Questões de EFAF Português - Leitura e Interpretação de Texto
Questão 2 10993816
IFCE* 2023Leia o texto que segue.
A Pianista
Machado de Assis
[1] Tinha vinte e dois anos e era professora de piano. Era alta, formosa, morena e modesta. Fascinava e impunha respeito;
mas através do recato que ela sabia manter sem cair na afetação ridícula de muitas mulheres, via-se que era uma alma ardente
e apaixonada, capaz de atirar-se ao mar, como Safo ou de enterrar-se com o seu amante, como Cleópatra.
Ensinava piano. Era esse o único recurso que tinha para sustentar-se e a sua mãe, pobre velha a quem os anos e a
[5] fadiga de uma vida trabalhosa não permitiam já tomar parte nos labores de sua filha.
Malvina (era o nome da pianista) era estimada onde quer que fosse exercer a sua profissão. A distinção de suas
maneiras, a delicadeza de sua linguagem, a beleza rara e fascinante, e mais do que isso, a boa fama de mulher honesta acima
de toda a insinuação, tinha-lhe granjeado a estima de todas as famílias.
Era admitida nos saraus e jantares de família, não só como pianista, mas ainda como conviva elegante e simpática,
[10] sendo que ela sabia pagar com a mais perfeita distinção as atenções de que era objeto.
Nunca se lhe desmentira a estima que em todas as famílias encontrava. Essa estima estendia-se até à pobre Teresa,
sua mãe, que participava igualmente dos convites que faziam a Malvina.
O pai de Malvina morrera pobre, deixando à família a lembrança honrosa de uma vida honrada. Era um pobre
advogado sem carta, que, à custa de longa prática, conseguira poder exercer as funções da advocacia com tanto sucesso como
[15] se houvera cursado os estudos acadêmicos. O mealheiro do pobre homem foi sempre um tonel das Danaides, escoando-se por
um lado o que entrava por outro, graças às necessidades de honra que o mau destino lhe deparava. Quando pretendia começar
a fazer pecúlio para garantir o futuro da viúva e da órfã que deixasse, deu a alma a Deus.
Tinha, além de Malvina, um filho, principal causa dos danos pecuniários que sofreu; mas esse, mal faleceu o pai,
abandonou a família, e vivia, na época desta narrativa, uma vida de opróbrio.
[20] Era Malvina o único amparo de sua velha mãe, a quem amava com um amor de adoração.
Edição referência: http://www2.uol.com.br/machadodeassis Publicado originalmente em Jornal das Famílias 1866 Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/fs000068pdf.pdf Acesso em: 20 de setembro de 2022.
Na frase “[...] A distinção de suas maneiras, a delicadeza de sua linguagem, a beleza rara e fascinante, e mais do que isso, a boa fama de mulher honesta acima de toda a insinuação, tinha-lhe granjeado a estima de todas as famílias.”
(da linha 6 à 8), o substantivo destacado, em conformidade com o texto, tem sentido de
Questão 33 10850866
COLUNI/UFV 1° Dia 2023/1Leia o poema a seguir.
O Mundo do Menino Impossível Jorge de Lima
Fim da tarde, boquinha da noite
Com as primeiras estrelas
E os derradeiros sinos.
Entre as estrelas e lá detrás da igreja,
Surge a lua cheia
Para chorar com os poetas.
E vão dormir as duas coisas novas desse
mundo:
O sol e os meninos.
Mas ainda vela
O menino impossível
Aí do lado
Enquanto todas as crianças mansas
Dormem
Acalentadas
Por Mãe-negra noite.
O menino impossível
Que destruiu
Os brinquedos perfeitos
Que os vovós lhe deram:
O urso de Nüremberg,
O velho barbado iugoslavo,
As poupées de Paris aux
Cheveux crêpés
O carrinho português
Feito de folha-de-flandres,
A caixinha de música tcheco-eslovaca,
O polichinelo italiano
Made in England,
O trem de ferro de U.S.A
E o macaco brasileiro
De Buenos-Aires
Moviendo la cola y la cabeza.
O menino impossível
Que destruiu até
Os soldados de chumbo de Moscou
E furou os olhos de um Papá Noel,
Brinca com sabugos de milho,
Caixas vazias,
Tacos de pau,
Pedrinhas brancas do rio...
“Faz de conta que os sabugos
São bois...”
“Faz de conta...”
