Questões de EFAF História - Fundamentos da História e historiografia
108 Questões
Questão 29 10779947
CEFET-RJ 1° Ano - 1ª Fase 2019Leia o texto abaixo e responda à questão
Museu Nacional: o que tinha no acervo consumido pelo fogo
O Museu Nacional do Rio de Janeiro, consumido por um incêndio na noite de domingo, 2 de setembro de 2018, conta com um dos maiores acervos de antropologia e história natural do país - são cerca de 20 milhões de itens. Localizado na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, é o museu mais antigo e uma das instituições cientificas mais importantes do Brasil. Fundado por Dom João VI no dia 6 de agosto de 1818,0 museu acabou de completar 200 anos (...) Atualmente, era administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e, por ser universitário, tinha caráter acadêmico e científico. Muitas peças do acervo são exemplares únicos - de esqueletos de dinossauros a múmias egípcias, passando por milhares de utensílios produzidos por civilizações ameríndias durante a era pré-colombiana (...) Entre os itens provavelmente destruídos pelo fogo, está uma das principais atrações do museu: o fóssil humano mais antigo encontrado no Brasil, batizado de Luzia. Descoberto em 1974 pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire, em Minas Gerais, teria 11.300 anos (...) Um dos grandes destaques da coleção de paleontogia é o esqueleto Maxakalisaurus topai, O primeiro dinossauro de grande porte a ser montado no Brasil. A ossada também foi encontrada em Minas Gerais (...) De acordo com seus catálogos, o Museu Nacional possui uma das mais importantes coleções paleontológicas da América Latina, totalizando 56 mil exemplares e 18,9 mil registros. A coleção consiste principalmente de fósseis de plantas e animais, do Brasil e de outros países, além de reconstituições e réplicas (...) O Museu Nacional oferecia visita guiada aos alunos e estes ficavam admirados com as coleções biológicas desde esponjas até mamíferos. Tragédia para o Brasil e para o mundo. Em nota, o Museu Nacional afirmou que ainda está mensurando os danos ao acervo. "E uma enorme tragédia. A hora é de união e reconstrução. Infelizmente, ainda não conseguimos mensurar o dano total ao acervo, mas precisamos mobilizar toda a sociedade para a recuperação de uma das mais importantes instituições científicas do mundo”, afirmou Alexander Keller, diretor do Museu Nacional, no texto.
(Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45391771. Adaptado. Acesso em: 17/09/2018).
O crânio de Luzia era o fóssil humano mais antigo do Brasil. A partir da reconstrução do rosto da mulher, os pesquisadores apontam que Luzia tinha olhos grandes, rosto largo e que suas feições têm traços que remetem à negritude.

Disponível em: www1 .folha.uol.com.br. Acesso em: 19/09/2018.
No que se refere à reconstituição da feição de Luzia, pode-se afirmar que as características citadas são denominadas na Genética de:
Questão 10 10779848
CEFET-RJ 1° Ano - 1ª Fase 2019TEXTO I
O Brasil queimou — e não tinha água para apagar o fogo
Eu vim ao Rio para um evento no Museu do Amanhã. Então descobri que não tinha mais passado.
Eliane Brum
Eu vim ao Rio para um evento no Museu do Amanhã.
Então descobri que não tinha mais passado.
Diante de mim, o Museu Nacional do Rio queimava.
O crânio de Luzia, a “primeira brasileira”, entre 12.500 e 13 mil anos, queimava. Uma das mais completas
[5] coleções de pterossauros do mundo queimava. Objetos que sobreviveram à destruição de Pompeia queimavam. A
múmia do antigo Egito queimava. Milhares de artefatos dos povos indígenas do Brasil queimavam.
Vinte milhões de memória de alguma coisa tentando ser um país queimavam.
O Brasil perdeu a possibilidade da metáfora. Isso já sabíamos. O excesso de realidade nos joga no não tempo. No
sem tempo. No fora do tempo.
[10] O Museu Nacional em chamas. Um bombeiro esguichando água com uma mangueira um pouco maior do que a
que eu tenho na minha casa. O Museu Nacional queimando. Sem água em parte dos hidrantes, depois de quatro horas de
incêndio ainda chegavam caminhões-pipa com água potável. O Museu Nacional queimando. Uma equipe tentava tirar
àgua do lago da Quinta da Boa Vista. O Museu Nacional queimando. A PM impedia as pessoas de avançar para tentar
salvar alguma coisa. O Museu Nacional queimando. Outras pessoas tentavam furtar o celular e a carteira de quem
[15] tentava entrar para ajudar ou só estava imóvel diante dos portões tentando compreender como viver sem metáforas.
Brasil, é você. Não posso ser aquele que não é.
O Museu Nacional queimando.
O que há mais para dizer agora que as palavras já não dizem e a realidade se colocou além da interpretação”
Diante do Museu Nacional em chamas, de costas para o palácio, de frente para onde deveria estar o povo, Dom
[20] Pedro Il em estátua. Sua família tinha tentado inventar um país e o fundaram sobre corpos humanos. Seu avô, Dom João
VI, criou aquele museu no Palácio de São Cristóvão. Dom Pedro Il está no centro, circunspecto, um homem feito de pedra,
um imperador. Diante da parte esquerda do museu, indígenas de diferentes etnias observam as chamas como se mais uma
vez fossem eles que estivessem queimando. Estão. E o maior acervo de línguas indígenas da América Latina, diz Urutau
Guajajara. E a nossa memória que estão apagando. E o golpe, é o golpe. Poderiam ter salvo, e não salvaram, ele grita.
[25] Nunca salvaram. Há 500 anos não salvam.
As costas de Pedro ferviam.
Quando soube que o museu queimava, eu dividi um táxi com um jornalista britânico e uma atriz brasileira com
uma câmera na mão. “Não é só como se o British Museum estivesse queimando, é como se junto com ele estivesse
também o Palácio de Buckingham”, disse Jonathan Watts. “Não há mais possibilidade de fazer documentário”, afirmou
[30] Gabriela Carneiro da Cunha. “Arealidade é Science Fiction1.”
