Questões de EFAF Português
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Questão 11 10727243
CMC 6º Ano - Português 2014O texto a seguir serve de base para o item
RAIVA
A raiva é uma doença grave, transmissível aos mamíferos de uma forma geral, inclusive ao ser
humano. É extremamente mortal e uma das maiores causas de óbito entre cães. Seu causador é um vírus
altamente infectante. Nos centros urbanos, o cachorro é o maior agente propagador.
Cabe lembrar que a raiva não se transmite apenas através da mordida de um cachorro
[5]contaminado. O simples contato com sua saliva já pode ser suficiente para que o vírus seja inoculado no
organismo. A saliva, ao entrar em contato com um arranhão, um machucado ou qualquer local exposto do
corpo, transporta o vírus da raiva muito rapidamente em direção ao sistema nervoso central.
Antes de manifestar a doença, o cachorro pode dar alguns sinais de que algo não vai bem. Ele
muda seu comportamento, deixando de ser alegre e disposto para se tornar muito quieto e tímido. Com o
[10]tempo, o mal vai avançando e o dono do animal contaminado consegue observar outros sinais da doença.
É possível que ainda não esteja agressivo. Porém, ele instintivamente irá procurar o dono, solicitando
auxílio contra o sofrimento.
O único método conhecido para evitar a contaminação pela raiva é vacinar o animal. Além
disso, é muito importante impedi-lo de ter contato com cachorros suspeitos de estarem infectados.
(Texto adaptado de http://www.adestramento-para-caes.com/2013/07/raiva-canina-sintomas-prevencao-cuidados.html#ixzz3EdW9DYKS/ Acessado em 18/10/2014.)
Vocabulário:
Óbito: falecimento, morte.
Inoculado: que sofreu inoculação; infectado.
Observe: "Porém, ele instintivamente irá procurar o dono (...)." (linha 11).
Assinale a opção em que a oração foi reescrita sem mudança de sentido.
Questão 10 10727242
CMC 6º Ano - Português 2014O texto a seguir serve de base para o item
UMA NOITE DE CÃO
[1] — Ramalho! Vá entrando. Eh? Que pacote é esse?
— Não sente o cheiro? Passei n’O Rei do Frango Assado. É o melhor que se faz em São Paulo. Eu não
ia chegar de mãos abanando.
Ramalho, um amigo do Rio, ao passar por São Paulo sempre aparecia em meu apartamento com
[5]grandes notícias e pequenos pacotes. Como chegava habitualmente tarde e faminto, comprava no caminho
qualquer coisa para comer: pizza, quibe, bauru. No entanto, jamais era bem-vindo por mim e minha
mulher devido à hora imprópria das visitas, quando já íamos dormir.
Virgínia Woolf não parava de balançar o rabo e de saltar sobre o Ramalho. Embora já quase o mordera
certa vez, aquela noite nossa encantadora dálmata deu de lhe fazer festa. Minha mulher levou o frango
[10]para a cozinha. Desembrulhado sobre a mesa, era uma tentação.
Sentamo-nos no living. Ramalho acomodou-se numa poltrona, de costas para a cozinha, a contar
novidades sombrias do Rio.
[...]
Levei um choque. E não era para menos. Virgínia entrava no living e postava-se elegantemente sobre
[15]as patas dianteiras ao lado do Ramalho. Com o frango na boca. Isso mesmo: com o frango na boca. Olhei
para minha mulher, que deixou escapar um:
— Meu Deus!
[...]
Se Ramalho olhasse para baixo veria a cadela segurando a peça entre os dentes, certamente à espera de
[20]autorização para iniciar a ceia. Ergui-me, forçando o visitante a olhar para o alto. Conversaria de pé.
Sentindo a presença da dálmata na vizinhança, ele estendeu o braço e começou a acariciar-lhe a cabeça. A
centímetros da coxa esquerda do bípede assado... Pensei nas consequências. Se ele descobrisse onde
estava o seu jantar, eu teria de me vestir, descer à garagem, toda lotada naquele horário, tirar o carro da
vaga e sair pela madrugada à procura talvez dramática de outro frango.
[25] [...]
Puxei um pufe para bem perto do Ramalho. Diminuindo seu ângulo de visão, ele teria menos
probabilidade de focar Virgínia. Já trabalhei na TV e entendo desses lances.
[...]
Ramalho recuou na poltrona, ficando na mesma linha que o cão. A cara consorte empalideceu.
[30] Olhei para o teto.
— Aquilo não é um inseto? — apontei.
Ramalho e ela olharam para cima. E a dálmata também, com aquele bruta frango na boca.
— É apenas uma mancha — ele observou.
