Questões de EFAF Português
15.488 Questões
Questão 13 10134647
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2017TEXTO
Estímulo à leitura
Lei promulgada em 2010 estabeleceu a meta para que, no ano 2020, todas as instituições de
ensino públicas e privadas tenham bibliotecas à disposição de seus alunos. O diploma legal torna
obrigatório que haja nas estantes, no mínimo, um título para cada aluno matriculado, cabendo aos
estabelecimentos educacionais a responsabilidade pelas orientações para a preservação e a
[5] organização desses ambientes.
No entanto, fazer a relação do estudante brasileiro com o livro, aproximando-o da realidade
encontrada em outros grandes países, vai requerer mais do que construir espaços voltados à leitura.
A conquista mais decisiva na busca por tal fim deve passar pela tarefa de convencer as crianças
sobre as possibilidades que se abrem quando os livros são incorporados ao seu universo cotidiano.
[10] A divulgação anual do Pisa (Programa de Avaliação Internacional de Estudantes) expressa,
em dados estatísticos, a relação precária dos estudantes brasileiros com a leitura. O recente
levantamento mostrou cenário grave nas áreas de matemática e ciências, mas também destacou que
o Pais não alcançou a nota média (493 pontos) de proficiência em linguagem atingida pelas nações
que integram a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Conforme o
[15] exame, 51% dos alunos no Brasil estão abaixo do patamar adequado. A maioria tem dificuldades para
interpretar os textos lidos, desenvolver raciocínio a partir deles e ampliar a capacidade de adquirir
conhecimento.
A falta de leitura no decorrer da juventude se reflete nas demais faixas etárias, que também
cultivam, em geral, pouco apreço à atividade. Avalia-se que o brasileiro lê, em média, apenas 1,3 livro
[20] por ano, enquanto o francês consome sete obras e os norte-americanos devoram aproximadamente
11 publicações. Na quarta edição da "Pesquisa Retratos da Leitura", realizada pelo Instituto Pró-Livro,
revelou-se que 73% das pessoas no Brasil não frequentam bibliotecas. Existe somente uma unidade
pública para cada 33 mil habitantes. Na Argentina, há um espaço público destinado à leitura para
cada 17 mil pessoas.
[25] É preciso atualizar os métodos de ensino para mudar esse quadro e fazer as pessoas
assimilarem a leitura como um exercício fascinante. Dialogar com outras plataformas se tornou uma
maneira de despertar esse interesse em jovens estudantes. Nas escolas espalhadas pelo País,
experiências isoladas mostram ser possível elevar o relacionamento com a literatura a outro nível a
partir do auxílio de ferramentas tecnológicas. Há professores que perceberam a eficácia da
[30] experiência dos audiolivros, para estimular a imaginação das crianças e adolescentes com as
histórias contadas nas telas e, assim, atraí-los à leitura das publicações impressas tradicionais.
Os pais também têm papel crucial nesse processo. Diferentes estudos científicos atestam os
diversos resultados positivos que podem ser conquistados quando é inserida na rotina das crianças,
desde cedo, a prática da leitura. Pesquisa da Faculdade de Medicina de Nova York, nos Estados
[35] Unidos, reuniu famílias e as incumbiu de, durante 8 meses, ler dois livros por semana para seus
filhos. Ao fim do período, após os participantes passarem por uma série de testes e questionários,
constatou-se aumento no vocabulário das crianças e na capacidade de elas memorizarem as
informações.
O ato de ler desenvolve a inteligência e a criatividade, amplia o conhecimento geral e a
[40] percepção de mundo, excita a imaginação e pode transformar vidas. Um ato simples que deve ser
estimulado.
(Estímulo à leitura”. Diário do Nordeste. Fortaleza, 26 de agosto de 2017. Disponível em: http://diariodonordeste.verdesmares.com .br/cadernos/opiniao/estimulo-a-leitura-1.1810645: último acesso em 19/09/2017).
O Texto propõe quatro medidas para resolver o problema da falta de leitura no pais.
