Questões de EFAF História - Geral - Idade Contemporânea
424 Questões
Questão 41 10768693
CTI (UNIFICADO) C. Gerais 2009Dentre os processos históricos determinantes para a atual configuração da geografia política mundial pode-se destacar
Questão 45 10762349
CTI (UNIFICADO) C. Gerais 2008No contexto da Guerra Fria, foi lançado em 1947, pelos Estados Unidos, o Plano Marshall, que consistia em
Questão 13 10172155
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2008Rápida Utopia
Ação à distância, velocidade, comunicação, linha de montagem, triunfo das massas,
Holocausto: através das metáforas e das realidades que marcaram esses 100 últimos anos,
aparece a verdadeira doença do progresso.
Primeira regra: não se pode julgar um século, sobretudo alguns anos antes de seu fim,
[5] sem recolocá-lo na devida perspectiva histórica. Pensem no que teria respondido um geógrafo
do século XV se lhe tivessem pedido uma síntese de seu século em 1º de janeiro de 1490. Ou
no que feríamos respondido se nos tivessem pedido um balanço de 1989 um mês antes da
queda do Muro de Berlim e da revolução na Romênia.
Segunda regra: quem julga? O julgamento de um cidadão do mundo ocidental é
[10] diferente do de um biafrense que morre de fome. Mas, se essa regra é válida para cada
século, ela o é um pouco menos para o nosso. Para o bem ou para o mal, o modelo ocidental
se impõe gradativamente sobre uma grande parte do planeta. Um camponês chinês está hoje,
para o bem ou para o mal, mais próximo de um camponês francês do que estava há dois
séculos.
[15] Terceira regra: não se pode avaliar emocionalmente um século estando dentro dele e
sem proceder a comparações estatísticas. O número de pessoas que hoje morrem de fome no
mundo nos causa horror. Mas o número de pessoas que morriam de fome no século passado
também nos deve causar horror, sobretudo se o comparamos à população mundial da época.
(...)
[20] Ora, nosso século talvez tenha sido menos hipócrita que os outros. Ele enunciou regras
de convivência; certamente as violou, mas moveu e move processos públicos contra essas
violações. Isso não impede que elas se repitam, mas teve alguma influência sobre nossos
comportamentos cotidianos e sobre as probabilidades de um grande número de cidadãos,
sobretudo no mundo ocidental, viver por mais tempo, evitando abusos de poder de toda ordem.
[25] Hoje posso andar pela rua sem me fazer matar por alguém que queira manter sua
trajetória na mesma calçada que a minha, e sei que meus filhos não receberão cacetadas do
filho de um duque como meio de aprendizagem do poder. Indivíduos prepotentes tentam ainda
hoje expulsar uma mulher negra do ônibus, mas a opinião pública os condena.
Vejamos agora os aspectos ambíguos deste século. Ele terá sido o século das massas.
[30] Para o bem ou para o mal. Os direitos das massas foram reconhecidos: é muito Importante o
direito à palavra, à contestação, ao voto, exercer um cargo político, e não avaliamos o que isso
representa porque não vivemos em séculos em que era normal um artesão morar num casebre
imundo e um senhor que não tinha dinheiro para pagar-lhe mandar seus servidores baterem
nele. Experimente tratar a murros seu encanador que exige pagamento e compreenderá que
[35] alguma coisa mudou.
Nosso século é o da aceleração tecnológica e científica, que se operou e continua a se
operar em ritmos antes inconcebíveis. (...)
O custo dessa aceleração da descoberta é a hiperespecialização. Estamos em via de
viver a tragédia dos saberes separados: quanto mais os separamos, tanto mais fácil submeter
[40] a ciência aos cálculos do poder. Esse fenômeno esta intimamente ligado ao fato de ter sido
neste século que os homens colocaram mais diretamente em questão a sobrevivência do
planeta.
