Questões de EFAF Português - Leitura e Interpretação de Texto
7.497 Questões
Questão 6 10117045
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2018TEXTO I
Casamento
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
[5] ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como ‘este foi difícil’
‘prateou no ar dando rabanadas’
[10] e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
[15] Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
(PRADO, Adélia. Terra de Santa Cruz, Rio de Janeiro: Record, 2006. p. 25.)
TEXTO II
A despedideira
Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem. Há mulheres
que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para que
ele seja a minha voz quando Deus me pedir contas. [...]
Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele
[5] foi. Quando me deixou, já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém. Às
vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro o tempo em que me encantei,
tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha.
Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeiríssimo dia, dei conta de que, até então, nunca
eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comerciar palavra, em negoceio de
[10] sentimento. Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre
o abismo. Falar é outra coisa, vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra eu me divinizei.
Como perfume em que perdesse minha própria aparência. Me solvia na fala, insubstanciada.
Lembro desse encontro, dessa primogênita primeira vez. Como se aquele momento fosse,
afinal, toda minha vida. Aconteceu aqui, neste mesmo pátio em que agora o espero. Era uma
[15] tarde boa para gente existir. O mundo cheirava a casa. O ar por ali parava. A brisa sem voar,
quase nidificava. Vez voz, os olhos e os olhares. Ele, em minha frente todo chegado como se a
sua única viagem tivesse sido para a minha vida.
No entanto, algo nele aparentava distância. [...]
Nesse mesmo pátio em que se estreava meu coração tudo iria, afinal, acabar. Porque ele
[20] anunciou tudo nesse poente. Que a paixão dele desbrilhara. Sem mais nada, nem outra mulher
havendo. Só isso: a murchidão do que, antes, florescia. [...] O único intruso era o tempo, que nossa
rotina deixara crescer e pesar.
[...] Deixem-me agora evocar, aos goles de lembrança. Enquanto espero que ele volte, de
novo, a este pátio. Recordar tudo, de uma só vez, me dá sofrimento. Por isso, vou lembrando aos
[25] poucos. Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que
descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e
ainda morro vazia, sem gota.
Porque eu não sou por mim. Existo refletida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é
por luz de outro. A luz desse amante, luz dançando na água. Mesmo que surja assim, agora,
[30] distante e fria. Cinza de um cigarro nunca fumado.
Pedi-lhe que viesse uma vez mais. Para que, de novo, se despeça de mim. E passados os anos,
tantos que já nem cabem na lembrança, eu ainda choro como se fosse a primeira despedida.
Porque esse adeus, só esse aceno é meu, todo inteiramente meu. Um adeus à medida de meu
amor.
[35] [...] Toda a vida acreditei: amor é os dois se duplicarem em um. Mas hoje sinto: ser um é
ainda muito. De mais. Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada, Ninguém no plural.
Ninguéns.
(COUTO, Mia. O fio das missangas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p.51-54.)
A QUESTÃO REFERE-SE AOS TEXTOS II E III.
Tanto no poema de Adélia Prado quanto no conto de Mia Couto, a expressão “primeira vez” remete a momentos felizes:
“O silêncio de quando nos vimos a primeira vez / atravessa a cozinha como um rio profundo”
(Texto II, v. 11 e 12)
“Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeiríssimo dia, dei conta de que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. [...] Dessa vez, com esse homem, na palavra eu me divinizei. [...] Lembro desse encontro, dessa primogênita primeira vez”.
(Texto III, l. 8-13)
O silêncio (Texto I) e a palavra (Texto II), tão marcantes no primeiro encontro de cada casal, remetem, respectivamente à ideia de
Questão 5 10117036
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2018COM BASE NO TEXTO, RESPONDA A QUESTÃO.
TEXTO
Casamento
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
[5] ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como ‘este foi difícil’
‘prateou no ar dando rabanadas’
[10] e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
[15] Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
(PRADO, Adélia. Terra de Santa Cruz, Rio de Janeiro: Record, 2006. p. 25.)
ele fala coisas como ‘este foi difícil’
‘prateou no ar dando rabanadas’ (v. 8 e 9)
Nesse trecho, há um recurso de coesão textual em que o termo sublinhado é retomado por meio de elipse.
Esse mesmo recurso está presente em
Questão 5 3179512
Colégio Pedro II 2018Texto I
GUILHERME AUGUSTO ARAÚJO FERNANDES
Era uma vez um menino chamado Guilherme Augusto Araújo Fernandes e ele nem era
tão velho assim.
Sua casa era ao lado de um asilo de velhos e ele conhecia todo mundo que vivia lá.
[...]
[05] Mas a pessoa que ele mais gostava era a Sra. Antônia Maria Diniz Cordeiro, porque ela
também tinha quatro nomes, como ele.
Ele a chamava de Dona Antônia e contava-lhe todos os seus segredos.
Um dia, Guilherme Augusto escutou sua mãe e seu pai conversando sobre Dona Antônia.
– Coitada da velhinha – disse sua mãe.
[10] – Por que ela é coitada? – perguntou Guilherme Augusto.
– Porque ela perdeu a memória – respondeu seu pai.
– Também, não é para menos – disse sua mãe. – Afinal, ela já tem noventa e seis anos.
