Questões de EFAF Português - Leitura e Interpretação de Texto
7.497 Questões
Questão 36 10868979
Liceu-SP C. Gerais 2007Nós, os brasileiros.
Uma editora européia me pede que traduza poemas de autores estrangeiros sobre o Brasil.
Como sempre, eles falam da floresta amazônica, uma floresta muito pouco real, aliás. Um bosque poético, com “mulheres de corpos alvíssimos espreitando entre os troncos das árvores, e olhos de serpentes hirtas acariciando esses corpos como dedos amorosos”. Não faltam flores azuis, rios cristalinos e tigres mágicos.
Traduzo os poemas por dever de ofício, mas com uma secreta - e nunca realizada - vontade de inserir ali um grãozinho de realidade.
Nas minhas idas (nem tantas) ao exterior, onde convivi sobretudo com escritores ou professores e estudantes universitários - portanto, gente razoavelmente culta -, fui invariavelmente surpreendida com a profunda ignorância a respeito de quem, como e o que somos.
- A senhora é brasileira?- comentaram espantados alunos de uma universidade americana famosa. - Mas a senhora é loira! Depois de ler num congresso de escritores em Amsterdam um trecho de um dos meus romances traduzido em inglês, ouvi de um senhor elegante, dono de um antiquário famoso, que segurou comovido minhas duas mãos:
- Que maravilha! Nunca imaginei que no Brasil houvesse pessoas cultas!
Pior ainda, no Canadá alguém exclamou incrédulo:
- Escritora brasileira? Ué, mas no Brasil existem editoras?
A culminância foi a observação de uma crítica berlinense, num artigo sobre um romance meu editado por lá, acrescentando, a alguns elogios, a grave restrição: “porém não parece um livro brasileiro, pois não fala nem de plantas nem de índios nem de bichos”.
Diante dos três poemas sobre o Brasil, esquisitos para qualquer brasileiro, pensei mais uma vez que esse desconhecimento não se deve apenas à natural (ou inatural) alienação estrangeira quanto ao geograficamente fora de seus interesses, mas também a culpa é nossa. Pois o que mais exportamos de nós é o exótico e o folclórico.
Em uma feira do livro de Frankfurt, no espaço brasileiro, o que se via eram livros (não muito bem arrumados), muita caipirinha na mesa, e televisões mostrando carnaval, futebol, praia e ... mato.
E eu, mulher essencialmente urbana, escritora das geografias interiores de meus personagens neuróticos, me senti tão deslocada quanto um macaco em uma loja de cristais.
Mesmo que tentasse explicar, ninguém acreditaria que eu era tão brasileira quanto qualquer negra de origem africana vendendo acarajé nas ruas de Salvador. Porque o Brasil é tudo isso.
E nem a cor de meu cabelo e olhos, nem meu sobrenome, nem os livros que li na infância, nem o idioma que falei naquele tempo além do português, me fazem menos nascida e vivida nesta terra de tão surpreendentes misturas: imensa, desaproveitada, instigante e (por que ter medo da palavra?) maravilhosa.
(LUFT, Lya. Pensar e transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2005, p.49-51.)
O texto caracteriza os estrangeiros como
Questão 35 10868978
Liceu-SP C. Gerais 2007Nós, os brasileiros.
Uma editora européia me pede que traduza poemas de autores estrangeiros sobre o Brasil.
Como sempre, eles falam da floresta amazônica, uma floresta muito pouco real, aliás. Um bosque poético, com “mulheres de corpos alvíssimos espreitando entre os troncos das árvores, e olhos de serpentes hirtas acariciando esses corpos como dedos amorosos”. Não faltam flores azuis, rios cristalinos e tigres mágicos.
Traduzo os poemas por dever de ofício, mas com uma secreta - e nunca realizada - vontade de inserir ali um grãozinho de realidade.
Nas minhas idas (nem tantas) ao exterior, onde convivi sobretudo com escritores ou professores e estudantes universitários - portanto, gente razoavelmente culta -, fui invariavelmente surpreendida com a profunda ignorância a respeito de quem, como e o que somos.
- A senhora é brasileira?- comentaram espantados alunos de uma universidade americana famosa. - Mas a senhora é loira! Depois de ler num congresso de escritores em Amsterdam um trecho de um dos meus romances traduzido em inglês, ouvi de um senhor elegante, dono de um antiquário famoso, que segurou comovido minhas duas mãos:
- Que maravilha! Nunca imaginei que no Brasil houvesse pessoas cultas!
Pior ainda, no Canadá alguém exclamou incrédulo:
- Escritora brasileira? Ué, mas no Brasil existem editoras?