“Faz de conta...”
E os sabugos de milho
Mugem como bois de verdade...
E os tacos que deveriam ser
Soldadinhos de chumbo são
cangaceiros de chapéus de couro...
E as pedrinhas balem!
Coitadinhas das ovelhas mansas
Longe das mães
Presas nos currais de papelão!
É boquinha da noite
No mundo que o menino impossível
Povoou sozinho!
A mamãe cochila.
O papai cabeceia.
O relógio badala.
E vem descendo
Uma noite encantada
Da lâmpada que expira
Lentamente
Na parede da sala...
O menino poisa a testa
E sonha dentro da noite quieta
Da lâmpada apagada
Com o mundo maravilhoso
Que ele tirou do nada...
Xô! Xô! Pavão!
Sai de cima do telhado!
Deixa o menino dormir
Seu soninho sossegado!
NUNES, Cassiano; BRITO, Mário da Silva. Poesia Brasileira. Editora Clubinho Literário, 2021. p. 145-147.
O mundo moderno encontra-se de tal modo integrado em redes de diversos tipos, num intenso processo de globalização, que em vários âmbitos encontram-se situações semelhantes a do menino impossível diante dos brinquedos ganhados dos avós...
Sobre os diversos brinquedos do menino e sua origem, é INCORRETO afirmar:
Questão 9 10834602
COLUNI/UFV 1° Dia 2023/1Leia o trecho a seguir.
Conseguir o Clocky naturalmente não seria fácil, mas, com a ajuda de amigos que estudavam no Instituto Tecnológico de Massachusetts, obteve uma cópia do projeto, com a promessa de mantê-lo em segredo. Já confeccionar o despertador não foi difícil: ele era técnico em eletrônica e tinha uma habilidade incrível. Assim, logo tinha em sua mesa de cabeceira a engenhoca.
[...] Uma manhã, contudo, Clocky ultrapassou todos os limites. Tocava como um demônio, e ia de peça em peça, seu dono correndo atrás.
Clocky, o implacável. SCLIAR, Moacyr. Histórias que os jornais não contam. 3. ed. Porto Alegre: L&PM Editores, 2017. p. 129-130.(Adaptado).
As palavras destacadas no trecho acima: mas, Assim, e contudo expressam, respectivamente, a ideia de:
Questão 6 10834599
COLUNI/UFV 1° Dia 2023/1Analise o trecho:
“Acenou nervosamente para o motorista para que desviasse, e aí nova surpresa: o homem também lhe acenava, com o mesmo propósito.”
Na contramão da história.
SCLIAR, Moacyr. Histórias que os jornais não contam. 3. ed. Porto Alegre: L&PM Editores, 2018. p. 9. (Adaptado).
Verifique as alternativas que expressam a mesma circunstância do termo em destaque no trecho acima:
I. “Uma alteração tão significativa deveria ter sido previamente divulgada; e teria sido necessário colocar avisos na rodovia.”
(SCLIAR, Moacyr. O rádio apaixonado. In: SCLIAR, Moacyr. Histórias que os jornais não contam. 3. ed. Porto Alegre: L&M Editores, 2018. p.9).
II. “Enfrentara corajosamente o julgamento, sem mudar de opinião. E ele não mudaria de pista.”
(SCLIAR, Moacyr. O rádio apaixonado. In: SCLIAR, Moacyr. Histórias que os jornais não contam. 3. ed. Porto Alegre: L&M Editores, 2018. p.10).
III. “Um dia, porém, a VERDADE apareceria naquela estrada. Avançando celeremente, e na mesma mão em que ele estava.”
(SCLIAR, Moacyr. O rádio apaixonado. In: SCLIAR, Moacyr. Histórias que os jornais não contam. 3. ed. Porto Alegre: L&M Editores, 2018. p.9).
Está CORRETO o que se afirma em:
Questão 5 10834598
COLUNI/UFV 1° Dia 2023/1“Um comerciante foi detido pela Polícia Militar Rodoviária após dirigir na contramão da Rodovia dos Imigrantes por 1 km. Segundo a polícia, ele parecia embriagado.”
Na contramão da história. SCLIAR, Moacyr. Histórias que os jornais não contam. 3. ed. Porto Alegre: L&PM Editores, 2018. p.9.
Assinale a alternativa que apresenta CORRETAMENTE um tempo verbal que corresponde ao termo destacado no trecho acima.
