Questões de EFAF Português
15.488 Questões
Questão 20 10122210
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2014O cio da terra
Chico Buarque e Milton Nascimento
Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão
[5] Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel
Afagar a terra
[10] Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, a propícia estação
E fecundar o chão
Disponível em http://letras.mus.br/chico-buarque
O emprego do infinitivo gera um efeito expressivo relevante na letra da canção, uma vez que apoia a estrutura rítmica e
Questão 19 10122206
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2014O cio da terra
Chico Buarque e Milton Nascimento
Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão
[5] Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel
Afagar a terra
[10] Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, a propícia estação
E fecundar o chão
Disponível em http://letras.mus.br/chico-buarque
Ao projetar as ações relacionadas ao cuidado de atender aos “desejos da terra”, o eu lírico da canção defende que a busca dos alimentos pelo homem
Questão 18 10122203
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2014O peru de Natal
Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina:
ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados
de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra
nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra
[5] cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":
— Bom, no Natal, quero comer peru.
Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia
solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar
ninguém por causa do luto.
[...]
[10] Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru
naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela
tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas
três mães, três dias antes já não sabiam da vida sinão trabalhar, trabalhar no preparo
de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e inda levava
[15] embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de
exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia
ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso
mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade
ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.
[20] Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia
de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante
manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de
ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose,
muito minha companheira.
[...]
[25] Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem
mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. [...] De modo que, ainda
disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do
peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não
resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase
[30] pobreza sem razão.
— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!
Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim,
que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais.
[...]
— Eu que sirvo!
[35] "É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira
naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e
principiei uma distribuição heroica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja.
Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no
prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço
[40] angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:
— Se lembre de seus manos, Juca!
Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da
Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que
eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.
[45] — Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!
Foi quando ela não pôde mais com tanta comoção e principiou chorando.
Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no
refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha
também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não
[50] chorar também, tinha dezenove anos... [...]
[...]
Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia
escrever“felicidade gustativa”, mas não era só isso não. Era uma felicidade
maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores
do grande amor familiar. [...]
[55] A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois
vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-
casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai,
que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de
contemplação.
[60] Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas
garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa,
porque é bom uma insônia feliz.
ANDRADE, Mário de. Contos novos. São Paulo: Martins, 1973. (fragmentos)
“Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas.” (l. 20).
Nesse período, o se desempenha a mesma função sintática que apresenta em:
Questão 17 10122201
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2014O peru de Natal
Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina:
ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados
de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra
nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra
[5] cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":
— Bom, no Natal, quero comer peru.
Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia
solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar
ninguém por causa do luto.
[...]
[10] Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru
naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela
tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas
três mães, três dias antes já não sabiam da vida sinão trabalhar, trabalhar no preparo
de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e inda levava
[15] embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de
exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia
ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso
mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade
ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.
[20] Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia
de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante
manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de
ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose,
muito minha companheira.
[...]
[25] Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem
mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. [...] De modo que, ainda
disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do
peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não
resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase
[30] pobreza sem razão.
— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!
Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim,
que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais.
[...]
— Eu que sirvo!
[35] "É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira
naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e
principiei uma distribuição heroica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja.
Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no
prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço
[40] angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:
— Se lembre de seus manos, Juca!
Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da
Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que
eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.
[45] — Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!
Foi quando ela não pôde mais com tanta comoção e principiou chorando.
Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no
refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha
também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não
[50] chorar também, tinha dezenove anos... [...]
[...]
Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia
escrever“felicidade gustativa”, mas não era só isso não. Era uma felicidade
maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores
do grande amor familiar. [...]
[55] A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois
vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-
casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai,
que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de
contemplação.
[60] Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas
garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa,
porque é bom uma insônia feliz.
ANDRADE, Mário de. Contos novos. São Paulo: Martins, 1973. (fragmentos)
Na passagem “E isso mesmo era mamãe quem servia” (l. 17-18), a expressão sublinhada faz referência a uma informação que já apareceu na frase.
No entanto, no contexto em que foi usada, remete também ao valor semântico da locução
Questão 16 10122199
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2014O peru de Natal
Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina:
ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados
de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra
nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra
[5] cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":
— Bom, no Natal, quero comer peru.
Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia
solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar
ninguém por causa do luto.
[...]
[10] Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru
naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela
tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas
três mães, três dias antes já não sabiam da vida sinão trabalhar, trabalhar no preparo
de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e inda levava
[15] embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de
exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia
ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso
mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade
ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.
[20] Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia
de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante
manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de
ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose,
muito minha companheira.
[...]
[25] Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem
mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. [...] De modo que, ainda
disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do
peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não
resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase
[30] pobreza sem razão.
— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!
Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim,
que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais.
[...]
— Eu que sirvo!
[35] "É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira
naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e
principiei uma distribuição heroica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja.
Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no
prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço
[40] angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:
— Se lembre de seus manos, Juca!
Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da
Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que
eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.
[45] — Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!
Foi quando ela não pôde mais com tanta comoção e principiou chorando.
Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no
refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha
também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não
[50] chorar também, tinha dezenove anos... [...]
[...]
Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia
escrever“felicidade gustativa”, mas não era só isso não. Era uma felicidade
maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores
do grande amor familiar. [...]
[55] A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois
vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-
casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai,
que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de
contemplação.
[60] Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas
garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa,
porque é bom uma insônia feliz.
ANDRADE, Mário de. Contos novos. São Paulo: Martins, 1973. (fragmentos)
Manifestando uma sensação de “felicidade gustativa” (l. 52), o narrador identifica, no evento comemorado em família, a
Questão 15 10122197
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2014O peru de Natal
Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina:
ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados
de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra
nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra
[5] cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":
— Bom, no Natal, quero comer peru.
Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia
solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar
ninguém por causa do luto.
[...]
[10] Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru
naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela
tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas
três mães, três dias antes já não sabiam da vida sinão trabalhar, trabalhar no preparo
de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e inda levava
[15] embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de
exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia
ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso
mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade
ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.
[20] Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia
de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante
manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de
ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose,
muito minha companheira.
[...]
[25] Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem
mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. [...] De modo que, ainda
disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do
peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não
resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase
[30] pobreza sem razão.
— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!
Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim,
que até era capaz de comer pouco, só pra que os outros quatro comessem demais.
[...]
— Eu que sirvo!
[35] "É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira
naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e
principiei uma distribuição heroica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja.
Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no
prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço
[40] angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:
— Se lembre de seus manos, Juca!
Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da
Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que
eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.
[45] — Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!
Foi quando ela não pôde mais com tanta comoção e principiou chorando.
Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no
refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha
também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não
[50] chorar também, tinha dezenove anos... [...]
[...]
Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia
escrever“felicidade gustativa”, mas não era só isso não. Era uma felicidade
maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores
do grande amor familiar. [...]
[55] A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois
vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-
casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai,
que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de
contemplação.
[60] Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas
garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa,
porque é bom uma insônia feliz.
ANDRADE, Mário de. Contos novos. São Paulo: Martins, 1973. (fragmentos)
Embora destaque a figura materna durante a ceia natalina, o narrador estende a expressão dos sentimentos às demais mulheres da casa, que considera suas “três mães”.
No conto, essa extensão fundamenta-se na
06
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