Questões de EFAF História
7.715 Questões
Questão 9 16208984
ONHB Fase 4 2023Seguro você vive melhor

Ficha técnica TIPO DE DOCUMENTO: Propaganda ORIGEM: Revólver Taurus (Mesbla) - Anos 80 - Propagandas Históricas | Propagandas Antigas. Disponível em: https://www.propagandashistoricas.com.br/2018/02/revolver-taurus-mesbla-anos-80.html. Acesso em: 19 fev. 2023. CRÉDITOS: Propagandas Históricas | Propagandas Antigas. PALAVRAS-CHAVE: armamento, propaganda
Especialistas veem perigo em armar cidadãos e atiradores esperam mais incentivos do governo
O presidente Jair Bolsonaro tem se empenhado em cumprir a promessa eleitoral de facilitar o acesso dos brasileiros às armas de fogo. Desde que assumiu o Palácio do Planalto, em janeiro de 2019, assinou em torno em 30 normas que, entre outras mudanças, abrandaram as exigências para a posse e o porte, aumentaram a quantidade de armas e munições que o cidadão pode possuir, liberaram o comércio de armas antes restritas às forças de segurança pública e dificultaram a fiscalização e o rastreio de balas.
A nova política federal vai no caminho contrário ao do Estatuto do Desarmamento, de 2003, que havia endurecido as exigências e afastado as armas da população. O estatuto permanece em vigor, mas parte de suas regras foi afetada pelas recentes medidas presidenciais.
Como resultado da guinada, este é o momento de toda a história nacional em que existem mais armas nas mãos de cidadãos comuns. Em 2019 e 2020, os brasileiros registraram 320 mil novas armas na Polícia Federal. De 2012 a 2018, o total havia sido de 303 mil. As autorizações concedidas pelo Exército a caçadores, atiradores esportivos e colecionadores de armas também bateram recorde no atual governo — 160 mil nos últimos dois anos contra 70 mil nos sete anos anteriores. O mercado de armas e munições, tanto as de origem nacional quanto as importadas, está extraordinariamente aquecido. Estudiosos da segurança pública veem com preocupação o armamento da população. De acordo com eles, a literatura científica mostra que mais revólveres, pistolas e afins circulando na sociedade necessariamente pioram as estatísticas de violência letal. Para atiradores, ao contrário, Bolsonaro age de forma acertada. Eles entendem que o cidadão precisa estar armado para proteger sua vida e seu patrimônio.

De acordo com Melina Risso, uma das diretoras do Instituto Igarapé (ONG dedicada à segurança pública e aos direitos humanos), a única política pública de Bolsonaro para a área da segurança é a disseminação das armas.
— Quando anuncia que as pessoas têm que se defender com as próprias mãos, o governo está dizendo: ’Esse não é meu trabalho. Vocês que se virem’. Na verdade, o governo está enganando as pessoas. A segurança pública é uma das primeiras responsabilidades do Estado e não pode ser terceirizada para os cidadãos — afirma Risso. — Ao mesmo tempo, o governo vem destruindo a política de segurança que havia sido construída até 2018 com a participação da sociedade civil, dos gestores públicos e das polícias. Tivemos, por exemplo, a aprovação do Sistema Único de Segurança Pública e o estabelecimento de fontes de financiamento para o setor. São avanços vêm sendo sistematicamente ignorados. De acordo com Risso, as armas nas mãos de civis, em vez de diminuírem a criminalidade, apenas aumentam o número de mortes — sejam homicídios e suicídios, sejam acidentes domésticos. Uma briga de trânsito que na pior hipótese acabaria em agressão física, por exemplo, poderá resultar em assassinato caso um dos envolvidos tenha um revólver dentro do carro.
Um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que, nos 14 anos anteriores ao Estatuto do Desarmamento, os assassinatos por tiro no Brasil subiam 5,5% anualmente. Nos 14 anos seguintes, passaram a subir apenas 0,85% a cada ano. As mortes só não caíram mais porque a criminalidade não depende apenas do número de armas à mão, mas de uma série de outros fatores, como o desemprego, a evasão escolar e a corrupção policial. O Ipea também indicou que, cada vez que o número de armas de fogo em circulação no país sobe 1%, a taxa de homicídios se eleva em 2%.