Assinale a alternativa que contenha todas elas:
Questão 12 10134639
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2017TEXTO
Estímulo à leitura
Lei promulgada em 2010 estabeleceu a meta para que, no ano 2020, todas as instituições de
ensino públicas e privadas tenham bibliotecas à disposição de seus alunos. O diploma legal torna
obrigatório que haja nas estantes, no mínimo, um título para cada aluno matriculado, cabendo aos
estabelecimentos educacionais a responsabilidade pelas orientações para a preservação e a
[5] organização desses ambientes.
No entanto, fazer a relação do estudante brasileiro com o livro, aproximando-o da realidade
encontrada em outros grandes países, vai requerer mais do que construir espaços voltados à leitura.
A conquista mais decisiva na busca por tal fim deve passar pela tarefa de convencer as crianças
sobre as possibilidades que se abrem quando os livros são incorporados ao seu universo cotidiano.
[10] A divulgação anual do Pisa (Programa de Avaliação Internacional de Estudantes) expressa,
em dados estatísticos, a relação precária dos estudantes brasileiros com a leitura. O recente
levantamento mostrou cenário grave nas áreas de matemática e ciências, mas também destacou que
o Pais não alcançou a nota média (493 pontos) de proficiência em linguagem atingida pelas nações
que integram a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). Conforme o
[15] exame, 51% dos alunos no Brasil estão abaixo do patamar adequado. A maioria tem dificuldades para
interpretar os textos lidos, desenvolver raciocínio a partir deles e ampliar a capacidade de adquirir
conhecimento.
A falta de leitura no decorrer da juventude se reflete nas demais faixas etárias, que também
cultivam, em geral, pouco apreço à atividade. Avalia-se que o brasileiro lê, em média, apenas 1,3 livro
[20] por ano, enquanto o francês consome sete obras e os norte-americanos devoram aproximadamente
11 publicações. Na quarta edição da "Pesquisa Retratos da Leitura", realizada pelo Instituto Pró-Livro,
revelou-se que 73% das pessoas no Brasil não frequentam bibliotecas. Existe somente uma unidade
pública para cada 33 mil habitantes. Na Argentina, há um espaço público destinado à leitura para
cada 17 mil pessoas.
[25] É preciso atualizar os métodos de ensino para mudar esse quadro e fazer as pessoas
assimilarem a leitura como um exercício fascinante. Dialogar com outras plataformas se tornou uma
maneira de despertar esse interesse em jovens estudantes. Nas escolas espalhadas pelo País,
experiências isoladas mostram ser possível elevar o relacionamento com a literatura a outro nível a
partir do auxílio de ferramentas tecnológicas. Há professores que perceberam a eficácia da
[30] experiência dos audiolivros, para estimular a imaginação das crianças e adolescentes com as
histórias contadas nas telas e, assim, atraí-los à leitura das publicações impressas tradicionais.
Os pais também têm papel crucial nesse processo. Diferentes estudos científicos atestam os
diversos resultados positivos que podem ser conquistados quando é inserida na rotina das crianças,
desde cedo, a prática da leitura. Pesquisa da Faculdade de Medicina de Nova York, nos Estados
[35] Unidos, reuniu famílias e as incumbiu de, durante 8 meses, ler dois livros por semana para seus
filhos. Ao fim do período, após os participantes passarem por uma série de testes e questionários,
constatou-se aumento no vocabulário das crianças e na capacidade de elas memorizarem as
informações.
O ato de ler desenvolve a inteligência e a criatividade, amplia o conhecimento geral e a
[40] percepção de mundo, excita a imaginação e pode transformar vidas. Um ato simples que deve ser
estimulado.
(Estímulo à leitura”. Diário do Nordeste. Fortaleza, 26 de agosto de 2017. Disponível em: http://diariodonordeste.verdesmares.com .br/cadernos/opiniao/estimulo-a-leitura-1.1810645: último acesso em 19/09/2017).
O trecho do Texto que pode ser relacionado com a descoberta feita pelo narrador do Texto ao ler seu primeiro livro é:
Questão 11 10134633
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2017TEXTO
Até aqui, tudo bem!