O equivalente tecnológico da separação dos saberes foi a linha de montagem. Nesta,
cada um conhece apenas uma fase do trabalho. Privado da satisfação de ver o produto
[45] acabado, cada um é também liberado de qualquer responsabilidade. Poderia produzir, e isso
ocorre com frequência, venenos sem que o soubesse. Mas a linha de montagem permite
também fabricar aspirina em quantidade para o mundo todo. E rápido. Tudo se passa num
ritmo acelerado, desconhecido dos séculos anteriores. Sem essa aceleração, o Muro de Berlim
poderia ter durado milênios, como a Grande Muralha da China. É bom que tudo se tenha
[50] resolvido no espaço de trinta anos, mas pagamos o preço dessa rapidez. Poderíamos destruir
o planeta num dia.
Nosso século foi o da comunicação instantânea. Hernán Cortés pôde destruir uma
civilização e, antes que a notícia se espalhasse, teve tempo para encontrar justificativas a seus
empreendimentos. Hoje, massacres da Praça da Paz Celestial, em Pequim, tornam-se
[55] atualidade no momento mesmo em que se desenrolam e provocam a reação de todo o mundo
civilizado. Mas informações simultâneas em excesso, provenientes de todos os pontos do
globo, produzem um hábito. O século da comunicação transformou a informação em
espetáculo. Arriscamo-nos a confundir a todo instante a atualidade e o divertimento.
Nosso século presenciou o triunfo da ação à distância. Hoje, aperta-se um botão e
[60] entra-se em comunicação com Pequim. Aperta-se um botão e um país inteiro explode. Aperta-
se um botão e um foguete é lançado a Marte. A ação à distância salva numerosas vidas, mas
irresponsabiliza o crime.
O século do triunfo tecnológico foi também o da descoberta da fragilidade. Um moinho
de vento podia ser reparado, mas o sistema do computador não tem defesa diante da má
[65] intenção de um garoto precoce. O século está estressado porque não sabe de quem se deve
defender nem como: somos demasiado poderosos para poder evitar nossos inimigos.
Encontramos o meio de eliminar a sujeira, mas não o de eliminar os resíduos. Porque a sujeira
nascia da indigência, que podia ser reduzida, ao passo que os resíduos (inclusive os
radioativos) nascem do bem-estar que ninguém quer mais perder. Eis porque nosso século foi
[70] o da angústia e da utopia de curá-la. Com um superego mais forte, a humanidade se embaraça
num mal que conhece perfeitamente, confessa-o em público, tenta purificações expiatórias às
quais se juntam as igrejas e os governos e repete o mal porque ação à distância e linha de
montagem impedem identificá-lo no início do processo. Espaço, tempo, informação, crime,
castigo, arrependimento, absolvição, indignação, esquecimento, descoberta, crítica,
[75] nascimento, longa vida, morte... tudo em altíssima velocidade. A um ritmo de stress. Nosso
século é o do enfarte.
(ECO, Umberto. O segundo diário mínimo. 2. ed. Rio de Janeiro : Record, 1994 - Adaptado)
Em “Aperta-se um botão e um país inteiro explode.” (linha 61), é INCORRETO afirmar que:
Questão 11 10172099
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2008Rápida Utopia
Ação à distância, velocidade, comunicação, linha de montagem, triunfo das massas,
Holocausto: através das metáforas e das realidades que marcaram esses 100 últimos anos,
aparece a verdadeira doença do progresso.
Primeira regra: não se pode julgar um século, sobretudo alguns anos antes de seu fim,
[5] sem recolocá-lo na devida perspectiva histórica. Pensem no que teria respondido um geógrafo
do século XV se lhe tivessem pedido uma síntese de seu século em 1º de janeiro de 1490. Ou
no que feríamos respondido se nos tivessem pedido um balanço de 1989 um mês antes da
queda do Muro de Berlim e da revolução na Romênia.