Ficha técnica TIPO DE DOCUMENTO: Jorna eletrônico ORIGEM: WESTIN, Ricardo. “Especialistas veem perigo em armar cidadãos, e atiradores esperam mais incentivos do governo”. Agência Senado, 18/03/2021. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2021/03/especialistas-veem-perigoem-armar-cidadaos-e-atiradores-esperam-mais-incentivos-do-governo. Acesso em: 19 fev. 2023. CRÉDITOS: Ricardo Westin; Agência Senado. PALAVRAS-CHAVE: armamento, legislação
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Questão 8 16208981
ONHB Fase 4 2023Leia os documentos a respeito da criação do Museu Republicano “Convenção de Itu”, na cidade de Itu, no interior de São Paulo, em 1923.
Museu Republicano
Para homenagear as virtudes cívicas dos convencionais de 1873, reunidos em Itu, o governo paulista criou um museu no mesmo prédio onde eles se encontraram. (...) A ideia deve ser ótima. Mas o que poderá conter um Museu Republicano no Brasil? Que espécies de troféus, que sorte de relíquias, que incunábulos preciosos, que documentos de alto valor se guardarão lá dentro? Eis que esperamos seja plenamente elucidado. (...)
Ficha técnica TIPO DE DOCUMENTO: Jornal ORIGEM: Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 18 de abril de 1923, Anno XLVIII, n. 88, p.1. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=103730_05&pagfis=8495. Acesso em: 19 fev. 2023. CRÉDITOS: Gazeta de Notícias; Hemeroteca digital. GLOSSÁRIO: Incunábulos : Obra impressa que data da origem da imprensa (anterior a 1500). PALAVRAS-CHAVE: museus, brasil república, efemérides
Museu Republicano
Itu, cidade histórica, cheia de tradições, orgulha-se de ter sido o berço de vulto proeminentes da história brasileira que, pelos seus grandes feitos, se tornaram salientes, estrelas luminosas a brilhar no céu da pátria.
Quem negará que foi nesse abençoado solo paulista que nasceu a ideia da Independência do Brasil, valentemente apoiada por Feijó e Paula Souza, e que grato a esse festo, D. Pedro I agalardoou o título de “Fidelíssima”.
Foi aí, ainda que mais tarde, a Convenção de Itu, reunida em 18 de abril de 1873, firmava os alicerces do monumento de 15 de novembro de 1889.
A fama dessa cidade historica, repercutiu no estrangeiro, por ter sido aí que floresceram ituanos ilustres e também tiveram movimentos mais notáveis do Brasil-Imperio e do Brasil-república.
No edifício onde se realizou a assembleia memorável que ficou gravada nas páginas de nossa história, foi fundado, há meia dúzia de anos, um museu pelo Sr. Dr. Washington Luís, atual presidente da República.
A ele, pois, se deve essa iniciativa que muito honra o nosso Estado e que jamais será esquecida pelos ituanos.
Ficha técnica TIPO DE DOCUMENTO: Jornal ORIGEM: O Malho, Rio de Janeiro, 13 de abril de 1929, Anno XXVIII, núm. 1387, p. 6. Disponível em: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/malho/malho_1929/malho_1387.pdf. Acesso em: 19 fev. 2023. CRÉDITOS: O Malho; Hemeroteca digital. GLOSSÁRIO: Agalardoou : premiou. PALAVRAS-CHAVE: museus, efemérides, brasil república
A criação do Museu Republicano
Questão 7 16208976
ONHB Fase 4 2023A exposição Ausenc’as é composta por fotografias do argentino Gustavo Germano. Em 2015 ela esteve em cartaz no Memorial da Resistência de São Paulo. Observe uma das fotografias que a compõem, e em seguida, leia a biografia de Luiz Eurico Tejera Lisbôa, que aparece na primeira fotografia .
Luiz Eurico Tejera Lisbôa (Ausenc’as, 2015)

Porto alegre, 7 de março de 1969. Suzana e sua mãe posavam ao lado de Luiz Eurico. Estavam em um apartamento na Fernandes Vieira, número 583. A filha deixava a casa dos pais em companhia do namorado. Eles seguiriam até o registro civil, onde se casariam naquele dia.