Eu, que vivo com as palavras e das palavras, não consigo dizer. Sem passado, indo para o Museu do Amanhã,
sou convertida em muda. Esvazio de memória como o Museu Nacional. Chamas dentro de todo ele, uma casca do lado de
fora. Sou também eu. Uma casca que anda por um país sem país. Eu, sem Luzia, uma não mulher em lugar nenhum.
A frase ecoa em mim. E ecoa. Fere minhas paredes em carne viva.
[35] “O Brasil é um construtor de ruínas. O Brasil constrói ruínas em dimensões continentais.”
A frase reverbera nos corredores vazios do meu corpo. Se a primeira brasileira incendiou-se, que brasileira posso
ser eu?
O que poderia expressar melhor este momento? A história do Brasil queima. A matriz europeia que inventou um
palácio e fez dele um museu. Os indígenas que choram do lado de fora porque suas línguas se incineram lá dentro. E eu
[40] preciso alcançar o Museu do Amanhã. Mas o Brasil já não é o país do futuro. O Brasil perdeu a possibilidade de imaginar
um futuro. O Brasil está em chamas.
O Museu Nacional sem recursos do Governo Federal. Os funcionários do Museu Nacional fazendo vaquinha na
Internet para reabrir a sala principal. O Museu Nacional morrendo de abandono. O Museu Nacional sem manutenção. O
Rio de Janeiro. Flagelado e roubado e arrancado Rio de Janeiro. Entre todos os Brasis, tinha que ser o Rio.
[45] Ouço então um chefe de bombeiros dar uma coletiva diante do Museu Nacional, as labaredas lambem o cenário
atrás dele. O bombeiro explica para as câmeras de TV que não tinha água, ele conta dos caminhões-pipa. E ele declara:
“Está tudo sob controle”.
Eu quero gargalhar, me botar louca, queimar junto, ser aquela que ensandece para poder gritar para sempre a
única frase lúcida que agora conheço: “O Museu Nacional está queimando! O Museu Nacional está queimando!”.
[50] O Brasil está queimando.
E o meteoro estava dentro do museu.
(El País Brasil: O Jornal Global. Opinião. 3 de setembro de 2018. Disponível em:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/03/o0pinion/1535975822 1774583.html. Acesso em 14 de setembro de 2018)
Nota:
1 Ficção Científica.
TEXTO II
Pequena memória para um tempo sem memória
(A legião dos esquecidos)
Gonzaguinha
Memória de um tempo onde lutar
Por seu direito
E um defeito que mata
São tantas lutas inglórias
[5] São histórias que a história
Qualquer dia contará
De obscuros personagens
As passagens, as coragens
São sementes espalhadas nesse chão
[10] De Juvenais e de Raimundos
Tantos Júlios de Santana
Uma crença num enorme coração
Dos humilhados e ofendidos
Explorados e oprimidos
[15] Que tentaram encontrar a solução
São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas
Memória de um tempo onde lutar por seu direito
E um defeito que mata
E tantos são os homens por debaixo das manchetes
[20] São braços esquecidos que fizeram os heróis
São forças, são suores que levantam as vedetes
Do teatro de revistas, que é o país de todos nós
São vozes que negaram liberdade concedida
Pois ela é bem mais sangue
[25] Ela é bem mais vida
São vidas que alimentam nosso fogo da esperança
O grito da batalha
Quem espera nunca alcança
E ê, quando o Sol nascer
[30] E que eu quero ver quem se lembrará
E ê, quando amanhecer
E que eu quero ver quem recordará
É ê, não quero esquecer
Essa legião que se entregou por um novo dia
[35] É eu quero é cantar essa mão tão calejada
Que nos deu tanta alegria
E vamos à luta.
(Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. A vida do viajante. Faixa 4. EMI-Odeon. 1981)
Nos Textos I e IV, é possível criar maior envolvimento entre o leitor e o texto por meio do emprego de recursos expressivos.
A alternativa que traz uma declaração válida sobre o uso desses recursos é:
Questão 9 10779845
CEFET-RJ 1° Ano - 1ª Fase 2019TEXTO I
Memória, cultura e poder na sociedade do esquecimento
Olga Rodrigues de Moraes Von Simson
Memória é a capacidade humana de reter fatos e experiências do passado e retransmiti-los às novas gerações
através de diferentes suportes empíricos (voz, música, imagem, textos etc.).
Existe uma memória individual, que é aquela guardada por um indivíduo e se refere às suas próprias vivências e
experiências, mas que contém também aspectos da memória do grupo social onde ele se formou, isto é, onde esse
[5] Indivíduo foi socializado.
Há também aquilo que denominamos de memória coletiva, que é aquela formada pelos fatos e aspectos
julgados relevantes e que são guardados como memória oficial da sociedade mais ampla. Ela geralmente se expressa
naquilo que chamamos de lugares da memória, que são os monumentos, hinos oficiais, quadros e obras literárias e
artísticas que expressam a versão consolidada de um passado coletivo de uma dada sociedade.
[10] Como contrapartida, existem as memórias subterrâneas ou marginais, que correspondem a versões sobre o
passado dos grupos dominados de uma dada sociedade. Estas memórias geralmente não estão monumentalizadas, nem
gravadas em suportes concretos como textos, obras de arte e só se expressam quando conflitos sociais as evocam ou
quando os pesquisadores que se utilizam do método biográfico ou da história oral criam as condições para que elas
emerjam e possam, então, ser registradas, analisadas e passem a fazer parte da memória coletiva de uma dada
[15] sociedade. Elas geralmente se encontram muito bem guardadas no âmago de famílias ou grupos sociais dominados nos
quais são cuidadosamente passados de geração a geração.
