Questões de EFAF Português - Leitura e Interpretação de Texto
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Questão 3 10143424
CMB 1º Ano - Língua Portuguesa 2013TEXTO
Uma questão de honra
Todas as manhãs, os aposentados Quintério Luca e Esmerado Fabião jogavam
às damas no bar da vila. Ocupavam sempre a mesma mesa, junto à vitrina. As pessoas
passavam e, invariavelmente, encontravam os velhos debruçados sobre o tabuleiro.
Pareciam estátuas guardando o tempo.
[5] [...]
Hora de fechar, Fabião e Quintério se retiravam deitando uma derradeira olhada
sobre o tabuleiro. As peças ficavam em posição estudada e acertada. Dia seguinte,
regressavam e retomavam a partida. Conversavam mais que jogavam. Maldiziam o
mundo, esse mundo em que já nem a terra é natural. Apenas o bar sobrevivia à
[10] deterioração geral. O tempo é um fruto: na medida, amadurece; em demasia, apodrece.
À volta do tabuleiro os dois tinham construído uma ilha, um castelo sem areia
onde ainda valiam a palavra, a honra e a amizade. Eles os cavalheiros e, no tabuleiro, as
damas.
Quanto mais envelheciam, mais os jogos demoravam. O último decorria havia
[15] semanas. Enquanto um jogava, o outro passava pelo sono. O aconchego do pequeno
bar era o melhor lugar para dormirem. Para eles, o bar era o lar, já que ali estavam longe
da abandonada solidão de seus quartos. E cada um deles era, para o outro, a
humanidade inteira.
Até que, um dia, sucedeu o conflito. Nessa manhã, incidentou-se o seguinte: as
[20] peças haviam mudado de posição. As jogadas se desenhavam agora em desfavor de
Quintério Luca. O velho entesou a voz, em aplicação de zanga:
– Fabião, você veio aqui essa noite?
– Minha honra! - negou Esmerado Fabião.
– O jogo não estava assim, nem tão pouco.
[25] – Mas eu acabei de entrar agora. Entramos juntos, não entramos?
– Então, quem mexeu no tabuleiro? Já viu: o meu jogo encontra-se todo
comestível...
– Com isso eu que não tenho a ver, Quintério.
Mais grave não podia ser. Decidiram consultar o doutor juiz. Encontraram-no na
[30] barbearia do Covane. Altivo, preparado para o corte do cabelo. [...] Permaneceu imóvel e
distante enquanto escutou o relato dos reformados.
– Diga-nos, senhor doutor: pode um jogo mexer-se sozinho à noite?
– Depende - respondeu o juiz.
Passou a mão suada pelo couro descabeludo. E acrescentou, enquanto se
[35] olhava ao espelho:
– São fenômenos.
Os velhos, boquiabertos, sem expressão. Nunca haviam escutado palavra com
tais sílabas. Mas bastava que o juiz a pronunciasse para que ela fosse considerada
verdade.
[40] – É isso que se chamam fenômenos paranormais. Nunca ouviram falar?
– É que, faz anos, estamos aqui na vila, sem sair para nenhum lado.
– Psicocinese, tropismos sem casualidade determinada. Entendem?
Mentiram acenando com as cabeças. Fez-se pausa, espessou-se o silêncio. Os
velhos alinhados, mãos cruzadas em respeito ante a curva do ventre. Mas não havia
[45] mais a ser dito. O juiz, entre vênias e licenças, se retirou. Passando pelos mortais com
seu ar divino, o juiz se resumia numa palavra: fenomenal.
Retiraram-se também os velhos, ombros estreitos, passos miúdos. Na rua,
Esmerado Fabião sublinhou sua inocência:
– Eu não disse que não tinha mexido em nada?
[50] E separaram-se, cada um conforme sua solidão.
Quintério Luca deitou-se no seu quarto, calado, mal digerido. Para ele, aquilo
não tinha volta mesmo. Já não lhe apetecia voltar ao bar, não lhe apetecia viver. Em sua
consciência não havia reverso: confiança manchada, amizade desmanchada.
Noite alta, Quintério saiu de casa, cruzando a vila como a coruja furtiva. Bateu
[55] na porta da residência do juiz. O magistrado, estremunhado, de roupão, entreabriu-lhe
os olhos inquisitivos.
– Desculpe, excelência, mas é que uma pergunta ficou-me encravada e quase
nem consigo respirar.
– Fale, homem.
[60] – É que não entendi bem. Afinal, o compadre Quintério aldrabou ou não?
– A ética, meu caro Quintério Luca, a ética é profundamente irrelevante, num
caso destes. E agora, vá com Deus. Deixe dormir os homens de bem.
Quintério Luca, voz educada, voltou a insistir. O doutor lhe perdoasse, mas não
o mandasse embora assim, na ética de Deus. Era pobre, não tinha palavra dispendiosa.
[65] Mas ele não podia ficar torturado por aquela dúvida. Que aquilo não era um
simples caso de batota ao jogo. Fabião estava a embatotar a vida. Porque, afinal, nunca
tinha sido às damas que eles jogavam. O que faziam, repartidamente, era distraírem a
espera do fim. E o compadre Fabião era a quem confiava sua única e última riqueza:
gordas lembranças, magras confidências.