Na mesa do meu escritório, de onde avisto os prédios do bairro de classe média alta de
Higienópolis, do outro lado da Avenida Pacaembu, em São Paulo, há um porta-retrato. Nele, uma
fotografia embaçada registra uma estranha composição: em primeiro plano um menino, trajando uma
curta blusa de flanela, um desajeitado short e um sujo par de chinelos de dedo, tristes e assustados
[5] olhos semifechados. Pousadas em seus ombros magros, duas mãos femininas; ao lado, parte de uma
perna de calça e uma barriga, que se adivinha em breve proeminente, indica a existência de um
homem (marido das mãos femininas, talvez). Assentada sobre o braço da mulher, uma outra mão.
Pela posição das sombras, deduz-se a tarde, e pelas roupas, o final de inverno. Assim a foto sobre a
mesa: o menino surge de corpo inteiro, mas os outros três personagens são inidentificáveis — falta-
[10] lhes o rosto, página em branco onde se imprime nossa individualidade, nossa singularidade, nossa
história, enfim.
Todo o meu esforço como escritor tem sido o de tentar recompor essa imagem. O menino,
identifico-o, sou eu, aos cinco ou seis anos de idade. Mas quem são os outros três personagens que,
numa tarde de inverno para sempre perdida, imobilizaram-se para o olhar amador de alguém por
[15] detrás da máquina fotográfica? (...)
Tive o privilégio de nascer numa pequena cidade do interior de Minas Gerais chamada
Cataguases. Digo privilégio pelo fato de ter crescido num lugar de forte tradição industrial - onde os
interesses de classe são bem demarcados, conformando-nos uma visão de mundo menos ingênua,
mais pragmática. (...)
[20] A indústria têxtil implantou-se em Cataguases a partir da década de 1910, fruto da inversão de
capitais da cafeicultura em crise, e expandiu-se, atraindo mão de obra da região, afundada na
pasmaceira da agricultura de subsistência. Na década de 1950, recém-casados, meus pais
abandonaram a total falta de perspectiva da roça e buscaram dias melhores em Cataguases. Ambos,
embora meu pai semi-analfabeto e minha mãe analfabeta, tinham consciência de que somente o
[25] conhecimento formal acenaria com possibilidades de mudanças reais para os filhos e incentivaram-
nos a estudar. Sonhavam para nós uma vida de operários especializados, com salário suficiente para
comprar casa própria, enfeitá-la com inúmeros eletrodomésticos, casar, ter filhos saudáveis, futuro
garantido, estável... Tudo o que lhes foi negado, enfim...
Meu irmão formou-se ajustador-mecânico. Fez carreira brilhante: trabalhou em Diadema, na
[30] Grande São Paulo, voltou, a convite, para Cataguases, e com 26 anos conquistava o lugar de
encarregado-geral de uma fábrica de tecidos. Mas, por essa época, uma descarga de 22 mil volts
interrompeu sua ascensão... Minha irmã, tecelã, largou os estudos e o trabalho para se casar... Hoje é
merendeira de uma escola pública municipal... Quanto a mim... Bem, quanto a mim, posso dizer a
meu favor que tudo se encaminhava segundo os preceitos de meus pais: estudante mediano,
[35] cavalgava-me, até que, num início de ano letivo, refugiando minha timidez numa biblioteca, passeava
meus olhos displicentes pela lombada dos livros, quando a bibliotecária, confundindo distração com
interesse, pescou-me, felicissima, depositando em minhas mãos um livro, que por polidez não
recusei. Carreguei-o para casa, abri-o e, em dois ou três dias de profunda excitação, li-o, deitado
numa poltrona de napa amarela, as janelas escancaradas para a imóvel tarde anil de verão.
[40] Nunca deixarei de lembrar daquela semana, daquele verão, daquela poltrona, daquele livro, do
barulho liquido que vinha do puxado de telhas de amianto onde minha mãe, esfregando roupas no
tanque, calada intuía o veneno que exalava das aparentemente inocentes páginas impressas, que,
consumindo-me em febres, me conduziam a abismos de onde ninguém volta incólume. Eu tinha doze
anos e pela primeira vez me dava conta de que o mundo era maior que meu bairro, maior que minha
[45] cidade, maior talvez que as montanhas que azulavam lá longe. E isso descobri pelas palavras de um
escritor ucraniano, então soviético, Anatoly Kusnetzov, e seu romance-documentário, Bábi lar, que
narra o genocídio de milhares de judeus num campo de extermínio nas proximidades de Kiev. Por
erráticos mistérios, o menino do bairro do Paraíso, em Cataguases, identificou-se imediatamente com
a solidão, a angústia, o senso de sobrevivência daquelas famílias judias em plena Segunda Guerra
[50] Mundial.