Na sociedade ocidental atual, o ritmo acelerado do trabalho urbano, somado à facilidade e à rapidez dos meios de
comunicação, coloca o homem comum frente a uma quantidade avassaladora de informações. Tais fatos criam para o
homem contemporâneo quase a obrigação de consumir a informação de forma acrítica, perdendo-se, portanto, uma das
[20] mais importantes funções da memória humana — a capacidade seletiva —, que é o PODER de escolher aquilo que deve ser
preservado como lembrança importante e aqueles fatos e vivências que podem e devem ser descartados. A perda do
exercício desse poder de seleção constitui o fator fundamental para a formação do que os profissionais da informação
chamam de sociedades do esquecimento.
É verdade, nós não nos lembramos de tudo o que aconteceu ou que nos foi ensinado ao longo de nossa vida.
[25] Descartamos a maioria das experiências vivenciadas e só retemos aquelas que possuem significado, que são funcionais
para nossa existência futura. Yuri Lotman [...] já dizia que cultura é memória, pois é a cultura de uma sociedade que
fornece os filtros através dos quais os indivíduos que nela vivem podem exercer o seu poder de seleção. [...]
Nas sociedades da memória, que existiram no passado e ainda subsistem em locais isolados da África e da
América do Sul, por exemplo, [...] a memória é organizada e retida pelo conjunto de seus membros, os quais se incumbem
[30] detransmiti-la às novas gerações, cabendo aos mais velhos o importante papel social de guardiões da memória. [...]
Esse papel social dos idosos foi sendo gradativamente perdido ao longo da história das sociedades ocidentais,
mas muito mais intensamente na contemporaneidade, quando cada vez mais se diversificam e se sofisticam os suportes
para o registro e os suportes da memória (escrita, imprensa, fotografia, vídeo, discos, CDs, DVDs, disquetes etc.). Assim,
o enorme volume de informações fez surgir instituições especialmente voltadas ao trabalho de seleção, coleta,
[35] organização, guarda e manutenção adequada e divulgação da memória de grupos sociais ou da sociedade em geral
nessas novas sociedades do esquecimento.
Essas instituições realizam, portanto, hoje, de forma profissional, uma tarefa social anteriormente exercida pelos
idosos. São elas os museus, arquivos, bibliotecas e centros de memória, que, de alguma forma e segundo critérios
previamente estabelecidos, realizam o trabalho de coletar, tratar, recuperar, organizar e colocar à disposição da
[40] sociedade a memória de uma região específica ou de um grupo social retida em suportes materiais diversos. [...]
(Adaptado de Augusto Guzzo Revista Acadêmica, São Paulo, n. 6, p. 14-18, maio 20083. Disponível em: http://fics.edu.br/index.php/augusto guzzo/article/view/57. Acesso em 23 de setembro de 2018)
TEXTO II
O Brasil queimou — e não tinha água para apagar o fogo
Eu vim ao Rio para um evento no Museu do Amanhã. Então descobri que não tinha mais passado.
Eliane Brum
Eu vim ao Rio para um evento no Museu do Amanhã.
Então descobri que não tinha mais passado.
Diante de mim, o Museu Nacional do Rio queimava.
O crânio de Luzia, a “primeira brasileira”, entre 12.500 e 13 mil anos, queimava. Uma das mais completas
[5] coleções de pterossauros do mundo queimava. Objetos que sobreviveram à destruição de Pompeia queimavam. A
múmia do antigo Egito queimava. Milhares de artefatos dos povos indígenas do Brasil queimavam.
Vinte milhões de memória de alguma coisa tentando ser um país queimavam.
O Brasil perdeu a possibilidade da metáfora. Isso já sabíamos. O excesso de realidade nos joga no não tempo. No
sem tempo. No fora do tempo.
[10] O Museu Nacional em chamas. Um bombeiro esguichando água com uma mangueira um pouco maior do que a
que eu tenho na minha casa. O Museu Nacional queimando. Sem água em parte dos hidrantes, depois de quatro horas de
incêndio ainda chegavam caminhões-pipa com água potável. O Museu Nacional queimando. Uma equipe tentava tirar
àgua do lago da Quinta da Boa Vista. O Museu Nacional queimando. A PM impedia as pessoas de avançar para tentar
salvar alguma coisa. O Museu Nacional queimando. Outras pessoas tentavam furtar o celular e a carteira de quem
[15] tentava entrar para ajudar ou só estava imóvel diante dos portões tentando compreender como viver sem metáforas.
Brasil, é você. Não posso ser aquele que não é.
O Museu Nacional queimando.
O que há mais para dizer agora que as palavras já não dizem e a realidade se colocou além da interpretação”
Diante do Museu Nacional em chamas, de costas para o palácio, de frente para onde deveria estar o povo, Dom
[20] Pedro Il em estátua. Sua família tinha tentado inventar um país e o fundaram sobre corpos humanos. Seu avô, Dom João
VI, criou aquele museu no Palácio de São Cristóvão. Dom Pedro Il está no centro, circunspecto, um homem feito de pedra,
um imperador. Diante da parte esquerda do museu, indígenas de diferentes etnias observam as chamas como se mais uma
vez fossem eles que estivessem queimando. Estão. E o maior acervo de línguas indígenas da América Latina, diz Urutau
Guajajara. E a nossa memória que estão apagando. E o golpe, é o golpe. Poderiam ter salvo, e não salvaram, ele grita.
[25] Nunca salvaram. Há 500 anos não salvam.
As costas de Pedro ferviam.
Quando soube que o museu queimava, eu dividi um táxi com um jornalista britânico e uma atriz brasileira com
uma câmera na mão. “Não é só como se o British Museum estivesse queimando, é como se junto com ele estivesse
também o Palácio de Buckingham”, disse Jonathan Watts. “Não há mais possibilidade de fazer documentário”, afirmou
[30] Gabriela Carneiro da Cunha. “Arealidade é Science Fiction1.”