[70] Foi então que o juiz se alertou, num arrepio. Não foi mais que um simples
rebrilho no escuro: o que Luca trazia por baixo do braço era uma antiga, mas autêntica
espingarda. O juiz aconchegou o roupão como se invadido pelo repentino de um frio.
O velho ainda demorou a perguntar:
– Se eu matar Esmerado Fabião, terei desculpa de sua excelência?
[75] – Não. Terei que o culpar.
– Então, com a devida desculpa, acho que tenho que matar primeiro o senhor
doutor juiz.
E disparou sobre o aterrorizado magistrado. Mas sem ponto na mira. A bala
sulcou os céus, sem rumo. O guarda-costas do juiz, aparecido das traseiras da casa,
[80] devolveu disparo. O velho Quintério Luca tombou vegetalmente, já sem suspiro.
Desde então, quem passa no bar da vila pode ver Esmerado Fabião sentado na
mesma mesa, contemplando a cadeira vaga na sua frente. No intervalo dos cabeceios,
ele vai repetindo meio desvairado:
– É a sua vez, compadre! É a sua vez de pedir.
COUTO, Mia. O fio das missangas: contos. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2009. (com adaptações)
VOCABULÁRIO
BATOTA: fraude em jogo, trapaça, falcatrua, mentira, roubo.
ALDRABOU: enganou, mentiu em excesso.
CABECEIOS: cochilos.
MISSANGAS: variação etimológica do vocábulo miçanga (coisa de pouco ou nenhum valor, bugiganga).
Considerando os elementos estruturais do Texto I, analise as afirmativas a seguir.
I. O foco narrativo está em 3a pessoa com narrador onisciente.
II. O discurso é predominantemente indireto livre.
III. O espaço favorito dos personagens era o bar, por ser um lugar de encontro com outras pessoas.
IV. Marcadores temporais evidenciam o tempo cronológico da narrativa .
V. O protagonista é Quintério Luca e o antagonista, Esmerado Fabião.
A sequência de afirmativas corretas é:
Questão 1 10143238
CMB 1º Ano - Língua Portuguesa 2013TEXTO
Uma questão de honra
Todas as manhãs, os aposentados Quintério Luca e Esmerado Fabião jogavam
às damas no bar da vila. Ocupavam sempre a mesma mesa, junto à vitrina. As pessoas
passavam e, invariavelmente, encontravam os velhos debruçados sobre o tabuleiro.
Pareciam estátuas guardando o tempo.
[5] [...]
Hora de fechar, Fabião e Quintério se retiravam deitando uma derradeira olhada
sobre o tabuleiro. As peças ficavam em posição estudada e acertada. Dia seguinte,
regressavam e retomavam a partida. Conversavam mais que jogavam. Maldiziam o
mundo, esse mundo em que já nem a terra é natural. Apenas o bar sobrevivia à
[10] deterioração geral. O tempo é um fruto: na medida, amadurece; em demasia, apodrece.
À volta do tabuleiro os dois tinham construído uma ilha, um castelo sem areia
onde ainda valiam a palavra, a honra e a amizade. Eles os cavalheiros e, no tabuleiro, as
damas.
Quanto mais envelheciam, mais os jogos demoravam. O último decorria havia
[15] semanas. Enquanto um jogava, o outro passava pelo sono. O aconchego do pequeno
bar era o melhor lugar para dormirem. Para eles, o bar era o lar, já que ali estavam longe
da abandonada solidão de seus quartos. E cada um deles era, para o outro, a
humanidade inteira.
Até que, um dia, sucedeu o conflito. Nessa manhã, incidentou-se o seguinte: as
[20] peças haviam mudado de posição. As jogadas se desenhavam agora em desfavor de
Quintério Luca. O velho entesou a voz, em aplicação de zanga:
– Fabião, você veio aqui essa noite?
– Minha honra! - negou Esmerado Fabião.
– O jogo não estava assim, nem tão pouco.
[25] – Mas eu acabei de entrar agora. Entramos juntos, não entramos?
– Então, quem mexeu no tabuleiro? Já viu: o meu jogo encontra-se todo
comestível...
– Com isso eu que não tenho a ver, Quintério.
Mais grave não podia ser. Decidiram consultar o doutor juiz. Encontraram-no na
[30] barbearia do Covane. Altivo, preparado para o corte do cabelo. [...] Permaneceu imóvel e
distante enquanto escutou o relato dos reformados.
– Diga-nos, senhor doutor: pode um jogo mexer-se sozinho à noite?
– Depende - respondeu o juiz.
Passou a mão suada pelo couro descabeludo. E acrescentou, enquanto se
[35] olhava ao espelho:
– São fenômenos.
Os velhos, boquiabertos, sem expressão. Nunca haviam escutado palavra com
tais sílabas. Mas bastava que o juiz a pronunciasse para que ela fosse considerada
verdade.
[40] – É isso que se chamam fenômenos paranormais. Nunca ouviram falar?