Então, minha cidade, que julgava tão Íntima, surgiu outra à minha frente. Percebi, assustado,
que minha sina seria seguir os passos do meu irmão e da minha irmã, que acordavam antes do sol e,
ensonados, dirigiam-se de bicicleta rumo à fábrica, incendiando seus sonhos por detrás de janelas
hermeticamente fechadas, calor e barulho insuportáveis. Ou dos nossos conhecidos, que levavam a
[55] tristeza aos botequins para embriagar-se de álcool e futebol. Ou dos nossos vizinhos, cujos filhos
sumiam em direção a São Paulo ou Rio de Janeiro, em busca de uma alforria nunca assinada. Ou
das mulheres todas, que se entupiam de tranquilizantes ou de ilusões. E abracei-me aos oitis e fícus
que protegem as calçadas e irriguei o leito do rio Pomba, que corta a cidade. Passei a frequentar com
assiduidade a biblioteca. Li todos os dezoito volumes do Tesouro da Juventude e devorei a esmo
[60] romances brasileiros e estrangeiros, afundando-me, cada vez mais, na areia movediça da
inquietação.
(RUFFATO, Luiz. "Até aqui, tudo bem!”. Agua da palavra: revista de literatura e teorias, número 03, março de 2011, p. 01-02).
Adjetivam-se como anafóricos os pronomes que retomam em seu emprego termos anteriormente mencionados no texto.
Dos trechos selecionados abaixo, retirados do Texto, o único em que o pronome grifado se afasta de tal classificação é:
Questão 10 10134629
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2017TEXTO
Até aqui, tudo bem!
Na mesa do meu escritório, de onde avisto os prédios do bairro de classe média alta de
Higienópolis, do outro lado da Avenida Pacaembu, em São Paulo, há um porta-retrato. Nele, uma
fotografia embaçada registra uma estranha composição: em primeiro plano um menino, trajando uma
curta blusa de flanela, um desajeitado short e um sujo par de chinelos de dedo, tristes e assustados
[5] olhos semifechados. Pousadas em seus ombros magros, duas mãos femininas; ao lado, parte de uma
perna de calça e uma barriga, que se adivinha em breve proeminente, indica a existência de um
homem (marido das mãos femininas, talvez). Assentada sobre o braço da mulher, uma outra mão.
Pela posição das sombras, deduz-se a tarde, e pelas roupas, o final de inverno. Assim a foto sobre a
mesa: o menino surge de corpo inteiro, mas os outros três personagens são inidentificáveis — falta-
[10] lhes o rosto, página em branco onde se imprime nossa individualidade, nossa singularidade, nossa
história, enfim.
Todo o meu esforço como escritor tem sido o de tentar recompor essa imagem. O menino,
identifico-o, sou eu, aos cinco ou seis anos de idade. Mas quem são os outros três personagens que,
numa tarde de inverno para sempre perdida, imobilizaram-se para o olhar amador de alguém por
[15] detrás da máquina fotográfica? (...)
Tive o privilégio de nascer numa pequena cidade do interior de Minas Gerais chamada
Cataguases. Digo privilégio pelo fato de ter crescido num lugar de forte tradição industrial - onde os
interesses de classe são bem demarcados, conformando-nos uma visão de mundo menos ingênua,
mais pragmática. (...)
[20] A indústria têxtil implantou-se em Cataguases a partir da década de 1910, fruto da inversão de
capitais da cafeicultura em crise, e expandiu-se, atraindo mão de obra da região, afundada na
pasmaceira da agricultura de subsistência. Na década de 1950, recém-casados, meus pais
abandonaram a total falta de perspectiva da roça e buscaram dias melhores em Cataguases. Ambos,
embora meu pai semi-analfabeto e minha mãe analfabeta, tinham consciência de que somente o
[25] conhecimento formal acenaria com possibilidades de mudanças reais para os filhos e incentivaram-
nos a estudar. Sonhavam para nós uma vida de operários especializados, com salário suficiente para
comprar casa própria, enfeitá-la com inúmeros eletrodomésticos, casar, ter filhos saudáveis, futuro
garantido, estável... Tudo o que lhes foi negado, enfim...