Ficha técnica TIPO DE DOCUMENTO: Fotografia ORIGEM: Luiz Eurico Tejera Lisbôa, 2012. Folder da Exposição Temporária Ausênc’as, do Memorial da Resitência de São Paulo (2015), Gustavo Germano. CRÉDITOS: Gustavo Germano PALAVRAS-CHAVE: fotografia, ditadura civil-militar
Luiz Eurico Tejera Lisbôa
Primogênito de sete irmãos, sendo um deles o músico Nei Lisboa, iniciou sua militância política na Juventude Estudantil Católica. Integrou o Partido Comunista Brasileiro (PCB), a Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares (VAR-Palmares) e a Ação Libertadora Nacional (ALN). Estudou no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, em Porto Alegre, centro da efervescência do movimento estudantil secundarista, onde fez parte do Grêmio Estudantil e acabou expulso, junto com outros colegas, por motivos políticos.
Mudou-se para Santa Maria e foi membro da diretoria da União Gaúcha dos Estudantes Secundários. Em 1969, casou-se com Suzana Keniger Lisboa e começou a trabalhar como escriturário no Serviço Nacional de Indústrias (Senai). Porém, em outubro do mesmo ano, foi condenado à revelia a seis meses de prisão com base na Lei de Segurança Nacional, o que levou o casal a optar pela clandestinidade.
Esteve algum tempo em Cuba, retornando ao Brasil em 1971, na tentativa de reorganizar a ALN em Porto Alegre. Foi preso em circunstâncias desconhecidas em São Paulo, na primeira semana de setembro de 1972, e está desaparecido desde então. Supõe-se que tenha morrido poucos dias depois, sob tortura, aos 24 anos de idade.
Somente em junho de 1979, o Comitê Brasileiro pela Anistia conseguiu localizar o corpo de Luiz Eurico, enterrado com o nome de Nelson Bueno, no Cemitério Dom Bosco, em Perus, São Paulo. Dentre os desaparecidos políticos do período da ditadura militar, ele foi o primeiro cujo corpo foi encontrado. Pouco depois, uma foto de Luiz Eurico foi capa de várias revistas nacionais, e a carta escrita por sua mãe, Clélia Tejera Lisboa, com o título “Não choro de pena de meu filho”, tornou-se um símbolo da luta pela anistia e pelo reconhecimento da existência dos desaparecidos políticos no Brasil. Em 1993, a Editora Tchê, em parceria com o Instituto Estadual do Livro do Rio Grande do Sul, publicou o livro “Condições ideais para o amor”, com poesias e cartas de Luiz Eurico Tejera Lisboa e depoimentos de pessoas que o conheceram. Em junho de 2013, um laudo da Comissão Nacional da Verdade refutou a versão oficial de que Luiz Eurico tinha cometido suicídio.
Ficha técnica TIPO DE DOCUMENTO: Biografia ORIGEM: Luiz Eurico Tejera Lisbôa. Site Memórias da Ditadura. Instituto Vladimir Herzog. Disponível em: https://memoriasdaditadura.org.br/biografias-da-resistencia/luiz-eurico-tejera-lisboa/. CRÉDITOS: Instituto Vladimir Herzog PALAVRAS-CHAVE: ditadura civil-militar, biografia
Sobre os documentos e os temas que eles suscitam, escolha uma alternativa.
Questão 6 16208967
ONHB Fase 4 2023Boletim da Libertadora Norte-Rio Grandense

Transcrição de trechos do documento:
QUADRO DE HONRA
MUNICIPIOS LIVRES – Mossoró, Caraúbas, Triunmpho
CIDADES LIVRES – Assú, Penha, Jardim
VILLAS LIVRES – Macahyba, Papary
POVOAÇÕES LIVRES - Utinga
——
À PROVINCIA
MANIFESTO ABOLICIONISTA
Povo Rio-Grandense – briosos filhos do norte!
Não vêdes como da consciência de cada cidadão se ergue uma chamma ardente e fulgida , que se vai reunir na alma collectiva do povo soberano, formando um vasto e glorioso incêndio de patriotismo?
Não vêdes como desmorona, esfacelado e podre, o colosso do escravismo, que a consciência publica não pode mais encarar, sem pejo e sem horror?