Segunda regra: quem julga? O julgamento de um cidadão do mundo ocidental é
[10] diferente do de um biafrense que morre de fome. Mas, se essa regra é válida para cada
século, ela o é um pouco menos para o nosso. Para o bem ou para o mal, o modelo ocidental
se impõe gradativamente sobre uma grande parte do planeta. Um camponês chinês está hoje,
para o bem ou para o mal, mais próximo de um camponês francês do que estava há dois
séculos.
[15] Terceira regra: não se pode avaliar emocionalmente um século estando dentro dele e
sem proceder a comparações estatísticas. O número de pessoas que hoje morrem de fome no
mundo nos causa horror. Mas o número de pessoas que morriam de fome no século passado
também nos deve causar horror, sobretudo se o comparamos à população mundial da época.
(...)
[20] Ora, nosso século talvez tenha sido menos hipócrita que os outros. Ele enunciou regras
de convivência; certamente as violou, mas moveu e move processos públicos contra essas
violações. Isso não impede que elas se repitam, mas teve alguma influência sobre nossos
comportamentos cotidianos e sobre as probabilidades de um grande número de cidadãos,
sobretudo no mundo ocidental, viver por mais tempo, evitando abusos de poder de toda ordem.
[25] Hoje posso andar pela rua sem me fazer matar por alguém que queira manter sua
trajetória na mesma calçada que a minha, e sei que meus filhos não receberão cacetadas do
filho de um duque como meio de aprendizagem do poder. Indivíduos prepotentes tentam ainda
hoje expulsar uma mulher negra do ônibus, mas a opinião pública os condena.
Vejamos agora os aspectos ambíguos deste século. Ele terá sido o século das massas.
[30] Para o bem ou para o mal. Os direitos das massas foram reconhecidos: é muito Importante o
direito à palavra, à contestação, ao voto, exercer um cargo político, e não avaliamos o que isso
representa porque não vivemos em séculos em que era normal um artesão morar num casebre
imundo e um senhor que não tinha dinheiro para pagar-lhe mandar seus servidores baterem
nele. Experimente tratar a murros seu encanador que exige pagamento e compreenderá que
[35] alguma coisa mudou.
Nosso século é o da aceleração tecnológica e científica, que se operou e continua a se
operar em ritmos antes inconcebíveis. (...)
O custo dessa aceleração da descoberta é a hiperespecialização. Estamos em via de
viver a tragédia dos saberes separados: quanto mais os separamos, tanto mais fácil submeter
[40] a ciência aos cálculos do poder. Esse fenômeno esta intimamente ligado ao fato de ter sido
neste século que os homens colocaram mais diretamente em questão a sobrevivência do
planeta.
O equivalente tecnológico da separação dos saberes foi a linha de montagem. Nesta,
cada um conhece apenas uma fase do trabalho. Privado da satisfação de ver o produto
[45] acabado, cada um é também liberado de qualquer responsabilidade. Poderia produzir, e isso
ocorre com frequência, venenos sem que o soubesse. Mas a linha de montagem permite
também fabricar aspirina em quantidade para o mundo todo. E rápido. Tudo se passa num
ritmo acelerado, desconhecido dos séculos anteriores. Sem essa aceleração, o Muro de Berlim
poderia ter durado milênios, como a Grande Muralha da China. É bom que tudo se tenha
[50] resolvido no espaço de trinta anos, mas pagamos o preço dessa rapidez. Poderíamos destruir
o planeta num dia.
Nosso século foi o da comunicação instantânea. Hernán Cortés pôde destruir uma
civilização e, antes que a notícia se espalhasse, teve tempo para encontrar justificativas a seus
empreendimentos. Hoje, massacres da Praça da Paz Celestial, em Pequim, tornam-se
[55] atualidade no momento mesmo em que se desenrolam e provocam a reação de todo o mundo
civilizado. Mas informações simultâneas em excesso, provenientes de todos os pontos do
globo, produzem um hábito. O século da comunicação transformou a informação em
espetáculo. Arriscamo-nos a confundir a todo instante a atualidade e o divertimento.