Meu irmão formou-se ajustador-mecânico. Fez carreira brilhante: trabalhou em Diadema, na
[30] Grande São Paulo, voltou, a convite, para Cataguases, e com 26 anos conquistava o lugar de
encarregado-geral de uma fábrica de tecidos. Mas, por essa época, uma descarga de 22 mil volts
interrompeu sua ascensão... Minha irmã, tecelã, largou os estudos e o trabalho para se casar... Hoje é
merendeira de uma escola pública municipal... Quanto a mim... Bem, quanto a mim, posso dizer a
meu favor que tudo se encaminhava segundo os preceitos de meus pais: estudante mediano,
[35] cavalgava-me, até que, num início de ano letivo, refugiando minha timidez numa biblioteca, passeava
meus olhos displicentes pela lombada dos livros, quando a bibliotecária, confundindo distração com
interesse, pescou-me, felicissima, depositando em minhas mãos um livro, que por polidez não
recusei. Carreguei-o para casa, abri-o e, em dois ou três dias de profunda excitação, li-o, deitado
numa poltrona de napa amarela, as janelas escancaradas para a imóvel tarde anil de verão.
[40] Nunca deixarei de lembrar daquela semana, daquele verão, daquela poltrona, daquele livro, do
barulho liquido que vinha do puxado de telhas de amianto onde minha mãe, esfregando roupas no
tanque, calada intuía o veneno que exalava das aparentemente inocentes páginas impressas, que,
consumindo-me em febres, me conduziam a abismos de onde ninguém volta incólume. Eu tinha doze
anos e pela primeira vez me dava conta de que o mundo era maior que meu bairro, maior que minha
[45] cidade, maior talvez que as montanhas que azulavam lá longe. E isso descobri pelas palavras de um
escritor ucraniano, então soviético, Anatoly Kusnetzov, e seu romance-documentário, Bábi lar, que
narra o genocídio de milhares de judeus num campo de extermínio nas proximidades de Kiev. Por
erráticos mistérios, o menino do bairro do Paraíso, em Cataguases, identificou-se imediatamente com
a solidão, a angústia, o senso de sobrevivência daquelas famílias judias em plena Segunda Guerra
[50] Mundial.
Então, minha cidade, que julgava tão Íntima, surgiu outra à minha frente. Percebi, assustado,
que minha sina seria seguir os passos do meu irmão e da minha irmã, que acordavam antes do sol e,
ensonados, dirigiam-se de bicicleta rumo à fábrica, incendiando seus sonhos por detrás de janelas
hermeticamente fechadas, calor e barulho insuportáveis. Ou dos nossos conhecidos, que levavam a
[55] tristeza aos botequins para embriagar-se de álcool e futebol. Ou dos nossos vizinhos, cujos filhos
sumiam em direção a São Paulo ou Rio de Janeiro, em busca de uma alforria nunca assinada. Ou
das mulheres todas, que se entupiam de tranquilizantes ou de ilusões. E abracei-me aos oitis e fícus
que protegem as calçadas e irriguei o leito do rio Pomba, que corta a cidade. Passei a frequentar com
assiduidade a biblioteca. Li todos os dezoito volumes do Tesouro da Juventude e devorei a esmo
[60] romances brasileiros e estrangeiros, afundando-me, cada vez mais, na areia movediça da
inquietação.
(RUFFATO, Luiz. "Até aqui, tudo bem!”. Agua da palavra: revista de literatura e teorias, número 03, março de 2011, p. 01-02).
O imaginário dos pais de Luiz Ruffato (Texto) sobre o futuro dos filhos gira em torno da:
Questão 8 10134611
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2017TEXTO
Até aqui, tudo bem!
