Questões de EFAF Português
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Questão 25 15291278
CMB 1 Ano 2024Após a leitura do Texto 1, responda à questão.
TEXTO 1
Natal na barca
Lígia Fagundes Telles
[1] Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor
tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,
apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança e eu.
[5] O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um
vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que
estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e
[10] até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca
tão despojada, tão sem artificios, a ociosidade de um diálogo. [...]
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,
silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.
[15] A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-
la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na
água.
– Tão gelada - estranhei, enxugando a mão.
– Mas de manhã é quente. [...]
[20] Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-
me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]
– De manhã esse rio é quente - insistiu ela, me encarando.
– Quente?
– Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a
[25] roupa fosse sair esverdeada. E a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:
– Mas a senhora mora aqui perto?
– Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
– Seu filho?
[30]– É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um
médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]
– É o caçula? [...]
– É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,
[35] contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os
tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não
tinha forças para rompê-los. [...]
Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata
[40] fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos
da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos
braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles
olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
– A senhora é conformada.
[45]– Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
– Deus - repeti vagamente.
– A senhora não acredita em Deus?
– Acredito -murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que
[50] removia montanhas...[...]
E começou com voz quente de paixão:
– Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua
afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do
jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e
[55] sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha
mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era
tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,
levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para
[60] rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.
[...]
– Estamos chegando- anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr
para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]
[65] Aproximei-me evitando encará-la.
– Acho melhor nos despedirmos aqui - disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a
sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-
lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
[70]– Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]
– Acordou?!
Ela sorriu:
– Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos – aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.
[75] [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.
– Então, bom Natal! - disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a
mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barcа.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.
[80] Verde e quente.
Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024. (Com adaptações)
Considerando todo o Texto 1, a explicação da função sintática do termo destacado está correta na afirmativa:
Questão 24 15291265
CMB 1 Ano 2024Após a leitura do Texto 1, responda à questão.
TEXTO 1
Natal na barca
Lígia Fagundes Telles
[1] Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor
tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,
apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança e eu.
[5] O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um
vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que
estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e
[10] até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca
tão despojada, tão sem artificios, a ociosidade de um diálogo. [...]
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,
silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.
[15] A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-
la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na
água.
– Tão gelada - estranhei, enxugando a mão.
– Mas de manhã é quente. [...]
[20] Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-
me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]
– De manhã esse rio é quente - insistiu ela, me encarando.
– Quente?
– Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a
[25] roupa fosse sair esverdeada. E a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:
– Mas a senhora mora aqui perto?
– Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
– Seu filho?
[30]– É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um
médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]
– É o caçula? [...]
– É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,
[35] contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os
tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não
tinha forças para rompê-los. [...]
Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata
[40] fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos
da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos
braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles
olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
– A senhora é conformada.
[45]– Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
– Deus - repeti vagamente.
– A senhora não acredita em Deus?
– Acredito -murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que
[50] removia montanhas...[...]
E começou com voz quente de paixão:
– Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua
afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do
jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e
[55] sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha
mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era
tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,
levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para
[60] rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.
[...]
– Estamos chegando- anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr
para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]
[65] Aproximei-me evitando encará-la.
– Acho melhor nos despedirmos aqui - disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a
sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-
lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
[70]– Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]
– Acordou?!
Ela sorriu:
– Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos – aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.
[75] [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.
– Então, bom Natal! - disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a
mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barcа.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.
[80] Verde e quente.
Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024. (Com adaptações)
Assinale a única alternativa em que todos os pronomes retomam um mesmo e único referente.
Questão 23 15291235
CMB 1 Ano 2024Após a leitura do Texto 1, responda à questão.
TEXTO 1
Natal na barca
Lígia Fagundes Telles
[1] Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor
tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,
apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança e eu.
[5] O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um
vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que
estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e
[10] até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca
tão despojada, tão sem artificios, a ociosidade de um diálogo. [...]
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,
silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.
[15] A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-
la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na
água.
– Tão gelada - estranhei, enxugando a mão.
– Mas de manhã é quente. [...]
[20] Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-
me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]
– De manhã esse rio é quente - insistiu ela, me encarando.
– Quente?
– Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a
[25] roupa fosse sair esverdeada. E a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:
– Mas a senhora mora aqui perto?
– Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
– Seu filho?
[30]– É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um
médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]
– É o caçula? [...]
– É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,
[35] contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os
tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não
tinha forças para rompê-los. [...]
Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata
[40] fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos
da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos
braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles
olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
– A senhora é conformada.
[45]– Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
– Deus - repeti vagamente.
– A senhora não acredita em Deus?
– Acredito -murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que
[50] removia montanhas...[...]
E começou com voz quente de paixão:
– Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua
afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do
jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e
[55] sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha
mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era
tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,
levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para
[60] rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.
[...]
– Estamos chegando- anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr
para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]
[65] Aproximei-me evitando encará-la.
– Acho melhor nos despedirmos aqui - disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a
sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-
lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
[70]– Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]
– Acordou?!
Ela sorriu:
– Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos – aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.
[75] [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.
– Então, bom Natal! - disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a
mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barcа.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.
[80] Verde e quente.
Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024. (Com adaptações)
Nas alternativas a seguir, todas as palavras em destaque estão sendo usadas como articuladores semântico-discursivos.
A alternativa que estabelece corretamente a relação indicada é:
Questão 22 15291222
CMB 1 Ano 2024Após a leitura do Texto 1, responda à questão.
