efeitos de idade, sexo, escolaridade, estado civil e bairro de residência, o cidadão negro tem chances 23,5% maiores de sofrer assassinato em relação a cidadãos não negros. Se os impactos de mais de três séculos de brutalidade contra a população negra no Brasil são visíveis até hoje, fica a indagação: temos o que comemorar?
Protagonismo negro
Para a historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, professora da Universidade de Brasília (UNB), o 13 de maio tem desencadeado intensas disputas de narrativas ao longo do tempo. Se, por um lado, o fim da legalidade da escravidão é um marco importante, por outro, a fragilidade crônica da cidadania para pessoas negras, já bem antes da abolição, faz com que as reflexões em torno da data não possam ser feitas em tom de simples comemorações. “O preconceito de cor, o ódio de raça, o racismo, têm figurado como elemento estruturante da sociabilidade brasileira e da formação de suas instituições”, defende.
A historiadora argumenta que o Brasil é um país em que a experiência de nacionalidade foi encaminhada mediante esforços sucessivos de subalternização e da negação das possibilidades de acesso aos direitos de mulheres e homens negros. Se por muito tempo se tentou negar as heranças nefastas do passado escravista de nossa sociedade, vivemos um momento da afirmação na produção acadêmica do protagonismo negro na luta pela liberdade, em contraponto à versão hegemonizada do 13 de maio como concessão imperial. “Uma conquista importante tem sido alcançada mediante os resultados de pesquisas que estabelecem diálogos com o passado em outros termos. Entre essas novas possibilidades, destacam-se os estudos sobre liberdade e pós-abolição”, afirma.
Ana Flávia retoma a participação importante de abolicionistas negros nas discussões do final do século XIX, que formularam projetos para o fim da escravidão e se posicionaram sobre as possibilidades de universalização da cidadania para todos os brasileiros. Figuras como Ferreira de Menezes, Luiz Gama, Machado de Assis, José do Patrocínio, Vicente de Souza, André Rebouças, entre tantos outros, refletiram a respeito das experiências da racialização e do racismo, e questionaram a viabilidade e a legitimidade de projetos de nação formulados pelas elites nacionais. “Essas informações são bastante relevantes no atual cenário, sobretudo para que possamos questionar a ideia de invisibilidade e ausência de homens e mulheres negras nas lutas políticas e institucionalizadas pelo fim da escravidão e outras agendas da cidadania no Brasil. O fato de projetos conservadores terem prevalecido sobre outros não pode ser entendido como a inexistência de outras possibilidades e dos sujeitos que a elas se dedicaram”, completa.
Estudos pós-abolição
Para Marcelo Balaban, professor do departamento de História da UNB, o 13 de maio é importante por celebrar um princípio, e reafirmar que a escravidão deve ser repudiada e combatida. No entanto, não se deve correr o risco de celebrar a data como um instante que marcou o fim da escravidão real. Em sua visão, 1888 instaurou o fim legal da instituição servil, uma vez que o trabalho escravo ainda é recorrente no país. A abolição definiu, então, o início de um novo e longo processo histórico de precarização das condições de vida e de ascensão social dos ex-cativos e seus descendentes. “Nesse sentido, a abolição da escravidão não foi um instante de reparação, ou de inclusão da população negra e mestiça no Brasil. O racismo assumiu novas formas, ganhou força e vem se reinventando desde então”, reflete o historiador. Os sentidos, conflitos e consequências desse processo recentemente vêm sendo estudados por um campo historiográfico, os estudos do pós-abolição.
(...)
O historiador defende que a data deve, então, ser entendida como um momento de reflexão sobre a força duradoura da segregação social da população negra iniciada durante o tempo da escravidão africana e continuada, ainda que de formas variadas, até os dias de hoje. “Essa segregação é, por vezes, menos evidente socialmente, e muitas vezes explícita, como no caso recente do violento assassinato da vereadora negra Marielle Franco”, relembra.
Direitos trabalhistas
O historiador Robério Santos Souza, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), salienta que em 1888 a maioria dos escravos já havia conquistado a liberdade, a partir de esforços próprios e muitas lutas. No entanto, naquele ano, o Brasil ainda era o último país das Américas a manter a escravidão. Ele pontua que, mesmo com o fim do regime escravista, as elites demonstravam o desejo de não abrir mão de sua política de domínio, insistiam em manter suas prerrogativas senhoriais, típicas do sistema escravista, mesmo na sociedade pós-abolição. “Isso colocava um árduo desafio para os recém-libertos: como viver em uma sociedade oficialmente sem escravidão, mas que insistia em manter condições e formas de trabalho que os faziam lembrar-se do sistema recém-abolido?”, questiona o historiador.
(...)