Na mesa do meu escritório, de onde avisto os prédios do bairro de classe média alta de
Higienópolis, do outro lado da Avenida Pacaembu, em São Paulo, há um porta-retrato. Nele, uma
fotografia embaçada registra uma estranha composição: em primeiro plano um menino, trajando uma
curta blusa de flanela, um desajeitado short e um sujo par de chinelos de dedo, tristes e assustados
[5] olhos semifechados. Pousadas em seus ombros magros, duas mãos femininas; ao lado, parte de uma
perna de calça e uma barriga, que se adivinha em breve proeminente, indica a existência de um
homem (marido das mãos femininas, talvez). Assentada sobre o braço da mulher, uma outra mão.
Pela posição das sombras, deduz-se a tarde, e pelas roupas, o final de inverno. Assim a foto sobre a
mesa: o menino surge de corpo inteiro, mas os outros três personagens são inidentificáveis — falta-
[10] lhes o rosto, página em branco onde se imprime nossa individualidade, nossa singularidade, nossa
história, enfim.
Todo o meu esforço como escritor tem sido o de tentar recompor essa imagem. O menino,
identifico-o, sou eu, aos cinco ou seis anos de idade. Mas quem são os outros três personagens que,
numa tarde de inverno para sempre perdida, imobilizaram-se para o olhar amador de alguém por
[15] detrás da máquina fotográfica? (...)
Tive o privilégio de nascer numa pequena cidade do interior de Minas Gerais chamada
Cataguases. Digo privilégio pelo fato de ter crescido num lugar de forte tradição industrial - onde os
interesses de classe são bem demarcados, conformando-nos uma visão de mundo menos ingênua,
mais pragmática. (...)
[20] A indústria têxtil implantou-se em Cataguases a partir da década de 1910, fruto da inversão de
capitais da cafeicultura em crise, e expandiu-se, atraindo mão de obra da região, afundada na
pasmaceira da agricultura de subsistência. Na década de 1950, recém-casados, meus pais
abandonaram a total falta de perspectiva da roça e buscaram dias melhores em Cataguases. Ambos,
embora meu pai semi-analfabeto e minha mãe analfabeta, tinham consciência de que somente o
[25] conhecimento formal acenaria com possibilidades de mudanças reais para os filhos e incentivaram-
nos a estudar. Sonhavam para nós uma vida de operários especializados, com salário suficiente para
comprar casa própria, enfeitá-la com inúmeros eletrodomésticos, casar, ter filhos saudáveis, futuro
garantido, estável... Tudo o que lhes foi negado, enfim...
Meu irmão formou-se ajustador-mecânico. Fez carreira brilhante: trabalhou em Diadema, na
[30] Grande São Paulo, voltou, a convite, para Cataguases, e com 26 anos conquistava o lugar de
encarregado-geral de uma fábrica de tecidos. Mas, por essa época, uma descarga de 22 mil volts
interrompeu sua ascensão... Minha irmã, tecelã, largou os estudos e o trabalho para se casar... Hoje é
merendeira de uma escola pública municipal... Quanto a mim... Bem, quanto a mim, posso dizer a
meu favor que tudo se encaminhava segundo os preceitos de meus pais: estudante mediano,
[35] cavalgava-me, até que, num início de ano letivo, refugiando minha timidez numa biblioteca, passeava
meus olhos displicentes pela lombada dos livros, quando a bibliotecária, confundindo distração com
interesse, pescou-me, felicissima, depositando em minhas mãos um livro, que por polidez não
recusei. Carreguei-o para casa, abri-o e, em dois ou três dias de profunda excitação, li-o, deitado
numa poltrona de napa amarela, as janelas escancaradas para a imóvel tarde anil de verão.
[40] Nunca deixarei de lembrar daquela semana, daquele verão, daquela poltrona, daquele livro, do
barulho liquido que vinha do puxado de telhas de amianto onde minha mãe, esfregando roupas no
tanque, calada intuía o veneno que exalava das aparentemente inocentes páginas impressas, que,
consumindo-me em febres, me conduziam a abismos de onde ninguém volta incólume. Eu tinha doze
anos e pela primeira vez me dava conta de que o mundo era maior que meu bairro, maior que minha
[45] cidade, maior talvez que as montanhas que azulavam lá longe. E isso descobri pelas palavras de um
escritor ucraniano, então soviético, Anatoly Kusnetzov, e seu romance-documentário, Bábi lar, que
narra o genocídio de milhares de judeus num campo de extermínio nas proximidades de Kiev. Por
erráticos mistérios, o menino do bairro do Paraíso, em Cataguases, identificou-se imediatamente com
a solidão, a angústia, o senso de sobrevivência daquelas famílias judias em plena Segunda Guerra
[50] Mundial.