Nosso século presenciou o triunfo da ação à distância. Hoje, aperta-se um botão e
[60] entra-se em comunicação com Pequim. Aperta-se um botão e um país inteiro explode. Aperta-
se um botão e um foguete é lançado a Marte. A ação à distância salva numerosas vidas, mas
irresponsabiliza o crime.
O século do triunfo tecnológico foi também o da descoberta da fragilidade. Um moinho
de vento podia ser reparado, mas o sistema do computador não tem defesa diante da má
[65] intenção de um garoto precoce. O século está estressado porque não sabe de quem se deve
defender nem como: somos demasiado poderosos para poder evitar nossos inimigos.
Encontramos o meio de eliminar a sujeira, mas não o de eliminar os resíduos. Porque a sujeira
nascia da indigência, que podia ser reduzida, ao passo que os resíduos (inclusive os
radioativos) nascem do bem-estar que ninguém quer mais perder. Eis porque nosso século foi
[70] o da angústia e da utopia de curá-la. Com um superego mais forte, a humanidade se embaraça
num mal que conhece perfeitamente, confessa-o em público, tenta purificações expiatórias às
quais se juntam as igrejas e os governos e repete o mal porque ação à distância e linha de
montagem impedem identificá-lo no início do processo. Espaço, tempo, informação, crime,
castigo, arrependimento, absolvição, indignação, esquecimento, descoberta, crítica,
[75] nascimento, longa vida, morte... tudo em altíssima velocidade. A um ritmo de stress. Nosso
século é o do enfarte.
(ECO, Umberto. O segundo diário mínimo. 2. ed. Rio de Janeiro : Record, 1994 - Adaptado)
Vejamos agora os aspectos ambíguos deste século.” (linha 29)
Se o texto tivesse sido escrito no ano de 2008 e se referisse ao século XX, a frase estaria em conformidade com a norma culta em:
Questão 9 10172064
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2008Rápida Utopia
Ação à distância, velocidade, comunicação, linha de montagem, triunfo das massas,
Holocausto: através das metáforas e das realidades que marcaram esses 100 últimos anos,
aparece a verdadeira doença do progresso.
Primeira regra: não se pode julgar um século, sobretudo alguns anos antes de seu fim,
[5] sem recolocá-lo na devida perspectiva histórica. Pensem no que teria respondido um geógrafo
do século XV se lhe tivessem pedido uma síntese de seu século em 1º de janeiro de 1490. Ou
no que feríamos respondido se nos tivessem pedido um balanço de 1989 um mês antes da
queda do Muro de Berlim e da revolução na Romênia.
Segunda regra: quem julga? O julgamento de um cidadão do mundo ocidental é
[10] diferente do de um biafrense que morre de fome. Mas, se essa regra é válida para cada
século, ela o é um pouco menos para o nosso. Para o bem ou para o mal, o modelo ocidental
se impõe gradativamente sobre uma grande parte do planeta. Um camponês chinês está hoje,
para o bem ou para o mal, mais próximo de um camponês francês do que estava há dois
séculos.
[15] Terceira regra: não se pode avaliar emocionalmente um século estando dentro dele e
sem proceder a comparações estatísticas. O número de pessoas que hoje morrem de fome no
mundo nos causa horror. Mas o número de pessoas que morriam de fome no século passado
também nos deve causar horror, sobretudo se o comparamos à população mundial da época.
(...)
[20] Ora, nosso século talvez tenha sido menos hipócrita que os outros. Ele enunciou regras
de convivência; certamente as violou, mas moveu e move processos públicos contra essas
violações. Isso não impede que elas se repitam, mas teve alguma influência sobre nossos
comportamentos cotidianos e sobre as probabilidades de um grande número de cidadãos,
sobretudo no mundo ocidental, viver por mais tempo, evitando abusos de poder de toda ordem.