Eu, que vivo com as palavras e das palavras, não consigo dizer. Sem passado, indo para o Museu do Amanhã,
sou convertida em muda. Esvazio de memória como o Museu Nacional. Chamas dentro de todo ele, uma casca do lado de
fora. Sou também eu. Uma casca que anda por um país sem país. Eu, sem Luzia, uma não mulher em lugar nenhum.
A frase ecoa em mim. E ecoa. Fere minhas paredes em carne viva.
[35] “O Brasil é um construtor de ruínas. O Brasil constrói ruínas em dimensões continentais.”
A frase reverbera nos corredores vazios do meu corpo. Se a primeira brasileira incendiou-se, que brasileira posso
ser eu?
O que poderia expressar melhor este momento? A história do Brasil queima. A matriz europeia que inventou um
palácio e fez dele um museu. Os indígenas que choram do lado de fora porque suas línguas se incineram lá dentro. E eu
[40] preciso alcançar o Museu do Amanhã. Mas o Brasil já não é o país do futuro. O Brasil perdeu a possibilidade de imaginar
um futuro. O Brasil está em chamas.
O Museu Nacional sem recursos do Governo Federal. Os funcionários do Museu Nacional fazendo vaquinha na
Internet para reabrir a sala principal. O Museu Nacional morrendo de abandono. O Museu Nacional sem manutenção. O
Rio de Janeiro. Flagelado e roubado e arrancado Rio de Janeiro. Entre todos os Brasis, tinha que ser o Rio.
[45] Ouço então um chefe de bombeiros dar uma coletiva diante do Museu Nacional, as labaredas lambem o cenário
atrás dele. O bombeiro explica para as câmeras de TV que não tinha água, ele conta dos caminhões-pipa. E ele declara:
“Está tudo sob controle”.
Eu quero gargalhar, me botar louca, queimar junto, ser aquela que ensandece para poder gritar para sempre a
única frase lúcida que agora conheço: “O Museu Nacional está queimando! O Museu Nacional está queimando!”.
[50] O Brasil está queimando.
E o meteoro estava dentro do museu.
(El País Brasil: O Jornal Global. Opinião. 3 de setembro de 2018. Disponível em:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/03/o0pinion/1535975822 1774583.html. Acesso em 14 de setembro de 2018)
Nota:
1 Ficção Científica.
TEXTO III
Por que temos poucos memoriais de abolição da escravidão?
Lilia Schwarcz
Lembrar é uma forma de não deixar esquecer. O Brasil foi destino de mais de 40% de africanos e africanas por
aqui escravizados, e precisa cuidar, de maneira crítica, da sua memória.
Bem no meio da pacata cidade de Nantes, na França, uma calçada reluz estranhamente ao sol. São centenas de
pequenas placas retangulares, feitas de um vidro translúcido e de cor azul celeste, espalhadas por uma via onde passam
[5] mães levando seus carrinhos de bebê, rapazes andando de bicicleta, moços e moças fazendo jogging1, senhores e
senhoras apressados a caminho do trabalho.
Somente apurando bem os olhos é possível notar que há sempre um título gravado por debaixo desses delicados
sinais brilhantes, dispostos simetricamente ao chão. Le Saint Jean Baptiste, Le Juste, L'Union, La Valeur, La Felicité, Le
Bien Aimée e Brésil2 são alguns dos muitos nomes de navios negreiros que, desde o século 16 e até o final do 19, partiram
[10] do porto de Nantes ou lá aportaram. Os apelidos dados aos barcos parecem denotar uma certa culpa, tamanha a
desproporção entre eles e a tarefa que buscavam descrever.
Essas eram embarcações que transportavam de tudo um pouco: tecidos, produtos agrícolas, azulejos, minérios,
especiarias, mas, acima de tudo, pessoas. Eles eram tumbeiros, navios negreiros que faziam o comércio de almas no
contexto moderno, quando o mundo ocidental reinventou uma nova escravidão; uma escravidão mercantil. Os navios
[15] vinham e voltavam cheios de “mercadorias”. Não havia espaço ocioso ou lugar nas embarcações que deixassem de
auferir lucro: de uma ponta saíam produtos agrícolas, de outra, metais preciosos, de outra, ainda, africanos e africanas
transformados em valiosos objetos de comércio.
Foram recenseadas mais de 27.233 expedições marítimas que partiram de portos europeus durante esses
quatro longos séculos em que perdurou o sistema escravocrata. No total, mais de 12 milhões e meio de mulheres, homens
[20] e crianças foram arrancadas à força da África e deportados para as Américas e para o Caribe. Mais de um milhão e meio
dessas pessoas morreram durante a travessia. Só de Nantes saíram em torno de 1.800 expedições negreiras, tendo elas
apresado mais 550 mil africanos e africanas.
Os números são fortes, definitivos, e explicam o motivo da criação, em Nantes, de um impressionante “Memorial
da abolição da escravidão”, inaugurado no dia 25 de março de 2012. A edificação é discreta e ao mesmo tempo tocante.
[25] Na verdade, é preciso conhecer o lugar, ou ser previamente informado, para saber que na cidade existe um memorial e,
ademais, um museu basicamente dedicado ao tema.
Andar por aquela estranha calçada, agachar para ler os nomes dos navios, observar as datas em que cada uma
destas embarcações circulou, olhar para o mesmo mar, acaba sendo um exercício muito doloroso. Difícil sair de lá da
mesma maneira como se chegou. E impossível deixar de anotar a inacreditável quantidade de naus dedicadas a esse
[30] comércio de almas, que gerou a maior diáspora3 desde a época romana. Mais difícil ainda é tentar visualizar a maneira
como se “armazenavam” os bens importados, sem discriminação de pessoas ou produtos. Esse talvez seja o motivo de o
memorial continuar numa espécie de subsolo, onde se encontra uma cronologia da escravidão e uma série de frases
retiradas de textos de ativistas, literatos e filósofos que lutaram pela abolição desse sistema. [...]