Então, minha cidade, que julgava tão Íntima, surgiu outra à minha frente. Percebi, assustado,
que minha sina seria seguir os passos do meu irmão e da minha irmã, que acordavam antes do sol e,
ensonados, dirigiam-se de bicicleta rumo à fábrica, incendiando seus sonhos por detrás de janelas
hermeticamente fechadas, calor e barulho insuportáveis. Ou dos nossos conhecidos, que levavam a
[55] tristeza aos botequins para embriagar-se de álcool e futebol. Ou dos nossos vizinhos, cujos filhos
sumiam em direção a São Paulo ou Rio de Janeiro, em busca de uma alforria nunca assinada. Ou
das mulheres todas, que se entupiam de tranquilizantes ou de ilusões. E abracei-me aos oitis e fícus
que protegem as calçadas e irriguei o leito do rio Pomba, que corta a cidade. Passei a frequentar com
assiduidade a biblioteca. Li todos os dezoito volumes do Tesouro da Juventude e devorei a esmo
[60] romances brasileiros e estrangeiros, afundando-me, cada vez mais, na areia movediça da
inquietação.
(RUFFATO, Luiz. "Até aqui, tudo bem!”. Agua da palavra: revista de literatura e teorias, número 03, março de 2011, p. 01-02).
“E abracei-me aos oitis e fícus que protegem as calçadas e irriguei o leito do rio Pomba, que corta a cidade” (Texto, linhas 57 e 58).
A afirmativa que melhor explica a passagem é:
Questão 7 10134604
CMJF 1° Ano - Prova de Português 2017TEXTO
Até aqui, tudo bem!
Na mesa do meu escritório, de onde avisto os prédios do bairro de classe média alta de
Higienópolis, do outro lado da Avenida Pacaembu, em São Paulo, há um porta-retrato. Nele, uma
fotografia embaçada registra uma estranha composição: em primeiro plano um menino, trajando uma
curta blusa de flanela, um desajeitado short e um sujo par de chinelos de dedo, tristes e assustados
[5] olhos semifechados. Pousadas em seus ombros magros, duas mãos femininas; ao lado, parte de uma
perna de calça e uma barriga, que se adivinha em breve proeminente, indica a existência de um
homem (marido das mãos femininas, talvez). Assentada sobre o braço da mulher, uma outra mão.
Pela posição das sombras, deduz-se a tarde, e pelas roupas, o final de inverno. Assim a foto sobre a
mesa: o menino surge de corpo inteiro, mas os outros três personagens são inidentificáveis — falta-
[10] lhes o rosto, página em branco onde se imprime nossa individualidade, nossa singularidade, nossa
história, enfim.
Todo o meu esforço como escritor tem sido o de tentar recompor essa imagem. O menino,
identifico-o, sou eu, aos cinco ou seis anos de idade. Mas quem são os outros três personagens que,
numa tarde de inverno para sempre perdida, imobilizaram-se para o olhar amador de alguém por
[15] detrás da máquina fotográfica? (...)
Tive o privilégio de nascer numa pequena cidade do interior de Minas Gerais chamada
Cataguases. Digo privilégio pelo fato de ter crescido num lugar de forte tradição industrial - onde os
interesses de classe são bem demarcados, conformando-nos uma visão de mundo menos ingênua,
mais pragmática. (...)