Não vêdes como o país inteiro se pronuncia pela morte de uma instituição, que cava entre a nossa querida pátria e o resto do mundo culto, um valle profundissimo de trevas e lagrimas que só as flores virentes da liberdade poderão encher e occultar aos olhos do futuro?
Não vêdes como esperamos, trêmulos e envergonhados, os severos juízes da historia, quando ella ensinar aos olhos do porvir, que nessa terra a escravidão fez penetrar tão fundo as suas envenenadas raizes, que cem annos depois da revolução franceza ainda os homens se dividião em escravos e senhores?”
Ficha técnica TIPO DE DOCUMENTO: Jornal ORIGEM: Boletim da Libertadora Norte-Rio Grandense. Natal, 8 de janeiro de 1888, num. 1, p. 3-4. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/717630/1. Acesso em: 18 fev. 2023. CRÉDITOS: Hemeroteca digital GLOSSÁRIO: Fulgida : que emite luz, brilhante, cintilante. Pejo : sentimento de pudor, vergonha. Virentes : verde, verdejante. PALAVRAS-CHAVE: escravidão, propaganda, imprensa
O documento
Questão 5 16208961
ONHB Fase 4 2023Outro rapaz morre com a peste-gay

Ficha técnica TIPO DE DOCUMENTO: Jornal ORIGEM: “Outro rapaz morre com a peste-gay”. Jornal Luta Democrática, Rio, 17 e 18 de setembro de 1983, p.4, ano XXX, n.8.616. Arquivo: Hemeroteca da Biblioteca Nacional. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030678&pasta=ano%20198&pesq=&pagfis=70522. Acesso em: 18 fev. 2023. CRÉDITOS: Jornal Luta Democrática. PALAVRAS-CHAVE: meios de comunicação de massa, história da medicina, aids
Peste Gay já apavora São Paulo

Ficha técnica TIPO DE DOCUMENTO: Jornal ORIGEM: “Peste Gay já apavora São Paulo”, Jornal Notícias Populares, 12 de junho de 1983. Disponível em: https://naomekahlo.com/documentario-que-reconstroi-historia-dohiv-e-da-aids-no-pais-revela-desinformacao-e-preconceitos/. Acesso em: 18 fev. 2023. CRÉDITOS: Jornal Notícias Populares. PALAVRAS-CHAVE: história da medicina, meios de comunicação de massa, aids
Brasil contra a AIDS
Ficha técnica TIPO DE DOCUMENTO: Propaganda ORIGEM: Comercial BRASIL CONTRA AIDS/GOVERNO FEDERAL 1989, Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qlT46pADaTU. Acesso em 18 fev. 2023. CRÉDITOS: GOVERNO FEDERAL PALAVRAS-CHAVE: meios de comunicação de massa, aids, história da medicina
Sobre os documentos e o tema que eles apresentam, escolha uma alternativa:
Questão 4 16208940
ONHB Fase 4 2023Volte ao texto de Caio Prado Jr. e, em seguida, leia o fragmento da entrevista sobre essa obra com o historiador Fernando Novais, publicada no livro Formação do Brasil Contemporâneo (edição da Companhia das Letras, 2011).
O sentido da colonização
(...) Estamos tão acostumados em nos ocupar com o fato da colonização brasileira, que a iniciativa dela, os motivos que a inspiraram e determinaram, os rumos que tomou em virtude daqueles impulsos iniciais se perdem de vista. Ela aparece como um acontecimento fatal e necessário, derivado natural e espontaneamente do simples fato do descobrimento. E os rumos que tomou também se afiguram como resultados exclusivos daquele fato. Esquecemos aí os antecedentes que se acumulam atrás de tais ocorrências, e o grande número de circunstâncias particulares que ditaram as normas a seguir. (...) O primeiro passo [as condições para a expansão ultramarina] estava dado e a Europa deixará de viver recolhida sobre si mesma para enfrentar o oceano. O papel de pioneiro nessa nova etapa caberá aos portugueses, os melhores situados, geograficamente, no extremo dessa península que avança pelo mar. Enquanto holandeses, ingleses, normandos e bretões se ocupam na via comercial recém-aberta, e que bordeja e envolve pelo mar o ocidente europeu, os portugueses vão mais longe, procurando empresas em que não encontrassem concorrentes mais antigos e já instalados, e para que contavam com vantagens geográficas apreciáveis: buscarão a costa ocidental da África, traficando aí com os mouros que dominavam as populações indígenas. Nessa avançada pelo oceano descobrirão as ilhas (Cabo Verde, Madeira, Açores), e continuarão perlongando o continente negro para o sul. Tudo isso se passa ainda na primeira metade do século XV. Lá por meados dele começa a se desenhar um plano mais amplo: atingir o Oriente contornando a África. Seria abrir para seu proveito uma rota que os poria em contato direto com as opulentas Índias das preciosas especiarias, cujo comércio fazia a riqueza das repúblicas italianas e dos mouros por cujas mãos transitavam até o Mediterrâneo. Não é preciso repetir aqui o que foi o périplo africano, realizado afinal depois de tenazes e sistemáticos esforços de meio século.