Memória e história nem sempre andam juntas. Afinal, muitas vezes, quando é difícil lembrar, o melhor caminho
[35] parece ser ignorar. Fico me perguntando, no entanto, se esquecer ou descuidar não são maneiras de dar espaço à
incredulidade e de construir o pouco caso diante de uma realidade tão brutal e tão presente em nossa história nacional
contemporânea.
Em maio de 2018 faremos 130 anos de abolição da escravidão mercantil no Brasil. Que a data vire cicatriz. Como
escreveu Caio Fernando Abreu: “Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que
[40] provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva”.
(Adaptado de Nexo Jornal Ltda. Coluna. 9 de abril de 2018. Disponível em:
https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2018/Por-que-temos-poucos-memoriais-de-aboli% CI HAY C3%A30-da-escravidhC3%A30. Acesso em 17 de setembro de 2018)
Notas:
1 Corrida
2 São João Batista, O Justo, A União, O Valor, A Felicidade, O Bem-Amado e Brasil.
3 Dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica.
TEXTO IV
Pequena memória para um tempo sem memória
(A legião dos esquecidos)
Gonzaguinha
Memória de um tempo onde lutar
Por seu direito
E um defeito que mata
São tantas lutas inglórias
[5] São histórias que a história
Qualquer dia contará
De obscuros personagens
As passagens, as coragens
São sementes espalhadas nesse chão
[10] De Juvenais e de Raimundos
Tantos Júlios de Santana
Uma crença num enorme coração
Dos humilhados e ofendidos
Explorados e oprimidos
[15] Que tentaram encontrar a solução
São cruzes sem nomes, sem corpos, sem datas
Memória de um tempo onde lutar por seu direito
E um defeito que mata
E tantos são os homens por debaixo das manchetes
[20] São braços esquecidos que fizeram os heróis
São forças, são suores que levantam as vedetes
Do teatro de revistas, que é o país de todos nós
São vozes que negaram liberdade concedida
Pois ela é bem mais sangue
[25] Ela é bem mais vida
São vidas que alimentam nosso fogo da esperança
O grito da batalha
Quem espera nunca alcança
E ê, quando o Sol nascer
[30] E que eu quero ver quem se lembrará
E ê, quando amanhecer
E que eu quero ver quem recordará
É ê, não quero esquecer
Essa legião que se entregou por um novo dia
[35] É eu quero é cantar essa mão tão calejada
Que nos deu tanta alegria
E vamos à luta.
(Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. A vida do viajante. Faixa 4. EMI-Odeon. 1981)
Sem comprometer a semântica dos textos dos quais fazem parte, os termos “âmago” (Texto I, linha 15), “circunspecto” (Texto II, linha 21) e “obscuros” (Texto IV, linha 07) podem ser substituídos, respectivamente, por:
Questão 6 10779838
CEFET-RJ 1° Ano - 1ª Fase 2019TEXTO
O Brasil queimou — e não tinha água para apagar o fogo
Eu vim ao Rio para um evento no Museu do Amanhã. Então descobri que não tinha mais passado.
Eliane Brum
Eu vim ao Rio para um evento no Museu do Amanhã.
Então descobri que não tinha mais passado.
Diante de mim, o Museu Nacional do Rio queimava.
O crânio de Luzia, a “primeira brasileira”, entre 12.500 e 13 mil anos, queimava. Uma das mais completas
[5] coleções de pterossauros do mundo queimava. Objetos que sobreviveram à destruição de Pompeia queimavam. A
múmia do antigo Egito queimava. Milhares de artefatos dos povos indígenas do Brasil queimavam.
Vinte milhões de memória de alguma coisa tentando ser um país queimavam.
O Brasil perdeu a possibilidade da metáfora. Isso já sabíamos. O excesso de realidade nos joga no não tempo. No
sem tempo. No fora do tempo.
[10] O Museu Nacional em chamas. Um bombeiro esguichando água com uma mangueira um pouco maior do que a
que eu tenho na minha casa. O Museu Nacional queimando. Sem água em parte dos hidrantes, depois de quatro horas de
incêndio ainda chegavam caminhões-pipa com água potável. O Museu Nacional queimando. Uma equipe tentava tirar
àgua do lago da Quinta da Boa Vista. O Museu Nacional queimando. A PM impedia as pessoas de avançar para tentar
salvar alguma coisa. O Museu Nacional queimando. Outras pessoas tentavam furtar o celular e a carteira de quem
[15] tentava entrar para ajudar ou só estava imóvel diante dos portões tentando compreender como viver sem metáforas.
Brasil, é você. Não posso ser aquele que não é.
O Museu Nacional queimando.
O que há mais para dizer agora que as palavras já não dizem e a realidade se colocou além da interpretação”
Diante do Museu Nacional em chamas, de costas para o palácio, de frente para onde deveria estar o povo, Dom
[20] Pedro Il em estátua. Sua família tinha tentado inventar um país e o fundaram sobre corpos humanos. Seu avô, Dom João
VI, criou aquele museu no Palácio de São Cristóvão. Dom Pedro Il está no centro, circunspecto, um homem feito de pedra,
um imperador. Diante da parte esquerda do museu, indígenas de diferentes etnias observam as chamas como se mais uma
vez fossem eles que estivessem queimando. Estão. E o maior acervo de línguas indígenas da América Latina, diz Urutau
Guajajara. E a nossa memória que estão apagando. E o golpe, é o golpe. Poderiam ter salvo, e não salvaram, ele grita.
[25] Nunca salvaram. Há 500 anos não salvam.
As costas de Pedro ferviam.
Quando soube que o museu queimava, eu dividi um táxi com um jornalista britânico e uma atriz brasileira com
uma câmera na mão. “Não é só como se o British Museum estivesse queimando, é como se junto com ele estivesse
também o Palácio de Buckingham”, disse Jonathan Watts. “Não há mais possibilidade de fazer documentário”, afirmou
[30] Gabriela Carneiro da Cunha. “Arealidade é Science Fiction1.”