– É que, faz anos, estamos aqui na vila, sem sair para nenhum lado.
– Psicocinese, tropismos sem casualidade determinada. Entendem?
Mentiram acenando com as cabeças. Fez-se pausa, espessou-se o silêncio. Os
velhos alinhados, mãos cruzadas em respeito ante a curva do ventre. Mas não havia
[45] mais a ser dito. O juiz, entre vênias e licenças, se retirou. Passando pelos mortais com
seu ar divino, o juiz se resumia numa palavra: fenomenal.
Retiraram-se também os velhos, ombros estreitos, passos miúdos. Na rua,
Esmerado Fabião sublinhou sua inocência:
– Eu não disse que não tinha mexido em nada?
[50] E separaram-se, cada um conforme sua solidão.
Quintério Luca deitou-se no seu quarto, calado, mal digerido. Para ele, aquilo
não tinha volta mesmo. Já não lhe apetecia voltar ao bar, não lhe apetecia viver. Em sua
consciência não havia reverso: confiança manchada, amizade desmanchada.
Noite alta, Quintério saiu de casa, cruzando a vila como a coruja furtiva. Bateu
[55] na porta da residência do juiz. O magistrado, estremunhado, de roupão, entreabriu-lhe
os olhos inquisitivos.
– Desculpe, excelência, mas é que uma pergunta ficou-me encravada e quase
nem consigo respirar.
– Fale, homem.
[60] – É que não entendi bem. Afinal, o compadre Quintério aldrabou ou não?
– A ética, meu caro Quintério Luca, a ética é profundamente irrelevante, num
caso destes. E agora, vá com Deus. Deixe dormir os homens de bem.
Quintério Luca, voz educada, voltou a insistir. O doutor lhe perdoasse, mas não
o mandasse embora assim, na ética de Deus. Era pobre, não tinha palavra dispendiosa.
[65] Mas ele não podia ficar torturado por aquela dúvida. Que aquilo não era um
simples caso de batota ao jogo. Fabião estava a embatotar a vida. Porque, afinal, nunca
tinha sido às damas que eles jogavam. O que faziam, repartidamente, era distraírem a
espera do fim. E o compadre Fabião era a quem confiava sua única e última riqueza:
gordas lembranças, magras confidências.
[70] Foi então que o juiz se alertou, num arrepio. Não foi mais que um simples
rebrilho no escuro: o que Luca trazia por baixo do braço era uma antiga, mas autêntica
espingarda. O juiz aconchegou o roupão como se invadido pelo repentino de um frio.
O velho ainda demorou a perguntar:
– Se eu matar Esmerado Fabião, terei desculpa de sua excelência?
[75] – Não. Terei que o culpar.
– Então, com a devida desculpa, acho que tenho que matar primeiro o senhor
doutor juiz.
E disparou sobre o aterrorizado magistrado. Mas sem ponto na mira. A bala
sulcou os céus, sem rumo. O guarda-costas do juiz, aparecido das traseiras da casa,
[80] devolveu disparo. O velho Quintério Luca tombou vegetalmente, já sem suspiro.
Desde então, quem passa no bar da vila pode ver Esmerado Fabião sentado na
mesma mesa, contemplando a cadeira vaga na sua frente. No intervalo dos cabeceios,
ele vai repetindo meio desvairado:
– É a sua vez, compadre! É a sua vez de pedir.
COUTO, Mia. O fio das missangas: contos. São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 2009. (com adaptações)
VOCABULÁRIO
BATOTA: fraude em jogo, trapaça, falcatrua, mentira, roubo.
ALDRABOU: enganou, mentiu em excesso.
CABECEIOS: cochilos.
MISSANGAS: variação etimológica do vocábulo miçanga (coisa de pouco ou nenhum valor, bugiganga).
O fragmento do texto que melhor se relaciona ao título do conto Uma questão de honra é:
Questão 16 10124666
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2013TEXTO - Definição do Amor (fragmento)
O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas,
quem diz outra coisa, é besta.
(Gregório de Matos. In: Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1992.)
No verso “uma batalha de veias”, a palavra batalha sugere, semanticamente, uma
Questão 15 10124661
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2013TEXTO - Definição do Amor (fragmento)
O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.
Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas,
quem diz outra coisa, é besta.
(Gregório de Matos. In: Obra poética. Rio de Janeiro: Record, 1992.)
Camões diz que o amor “É um contentamento descontente”. Gregório de Matos, por sua vez, afirma que o amor é “um embaraço de pernas”.
Comparando os dois versos citados, percebe-se que, no poema de Gregório de Matos, o amor é representado por aspectos
Questão 14 10124657
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2013TEXTO
Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
(Luís de Camões. Sonetos de Camões. São Paulo: Ateliê, 2001.)
Da última estrofe pode-se deduzir que o amor é
Questão 13 10124653
CMRJ 1° Ano - Prova de Português 2013TEXTO
Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
(Luís de Camões. Sonetos de Camões. São Paulo: Ateliê, 2001.)
No décimo segundo verso, a palavra como tem valor semântico interrogativo de
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