Questão 4 10834597
COLUNI/UFV 1° Dia 2023/1Leia a crônica a seguir para responder à questão:
O rádio apaixonado
Rádio de carro aumentou volume sozinho até pifar, afirma leitora. "Comecei a observar que o rádio esquentava o botão se a frente fosse deixada nele. Logo depois, começou a ficar louco: aumentava o volume sozinho, até parar de funcionar". Ela disse ainda ter notado um som estranho que saía do interior do aparelho. "Só posso escutar o rádio com o carro ligado e, a cada vez que o ligo, ele está todo desconfigurado. O meu MP4 queimou ao ser ligado ao rádio." (10/03/2008)
MINHA QUERIDA DONA, sei que você anda se queixando de mim, publicamente, até. Você não pode imaginar o sofrimento que isto me causa, mesmo porque você provavelmente acha que rádios são objetos inanimados, sem vida própria. Você está enganada. Ao menos no meu caso, você está enganada. Ao contrário do que você pensa, tenho sentimentos, tenho emoções. É em nome desses sentimentos e dessas emoções que lhe falo agora, tanto em AM como em FM. Na verdade, eu nem tinha tomado conhecimento de minha própria existência, até que fui instalado em seu carro.
Você estava muito feliz; tinham lhe dito que minha marca é ótima, e que você contaria com um som maravilhoso para lhe ajudar no estresse que é esse trânsito. E, eu colocado no meu lugar, você me acariciou, você tocou os meus botões. Senti um verdadeiro choque, eu que já deveria estar acostumado com eletricidade. Você fez de mim um ser vivo.
Vivo e apaixonado. Daquele momento em diante, passei a ansiar por sua presença. Era para você que eu queria transmitir as melodias que recebia por meio de tantas canções. Você ao volante, minha felicidade era completa.
Acontece que você não se deu conta disso, ou fingiu que não se dava conta disso. Você me ligava, você sintonizava uma emissora qualquer e pronto, voltava à sua vidinha. Pior: tratava-se de uma vidinha partilhada. Amigas embarcavam em seu carro. Amigos também. Você conversando com um homem, aquilo me dava ciúmes, ciúmes terríveis. O Bentinho, do Machado de Assis, aquele que desconfiava da Capitu, não sofreu tanto. Lá pelas tantas eu tinha ciúmes até do seu MP4.
Agora: o que poderia eu fazer? Humanos têm como demonstrar seus ciúmes, têm como descarregar a frustração. Mas eu sou um rádio, um bom rádio, mas rádio, de qualquer maneira. A mim não estava facultado fazer cenas. Recorri, então, àquilo que estava a meu alcance: o som. Quando você estava com alguém de quem eu não gostava, eu aumentava meu volume - e volume, você sabe, é coisa que não me falta - até chegar a níveis insuportáveis, uma avalanche de decibéis. E aí, subitamente me calava. Para lembrar a você que o silêncio também fala, especialmente o silêncio dos traídos. Ah, sim, e queimei o seu MP4. Tinha de queimar: era ele ou eu.
Você foi se queixar com um técnico, achando que eu estava desconfigurado. Num certo sentido você está certa: estou desconfigurado, estou desfigurado, estou perturbado -mas tudo isso por causa do sofrimento que você me causou.
Querida dona, estas são minhas derradeiras palavras, antes de sair definitivamente do ar, antes do silêncio final. Minha última mensagem é esta: nunca brinque com os sentimentos de um rádio apaixonado. Você vai ter, no mínimo, surpresas desagradáveis.
SCLIAR, Moacyr. O rádio apaixonado. In: SCLIAR, Moacyr. Histórias que os jornais não contam. 3. ed. Porto Alegre: L&M
Editores, 2018.p.14-16. (Adaptado).
Leia o trecho a seguir:
“MINHA QUERIDA DONA, sei que você anda se queixando de mim, publicamente, até. Você não pode imaginar o sofrimento que isto me causa, mesmo porque você provavelmente acha que rádios são objetos inanimados, sem vida própria.”
SCLIAR, Moacyr. O rádio apaixonado. In: SCLIAR, Moacyr. Histórias que os jornais não contam. 3. ed. Porto Alegre: L&M Editores, 2018. p.14. (Adaptado).
A alternativa que apresenta CORRETAMENTE o sentido do termo sublinhado no trecho acima é:
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