Eu, que vivo com as palavras e das palavras, não consigo dizer. Sem passado, indo para o Museu do Amanhã,
sou convertida em muda. Esvazio de memória como o Museu Nacional. Chamas dentro de todo ele, uma casca do lado de
fora. Sou também eu. Uma casca que anda por um país sem país. Eu, sem Luzia, uma não mulher em lugar nenhum.
A frase ecoa em mim. E ecoa. Fere minhas paredes em carne viva.
[35] “O Brasil é um construtor de ruínas. O Brasil constrói ruínas em dimensões continentais.”
A frase reverbera nos corredores vazios do meu corpo. Se a primeira brasileira incendiou-se, que brasileira posso
ser eu?
O que poderia expressar melhor este momento? A história do Brasil queima. A matriz europeia que inventou um
palácio e fez dele um museu. Os indígenas que choram do lado de fora porque suas línguas se incineram lá dentro. E eu
[40] preciso alcançar o Museu do Amanhã. Mas o Brasil já não é o país do futuro. O Brasil perdeu a possibilidade de imaginar
um futuro. O Brasil está em chamas.
O Museu Nacional sem recursos do Governo Federal. Os funcionários do Museu Nacional fazendo vaquinha na
Internet para reabrir a sala principal. O Museu Nacional morrendo de abandono. O Museu Nacional sem manutenção. O
Rio de Janeiro. Flagelado e roubado e arrancado Rio de Janeiro. Entre todos os Brasis, tinha que ser o Rio.
[45] Ouço então um chefe de bombeiros dar uma coletiva diante do Museu Nacional, as labaredas lambem o cenário
atrás dele. O bombeiro explica para as câmeras de TV que não tinha água, ele conta dos caminhões-pipa. E ele declara:
“Está tudo sob controle”.
Eu quero gargalhar, me botar louca, queimar junto, ser aquela que ensandece para poder gritar para sempre a
única frase lúcida que agora conheço: “O Museu Nacional está queimando! O Museu Nacional está queimando!”.
[50] O Brasil está queimando.
E o meteoro estava dentro do museu.
(El País Brasil: O Jornal Global. Opinião. 3 de setembro de 2018. Disponível em:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/03/o0pinion/1535975822 1774583.html. Acesso em 14 de setembro de 2018)
Nota:
1 Ficção Científica.
Na construção da argumentação do Texto, a referência à cidade de Nantes, na França, cumpre principalmente o papel de:
Questão 5 10779834
CEFET-RJ 1° Ano - 1ª Fase 2019TEXTO I
Memória, cultura e poder na sociedade do esquecimento
Olga Rodrigues de Moraes Von Simson
Memória é a capacidade humana de reter fatos e experiências do passado e retransmiti-los às novas gerações
através de diferentes suportes empíricos (voz, música, imagem, textos etc.).
Existe uma memória individual, que é aquela guardada por um indivíduo e se refere às suas próprias vivências e
experiências, mas que contém também aspectos da memória do grupo social onde ele se formou, isto é, onde esse
[5] Indivíduo foi socializado.
Há também aquilo que denominamos de memória coletiva, que é aquela formada pelos fatos e aspectos
julgados relevantes e que são guardados como memória oficial da sociedade mais ampla. Ela geralmente se expressa
naquilo que chamamos de lugares da memória, que são os monumentos, hinos oficiais, quadros e obras literárias e
artísticas que expressam a versão consolidada de um passado coletivo de uma dada sociedade.
[10] Como contrapartida, existem as memórias subterrâneas ou marginais, que correspondem a versões sobre o
passado dos grupos dominados de uma dada sociedade. Estas memórias geralmente não estão monumentalizadas, nem
gravadas em suportes concretos como textos, obras de arte e só se expressam quando conflitos sociais as evocam ou
quando os pesquisadores que se utilizam do método biográfico ou da história oral criam as condições para que elas
emerjam e possam, então, ser registradas, analisadas e passem a fazer parte da memória coletiva de uma dada
[15] sociedade. Elas geralmente se encontram muito bem guardadas no âmago de famílias ou grupos sociais dominados nos
quais são cuidadosamente passados de geração a geração.
Na sociedade ocidental atual, o ritmo acelerado do trabalho urbano, somado à facilidade e à rapidez dos meios de
comunicação, coloca o homem comum frente a uma quantidade avassaladora de informações. Tais fatos criam para o
homem contemporâneo quase a obrigação de consumir a informação de forma acrítica, perdendo-se, portanto, uma das
[20] mais importantes funções da memória humana — a capacidade seletiva —, que é o PODER de escolher aquilo que deve ser
preservado como lembrança importante e aqueles fatos e vivências que podem e devem ser descartados. A perda do
exercício desse poder de seleção constitui o fator fundamental para a formação do que os profissionais da informação
chamam de sociedades do esquecimento.
É verdade, nós não nos lembramos de tudo o que aconteceu ou que nos foi ensinado ao longo de nossa vida.
[25] Descartamos a maioria das experiências vivenciadas e só retemos aquelas que possuem significado, que são funcionais
para nossa existência futura. Yuri Lotman [...] já dizia que cultura é memória, pois é a cultura de uma sociedade que
fornece os filtros através dos quais os indivíduos que nela vivem podem exercer o seu poder de seleção. [...]
Nas sociedades da memória, que existiram no passado e ainda subsistem em locais isolados da África e da
América do Sul, por exemplo, [...] a memória é organizada e retida pelo conjunto de seus membros, os quais se incumbem
[30] detransmiti-la às novas gerações, cabendo aos mais velhos o importante papel social de guardiões da memória. [...]