— Detesto insetos andando pela casa.
[35] O expediente deu resultado. Minha mulher aproveitou o momento e atraiu Virgínia para o corredor.
Ouvi o cão rosnar. Não querendo entregar a presa, fugiu com ela para o terraço iluminado, em frente ao
living. Vi Virgínia, perseguida, passar com o frango.
— Gosto desse terraço — disse Ramalho levantando-se e encaminhando-se para as portas de vidro.
Num salto, apaguei a luz.
[40] — Ele fica mais bonito no escuro, observe.
Apesar da escuridão, vi a cachorra escondendo-se entre as floreiras.
— Vamos ao frango — ele decidiu. — O cheirinho tomou conta do apartamento.
— Primeiro sirvo um uísque.
Ouvimos ganidos que assustaram o Ramalho. Ele seguiu pelo corredor.
[45] — A cachorra deve ter se machucado.
Agarrei-lhe o braço.
— Tome o uísque. [...]
Minha mulher apareceu afinal com um sorriso. Para a cozinha!
Ramalho sentou-se diante do frango desossado. Só para ele!
[50] — O Rei do Frango Assado está com tudo — disse Ramalho no final. — Este estava demais! — E
generoso: — Deixei um pedaço de peito pra cadela. Será que ela gosta?
— Sei lá!
REY, Marcos. O coração roubado e outras crônicas. São Paulo. Ática, 1996. p. 25-8.
Ao exclamar "— Meu Deus!" (linha 17), a esposa do narrador demonstra sentimento de:
Questão 9 10727241
CMC 6º Ano - Português 2014O texto a seguir serve de base para o item
UMA NOITE DE CÃO
[1] — Ramalho! Vá entrando. Eh? Que pacote é esse?
— Não sente o cheiro? Passei n’O Rei do Frango Assado. É o melhor que se faz em São Paulo. Eu não
ia chegar de mãos abanando.
Ramalho, um amigo do Rio, ao passar por São Paulo sempre aparecia em meu apartamento com
[5]grandes notícias e pequenos pacotes. Como chegava habitualmente tarde e faminto, comprava no caminho
qualquer coisa para comer: pizza, quibe, bauru. No entanto, jamais era bem-vindo por mim e minha
mulher devido à hora imprópria das visitas, quando já íamos dormir.
Virgínia Woolf não parava de balançar o rabo e de saltar sobre o Ramalho. Embora já quase o mordera
certa vez, aquela noite nossa encantadora dálmata deu de lhe fazer festa. Minha mulher levou o frango
[10]para a cozinha. Desembrulhado sobre a mesa, era uma tentação.
Sentamo-nos no living. Ramalho acomodou-se numa poltrona, de costas para a cozinha, a contar
novidades sombrias do Rio.
[...]
Levei um choque. E não era para menos. Virgínia entrava no living e postava-se elegantemente sobre
[15]as patas dianteiras ao lado do Ramalho. Com o frango na boca. Isso mesmo: com o frango na boca. Olhei
para minha mulher, que deixou escapar um:
— Meu Deus!
[...]
Se Ramalho olhasse para baixo veria a cadela segurando a peça entre os dentes, certamente à espera de
[20]autorização para iniciar a ceia. Ergui-me, forçando o visitante a olhar para o alto. Conversaria de pé.
Sentindo a presença da dálmata na vizinhança, ele estendeu o braço e começou a acariciar-lhe a cabeça. A
centímetros da coxa esquerda do bípede assado... Pensei nas consequências. Se ele descobrisse onde
estava o seu jantar, eu teria de me vestir, descer à garagem, toda lotada naquele horário, tirar o carro da
vaga e sair pela madrugada à procura talvez dramática de outro frango.
[25] [...]
Puxei um pufe para bem perto do Ramalho. Diminuindo seu ângulo de visão, ele teria menos
probabilidade de focar Virgínia. Já trabalhei na TV e entendo desses lances.
[...]
Ramalho recuou na poltrona, ficando na mesma linha que o cão. A cara consorte empalideceu.
[30] Olhei para o teto.
— Aquilo não é um inseto? — apontei.
Ramalho e ela olharam para cima. E a dálmata também, com aquele bruta frango na boca.
— É apenas uma mancha — ele observou.
— Detesto insetos andando pela casa.
[35] O expediente deu resultado. Minha mulher aproveitou o momento e atraiu Virgínia para o corredor.
Ouvi o cão rosnar. Não querendo entregar a presa, fugiu com ela para o terraço iluminado, em frente ao
living. Vi Virgínia, perseguida, passar com o frango.
— Gosto desse terraço — disse Ramalho levantando-se e encaminhando-se para as portas de vidro.