TEXTO 1
Natal na barca
Lígia Fagundes Telles
[1] Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor
tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,
apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança e eu.
[5] O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um
vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que
estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e
[10] até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca
tão despojada, tão sem artificios, a ociosidade de um diálogo. [...]
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,
silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.
[15] A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-
la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na
água.
– Tão gelada - estranhei, enxugando a mão.
– Mas de manhã é quente. [...]
[20] Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-
me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]
– De manhã esse rio é quente - insistiu ela, me encarando.
– Quente?
– Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a
[25] roupa fosse sair esverdeada. E a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:
– Mas a senhora mora aqui perto?
– Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
– Seu filho?
[30]– É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um
médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]
– É o caçula? [...]
– É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,
[35] contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os
tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não
tinha forças para rompê-los. [...]
Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata
[40] fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos
da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos
braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles
olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
– A senhora é conformada.
[45]– Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
– Deus - repeti vagamente.
– A senhora não acredita em Deus?
– Acredito -murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que
[50] removia montanhas...[...]
E começou com voz quente de paixão:
– Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua
afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do
jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e
[55] sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha
mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era
tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,
levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para
[60] rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.
[...]
– Estamos chegando- anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr
para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]
[65] Aproximei-me evitando encará-la.
– Acho melhor nos despedirmos aqui - disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a
sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-
lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
[70]– Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]
– Acordou?!
Ela sorriu:
– Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos – aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.
[75] [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.
– Então, bom Natal! - disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a
mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barcа.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.
[80] Verde e quente.
Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024. (Com adaptações)
A respeito do diálogo que se estabelece entre a narradora e sua interlocutora, é possível concluir que:
Questão 21 15290966
CMB 1 Ano 2024Após a leitura do Texto 1, responda à questão.
TEXTO 1
Natal na barca
Lígia Fagundes Telles
[1] Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor
tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,
apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança e eu.
[5] O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um
vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que
estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e
[10] até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca
tão despojada, tão sem artificios, a ociosidade de um diálogo. [...]
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,
silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.
[15] A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-
la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na
água.
– Tão gelada - estranhei, enxugando a mão.
– Mas de manhã é quente. [...]
[20] Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-
me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]
– De manhã esse rio é quente - insistiu ela, me encarando.
– Quente?
– Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a
[25] roupa fosse sair esverdeada. E a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:
– Mas a senhora mora aqui perto?
– Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
– Seu filho?
[30]– É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um
médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]
– É o caçula? [...]
– É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,
[35] contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os
tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não
tinha forças para rompê-los. [...]
Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata
[40] fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos
da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos
braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles
olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
– A senhora é conformada.
[45]– Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
– Deus - repeti vagamente.
– A senhora não acredita em Deus?
– Acredito -murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que
[50] removia montanhas...[...]
E começou com voz quente de paixão:
– Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua
afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do
jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e
[55] sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha
mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era
tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,
levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para
[60] rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.
[...]
– Estamos chegando- anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr
para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]
[65] Aproximei-me evitando encará-la.
– Acho melhor nos despedirmos aqui - disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a
sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-
lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
[70]– Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]
– Acordou?!
Ela sorriu:
– Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos – aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.
[75] [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.
– Então, bom Natal! - disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a
mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barcа.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.
[80] Verde e quente.
Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024. (Com adaptações)
Após leitura atenta do texto "Natal na barca", é correto afirmar que
Questão 11 15120112
IFES 2024Leia o Texto 4 para responder à questão.
TEXTO 4
Todos Juntos
Os Saltimbancos
Uma gata, o que é que tem?- As unhas
E a galinha, o que é que tem?- O bico
Dito assim, parece até ridículo
Um bichinho se assanhar
E o jumento, o que é que tem?- As patas
E o cachorro, o que é que tem?- Os dentes
Ponha tudo junto e de repente vamos ver
o que é que dá
Junte um bico com dez unhas
Quatro patas, trinta dentes
E o valente dos valentes
Ainda vai te respeitar
Todos juntos somos fortes
Somos flecha e somos arco
Todos nós no mesmo barco
Não há nada pra temer- Ao meu lado há um amigo
Que é preciso proteger
Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer
Uma gata, o que é que é?- Esperta
E o jumento, o que é que é?- Paciente
Não é grande coisa realmente
Prum bichinho se assanhar
E o cachorro, o que é que é?- Leal
E a galinha, o que é que é?- Teimosa
Não parece mesmo grande coisa
Vamos ver no que é que dá
Esperteza, Paciência
Lealdade, Teimosia
E mais dia menos dia
A lei da selva vai mudar
Todos juntos somos fortes
Somos flecha e somos arco
Todos nós no mesmo barco
Não há nada pra temer- Ao meu lado há um amigo
Que é preciso proteger
Todos juntos somos fortes
Não há nada pra temer
E no mundo dizem que são tantos
Saltimbancos como somos nós.
Disponível em: https://www.letras.mus.br/os-sal timbancos/275214/. Acesso em: 06 jul. 2024.
O contexto histórico de produção da obra Os Saltimbancos remete ao regime ditatorial brasileiro, sendo possível relacionar o texto Todos Juntos a esse período, momento em que a liberdade de expressão era restrita e a arte era um recurso estético de expressão indireta de pensamentos e opiniões.
Diante disso, os trechos seguintes fazem menção à união e à proteção do povo contra o período militar, EXCETO:
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