[25] Hoje posso andar pela rua sem me fazer matar por alguém que queira manter sua
trajetória na mesma calçada que a minha, e sei que meus filhos não receberão cacetadas do
filho de um duque como meio de aprendizagem do poder. Indivíduos prepotentes tentam ainda
hoje expulsar uma mulher negra do ônibus, mas a opinião pública os condena.
Vejamos agora os aspectos ambíguos deste século. Ele terá sido o século das massas.
[30] Para o bem ou para o mal. Os direitos das massas foram reconhecidos: é muito Importante o
direito à palavra, à contestação, ao voto, exercer um cargo político, e não avaliamos o que isso
representa porque não vivemos em séculos em que era normal um artesão morar num casebre
imundo e um senhor que não tinha dinheiro para pagar-lhe mandar seus servidores baterem
nele. Experimente tratar a murros seu encanador que exige pagamento e compreenderá que
[35] alguma coisa mudou.
Nosso século é o da aceleração tecnológica e científica, que se operou e continua a se
operar em ritmos antes inconcebíveis. (...)
O custo dessa aceleração da descoberta é a hiperespecialização. Estamos em via de
viver a tragédia dos saberes separados: quanto mais os separamos, tanto mais fácil submeter
[40] a ciência aos cálculos do poder. Esse fenômeno esta intimamente ligado ao fato de ter sido
neste século que os homens colocaram mais diretamente em questão a sobrevivência do
planeta.
O equivalente tecnológico da separação dos saberes foi a linha de montagem. Nesta,
cada um conhece apenas uma fase do trabalho. Privado da satisfação de ver o produto
[45] acabado, cada um é também liberado de qualquer responsabilidade. Poderia produzir, e isso
ocorre com frequência, venenos sem que o soubesse. Mas a linha de montagem permite
também fabricar aspirina em quantidade para o mundo todo. E rápido. Tudo se passa num
ritmo acelerado, desconhecido dos séculos anteriores. Sem essa aceleração, o Muro de Berlim
poderia ter durado milênios, como a Grande Muralha da China. É bom que tudo se tenha
[50] resolvido no espaço de trinta anos, mas pagamos o preço dessa rapidez. Poderíamos destruir
o planeta num dia.
Nosso século foi o da comunicação instantânea. Hernán Cortés pôde destruir uma
civilização e, antes que a notícia se espalhasse, teve tempo para encontrar justificativas a seus
empreendimentos. Hoje, massacres da Praça da Paz Celestial, em Pequim, tornam-se
[55] atualidade no momento mesmo em que se desenrolam e provocam a reação de todo o mundo
civilizado. Mas informações simultâneas em excesso, provenientes de todos os pontos do
globo, produzem um hábito. O século da comunicação transformou a informação em
espetáculo. Arriscamo-nos a confundir a todo instante a atualidade e o divertimento.
Nosso século presenciou o triunfo da ação à distância. Hoje, aperta-se um botão e
[60] entra-se em comunicação com Pequim. Aperta-se um botão e um país inteiro explode. Aperta-
se um botão e um foguete é lançado a Marte. A ação à distância salva numerosas vidas, mas
irresponsabiliza o crime.
O século do triunfo tecnológico foi também o da descoberta da fragilidade. Um moinho
de vento podia ser reparado, mas o sistema do computador não tem defesa diante da má
[65] intenção de um garoto precoce. O século está estressado porque não sabe de quem se deve
defender nem como: somos demasiado poderosos para poder evitar nossos inimigos.