(...) Em suma e no essencial, todos os grandes acontecimentos desta era, que se convencionou com razão chamar dos “descobrimentos”, articulam-se num conjunto que não é senão um capítulo da história do comércio europeu. (...) É sempre como traficantes que os vários povos da Europa abordarão cada uma daquelas empresas que lhes proporcionarão sua iniciativa, seus esforços, o acaso e as circunstâncias do momento em que se achavam.
(...) Tudo isso lança muita luz sobre o espírito com que os povos da Europa abordam a América. A ideia de povoar não ocorre inicialmente a nenhum. É o comércio que os interessa, e daí o relativo desprezo por este território primitivo e vazio que é a América; e inversamente, o prestígio do Oriente, onde não faltava objeto para atividades mercantis. (...) Aliás, nenhum povo da Europa estava em condições naquele momento de suportar sangrias na sua população, que no século XIV ainda não se refizera de todo das tremendas devastações da peste que assolou o continente nos dois séculos precedentes.
(...) Se se povoou essa área temperada [do continente americano], o que aliás só ocorreu depois do século XVII, foi por circunstâncias muito especiais. É a situação interna da Europa, em particular da Inglaterra, as suas lutas político-religiosas, que desviam para a América as atenções de populações que não se sentem à vontade e vão procurar ali abrigo e paz para suas convicções. (...) Durante mais de dois séculos despejar-se-á na América todo resíduo das lutas político-religiosas da Europa. É certo que se espalhará por todas as colônias; até no Brasil, tão afastado e por isso tanto mais ignorado, procurarão refugiar-se huguenotes franceses (França Antártica, no Rio de Janeiro). Mas se concentrará quase inteiramente nas da zona temperada, de condições naturais mais afins às da Europa, e por isso preferida para quem não buscava ‘fazer a América’, mas unicamente abrigar-se dos vendavais políticos que varriam a Europa, e reconstruir um lar desfeito ou ameaçado.
(...) Nessa base se realizaria uma primeira seleção entre os colonos que se dirigem respectivamente para um e outro setor do Novo Mundo: o temperado e os trópicos. Para estes, o europeu só se dirige, de livre e espontânea vontade, quando pode ser um dirigente, quando dispõe de cabedais e aptidões para isso; quando conta com outra gente que trabalhe para ele.
Mais uma circunstância vem reforçar essa tendência e discriminação. É o caráter que tomará a exploração agrária nos trópicos. Esta se realizará em larga escala, isto é, em grandes unidades produtoras — fazendas, engenhos, plantações (as plantations das colônias inglesas) — que reúnem cada qual um número relativamente avultado de trabalhadores. Em outras palavras, para cada proprietário (fazendeiro, senhor ou plantador), haveria muitos trabalhadores subordinados e sem propriedade.
(...) Nas demais colônias tropicais, inclusive o Brasil, não se chegou nem a ensaiar o trabalhador branco. Isso porque nem na Espanha, nem em Portugal, a que pertencia a maioria delas, havia, como na Inglaterra, braços disponíveis, e dispostos a emigrar a qualquer preço.