A culminância foi a observação de uma crítica berlinense, num artigo sobre um romance meu editado por lá, acrescentando, a alguns elogios, a grave restrição: “porém não parece um livro brasileiro, pois não fala nem de plantas nem de índios nem de bichos”.
Diante dos três poemas sobre o Brasil, esquisitos para qualquer brasileiro, pensei mais uma vez que esse desconhecimento não se deve apenas à natural (ou inatural) alienação estrangeira quanto ao geograficamente fora de seus interesses, mas também a culpa é nossa. Pois o que mais exportamos de nós é o exótico e o folclórico.
Em uma feira do livro de Frankfurt, no espaço brasileiro, o que se via eram livros (não muito bem arrumados), muita caipirinha na mesa, e televisões mostrando carnaval, futebol, praia e ... mato.
E eu, mulher essencialmente urbana, escritora das geografias interiores de meus personagens neuróticos, me senti tão deslocada quanto um macaco em uma loja de cristais.
Mesmo que tentasse explicar, ninguém acreditaria que eu era tão brasileira quanto qualquer negra de origem africana vendendo acarajé nas ruas de Salvador. Porque o Brasil é tudo isso.
E nem a cor de meu cabelo e olhos, nem meu sobrenome, nem os livros que li na infância, nem o idioma que falei naquele tempo além do português, me fazem menos nascida e vivida nesta terra de tão surpreendentes misturas: imensa, desaproveitada, instigante e (por que ter medo da palavra?) maravilhosa.
(LUFT, Lya. Pensar e transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2005, p.49-51.)
A imagem do Brasil exótico e folclórico, exportada pelos brasileiros, confirma-se em:
Questão 34 10868969
Liceu-SP C. Gerais 2007Nós, os brasileiros.
Uma editora européia me pede que traduza poemas de autores estrangeiros sobre o Brasil.
Como sempre, eles falam da floresta amazônica, uma floresta muito pouco real, aliás. Um bosque poético, com “mulheres de corpos alvíssimos espreitando entre os troncos das árvores, e olhos de serpentes hirtas acariciando esses corpos como dedos amorosos”. Não faltam flores azuis, rios cristalinos e tigres mágicos.
Traduzo os poemas por dever de ofício, mas com uma secreta - e nunca realizada - vontade de inserir ali um grãozinho de realidade.
Nas minhas idas (nem tantas) ao exterior, onde convivi sobretudo com escritores ou professores e estudantes universitários - portanto, gente razoavelmente culta -, fui invariavelmente surpreendida com a profunda ignorância a respeito de quem, como e o que somos.
- A senhora é brasileira?- comentaram espantados alunos de uma universidade americana famosa. - Mas a senhora é loira! Depois de ler num congresso de escritores em Amsterdam um trecho de um dos meus romances traduzido em inglês, ouvi de um senhor elegante, dono de um antiquário famoso, que segurou comovido minhas duas mãos:
- Que maravilha! Nunca imaginei que no Brasil houvesse pessoas cultas!
Pior ainda, no Canadá alguém exclamou incrédulo:
- Escritora brasileira? Ué, mas no Brasil existem editoras?
A culminância foi a observação de uma crítica berlinense, num artigo sobre um romance meu editado por lá, acrescentando, a alguns elogios, a grave restrição: “porém não parece um livro brasileiro, pois não fala nem de plantas nem de índios nem de bichos”.
Diante dos três poemas sobre o Brasil, esquisitos para qualquer brasileiro, pensei mais uma vez que esse desconhecimento não se deve apenas à natural (ou inatural) alienação estrangeira quanto ao geograficamente fora de seus interesses, mas também a culpa é nossa. Pois o que mais exportamos de nós é o exótico e o folclórico.
Em uma feira do livro de Frankfurt, no espaço brasileiro, o que se via eram livros (não muito bem arrumados), muita caipirinha na mesa, e televisões mostrando carnaval, futebol, praia e ... mato.
E eu, mulher essencialmente urbana, escritora das geografias interiores de meus personagens neuróticos, me senti tão deslocada quanto um macaco em uma loja de cristais.
Mesmo que tentasse explicar, ninguém acreditaria que eu era tão brasileira quanto qualquer negra de origem africana vendendo acarajé nas ruas de Salvador. Porque o Brasil é tudo isso.
E nem a cor de meu cabelo e olhos, nem meu sobrenome, nem os livros que li na infância, nem o idioma que falei naquele tempo além do português, me fazem menos nascida e vivida nesta terra de tão surpreendentes misturas: imensa, desaproveitada, instigante e (por que ter medo da palavra?) maravilhosa.
(LUFT, Lya. Pensar e transgredir. Rio de Janeiro: Record, 2005, p.49-51.)