Encontramos o meio de eliminar a sujeira, mas não o de eliminar os resíduos. Porque a sujeira
nascia da indigência, que podia ser reduzida, ao passo que os resíduos (inclusive os
radioativos) nascem do bem-estar que ninguém quer mais perder. Eis porque nosso século foi
[70] o da angústia e da utopia de curá-la. Com um superego mais forte, a humanidade se embaraça
num mal que conhece perfeitamente, confessa-o em público, tenta purificações expiatórias às
quais se juntam as igrejas e os governos e repete o mal porque ação à distância e linha de
montagem impedem identificá-lo no início do processo. Espaço, tempo, informação, crime,
castigo, arrependimento, absolvição, indignação, esquecimento, descoberta, crítica,
[75] nascimento, longa vida, morte... tudo em altíssima velocidade. A um ritmo de stress. Nosso
século é o do enfarte.
(ECO, Umberto. O segundo diário mínimo. 2. ed. Rio de Janeiro : Record, 1994 - Adaptado)
Hoje posso andar pela rua sem me fazer matar por alguém quê queira manter sua trajetória na mesma calçada que a minha...” (linhas 25 e 26)
Sobre as orações em negrito no fragmento acima é correto afirmar-se que:
Questão 5 10171959
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2008Rápida Utopia
Ação à distância, velocidade, comunicação, linha de montagem, triunfo das massas,
Holocausto: através das metáforas e das realidades que marcaram esses 100 últimos anos,
aparece a verdadeira doença do progresso.
Primeira regra: não se pode julgar um século, sobretudo alguns anos antes de seu fim,
[5] sem recolocá-lo na devida perspectiva histórica. Pensem no que teria respondido um geógrafo
do século XV se lhe tivessem pedido uma síntese de seu século em 1º de janeiro de 1490. Ou
no que feríamos respondido se nos tivessem pedido um balanço de 1989 um mês antes da
queda do Muro de Berlim e da revolução na Romênia.
Segunda regra: quem julga? O julgamento de um cidadão do mundo ocidental é
[10] diferente do de um biafrense que morre de fome. Mas, se essa regra é válida para cada
século, ela o é um pouco menos para o nosso. Para o bem ou para o mal, o modelo ocidental
se impõe gradativamente sobre uma grande parte do planeta. Um camponês chinês está hoje,
para o bem ou para o mal, mais próximo de um camponês francês do que estava há dois
séculos.
[15] Terceira regra: não se pode avaliar emocionalmente um século estando dentro dele e
sem proceder a comparações estatísticas. O número de pessoas que hoje morrem de fome no
mundo nos causa horror. Mas o número de pessoas que morriam de fome no século passado
também nos deve causar horror, sobretudo se o comparamos à população mundial da época.
(...)
[20] Ora, nosso século talvez tenha sido menos hipócrita que os outros. Ele enunciou regras
de convivência; certamente as violou, mas moveu e move processos públicos contra essas
violações. Isso não impede que elas se repitam, mas teve alguma influência sobre nossos
comportamentos cotidianos e sobre as probabilidades de um grande número de cidadãos,
sobretudo no mundo ocidental, viver por mais tempo, evitando abusos de poder de toda ordem.
[25] Hoje posso andar pela rua sem me fazer matar por alguém que queira manter sua
trajetória na mesma calçada que a minha, e sei que meus filhos não receberão cacetadas do
filho de um duque como meio de aprendizagem do poder. Indivíduos prepotentes tentam ainda
hoje expulsar uma mulher negra do ônibus, mas a opinião pública os condena.
Vejamos agora os aspectos ambíguos deste século. Ele terá sido o século das massas.
[30] Para o bem ou para o mal. Os direitos das massas foram reconhecidos: é muito Importante o
direito à palavra, à contestação, ao voto, exercer um cargo político, e não avaliamos o que isso
representa porque não vivemos em séculos em que era normal um artesão morar num casebre
imundo e um senhor que não tinha dinheiro para pagar-lhe mandar seus servidores baterem
nele. Experimente tratar a murros seu encanador que exige pagamento e compreenderá que
[35] alguma coisa mudou.