Esse papel social dos idosos foi sendo gradativamente perdido ao longo da história das sociedades ocidentais,
mas muito mais intensamente na contemporaneidade, quando cada vez mais se diversificam e se sofisticam os suportes
para o registro e os suportes da memória (escrita, imprensa, fotografia, vídeo, discos, CDs, DVDs, disquetes etc.). Assim,
o enorme volume de informações fez surgir instituições especialmente voltadas ao trabalho de seleção, coleta,
[35] organização, guarda e manutenção adequada e divulgação da memória de grupos sociais ou da sociedade em geral
nessas novas sociedades do esquecimento.
Essas instituições realizam, portanto, hoje, de forma profissional, uma tarefa social anteriormente exercida pelos
idosos. São elas os museus, arquivos, bibliotecas e centros de memória, que, de alguma forma e segundo critérios
previamente estabelecidos, realizam o trabalho de coletar, tratar, recuperar, organizar e colocar à disposição da
[40] sociedade a memória de uma região específica ou de um grupo social retida em suportes materiais diversos. [...]
(Adaptado de Augusto Guzzo Revista Acadêmica, São Paulo, n. 6, p. 14-18, maio 20083. Disponível em: http://fics.edu.br/index.php/augusto guzzo/article/view/57. Acesso em 23 de setembro de 2018)
TEXTO II
Por que temos poucos memoriais de abolição da escravidão?
Lilia Schwarcz
Lembrar é uma forma de não deixar esquecer. O Brasil foi destino de mais de 40% de africanos e africanas por
aqui escravizados, e precisa cuidar, de maneira crítica, da sua memória.
Bem no meio da pacata cidade de Nantes, na França, uma calçada reluz estranhamente ao sol. São centenas de
pequenas placas retangulares, feitas de um vidro translúcido e de cor azul celeste, espalhadas por uma via onde passam
[5] mães levando seus carrinhos de bebê, rapazes andando de bicicleta, moços e moças fazendo jogging1, senhores e
senhoras apressados a caminho do trabalho.
Somente apurando bem os olhos é possível notar que há sempre um título gravado por debaixo desses delicados
sinais brilhantes, dispostos simetricamente ao chão. Le Saint Jean Baptiste, Le Juste, L'Union, La Valeur, La Felicité, Le
Bien Aimée e Brésil2 são alguns dos muitos nomes de navios negreiros que, desde o século 16 e até o final do 19, partiram
[10] do porto de Nantes ou lá aportaram. Os apelidos dados aos barcos parecem denotar uma certa culpa, tamanha a
desproporção entre eles e a tarefa que buscavam descrever.
Essas eram embarcações que transportavam de tudo um pouco: tecidos, produtos agrícolas, azulejos, minérios,
especiarias, mas, acima de tudo, pessoas. Eles eram tumbeiros, navios negreiros que faziam o comércio de almas no
contexto moderno, quando o mundo ocidental reinventou uma nova escravidão; uma escravidão mercantil. Os navios
[15] vinham e voltavam cheios de “mercadorias”. Não havia espaço ocioso ou lugar nas embarcações que deixassem de
auferir lucro: de uma ponta saíam produtos agrícolas, de outra, metais preciosos, de outra, ainda, africanos e africanas
transformados em valiosos objetos de comércio.
Foram recenseadas mais de 27.233 expedições marítimas que partiram de portos europeus durante esses
quatro longos séculos em que perdurou o sistema escravocrata. No total, mais de 12 milhões e meio de mulheres, homens
[20] e crianças foram arrancadas à força da África e deportados para as Américas e para o Caribe. Mais de um milhão e meio
dessas pessoas morreram durante a travessia. Só de Nantes saíram em torno de 1.800 expedições negreiras, tendo elas
apresado mais 550 mil africanos e africanas.
Os números são fortes, definitivos, e explicam o motivo da criação, em Nantes, de um impressionante “Memorial
da abolição da escravidão”, inaugurado no dia 25 de março de 2012. A edificação é discreta e ao mesmo tempo tocante.
[25] Na verdade, é preciso conhecer o lugar, ou ser previamente informado, para saber que na cidade existe um memorial e,
ademais, um museu basicamente dedicado ao tema.
Andar por aquela estranha calçada, agachar para ler os nomes dos navios, observar as datas em que cada uma
destas embarcações circulou, olhar para o mesmo mar, acaba sendo um exercício muito doloroso. Difícil sair de lá da
mesma maneira como se chegou. E impossível deixar de anotar a inacreditável quantidade de naus dedicadas a esse
[30] comércio de almas, que gerou a maior diáspora3 desde a época romana. Mais difícil ainda é tentar visualizar a maneira
como se “armazenavam” os bens importados, sem discriminação de pessoas ou produtos. Esse talvez seja o motivo de o
memorial continuar numa espécie de subsolo, onde se encontra uma cronologia da escravidão e uma série de frases
retiradas de textos de ativistas, literatos e filósofos que lutaram pela abolição desse sistema. [...]
Memória e história nem sempre andam juntas. Afinal, muitas vezes, quando é difícil lembrar, o melhor caminho
[35] parece ser ignorar. Fico me perguntando, no entanto, se esquecer ou descuidar não são maneiras de dar espaço à
incredulidade e de construir o pouco caso diante de uma realidade tão brutal e tão presente em nossa história nacional
contemporânea.
Em maio de 2018 faremos 130 anos de abolição da escravidão mercantil no Brasil. Que a data vire cicatriz. Como
escreveu Caio Fernando Abreu: “Menos pela cicatriz deixada, uma ferida antiga mede-se mais exatamente pela dor que
[40] provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva”.
(Adaptado de Nexo Jornal Ltda. Coluna. 9 de abril de 2018. Disponível em:
https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2018/Por-que-temos-poucos-memoriais-de-aboli% CI HAY C3%A30-da-escravidhC3%A30. Acesso em 17 de setembro de 2018)
Notas:
1 Corrida
2 São João Batista, O Justo, A União, O Valor, A Felicidade, O Bem-Amado e Brasil.
3 Dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica.
Por meio de conceitos propostos pelo Texto I, pode-se entender como resposta à pergunta-título do Texto II:
Questão 4 10779830
CEFET-RJ 1° Ano - 1ª Fase 2019TEXTO
O Brasil queimou — e não tinha água para apagar o fogo
Eu vim ao Rio para um evento no Museu do Amanhã. Então descobri que não tinha mais passado.