Na visão do historiador, a abolição inaugura uma nova fase na luta por cidadania e direitos pelos trabalhadores. Isso porque a população negra passa a enfrentar outras lutas, e algumas pautas continuam na agenda política até hoje, como a reforma agrária, que já era pautada no final do século XIX por alguns poucos abolicionistas como André Rebouças, o encarceramento e extermínio de jovens negros, e o racismo no Brasil. Afirma que em vez de promover políticas públicas, o Estado brasileiro e as elites, no pósabolição, foram habilidosos em estruturar a sociedade em hierarquias sociorraciais, mesmo sem criar leis segregacionistas, tal qual nos Estados Unidos e na África do Sul. Esse quadro, a seu ver, ajuda a explicar a desigualdade entre negros e brancos em relação a acesso a educação e saúde, ocupações, salário e, inclusive, a maior vulnerabilidade no mercado de trabalho (...).
A desigualdade no Brasil tem cor
Ricardo Figueiredo Pirola, professor da Unicamp e pesquisador do Cecult, retoma que a Lei Áurea colocou um fim definitivo ao sistema escravista existente no Brasil, e em 13 de maio de 1888 as pessoas foram às ruas em diferentes cidades do país para comemorar o acontecimento.
(...)
O historiador pontua que, às vésperas da abolição, havia propostas, por exemplo, de se prolongar a escravidão até o começo do século XX. Os proprietários da província do Rio de Janeiro, entre outros, resistiram ao avanço do abolicionismo no país. “Seus representantes no legislativo nacional proferiram discursos inflamados contra a abolição. Também em São Paulo, que juntamente com o Rio de Janeiro e Minas Gerais eram as três províncias com maior número de escravos em 1888, a resistência senhorial contra o movimento abolicionista arrefeceu apenas depois das fugas em massa de escravos das fazendas”, salienta. Dessa forma, em sua opinião, seria um erro pensarmos a abolição como uma dádiva da princesa Isabel. Trata-se, então, de um evento complexo em que a resistência imposta pelos escravizados e a luta conduzida por livres abolicionistas tiveram papel decisivo no seu desfecho em 13 de maio de 1888.
Ele defende ainda que a desigualdade social no Brasil tem cor. “Negros e pardos, por exemplo, apresentam taxas maiores de desemprego do que a média nacional, ganham salários menores e raramente ocupam cargos de mando ou chefia em empresas. Nada disso é fortuito. É resultado de um desenrolar histórico que assentou a dominação e exclusão de grande parte da população a partir de padrões raciais”, conclui.
A capilaridade do racismo
Professora do departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Joseli Maria Nunes Mendonça defende que a data deva ser sempre comemorada. “O fato de a escravidão não ser mais uma instituição legalmente aceita em nossa sociedade não é pouca coisa”, afirma. Para ela, ainda que a abolição tenha resultado de muitas lutas travadas também pela própria população escravizada, o processo não se encerrou com a sanção da lei.
A professora destaca o combate às situações de trabalho análogas à escravidão, ainda bastante frequentes no país, e ao racismo que, em sua visão, passou a ser o principal instrumento de segregação da população negra, quando a escravidão deixa de ser a condição pela qual a discriminação se efetiva.
(...)
Joseli refuta o argumento das “heranças da escravidão”, e atribui o racismo dos tempos atuais fundamentalmente às políticas instauradas após a abolição. Para ela, isso se constata facilmente na força da oposição que as políticas afirmativas de reparação étnico-raciais recebem dos grupos que se pretendem hegemônicos. “Esse processo histórico instituiu o racismo como uma praga que tem em nossa sociedade uma capilaridade inimaginável. Ele é resultado de injustiças reiteradas caprichosa e perniciosamente nesses 130 anos que nos distanciam da abolição”, arremata.
(Disponível em https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2018/05/14/cinco-visoes-sobre-os-130-anos-daabolicao, acesso em 14/09/2017)
Vocabulário
Arrefecer - desanimar ou provocar o desânimo de
No trecho “Isso colocava um árduo desafio para os recém-libertos: como viver em uma sociedade oficialmente sem escravidão, mas que insistia em manter condições e formas de trabalho que os faziam lembrar-se do sistema recém-abolido?” (90 parágrafo), a ideia predominante é a de:
Questão 4 15458878
EPSJV Técnico em Saúde 2019TEXTO
Cinco visões sobre os 130 anos da abolição
Sancionada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea – oficialmente Lei Imperial 3.353 -, aboliu a escravidão depois de mais de três séculos de trabalho forçado no Brasil. Em maio de 2018, marco dos 130 anos da assinatura do documento, o Jornal da Unicamp entrevistou cinco historiadores que realizaram suas pesquisas de doutorado junto ao Centro de Pesquisa em História Social da Cultura (Cecult) da Universidade.
(...)