Nosso século é o da aceleração tecnológica e científica, que se operou e continua a se
operar em ritmos antes inconcebíveis. (...)
O custo dessa aceleração da descoberta é a hiperespecialização. Estamos em via de
viver a tragédia dos saberes separados: quanto mais os separamos, tanto mais fácil submeter
[40] a ciência aos cálculos do poder. Esse fenômeno esta intimamente ligado ao fato de ter sido
neste século que os homens colocaram mais diretamente em questão a sobrevivência do
planeta.
O equivalente tecnológico da separação dos saberes foi a linha de montagem. Nesta,
cada um conhece apenas uma fase do trabalho. Privado da satisfação de ver o produto
[45] acabado, cada um é também liberado de qualquer responsabilidade. Poderia produzir, e isso
ocorre com frequência, venenos sem que o soubesse. Mas a linha de montagem permite
também fabricar aspirina em quantidade para o mundo todo. E rápido. Tudo se passa num
ritmo acelerado, desconhecido dos séculos anteriores. Sem essa aceleração, o Muro de Berlim
poderia ter durado milênios, como a Grande Muralha da China. É bom que tudo se tenha
[50] resolvido no espaço de trinta anos, mas pagamos o preço dessa rapidez. Poderíamos destruir
o planeta num dia.
Nosso século foi o da comunicação instantânea. Hernán Cortés pôde destruir uma
civilização e, antes que a notícia se espalhasse, teve tempo para encontrar justificativas a seus
empreendimentos. Hoje, massacres da Praça da Paz Celestial, em Pequim, tornam-se
[55] atualidade no momento mesmo em que se desenrolam e provocam a reação de todo o mundo
civilizado. Mas informações simultâneas em excesso, provenientes de todos os pontos do
globo, produzem um hábito. O século da comunicação transformou a informação em
espetáculo. Arriscamo-nos a confundir a todo instante a atualidade e o divertimento.
Nosso século presenciou o triunfo da ação à distância. Hoje, aperta-se um botão e
[60] entra-se em comunicação com Pequim. Aperta-se um botão e um país inteiro explode. Aperta-
se um botão e um foguete é lançado a Marte. A ação à distância salva numerosas vidas, mas
irresponsabiliza o crime.
O século do triunfo tecnológico foi também o da descoberta da fragilidade. Um moinho
de vento podia ser reparado, mas o sistema do computador não tem defesa diante da má
[65] intenção de um garoto precoce. O século está estressado porque não sabe de quem se deve
defender nem como: somos demasiado poderosos para poder evitar nossos inimigos.
Encontramos o meio de eliminar a sujeira, mas não o de eliminar os resíduos. Porque a sujeira
nascia da indigência, que podia ser reduzida, ao passo que os resíduos (inclusive os
radioativos) nascem do bem-estar que ninguém quer mais perder. Eis porque nosso século foi
[70] o da angústia e da utopia de curá-la. Com um superego mais forte, a humanidade se embaraça
num mal que conhece perfeitamente, confessa-o em público, tenta purificações expiatórias às
quais se juntam as igrejas e os governos e repete o mal porque ação à distância e linha de
montagem impedem identificá-lo no início do processo. Espaço, tempo, informação, crime,
castigo, arrependimento, absolvição, indignação, esquecimento, descoberta, crítica,
[75] nascimento, longa vida, morte... tudo em altíssima velocidade. A um ritmo de stress. Nosso
século é o do enfarte.
(ECO, Umberto. O segundo diário mínimo. 2. ed. Rio de Janeiro : Record, 1994 - Adaptado)
"... sem recolocá-lo na devida perspectiva histórica” (linha 5) é uma oração que em seu contexto denota o mesmo que a oração destacada na opção:
06
![[Marketing] Questao Topo - deslogado](https://storage.estuda.com.br/banners/0_6b7ebee90b03af1c560c73bb8bcce34a_banner_deslogado_70_dias.png)