Eliane Brum
Eu vim ao Rio para um evento no Museu do Amanhã.
Então descobri que não tinha mais passado.
Diante de mim, o Museu Nacional do Rio queimava.
O crânio de Luzia, a “primeira brasileira”, entre 12.500 e 13 mil anos, queimava. Uma das mais completas
[5] coleções de pterossauros do mundo queimava. Objetos que sobreviveram à destruição de Pompeia queimavam. A
múmia do antigo Egito queimava. Milhares de artefatos dos povos indígenas do Brasil queimavam.
Vinte milhões de memória de alguma coisa tentando ser um país queimavam.
O Brasil perdeu a possibilidade da metáfora. Isso já sabíamos. O excesso de realidade nos joga no não tempo. No
sem tempo. No fora do tempo.
[10] O Museu Nacional em chamas. Um bombeiro esguichando água com uma mangueira um pouco maior do que a
que eu tenho na minha casa. O Museu Nacional queimando. Sem água em parte dos hidrantes, depois de quatro horas de
incêndio ainda chegavam caminhões-pipa com água potável. O Museu Nacional queimando. Uma equipe tentava tirar
àgua do lago da Quinta da Boa Vista. O Museu Nacional queimando. A PM impedia as pessoas de avançar para tentar
salvar alguma coisa. O Museu Nacional queimando. Outras pessoas tentavam furtar o celular e a carteira de quem
[15] tentava entrar para ajudar ou só estava imóvel diante dos portões tentando compreender como viver sem metáforas.
Brasil, é você. Não posso ser aquele que não é.
O Museu Nacional queimando.
O que há mais para dizer agora que as palavras já não dizem e a realidade se colocou além da interpretação”
Diante do Museu Nacional em chamas, de costas para o palácio, de frente para onde deveria estar o povo, Dom
[20] Pedro Il em estátua. Sua família tinha tentado inventar um país e o fundaram sobre corpos humanos. Seu avô, Dom João
VI, criou aquele museu no Palácio de São Cristóvão. Dom Pedro Il está no centro, circunspecto, um homem feito de pedra,
um imperador. Diante da parte esquerda do museu, indígenas de diferentes etnias observam as chamas como se mais uma
vez fossem eles que estivessem queimando. Estão. E o maior acervo de línguas indígenas da América Latina, diz Urutau
Guajajara. E a nossa memória que estão apagando. E o golpe, é o golpe. Poderiam ter salvo, e não salvaram, ele grita.
[25] Nunca salvaram. Há 500 anos não salvam.
As costas de Pedro ferviam.
Quando soube que o museu queimava, eu dividi um táxi com um jornalista britânico e uma atriz brasileira com
uma câmera na mão. “Não é só como se o British Museum estivesse queimando, é como se junto com ele estivesse
também o Palácio de Buckingham”, disse Jonathan Watts. “Não há mais possibilidade de fazer documentário”, afirmou
[30] Gabriela Carneiro da Cunha. “Arealidade é Science Fiction1.”
Eu, que vivo com as palavras e das palavras, não consigo dizer. Sem passado, indo para o Museu do Amanhã,
sou convertida em muda. Esvazio de memória como o Museu Nacional. Chamas dentro de todo ele, uma casca do lado de
fora. Sou também eu. Uma casca que anda por um país sem país. Eu, sem Luzia, uma não mulher em lugar nenhum.
A frase ecoa em mim. E ecoa. Fere minhas paredes em carne viva.
[35] “O Brasil é um construtor de ruínas. O Brasil constrói ruínas em dimensões continentais.”
A frase reverbera nos corredores vazios do meu corpo. Se a primeira brasileira incendiou-se, que brasileira posso
ser eu?
O que poderia expressar melhor este momento? A história do Brasil queima. A matriz europeia que inventou um
palácio e fez dele um museu. Os indígenas que choram do lado de fora porque suas línguas se incineram lá dentro. E eu
[40] preciso alcançar o Museu do Amanhã. Mas o Brasil já não é o país do futuro. O Brasil perdeu a possibilidade de imaginar
um futuro. O Brasil está em chamas.
O Museu Nacional sem recursos do Governo Federal. Os funcionários do Museu Nacional fazendo vaquinha na
Internet para reabrir a sala principal. O Museu Nacional morrendo de abandono. O Museu Nacional sem manutenção. O
Rio de Janeiro. Flagelado e roubado e arrancado Rio de Janeiro. Entre todos os Brasis, tinha que ser o Rio.
[45] Ouço então um chefe de bombeiros dar uma coletiva diante do Museu Nacional, as labaredas lambem o cenário
atrás dele. O bombeiro explica para as câmeras de TV que não tinha água, ele conta dos caminhões-pipa. E ele declara:
“Está tudo sob controle”.
Eu quero gargalhar, me botar louca, queimar junto, ser aquela que ensandece para poder gritar para sempre a
única frase lúcida que agora conheço: “O Museu Nacional está queimando! O Museu Nacional está queimando!”.
[50] O Brasil está queimando.
E o meteoro estava dentro do museu.
(El País Brasil: O Jornal Global. Opinião. 3 de setembro de 2018. Disponível em:
https://brasil.elpais.com/brasil/2018/09/03/o0pinion/1535975822 1774583.html. Acesso em 14 de setembro de 2018)
Nota:
1 Ficção Científica.
No fragmento “Poderiam ter salvo, e não salvaram, ele grita. Nunca salvaram.
Há 500 anos não salvam.” (linhas 24-25), do Texto, em todos os verbos destacados, nota-se que a autora optou pelo seguinte recurso sintático-semântico:
06
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