[20] A indústria têxtil implantou-se em Cataguases a partir da década de 1910, fruto da inversão de
capitais da cafeicultura em crise, e expandiu-se, atraindo mão de obra da região, afundada na
pasmaceira da agricultura de subsistência. Na década de 1950, recém-casados, meus pais
abandonaram a total falta de perspectiva da roça e buscaram dias melhores em Cataguases. Ambos,
embora meu pai semi-analfabeto e minha mãe analfabeta, tinham consciência de que somente o
[25] conhecimento formal acenaria com possibilidades de mudanças reais para os filhos e incentivaram-
nos a estudar. Sonhavam para nós uma vida de operários especializados, com salário suficiente para
comprar casa própria, enfeitá-la com inúmeros eletrodomésticos, casar, ter filhos saudáveis, futuro
garantido, estável... Tudo o que lhes foi negado, enfim...
Meu irmão formou-se ajustador-mecânico. Fez carreira brilhante: trabalhou em Diadema, na
[30] Grande São Paulo, voltou, a convite, para Cataguases, e com 26 anos conquistava o lugar de
encarregado-geral de uma fábrica de tecidos. Mas, por essa época, uma descarga de 22 mil volts
interrompeu sua ascensão... Minha irmã, tecelã, largou os estudos e o trabalho para se casar... Hoje é
merendeira de uma escola pública municipal... Quanto a mim... Bem, quanto a mim, posso dizer a
meu favor que tudo se encaminhava segundo os preceitos de meus pais: estudante mediano,
[35] cavalgava-me, até que, num início de ano letivo, refugiando minha timidez numa biblioteca, passeava
meus olhos displicentes pela lombada dos livros, quando a bibliotecária, confundindo distração com
interesse, pescou-me, felicissima, depositando em minhas mãos um livro, que por polidez não
recusei. Carreguei-o para casa, abri-o e, em dois ou três dias de profunda excitação, li-o, deitado
numa poltrona de napa amarela, as janelas escancaradas para a imóvel tarde anil de verão.
[40] Nunca deixarei de lembrar daquela semana, daquele verão, daquela poltrona, daquele livro, do
barulho liquido que vinha do puxado de telhas de amianto onde minha mãe, esfregando roupas no
tanque, calada intuía o veneno que exalava das aparentemente inocentes páginas impressas, que,
consumindo-me em febres, me conduziam a abismos de onde ninguém volta incólume. Eu tinha doze
anos e pela primeira vez me dava conta de que o mundo era maior que meu bairro, maior que minha
[45] cidade, maior talvez que as montanhas que azulavam lá longe. E isso descobri pelas palavras de um
escritor ucraniano, então soviético, Anatoly Kusnetzov, e seu romance-documentário, Bábi lar, que
narra o genocídio de milhares de judeus num campo de extermínio nas proximidades de Kiev. Por
erráticos mistérios, o menino do bairro do Paraíso, em Cataguases, identificou-se imediatamente com
a solidão, a angústia, o senso de sobrevivência daquelas famílias judias em plena Segunda Guerra
[50] Mundial.
Então, minha cidade, que julgava tão Íntima, surgiu outra à minha frente. Percebi, assustado,
que minha sina seria seguir os passos do meu irmão e da minha irmã, que acordavam antes do sol e,
ensonados, dirigiam-se de bicicleta rumo à fábrica, incendiando seus sonhos por detrás de janelas
hermeticamente fechadas, calor e barulho insuportáveis. Ou dos nossos conhecidos, que levavam a
[55] tristeza aos botequins para embriagar-se de álcool e futebol. Ou dos nossos vizinhos, cujos filhos
sumiam em direção a São Paulo ou Rio de Janeiro, em busca de uma alforria nunca assinada. Ou
das mulheres todas, que se entupiam de tranquilizantes ou de ilusões. E abracei-me aos oitis e fícus
que protegem as calçadas e irriguei o leito do rio Pomba, que corta a cidade. Passei a frequentar com
assiduidade a biblioteca. Li todos os dezoito volumes do Tesouro da Juventude e devorei a esmo
[60] romances brasileiros e estrangeiros, afundando-me, cada vez mais, na areia movediça da
inquietação.
(RUFFATO, Luiz. "Até aqui, tudo bem!”. Agua da palavra: revista de literatura e teorias, número 03, março de 2011, p. 01-02).
a introdução do Texto, o autor caracteriza o bairro de Higienópolis, na cidade de São Paulo.
Tendo em vista a leitura global do texto, essa caracterização:
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