(...) Como se vê, as colônias tropicais tomaram um rumo inteiramente diverso do de suas irmãs da zona temperada. Enquanto nestas se constituirão colônias propriamente de povoamento (...), escoadouro para excessos demográficos da Europa que reconstituem no Novo Mundo uma organização e uma sociedade à semelhança do seu modelo e origem europeus, nos trópicos, pelo contrário, surgirá um tipo de sociedade inteiramente original. (...) Mas conservará no entanto um acentuado caráter mercantil; será a empresa do colono branco, que reúne à natureza, pródiga em recursos aproveitáveis para a produção de gêneros de grande valor comercial, o trabalho recrutado entre raças inferiores que domina: indígenas ou negros africanos importados. (...) No seu conjunto, e vista no plano mundial e internacional, a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial, mais completa que a antiga feitoria, mas sempre com o mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. É esse o verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil é uma das resultantes; e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos.
(...) Se vamos à essência da nossa formação, veremos que na realidade nos constituímos para fornecer açúcar, tabaco, alguns outros gêneros; mais tarde ouro e diamantes; depois, algodão, e em seguida café, para o comércio europeu. Nada mais que isso. É com tal objetivo, objetivo exterior, voltado para fora do país e sem atenção a considerações que não fossem o interesse daquele comércio, que se organizarão a sociedade e a economia brasileiras.
Ficha técnica TIPO DE DOCUMENTO: Texto Acadêmico ORIGEM: PRADO JR., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011 [1942], pp. 12-31. Edição do Kindle. CRÉDITOS: Caio Prado Jr. GLOSSÁRIO: Perlongando : Estendendo-se ao longo de; costeando. PALAVRAS-CHAVE: historiografia, colonização
Entrevista com Fernando Novais
Qual é a importância da categoria de ‘sentido da colonização’ em Formação do Brasil contemporâneo?
FERNANDO NOVAIS: ‘Sentido da colonização’ não está suficientemente completo. ‘Sentido da colonização’ é organizar a produção para fora; para o mercado externo. O que significa ‘para fora’? Eu procuro entender isso nos meus trabalhos. É a acumulação externa do capital. Aí vieram os colegas a dizer: “Como externa? Essa mania do externa”? Não é externo ao sistema. Aí seria na China, ou na Lua. É externo à área produtiva. Não é qualquer economia que acumula capital fora da área produtiva, e é isso que caracteriza a economia colonial. Muito bem, Caio não chegou até lá, mas realizou um passo decisivo. Faltou ainda falar na catequese, isto é, tratar a catequese como um componente estrutural do sistema. Pessoalmente, cabe observar que só nos últimos trabalhos tento explicitar em sua inteireza esse componente religioso do sistema. Só seria possível catequizar os índios, o que representava uma legitimação para o domínio, se houvesse controle sobre a terra e sobre o gentio. Isso dá uma outra dimensão ao sentido da colonização. Por outro lado, só haveria recursos para a catequese se fosse possível a exploração da terra. A operação toda vai ficando imbricada. Mas, de todo modo, insisto em que esse é um desdobramento que parte da análise de Caio Prado Jr., e a incorpora. Do ponto de vista metodológico, o fundamental é que ele definiu o sentido da colonização, que perpassa todos os capítulos, e refere-se a todos os elementos fundamentais para o historiador: economia, sociedade, administração etc. Aliás, todos os capítulos começam e terminam voltando sempre ao sentido da colonização. Eles provam o sentido da colonização e o sentido da colonização os explica. Por isso o método é em sua essência dialético. (...) Esse movimento dialético do discurso eu nunca vi discutido ou comentado por outros analistas. A ordem dos capítulos não importa, pode ser qualquer uma. É a relação da parte com o todo o que de fato interessa reter. O todo é a síntese das partes e não a sua soma. Essa estrutura dá ao texto uma força persuasiva fantástica, pois cada capítulo constitui-se numa nova maneira de convencer-nos de que há uma ideia geral e que esta é correta. Essa força decorre, na verdade, do procedimento dialético da ‘apreensão do sentido’. Ao atingir a essência do fenômeno, ele nos explica seus segmentos; os quais, por sua vez, o explicitam. A apreensão da essência torna os segmentos inteligíveis ao captá-los, e aquela se explicita por meio deles.
Ficha técnica TIPO DE DOCUMENTO: Entrevista ORIGEM: Novais, Fernando. In: PRADO JR., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011, pp. 575-576. Edição do Kindle. CRÉDITOS: Fernando Novais; Caio Prado Jr. PALAVRAS-CHAVE: colonização, historiografia
Caio Prado Jr.:
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