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Questão 12 10121793
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2017TEXTO
O celular que escraviza
Eles roubam nosso tempo, atrapalham os relacionamentos e podem até causar acidentes de trânsito. Quando é a hora de desligar?
Estamos viciados. Em qualquer lugar, a qualquer momento do dia, não
conseguimos deixar de lado o objeto de nossa dependência. Dormimos ao lado dele,
acordamos com ele, o levamos para o banheiro e para o café da manhã – e, se, por
enorme azar, o esquecemos em casa ao sair, voltamos correndo. Somos incapazes de
[5] ficar mais de um minuto sem olhar para ele. É através dele que nos conectamos com o
mundo, com os amigos, com o trabalho. Sabemos da vida de todos e informamos a todos
o que acontece por meio dele. Os neurocientistas dizem que ele nos fornece pequenos
estímulos prazerosos dos quais nos tornamos dependentes. Somos 21 milhões – número
de brasileiros com mais de 15 anos que têm smartphones, os celulares que fazem muito
[10] mais que falar. Com eles, trocamos e-mails, usamos programas de GPS e navegamos
em redes sociais. O tempo todo. Observe a seu redor. Em qualquer situação, as pessoas
param, olham a tela do celular, dedilham uma mensagem. Enquanto conversam.
Enquanto namoram. Enquanto participam de uma reunião. E – pior de tudo – até mesmo
enquanto dirigem.
[15] “É uma dependência difícil de eliminar”, diz o psiquiatra americano David
Greenfield, diretor do Centro para Tratamento de Vício em Internet e Tecnologia, na
cidade de West Hartford. “Nosso cérebro se acostuma a receber essas novidades
constantemente e passa a procurar por elas a todo instante.” O pai de todos os vícios,
claro, é o Facebook, maior rede social do mundo, onde publicamos notícias sobre nós
[20] mesmos como se alimentássemos um grande jornal coletivo sobre a vida cotidiana.
Depois dele, novas redes foram criadas e apertaram o nó da dependência. Programas
de troca de fotos como o Instagram conectam milhões de pessoas por meio das imagens
feitas pelas câmeras cada vez mais potentes dos celulares. Os aplicativos de trocas de
mensagem, como o Whatsapp, promovem bate-papos escritos que se assemelham a
[25] uma conversa na mesa do bar. O final dessa história pode ser dramático. Interagir com
o aparelho – e com centenas de amigos escondidos sob a tela de cristal – tornou-se para
alguns uma compulsão tão violenta que pode colocar a própria vida em risco.
Parece exagero? Pense na história da garota americana Taylor Sauer, de 18
anos. Em janeiro, Taylor dirigia numa rodovia interestadual que liga os Estados de Utah
[30] e Idaho quando bateu a 130 quilômetros por hora na traseira de um caminhão. Taylor
trocava mensagens com um amigo sobre um time de futebol americano. Uma a cada 90
segundos. Seu último post foi: “Não posso discutir isso agora. Dirigir e escrever no
Facebook não é seguro! Haha”. Se não estivesse teclando, provavelmente Taylor teria
avistado o veículo à frente, que andava a meros 25 quilômetros por hora. O caso terrível
[35] não é uma aberração estatística. A cada ano, 3 mil americanos morrem por causa da
distração no celular, de acordo com a agência federal National Transportation Safety
Board.
No Brasil, não é diferente – pelo menos é a impressão dos profissionais que
trabalham na área. “Minha experiência sugere que essa é a quarta maior causa de
[40] acidentes, só atrás do excesso de velocidade, uso de álcool e drogas e cansaço”, diz
Dirceu Júnior, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. (...) O cérebro só
faz bem uma coisa ou outra. (...) Dirigir falando ao telefone duplica o risco de um
acidente.
(...)
[45] A sensação de estar por fora é consequência da hiperconectividade, um conceito
elaborado por dois pesquisadores canadenses, Anabel Quan-Haase e Barry Wellman.
Eles criaram uma teoria para explicar como vive o dono de um celular moderno. Ele pode
se comunicar a partir de qualquer lugar a qualquer instante. Não há fronteiras entre ele,
seus amigos e o restante do mundo – com exceção (maldição!) de locais em que o sinal
[50] é fraco ou (pesadelo!) não chega. Um dos efeitos colaterais da hiperconectividade é ser
altamente viciante. Daí a desconfiança de especialistas de que motoristas que não
conseguem largar o celular enquanto dirigem são, na verdade, dependentes.