Num salto, apaguei a luz.
[40] — Ele fica mais bonito no escuro, observe.
Apesar da escuridão, vi a cachorra escondendo-se entre as floreiras.
— Vamos ao frango — ele decidiu. — O cheirinho tomou conta do apartamento.
— Primeiro sirvo um uísque.
Ouvimos ganidos que assustaram o Ramalho. Ele seguiu pelo corredor.
[45] — A cachorra deve ter se machucado.
Agarrei-lhe o braço.
— Tome o uísque. [...]
Minha mulher apareceu afinal com um sorriso. Para a cozinha!
Ramalho sentou-se diante do frango desossado. Só para ele!
[50] — O Rei do Frango Assado está com tudo — disse Ramalho no final. — Este estava demais! — E
generoso: — Deixei um pedaço de peito pra cadela. Será que ela gosta?
— Sei lá!
REY, Marcos. O coração roubado e outras crônicas. São Paulo. Ática, 1996. p. 25-8.
Considerando o contexto, a expressão "Levei um choque." (linha 14) significa:
Questão 8 10727240
CMC 6º Ano - Português 2014O texto a seguir serve de base para o item
UMA NOITE DE CÃO
[1] — Ramalho! Vá entrando. Eh? Que pacote é esse?
— Não sente o cheiro? Passei n’O Rei do Frango Assado. É o melhor que se faz em São Paulo. Eu não
ia chegar de mãos abanando.
Ramalho, um amigo do Rio, ao passar por São Paulo sempre aparecia em meu apartamento com
[5]grandes notícias e pequenos pacotes. Como chegava habitualmente tarde e faminto, comprava no caminho
qualquer coisa para comer: pizza, quibe, bauru. No entanto, jamais era bem-vindo por mim e minha
mulher devido à hora imprópria das visitas, quando já íamos dormir.
Virgínia Woolf não parava de balançar o rabo e de saltar sobre o Ramalho. Embora já quase o mordera
certa vez, aquela noite nossa encantadora dálmata deu de lhe fazer festa. Minha mulher levou o frango
[10]para a cozinha. Desembrulhado sobre a mesa, era uma tentação.
Sentamo-nos no living. Ramalho acomodou-se numa poltrona, de costas para a cozinha, a contar
novidades sombrias do Rio.
[...]
Levei um choque. E não era para menos. Virgínia entrava no living e postava-se elegantemente sobre
[15]as patas dianteiras ao lado do Ramalho. Com o frango na boca. Isso mesmo: com o frango na boca. Olhei
para minha mulher, que deixou escapar um:
— Meu Deus!
[...]
Se Ramalho olhasse para baixo veria a cadela segurando a peça entre os dentes, certamente à espera de
[20]autorização para iniciar a ceia. Ergui-me, forçando o visitante a olhar para o alto. Conversaria de pé.
Sentindo a presença da dálmata na vizinhança, ele estendeu o braço e começou a acariciar-lhe a cabeça. A
centímetros da coxa esquerda do bípede assado... Pensei nas consequências. Se ele descobrisse onde
estava o seu jantar, eu teria de me vestir, descer à garagem, toda lotada naquele horário, tirar o carro da
vaga e sair pela madrugada à procura talvez dramática de outro frango.
[25] [...]
Puxei um pufe para bem perto do Ramalho. Diminuindo seu ângulo de visão, ele teria menos
probabilidade de focar Virgínia. Já trabalhei na TV e entendo desses lances.
[...]
Ramalho recuou na poltrona, ficando na mesma linha que o cão. A cara consorte empalideceu.
[30] Olhei para o teto.
— Aquilo não é um inseto? — apontei.
Ramalho e ela olharam para cima. E a dálmata também, com aquele bruta frango na boca.
— É apenas uma mancha — ele observou.
— Detesto insetos andando pela casa.
[35] O expediente deu resultado. Minha mulher aproveitou o momento e atraiu Virgínia para o corredor.
Ouvi o cão rosnar. Não querendo entregar a presa, fugiu com ela para o terraço iluminado, em frente ao
living. Vi Virgínia, perseguida, passar com o frango.
— Gosto desse terraço — disse Ramalho levantando-se e encaminhando-se para as portas de vidro.
Num salto, apaguei a luz.
[40] — Ele fica mais bonito no escuro, observe.
Apesar da escuridão, vi a cachorra escondendo-se entre as floreiras.
— Vamos ao frango — ele decidiu. — O cheirinho tomou conta do apartamento.
— Primeiro sirvo um uísque.
Ouvimos ganidos que assustaram o Ramalho. Ele seguiu pelo corredor.