– O que é memória? – perguntou Guilherme Augusto.
Ele vivia fazendo perguntas.
[15] – É algo de que você se lembre – respondeu o pai.
Mas Guilherme Augusto queria saber mais; então, ele procurou a Sra. Silvano que tocava
piano.
– O que é memória? – perguntou.
– Algo quente, meu filho, algo quente.
[20] Ele procurou o Sr. Cervantes que lhe contava histórias arrepiantes.
– O que é memória? – perguntou.
– Algo bem antigo, meu caro, algo bem antigo.
Ele procurou o Sr. Valdemar que adorava remar.
– O que é memória? – perguntou.
[25] – Algo que o faz chorar, meu menino, algo que o faz chorar.
Ele procurou a Sra. Mandala que andava com uma bengala.
– O que é memória? – perguntou.
– Algo que o faz rir, meu querido, algo que o faz rir.
Ele procurou o Sr. Possante que tinha voz de gigante.
[30] – O que é memória? – perguntou.
– Algo que vale ouro, meu jovem, algo que vale ouro.
Então Guilherme Augusto voltou para casa, para procurar memórias para Dona Antônia,
já que ela havia perdido as suas.
Ele procurou uma antiga caixa de sapatos cheia de conchas, guardadas há muito tempo,
[35] e colocou-as com cuidado numa cesta.
Ele achou a marionete, que sempre fizera todo mundo rir, e colocou-a na cesta também.
Ele lembrou-se, com tristeza, da medalha que seu avô lhe tinha dado e colocou-a
delicadamente ao lado das conchas.
Depois achou sua bola de futebol, que para ele valia ouro; por fim, entrou no galinheiro
[40] e pegou um ovo fresquinho, ainda quente, debaixo da galinha.
Aí, Guilherme Augusto foi visitar Dona Antônia e deu a ela, uma por uma, cada coisa de
sua cesta.
“Que criança adorável que me traz essas coisas maravilhosas”, pensou Dona Antônia.
E então ela começou a se lembrar.
[45] Ela segurou o ovo ainda quente e contou a Guilherme Augusto sobre um ovinho azul,
todo pintado, que havia encontrado uma vez, dentro de um ninho, no jardim da casa de sua
tia.
Ela encostou uma das conchas em seu ouvido e lembrou da vez que tinha ido à praia de
bonde, há muito tempo, e como sentira calor com suas botas de amarrar.
[50] Ela pegou a medalha e lembrou, com tristeza, de seu irmão mais velho, que havia ido
para guerra e que nunca voltou.
Ela sorriu para a marionete e lembrou da vez em que mostrara uma para sua irmãzinha,
que rira às gargalhadas, com a boca cheia de mingau.
Ela jogou a bola de futebol para Guilherme Augusto e lembrou do dia em que se
[55] conheceram e de todos os segredos que haviam compartilhado.
E os dois sorriram e sorriram, pois toda a memória perdida de Dona Antônia tinha sido
encontrada, por um menino que nem era tão velho assim.
FOX, Mem. Guilherme Augusto Araújo Fernandes. São Paulo: Brinque-Book, 1984.
Texto II
GUARDAR
Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.
CICERO, Antonio. Guardar: poemas escolhidos. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 11.
No poema (Texto II), são criados vários sentidos para o verbo “guardar”.
Assinale a alternativa em que a atitude de Guilherme (Texto I) corresponde a um desses sentidos.
Questão 32 1375968
CN 2° Dia 2018Leia o texto referente à questão.
Carta à República
Sim é verdade, a vida é mais livre
O medo já não convive nas casas, nos bares, nas ruas
Com o povo daqui
E até dá pra pensar no futuro
E ver nossos filhos crescendo e sorrindo
Mas eu não posso esconder a amargura
Ao ver que o sonho anda pra trás
[...]
A esperança que a gente carrega
É um sorvete em pleno sol
O que fizeram da nossa fé?
[...]
Eu saí pra sonhar meu país
E foi tão bom, não estava sozinho
A praça era alegria sadia
O povo era senhor
E só uma voz, numa só canção
E foi por ter posto a mão no futuro
Que no presente preciso ser duro
E eu não posso me acomodar
Quero um país melhor
(Milton Nascimento e Fernando Brant)
Gravada em 1987, é correto afirmar que a música, segundo o contexto histórico da época, apresenta uma visão otimista em relação:
Questão 12 622169
COTUCA 2018Muitos textos apresentam a ambiguidade como um recurso para explorar sentidos poéticos. Com ela, é possível contrapor sentidos muito diferentes em um mesmo contexto e criar, por exemplo, ironia ou humor. O cartaz a seguir apresenta esse efeito:

Escolha a alternativa que melhor interpreta esse cartaz.
Questão 3 622125
COTUCA 2018Leia os dois textos a seguir para responder à questão.
NO MEIO DO CAMINHO
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
Carlos Drummond de Andrade. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 2006. p. 16

Sérgio Vaz. Disponível em https://www.facebook.com/poetasergio.vaz2 Acesso em 29/08/2017.
O texto de Sérgio Vaz foi escrito inspirado no de Carlos Drummond de Andrade. Analise qual das alternativas a seguir melhor se refere à relação estabelecida entre os dois textos.
06
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