Dispositivos eletrônicos como os celulares geram a sensação de prazer para o cérebro
porque ele se sente recompensado a cada novidade recebida. Uma mensagem é um
[55] pacotinho de prazer. A descarga de uma substância estimulante para nossos neurônios,
a dopamina, encarrega-se de gerar a sensação agradável. O Instituto de Informação e
Tecnologia de Helsinque, na Finlândia, fez um estudo para analisar quanto tempo do dia
gastamos com o hábito de verificar atualizações em busca desse barato cerebral. De
acesso em acesso, somamos duas horas e 40 minutos. É o mesmo tempo gasto nos
[60] Estados Unidos com televisão e dez vezes o que se gasta com leitura. (...)
Reportagem de Rafael Barifouse e Isabella Ayub, Revista Época,15/06/2012. Disponível em http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/06/o-celular-que-escraviza.html. Último acesso em 03 de outubro de 2017.
Em diversas passagens do texto, o autor enreda o leitor, travando com ele um diálogo informal.
Como marca notória dessa interlocução, podemos citar o uso
Questão 10 10121768
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2017TEXTO
Fiu-fiu
Luis Fernando Veríssimo
Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha?
Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou
em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo.
– Bem, não me espere para o jantar...
– Onde você está?
[5] – Sabe a nossa pesca submarina?
– O que houve?
– Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha
direção.
– Você ainda está embaixo d’água?!
[10] – Estou.
– E o seu arpão?
– O tubarão engoliu!
– Ligue para a Guarda Costeira!
São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares,
[15] e agora nem as piscinas estão seguras.
Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas
empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro
pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está
falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os dois mergulhados nos respectivos
[20] celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem – a não ser que estejam trocando
mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste.
Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam
o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que
ganhou um celular dos netos sem que estes se dessem ao trabalho de explicar seu
[25] funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia
quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que
alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que
mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da
noite! A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem
[30] está lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó
pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na
direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós
solitárias quando inventou o assovio?
O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso
[35] em volta. Eles agora podem atravessar o fosso.
Jornal O Globo, 03/08/2014. Disponível em https://oglobo.globo.com/opiniao/fiu-fiu-13464128. Último acesso em 30 de setembro de 2017.
Na crônica de Veríssimo, o título chama a atenção para uma expressão, usada ao final, em uma exemplificação que
Questão 9 10121764
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2017TEXTO
Fiu-fiu
Luis Fernando Veríssimo
Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha?
Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou
em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo.
– Bem, não me espere para o jantar...
– Onde você está?
[5] – Sabe a nossa pesca submarina?
– O que houve?
– Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha
direção.
– Você ainda está embaixo d’água?!
[10] – Estou.
– E o seu arpão?
– O tubarão engoliu!
– Ligue para a Guarda Costeira!
São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares,
[15] e agora nem as piscinas estão seguras.
Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas
empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro
pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está
falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os dois mergulhados nos respectivos
[20] celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem – a não ser que estejam trocando
mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste.
Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam
o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que
ganhou um celular dos netos sem que estes se dessem ao trabalho de explicar seu
[25] funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia
quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que
alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que
mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da
noite! A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem
[30] está lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó
pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na
direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós
solitárias quando inventou o assovio?
O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso
[35] em volta. Eles agora podem atravessar o fosso.
Jornal O Globo, 03/08/2014. Disponível em https://oglobo.globo.com/opiniao/fiu-fiu-13464128. Último acesso em 30 de setembro de 2017.
O termo “fiu-fiu” aparece três vezes no penúltimo parágrafo do texto.
Que recurso estilístico ele representa e que funções sintáticas assume nas três ocorrências, respectivamente?
Questão 8 10121759
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2017TEXTO
Fiu-fiu
Luis Fernando Veríssimo
Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha?
Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou
em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo.
– Bem, não me espere para o jantar...
– Onde você está?
[5] – Sabe a nossa pesca submarina?
– O que houve?
– Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha
direção.
– Você ainda está embaixo d’água?!
[10] – Estou.
– E o seu arpão?
– O tubarão engoliu!
– Ligue para a Guarda Costeira!
São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares,
[15] e agora nem as piscinas estão seguras.
Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas
empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro
pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está
falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os dois mergulhados nos respectivos
[20] celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem – a não ser que estejam trocando
mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste.
Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam
o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que
ganhou um celular dos netos sem que estes se dessem ao trabalho de explicar seu
[25] funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia
quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que
alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que
mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da
noite! A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem
[30] está lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó
pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na
direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós
solitárias quando inventou o assovio?
O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso
[35] em volta. Eles agora podem atravessar o fosso.
Jornal O Globo, 03/08/2014. Disponível em https://oglobo.globo.com/opiniao/fiu-fiu-13464128. Último acesso em 30 de setembro de 2017.
Marque a alternativa que expressa relação inadequada entre o conectivo destacado e o valor semântico que ele denota.
Questão 4 10121679
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2017TEXTO
Só o homem entediado terá chance de salvação num futuro de smartphones
João Pereira Coutinho
Assisto a conferências e a moda não engana: metade da sala (no mínimo) está
com a cabeça enfiada em smartphones. Como seriam as conferências antigamente? O
que fazia a audiência enquanto alguém falava no palanque?
Provavelmente, escutava. Ou dormia. Ou dormia e escutava, em intervalos
[5] saudáveis.
Hoje, ninguém dorme. Duvido que alguém escute. O smartphone é o inimigo do
tédio, ou da reflexão, proporcionando uma festa permanente.
Este seria o momento ideal para eu vestir a toga1 do moralista vulgar, lançando
raios homéricos sobre a nefasta2 tecnologia. A data, aliás, seria a mais apropriada: o
[10] iPhone nasceu dez anos atrás e o dilúvio começou.
Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o
smartphone ao velho e bom cochilo.
Especialistas diversos gostam de explicar a compulsão. É como uma droga, dizem
eles: quando espreitamos3 as mensagens, o e-mail, as redes sociais, procuramos uma
[15] espécie de recompensa neurobiológica muito semelhante a um viciado.
O problema se agrava quando somos privados da nossa dose – e eu sei, o leitor
sabe, todos sabemos dessa miserável privação.
Tempos atrás, esqueci-me do celular em casa e parti em viagem. Quando dei conta
do estrago, uma inquietude foi crescendo com o passar das horas.
[20] Ainda pensei em pedir ao companheiro do lado para me emprestar o smartphone
dele. Só para eu ler as minhas mensagens. Ou até, sei lá, as mensagens dele. Qualquer
coisa servia. Eu era como alguns alcoólatras que, na ausência de bebidas legais,
começam a despejar perfume pela goela.
Controlei-me. Telefonei para casa – de um telefone fixo, entenda – e pedi, com um
[25] último fôlego, que me lessem as novidades. Nenhuma delas era urgente, sequer
interessante. Mas o corpo sossegou e mergulhou naquele estranho torpor4 que Thomas
de Quincey relatou nas suas "Confissões de um Comedor de Ópio5". Como se chegou
até aqui?
Verdade: o tédio sempre foi o grande terror dos homens modernos. Ter no bolso
[30] um aparelho que garante distração permanente é a melhor forma de afastar o fantasma.
Acontece que o tédio tem as suas vantagens. O filósofo Mark Kingwell tem escrito
sobre a matéria (...) Só o tédio, escreve ele, é capaz de sinalizar a existência de um
problema entre nós e o mundo. O tédio é a "suspensão da suspensão" em que vivemos
– uma forma terapêutica, e até brutal, de olharmos para a realidade sem fugas. E de
[35] agirmos em conformidade.
Quando abolimos o tédio, e o "dom da escuta" que só ele oferece, desaparece uma
parte da nossa humanidade – aquela parte que reflete, imagina ou cria. E que
problematiza, critica, propõe.
No futuro, não será apenas a audiência que estará mergulhada nas telas dos
[40] smartphones. Também suspeito que os próprios conferencistas, privados de pensar e
sem nada para dizer, terão o mesmo comportamento.
Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes – e
só o homem entediado terá chance de salvação.
Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/06/1897093-so-ohomem-entediado-tera-chance-de-salvacao-num-futuro-de-smartphones.shtml. Último acesso em 06 de julho de 2017. (Adaptado).
VOCABULÁRIO:
1. Toga – traje preto e comprido, usado por advogados e por professores catedráticos e doutorados em ocasiões especiais.
2. Nefasto – nocivo, prejudicial, perverso, trágico, mau.
3. Espreitar – espiar, olhar demorada e fixamente.
4. Torpor – indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.
5. Ópio – narcótico, droga que provoca adormecimento.