[45] — A cachorra deve ter se machucado.
Agarrei-lhe o braço.
— Tome o uísque. [...]
Minha mulher apareceu afinal com um sorriso. Para a cozinha!
Ramalho sentou-se diante do frango desossado. Só para ele!
[50] — O Rei do Frango Assado está com tudo — disse Ramalho no final. — Este estava demais! — E
generoso: — Deixei um pedaço de peito pra cadela. Será que ela gosta?
— Sei lá!
REY, Marcos. O coração roubado e outras crônicas. São Paulo. Ática, 1996. p. 25-8.
No trecho: "(...) eu teria de me vestir, descer à garagem, toda lotada naquele horário (...)" (linha 23), a expressão sublinhada significa que:
Questão 7 10727239
CMC 6º Ano - Português 2014O texto a seguir serve de base para o item
UMA NOITE DE CÃO
[1] — Ramalho! Vá entrando. Eh? Que pacote é esse?
— Não sente o cheiro? Passei n’O Rei do Frango Assado. É o melhor que se faz em São Paulo. Eu não
ia chegar de mãos abanando.
Ramalho, um amigo do Rio, ao passar por São Paulo sempre aparecia em meu apartamento com
[5]grandes notícias e pequenos pacotes. Como chegava habitualmente tarde e faminto, comprava no caminho
qualquer coisa para comer: pizza, quibe, bauru. No entanto, jamais era bem-vindo por mim e minha
mulher devido à hora imprópria das visitas, quando já íamos dormir.
Virgínia Woolf não parava de balançar o rabo e de saltar sobre o Ramalho. Embora já quase o mordera
certa vez, aquela noite nossa encantadora dálmata deu de lhe fazer festa. Minha mulher levou o frango
[10]para a cozinha. Desembrulhado sobre a mesa, era uma tentação.
Sentamo-nos no living. Ramalho acomodou-se numa poltrona, de costas para a cozinha, a contar
novidades sombrias do Rio.
[...]
Levei um choque. E não era para menos. Virgínia entrava no living e postava-se elegantemente sobre
[15]as patas dianteiras ao lado do Ramalho. Com o frango na boca. Isso mesmo: com o frango na boca. Olhei
para minha mulher, que deixou escapar um:
— Meu Deus!
[...]
Se Ramalho olhasse para baixo veria a cadela segurando a peça entre os dentes, certamente à espera de
[20]autorização para iniciar a ceia. Ergui-me, forçando o visitante a olhar para o alto. Conversaria de pé.
Sentindo a presença da dálmata na vizinhança, ele estendeu o braço e começou a acariciar-lhe a cabeça. A
centímetros da coxa esquerda do bípede assado... Pensei nas consequências. Se ele descobrisse onde
estava o seu jantar, eu teria de me vestir, descer à garagem, toda lotada naquele horário, tirar o carro da
vaga e sair pela madrugada à procura talvez dramática de outro frango.
[25] [...]
Puxei um pufe para bem perto do Ramalho. Diminuindo seu ângulo de visão, ele teria menos
probabilidade de focar Virgínia. Já trabalhei na TV e entendo desses lances.
[...]
Ramalho recuou na poltrona, ficando na mesma linha que o cão. A cara consorte empalideceu.
[30] Olhei para o teto.
— Aquilo não é um inseto? — apontei.
Ramalho e ela olharam para cima. E a dálmata também, com aquele bruta frango na boca.
— É apenas uma mancha — ele observou.
— Detesto insetos andando pela casa.
[35] O expediente deu resultado. Minha mulher aproveitou o momento e atraiu Virgínia para o corredor.
Ouvi o cão rosnar. Não querendo entregar a presa, fugiu com ela para o terraço iluminado, em frente ao
living. Vi Virgínia, perseguida, passar com o frango.
— Gosto desse terraço — disse Ramalho levantando-se e encaminhando-se para as portas de vidro.
Num salto, apaguei a luz.
[40] — Ele fica mais bonito no escuro, observe.
Apesar da escuridão, vi a cachorra escondendo-se entre as floreiras.
— Vamos ao frango — ele decidiu. — O cheirinho tomou conta do apartamento.
— Primeiro sirvo um uísque.
Ouvimos ganidos que assustaram o Ramalho. Ele seguiu pelo corredor.
[45] — A cachorra deve ter se machucado.
Agarrei-lhe o braço.
— Tome o uísque. [...]
Minha mulher apareceu afinal com um sorriso. Para a cozinha!
Ramalho sentou-se diante do frango desossado. Só para ele!