A palavra em destaque está corretamente interpretada em:
Questão 24 10785056
EPCAR 1° Ano - Língua Portuguesa 2007Texto I
A força da linguagem
(...)
Podemos avaliar a força da linguagem tomando como
exemplo os mitos e as religiões.
A palavra grega mythos, como já vimos, significa
“narrativa” e, portanto, “linguagem”. Trata-se da palavra
[5] que narra a origem dos deuses, do mundo, dos homens, das
técnicas (o fogo, a agricultura, a caça, a pesca, o artesanato,
a guerra) e da vida do grupo social ou da comunidade.
Pronunciados em momentos especiais – os momentos
sagrados ou de relação com o sagrado –, os mitos são mais
[10] do que uma simples narrativa; são a maneira pela qual,
através das palavras, os seres humanos organizam a
realidade e a interpretam.
O mito tem o poder de fazer com que as coisas sejam
tais como são ditas ou pronunciadas. O melhor exemplo
[15] dessa força criadora da palavra encontra-se na abertura da
Gênese, na Bíblia judeu-cristã, em que Deus cria o mundo
do nada, apenas usando a linguagem: “E Deus disse:
faça-se!”, e foi feito. Porque Ele disse, foi feito. A palavra
divina é uma força criadora.
[20] Também vemos a força realizadora ou concretizadora
da linguagem nas liturgias religiosas. Por exemplo, na
missa cristã, o celebrante, pronunciando as palavras “Este é
o meu corpo” e “Este é o meu sangue”, realiza o mistério da
Eucaristia, isto é, a encarnação de Deus no pão e no vinho.
[25] Também nos rituais indígenas e africanos, os deuses e
heróis comparecem e se reúnem aos mortais quando
invocados pelas palavras corretas, pronunciadas pelo
celebrante.
A linguagem tem, assim, um poder encantatório, isto é,
[30] uma capacidade para reunir o sagrado e o profano, trazer os
deuses e as forças cósmicas para o meio do mundo, ou,
como acontece com os místicos em oração, tem o poder de
levar os humanos até o interior do sagrado. Eis por que, em
quase todas as religiões, existem profetas e oráculos, isto é,
[35] pessoas escolhidas pela divindade para transmitir
mensagens divinas aos humanos.
(...)
Independente de acreditarmos ou não em palavras
místicas, mágicas, encantatórias ou tabus, o importante é
[40] que elas existem, pois sua existência revela o poder que
atribuímos à linguagem. Esse poder decorre do fato de que
as palavras são núcleos, sínteses ou feixes de significações,
símbolos e valores que determinam o modo como
interpretamos as forças divinas, naturais, sociais e políticas
[45] e suas relações conosco.
Marilena Chaui
Texto II
Para os antigos egípcios “o órgão da criação é a boca, que nomeia todas as coisas”. No Rigveda, a fala é apresentada como imagem materna, que contém o universo dentro de si: “Da palavra vivem todos os deuses; da palavra vivem os gênios, os animais e os homens... a palavra é imperecível, primogênita da lei, mãe dos vedas, umbigo da imortalidade.
Texto III
ANTES DO NOME
Adélia Prado
Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
Os sítios escuros onde nasce o “de”, o “aliás”,
O “o”, o “porém” e o “que”, esta incompreensível
[5] muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é o Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave,
surda-muda,
[10] foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror.
Texto IV
Romance LIII ou das Palavras Aéreas
Cecília Meireles
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ide no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ide no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida,
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota...
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora...
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam...
Assinale a opção em que a palavra entre parênteses NÃO constitui substituição semanticamente correta ao termo destacado.
Questão 23 10785053
EPCAR 1° Ano - Língua Portuguesa 2007Texto
Romance LIII ou das Palavras Aéreas
Cecília Meireles
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ide no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ide no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida,
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota...
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora...
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam...
Assinale a alternativa INCORRETA de acordo com a norma padrão escrita (Texto).
Questão 21 10785051
EPCAR 1° Ano - Língua Portuguesa 2007Texto
Romance LIII ou das Palavras Aéreas
Cecília Meireles
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ide no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ide no vento,
e quedais, com sorte nova!
Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida,
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota...
A liberdade das almas,
ai! com letras se elabora...
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro
e mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam...
Considerando o Texto, analise as afirmativas abaixo.
I - Na 1ª estrofe, as palavras são apresentadas como efêmeras, vaporosas, voláteis.
II - Na 3ª estrofe, fica evidenciada a estranha aridez das palavras.
III - As palavras têm natureza paradoxal, na 4ª estrofe.
Está(ão) correta(s) apenas
06
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