Os historiadores entrevistados são professores de departamentos de história de universidades públicas do país, e autores de volumes da coleção que abordam a escravidão em debates atualizados na perspectiva da história social.
De cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. Enquanto a mortalidade de pessoas não negras diminuiu 12,2% entre 2005 e 2015, a taxa de homicídios de pessoas negras aumentou 18,2% no mesmo período. Os dados são do Atlas da Violência publicado no ano passado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A publicação reúne dados de 2015 sobre as mortes violentas no país. De acordo com outro estudo também realizado pelo Ipea, as atrocidades contra a população negra não são mera consequência socioeconômica. Descontados os efeitos de idade, sexo, escolaridade, estado civil e bairro de residência, o cidadão negro tem chances 23,5% maiores de sofrer assassinato em relação a cidadãos não negros. Se os impactos de mais de três séculos de brutalidade contra a população negra no Brasil são visíveis até hoje, fica a indagação: temos o que comemorar?
Protagonismo negro
Para a historiadora Ana Flávia Magalhães Pinto, professora da Universidade de Brasília (UNB), o 13 de maio tem desencadeado intensas disputas de narrativas ao longo do tempo. Se, por um lado, o fim da legalidade da escravidão é um marco importante, por outro, a fragilidade crônica da cidadania para pessoas negras, já bem antes da abolição, faz com que as reflexões em torno da data não possam ser feitas em tom de simples comemorações. “O preconceito de cor, o ódio de raça, o racismo, têm figurado como elemento estruturante da sociabilidade brasileira e da formação de suas instituições”, defende.
A historiadora argumenta que o Brasil é um país em que a experiência de nacionalidade foi encaminhada mediante esforços sucessivos de subalternização e da negação das possibilidades de acesso aos direitos de mulheres e homens negros. Se por muito tempo se tentou negar as heranças nefastas do passado escravista de nossa sociedade, vivemos um momento da afirmação na produção acadêmica do protagonismo negro na luta pela liberdade, em contraponto à versão hegemonizada do 13 de maio como concessão imperial. “Uma conquista importante tem sido alcançada mediante os resultados de pesquisas que estabelecem diálogos com o passado em outros termos. Entre essas novas possibilidades, destacam-se os estudos sobre liberdade e pós-abolição”, afirma.
Ana Flávia retoma a participação importante de abolicionistas negros nas discussões do final do século XIX, que formularam projetos para o fim da escravidão e se posicionaram sobre as possibilidades de universalização da cidadania para todos os brasileiros. Figuras como Ferreira de Menezes, Luiz Gama, Machado de Assis, José do Patrocínio, Vicente de Souza, André Rebouças, entre tantos outros, refletiram a respeito das experiências da racialização e do racismo, e questionaram a viabilidade e a legitimidade de projetos de nação formulados pelas elites nacionais. “Essas informações são bastante relevantes no atual cenário, sobretudo para que possamos questionar a ideia de invisibilidade e ausência de homens e mulheres negras nas lutas políticas e institucionalizadas pelo fim da escravidão e outras agendas da cidadania no Brasil. O fato de projetos conservadores terem prevalecido sobre outros não pode ser entendido como a inexistência de outras possibilidades e dos sujeitos que a elas se dedicaram”, completa.
Estudos pós-abolição
Para Marcelo Balaban, professor do departamento de História da UNB, o 13 de maio é importante por celebrar um princípio, e reafirmar que a escravidão deve ser repudiada e combatida. No entanto, não se deve correr o risco de celebrar a data como um instante que marcou o fim da escravidão real. Em sua visão, 1888 instaurou o fim legal da instituição servil, uma vez que o trabalho escravo ainda é recorrente no país. A abolição definiu, então, o início de um novo e longo processo histórico de precarização das condições de vida e de ascensão social dos ex-cativos e seus descendentes. “Nesse sentido, a abolição da escravidão não foi um instante de reparação, ou de inclusão da população negra e mestiça no Brasil. O racismo assumiu novas formas, ganhou força e vem se reinventando desde então”, reflete o historiador. Os sentidos, conflitos e consequências desse processo recentemente vêm sendo estudados por um campo historiográfico, os estudos do pós-abolição.
(...)
O historiador defende que a data deve, então, ser entendida como um momento de reflexão sobre a força duradoura da segregação social da população negra iniciada durante o tempo da escravidão africana e continuada, ainda que de formas variadas, até os dias de hoje. “Essa segregação é, por vezes, menos evidente socialmente, e muitas vezes explícita, como no caso recente do violento assassinato da vereadora negra Marielle Franco”, relembra.
