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Questão 8 15409538
CAp-UERJ 1 Ano - Ensino Médio 2024BANHOS DE MAR
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão
feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.
Meu pai também acreditava que o banho de mar benéfico era o tomado antes do sol nascer.
Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde
[5] vazio que nos levaria de Recife para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço,
eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o
[10] bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta
do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive
de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos
banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um
[15] porco de verdade!”, gritei uma vez. E a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente
caía-se num fundo de dois metros, calculo.
[20] Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-
vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as
senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou
transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando
[25] pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de
Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em
concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente
o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo.
[30] Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na
cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus
cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia
seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
CLARICE LISPECTOR Adaptado de Crônicas para jovens: de bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
Há passagens do texto em que a narradora mostra que está refletindo sobre o próprio ato de narrar uma história.
Uma dessas passagens está presente no seguinte parágrafo:
Questão 6 15409536
CAp-UERJ 1 Ano - Ensino Médio 2024BANHOS DE MAR
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão
feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.
Meu pai também acreditava que o banho de mar benéfico era o tomado antes do sol nascer.
Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde
[5] vazio que nos levaria de Recife para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço,
eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o
[10] bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta
do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive
de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos
banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um
[15] porco de verdade!”, gritei uma vez. E a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente
caía-se num fundo de dois metros, calculo.
[20] Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-
vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as
senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou
transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando
[25] pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de
Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em
concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente
o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo.
[30] Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na
cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus
cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia
seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
CLARICE LISPECTOR Adaptado de Crônicas para jovens: de bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
Os dois-pontos podem introduzir a especificação de um termo citado anteriormente.
Um exemplo desse emprego dos dois-pontos está presente no seguinte trecho:
Questão 4 15409533
CAp-UERJ 1 Ano - Ensino Médio 2024BANHOS DE MAR
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão
feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.
Meu pai também acreditava que o banho de mar benéfico era o tomado antes do sol nascer.
Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde
[5] vazio que nos levaria de Recife para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço,
eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o
[10] bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta
do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive
de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos
banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um
[15] porco de verdade!”, gritei uma vez. E a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente
caía-se num fundo de dois metros, calculo.
[20] Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-
vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as
senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou
transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando
[25] pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de
Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em
concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente
o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo.
[30] Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na
cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus
cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia
seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
CLARICE LISPECTOR Adaptado de Crônicas para jovens: de bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. (l. 1)
Com o uso do verbo “acreditar”, a narradora sugere que os benefícios dos banhos de mar podem ser compreendidos como uma:
Questão 3 15409531
CAp-UERJ 1 Ano - Ensino Médio 2024BANHOS DE MAR
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão
feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.
Meu pai também acreditava que o banho de mar benéfico era o tomado antes do sol nascer.
Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde
[5] vazio que nos levaria de Recife para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço,
eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o
[10] bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta
do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive
de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos
banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um
[15] porco de verdade!”, gritei uma vez. E a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente
caía-se num fundo de dois metros, calculo.
[20] Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-
vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as
senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou
transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando
[25] pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de
Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em
concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente
o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo.
[30] Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na
cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus
cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia
seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
CLARICE LISPECTOR Adaptado de Crônicas para jovens: de bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
Considere que, em uma das idas a Olinda, a narradora e sua família pegaram um bonde com onze lugares vazios.
O pai e a mãe ocuparam dois desses lugares, enquanto a narradora e suas duas irmãs escolheram um dos nove lugares restantes. Cada irmã se sentou em um lugar diferente.
A quantidade máxima de modos diferentes em que as três irmãs podiam escolher se sentar no bonde é:
Questão 2 15409530
CAp-UERJ 1 Ano - Ensino Médio 2024BANHOS DE MAR
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão
feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.
Meu pai também acreditava que o banho de mar benéfico era o tomado antes do sol nascer.
Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde
[5] vazio que nos levaria de Recife para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço,
eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o
[10] bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta
do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive
de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos
banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um
[15] porco de verdade!”, gritei uma vez. E a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente
caía-se num fundo de dois metros, calculo.
[20] Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-
vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as
senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou
transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando
[25] pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de
Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em
concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente
o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo.
[30] Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na
cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus
cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia
seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
CLARICE LISPECTOR Adaptado de Crônicas para jovens: de bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
Analise o gráfico abaixo, que indica a quantidade de passageiros transportados ao longo de um dia em um bonde do Recife. Sabe-se que cada passageiro pegou o bonde apenas uma vez no dia.

Com base no gráfico, o número total de passageiros transportados nesse dia foi igual a:
Questão 1 15409524
CAp-UERJ 1 Ano - Ensino Médio 2024BANHOS DE MAR
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão
feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.
Meu pai também acreditava que o banho de mar benéfico era o tomado antes do sol nascer.
Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde
[5] vazio que nos levaria de Recife para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço,
eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o
[10] bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta
do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive
de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos
banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um
[15] porco de verdade!”, gritei uma vez. E a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente
caía-se num fundo de dois metros, calculo.
[20] Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-
vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as
senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou
transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando
[25] pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de
Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em
concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente
o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo.
[30] Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na
cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus
cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia
seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
CLARICE LISPECTOR Adaptado de Crônicas para jovens: de bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
No texto, a narradora conta, em primeira pessoa, memórias de uma experiência que viveu na infância junto com a família.
Um trecho que exemplifica dois usos da primeira pessoa, um no singular e outro no plural, é:
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