Considere o fragmento: “Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o smartphone ao velho e bom cochilo.” (l. 11-12).
Para que se estabeleça uma relação coesiva explícita entre os períodos, que conectivo poderia figurar entre eles sem perda de sentido original?
Questão 3 10121677
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2017TEXTO
Só o homem entediado terá chance de salvação num futuro de smartphones
João Pereira Coutinho
Assisto a conferências e a moda não engana: metade da sala (no mínimo) está
com a cabeça enfiada em smartphones. Como seriam as conferências antigamente? O
que fazia a audiência enquanto alguém falava no palanque?
Provavelmente, escutava. Ou dormia. Ou dormia e escutava, em intervalos
[5] saudáveis.
Hoje, ninguém dorme. Duvido que alguém escute. O smartphone é o inimigo do
tédio, ou da reflexão, proporcionando uma festa permanente.
Este seria o momento ideal para eu vestir a toga1 do moralista vulgar, lançando
raios homéricos sobre a nefasta2 tecnologia. A data, aliás, seria a mais apropriada: o
[10] iPhone nasceu dez anos atrás e o dilúvio começou.
Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o
smartphone ao velho e bom cochilo.
Especialistas diversos gostam de explicar a compulsão. É como uma droga, dizem
eles: quando espreitamos3 as mensagens, o e-mail, as redes sociais, procuramos uma
[15] espécie de recompensa neurobiológica muito semelhante a um viciado.
O problema se agrava quando somos privados da nossa dose – e eu sei, o leitor
sabe, todos sabemos dessa miserável privação.
Tempos atrás, esqueci-me do celular em casa e parti em viagem. Quando dei conta
do estrago, uma inquietude foi crescendo com o passar das horas.
[20] Ainda pensei em pedir ao companheiro do lado para me emprestar o smartphone
dele. Só para eu ler as minhas mensagens. Ou até, sei lá, as mensagens dele. Qualquer
coisa servia. Eu era como alguns alcoólatras que, na ausência de bebidas legais,
começam a despejar perfume pela goela.
Controlei-me. Telefonei para casa – de um telefone fixo, entenda – e pedi, com um
[25] último fôlego, que me lessem as novidades. Nenhuma delas era urgente, sequer
interessante. Mas o corpo sossegou e mergulhou naquele estranho torpor4 que Thomas
de Quincey relatou nas suas "Confissões de um Comedor de Ópio5". Como se chegou
até aqui?
Verdade: o tédio sempre foi o grande terror dos homens modernos. Ter no bolso
[30] um aparelho que garante distração permanente é a melhor forma de afastar o fantasma.
Acontece que o tédio tem as suas vantagens. O filósofo Mark Kingwell tem escrito
sobre a matéria (...) Só o tédio, escreve ele, é capaz de sinalizar a existência de um
problema entre nós e o mundo. O tédio é a "suspensão da suspensão" em que vivemos
– uma forma terapêutica, e até brutal, de olharmos para a realidade sem fugas. E de
[35] agirmos em conformidade.
Quando abolimos o tédio, e o "dom da escuta" que só ele oferece, desaparece uma
parte da nossa humanidade – aquela parte que reflete, imagina ou cria. E que
problematiza, critica, propõe.
No futuro, não será apenas a audiência que estará mergulhada nas telas dos
[40] smartphones. Também suspeito que os próprios conferencistas, privados de pensar e
sem nada para dizer, terão o mesmo comportamento.
Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes – e
só o homem entediado terá chance de salvação.
Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/06/1897093-so-ohomem-entediado-tera-chance-de-salvacao-num-futuro-de-smartphones.shtml. Último acesso em 06 de julho de 2017. (Adaptado).
VOCABULÁRIO:
1. Toga – traje preto e comprido, usado por advogados e por professores catedráticos e doutorados em ocasiões especiais.
2. Nefasto – nocivo, prejudicial, perverso, trágico, mau.
3. Espreitar – espiar, olhar demorada e fixamente.
4. Torpor – indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.
5. Ópio – narcótico, droga que provoca adormecimento.
Ao longo do texto, o autor relata um episódio segundo o qual, saindo em viagem, teria ficado sem seu celular.
Esse evento provocou nele
06
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