Direitos trabalhistas
O historiador Robério Santos Souza, professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), salienta que em 1888 a maioria dos escravos já havia conquistado a liberdade, a partir de esforços próprios e muitas lutas. No entanto, naquele ano, o Brasil ainda era o último país das Américas a manter a escravidão. Ele pontua que, mesmo com o fim do regime escravista, as elites demonstravam o desejo de não abrir mão de sua política de domínio, insistiam em manter suas prerrogativas senhoriais, típicas do sistema escravista, mesmo na sociedade pós-abolição. “Isso colocava um árduo desafio para os recém-libertos: como viver em uma sociedade oficialmente sem escravidão, mas que insistia em manter condições e formas de trabalho que os faziam lembrar-se do sistema recém-abolido?”, questiona o historiador.
(...)
Na visão do historiador, a abolição inaugura uma nova fase na luta por cidadania e direitos pelos trabalhadores. Isso porque a população negra passa a enfrentar outras lutas, e algumas pautas continuam na agenda política até hoje, como a reforma agrária, que já era pautada no final do século XIX por alguns poucos abolicionistas como André Rebouças, o encarceramento e extermínio de jovens negros, e o racismo no Brasil. Afirma que em vez de promover políticas públicas, o Estado brasileiro e as elites, no pósabolição, foram habilidosos em estruturar a sociedade em hierarquias sociorraciais, mesmo sem criar leis segregacionistas, tal qual nos Estados Unidos e na África do Sul. Esse quadro, a seu ver, ajuda a explicar a desigualdade entre negros e brancos em relação a acesso a educação e saúde, ocupações, salário e, inclusive, a maior vulnerabilidade no mercado de trabalho (...).
A desigualdade no Brasil tem cor
Ricardo Figueiredo Pirola, professor da Unicamp e pesquisador do Cecult, retoma que a Lei Áurea colocou um fim definitivo ao sistema escravista existente no Brasil, e em 13 de maio de 1888 as pessoas foram às ruas em diferentes cidades do país para comemorar o acontecimento.
(...)
O historiador pontua que, às vésperas da abolição, havia propostas, por exemplo, de se prolongar a escravidão até o começo do século XX. Os proprietários da província do Rio de Janeiro, entre outros, resistiram ao avanço do abolicionismo no país. “Seus representantes no legislativo nacional proferiram discursos inflamados contra a abolição. Também em São Paulo, que juntamente com o Rio de Janeiro e Minas Gerais eram as três províncias com maior número de escravos em 1888, a resistência senhorial contra o movimento abolicionista arrefeceu apenas depois das fugas em massa de escravos das fazendas”, salienta. Dessa forma, em sua opinião, seria um erro pensarmos a abolição como uma dádiva da princesa Isabel. Trata-se, então, de um evento complexo em que a resistência imposta pelos escravizados e a luta conduzida por livres abolicionistas tiveram papel decisivo no seu desfecho em 13 de maio de 1888.
Ele defende ainda que a desigualdade social no Brasil tem cor. “Negros e pardos, por exemplo, apresentam taxas maiores de desemprego do que a média nacional, ganham salários menores e raramente ocupam cargos de mando ou chefia em empresas. Nada disso é fortuito. É resultado de um desenrolar histórico que assentou a dominação e exclusão de grande parte da população a partir de padrões raciais”, conclui.
A capilaridade do racismo
Professora do departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Joseli Maria Nunes Mendonça defende que a data deva ser sempre comemorada. “O fato de a escravidão não ser mais uma instituição legalmente aceita em nossa sociedade não é pouca coisa”, afirma. Para ela, ainda que a abolição tenha resultado de muitas lutas travadas também pela própria população escravizada, o processo não se encerrou com a sanção da lei.
A professora destaca o combate às situações de trabalho análogas à escravidão, ainda bastante frequentes no país, e ao racismo que, em sua visão, passou a ser o principal instrumento de segregação da população negra, quando a escravidão deixa de ser a condição pela qual a discriminação se efetiva.
(...)
Joseli refuta o argumento das “heranças da escravidão”, e atribui o racismo dos tempos atuais fundamentalmente às políticas instauradas após a abolição. Para ela, isso se constata facilmente na força da oposição que as políticas afirmativas de reparação étnico-raciais recebem dos grupos que se pretendem hegemônicos. “Esse processo histórico instituiu o racismo como uma praga que tem em nossa sociedade uma capilaridade inimaginável. Ele é resultado de injustiças reiteradas caprichosa e perniciosamente nesses 130 anos que nos distanciam da abolição”, arremata.
(Disponível em https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2018/05/14/cinco-visoes-sobre-os-130-anos-daabolicao, acesso em 14/09/2017)
Vocabulário
Arrefecer - desanimar ou provocar o desânimo de
Segundo o historiador Marcelo Balaban, “O racismo assumiu novas formas, ganhou força e vem se reinventando desde então”.
Sendo assim, qual das manchetes abaixo NÃO ilustra a presença de racismo na sociedade brasileira?
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