[50] — O Rei do Frango Assado está com tudo — disse Ramalho no final. — Este estava demais! — E
generoso: — Deixei um pedaço de peito pra cadela. Será que ela gosta?
— Sei lá!
REY, Marcos. O coração roubado e outras crônicas. São Paulo. Ática, 1996. p. 25-8.
Assinale a alternativa incorreta em relação à classificação gramatical das seguintes palavras retiradas do texto:
Questão 6 10727238
CMC 6º Ano - Português 2014O texto a seguir serve de base para o item
UMA NOITE DE CÃO
[1] — Ramalho! Vá entrando. Eh? Que pacote é esse?
— Não sente o cheiro? Passei n’O Rei do Frango Assado. É o melhor que se faz em São Paulo. Eu não
ia chegar de mãos abanando.
Ramalho, um amigo do Rio, ao passar por São Paulo sempre aparecia em meu apartamento com
[5]grandes notícias e pequenos pacotes. Como chegava habitualmente tarde e faminto, comprava no caminho
qualquer coisa para comer: pizza, quibe, bauru. No entanto, jamais era bem-vindo por mim e minha
mulher devido à hora imprópria das visitas, quando já íamos dormir.
Virgínia Woolf não parava de balançar o rabo e de saltar sobre o Ramalho. Embora já quase o mordera
certa vez, aquela noite nossa encantadora dálmata deu de lhe fazer festa. Minha mulher levou o frango
[10]para a cozinha. Desembrulhado sobre a mesa, era uma tentação.
Sentamo-nos no living. Ramalho acomodou-se numa poltrona, de costas para a cozinha, a contar
novidades sombrias do Rio.
[...]
Levei um choque. E não era para menos. Virgínia entrava no living e postava-se elegantemente sobre
[15]as patas dianteiras ao lado do Ramalho. Com o frango na boca. Isso mesmo: com o frango na boca. Olhei
para minha mulher, que deixou escapar um:
— Meu Deus!
[...]
Se Ramalho olhasse para baixo veria a cadela segurando a peça entre os dentes, certamente à espera de
[20]autorização para iniciar a ceia. Ergui-me, forçando o visitante a olhar para o alto. Conversaria de pé.
Sentindo a presença da dálmata na vizinhança, ele estendeu o braço e começou a acariciar-lhe a cabeça. A
centímetros da coxa esquerda do bípede assado... Pensei nas consequências. Se ele descobrisse onde
estava o seu jantar, eu teria de me vestir, descer à garagem, toda lotada naquele horário, tirar o carro da
vaga e sair pela madrugada à procura talvez dramática de outro frango.
[25] [...]
Puxei um pufe para bem perto do Ramalho. Diminuindo seu ângulo de visão, ele teria menos
probabilidade de focar Virgínia. Já trabalhei na TV e entendo desses lances.
[...]
Ramalho recuou na poltrona, ficando na mesma linha que o cão. A cara consorte empalideceu.
[30] Olhei para o teto.
— Aquilo não é um inseto? — apontei.
Ramalho e ela olharam para cima. E a dálmata também, com aquele bruta frango na boca.
— É apenas uma mancha — ele observou.
— Detesto insetos andando pela casa.
[35] O expediente deu resultado. Minha mulher aproveitou o momento e atraiu Virgínia para o corredor.
Ouvi o cão rosnar. Não querendo entregar a presa, fugiu com ela para o terraço iluminado, em frente ao
living. Vi Virgínia, perseguida, passar com o frango.
— Gosto desse terraço — disse Ramalho levantando-se e encaminhando-se para as portas de vidro.
Num salto, apaguei a luz.
[40] — Ele fica mais bonito no escuro, observe.
Apesar da escuridão, vi a cachorra escondendo-se entre as floreiras.
— Vamos ao frango — ele decidiu. — O cheirinho tomou conta do apartamento.
— Primeiro sirvo um uísque.
Ouvimos ganidos que assustaram o Ramalho. Ele seguiu pelo corredor.
[45] — A cachorra deve ter se machucado.
Agarrei-lhe o braço.
— Tome o uísque. [...]
Minha mulher apareceu afinal com um sorriso. Para a cozinha!
Ramalho sentou-se diante do frango desossado. Só para ele!
[50] — O Rei do Frango Assado está com tudo — disse Ramalho no final. — Este estava demais! — E
generoso: — Deixei um pedaço de peito pra cadela. Será que ela gosta?
— Sei lá!
REY, Marcos. O coração roubado e outras crônicas. São Paulo. Ática, 1996. p. 25-8.
Em "Virgínia Woolf não parava de balançar o rabo e de saltar sobre o Ramalho." (linha 8), os verbos sublinhados indicam:
06
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