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Questões de EFAF Português - Leitura e Interpretação de Texto

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7.497 Questões

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Modo Escuro
Fonte

Questão 26 15291306
Fácil 00:00

CMB 1 Ano 2024
  • EFAF Português
  • Sugira
  • Leitura e Interpretação de Texto
  • Coesão (elem. coesivos) e Coerência Gêneros textuais - Verbais/Narrativos
  • Conto
  • Exibir tags

Após a leitura do Texto 1, responda à questão.

 

TEXTO 1

Natal na barca

Lígia Fagundes Telles

 

[1]    Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor

tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,

apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher

com uma criança e eu.

[5]    O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um

vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que

estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça

dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

    Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e

[10] até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca

tão despojada, tão sem artificios, a ociosidade de um diálogo. [...]

    Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,

silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos

vivos. E era Natal.

[15]    A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-

la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na

água.

     – Tão gelada - estranhei, enxugando a mão.

     – Mas de manhã é quente. [...]

[20] Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-

me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]

     – De manhã esse rio é quente - insistiu ela, me encarando.

     – Quente?

     – Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a

[25] roupa fosse sair esverdeada. E a primeira vez que vem por estas bandas?

     Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:

     – Mas a senhora mora aqui perto?

     – Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...

     – Seu filho?

[30]– É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um

médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]

     – É o caçula? [...]

     – É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico

quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,

[35] contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]

    Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os

tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não

tinha forças para rompê-los. [...]

    Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata

[40] fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos

da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos

braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles

olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

    – A senhora é conformada.

[45]– Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

    – Deus - repeti vagamente.

    – A senhora não acredita em Deus?

    – Acredito -murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,

perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que

[50] removia montanhas...[...]

    E começou com voz quente de paixão:

     – Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua

afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do

jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e

[55] sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha

mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era

tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

     Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,

levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para

[60] rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.

[...]

    – Estamos chegando- anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.

    Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr

para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]

[65]  Aproximei-me evitando encará-la.

    – Acho melhor nos despedirmos aqui - disse atropeladamente, estendendo a mão.

    Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a

sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-

lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

[70]– Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]

    – Acordou?!

    Ela sorriu:

    – Veja...

    Inclinei-me. A criança abrira os olhos – aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.

[75] [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.

    – Então, bom Natal! - disse ela, enfiando a sacola no braço.

    Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a

mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barcа.

Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.

[80] Verde e quente.

Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024. (Com adaptações)

Analise os períodos a seguir, retirados do segundo parágrafo do Texto 1. Em seguida, marque a alternativa correta.

 

I. "O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia." (linhas 5 e 6)

II. "A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que estava enrolada em panos." (linhas 6 e 7)

III. "O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga." (linhas 7 e 8)

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Questão 25 15291278
Fácil 00:00

CMB 1 Ano 2024
  • EFAF Português
  • Sugira
  • Leitura e Interpretação de Texto
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  • Conto
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Após a leitura do Texto 1, responda à questão.

 

TEXTO 1

Natal na barca

Lígia Fagundes Telles

 

[1]    Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor

tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,

apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher

com uma criança e eu.

[5]    O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um

vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que

estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça

dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

    Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e

[10] até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca

tão despojada, tão sem artificios, a ociosidade de um diálogo. [...]

    Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,

silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos

vivos. E era Natal.

[15]    A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-

la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na

água.

     – Tão gelada - estranhei, enxugando a mão.

     – Mas de manhã é quente. [...]

[20] Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-

me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]

     – De manhã esse rio é quente - insistiu ela, me encarando.

     – Quente?

     – Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a

[25] roupa fosse sair esverdeada. E a primeira vez que vem por estas bandas?

     Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:

     – Mas a senhora mora aqui perto?

     – Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...

     – Seu filho?

[30]– É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um

médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]

     – É o caçula? [...]

     – É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico

quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,

[35] contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]

    Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os

tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não

tinha forças para rompê-los. [...]

    Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata

[40] fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos

da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos

braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles

olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

    – A senhora é conformada.

[45]– Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

    – Deus - repeti vagamente.

    – A senhora não acredita em Deus?

    – Acredito -murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,

perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que

[50] removia montanhas...[...]

    E começou com voz quente de paixão:

     – Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua

afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do

jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e

[55] sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha

mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era

tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

     Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,

levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para

[60] rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.

[...]

    – Estamos chegando- anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.

    Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr

para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]

[65]  Aproximei-me evitando encará-la.

    – Acho melhor nos despedirmos aqui - disse atropeladamente, estendendo a mão.

    Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a

sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-

lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

[70]– Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]

    – Acordou?!

    Ela sorriu:

    – Veja...

    Inclinei-me. A criança abrira os olhos – aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.

[75] [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.

    – Então, bom Natal! - disse ela, enfiando a sacola no braço.

    Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a

mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barcа.

Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.

[80] Verde e quente.

Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024. (Com adaptações)

Considerando todo o Texto 1, a explicação da função sintática do termo destacado está correta na afirmativa:

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Questão 24 15291265
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CMB 1 Ano 2024
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Natal na barca

Lígia Fagundes Telles

 

[1]    Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor

tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,

apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher

com uma criança e eu.

[5]    O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um

vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que

estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça

dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

    Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e

[10] até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca

tão despojada, tão sem artificios, a ociosidade de um diálogo. [...]

    Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,

silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos

vivos. E era Natal.

[15]    A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-

la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na

água.

     – Tão gelada - estranhei, enxugando a mão.

     – Mas de manhã é quente. [...]

[20] Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-

me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]

     – De manhã esse rio é quente - insistiu ela, me encarando.

     – Quente?

     – Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a

[25] roupa fosse sair esverdeada. E a primeira vez que vem por estas bandas?

     Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:

     – Mas a senhora mora aqui perto?

     – Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...

     – Seu filho?

[30]– É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um

médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]

     – É o caçula? [...]

     – É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico

quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,

[35] contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]

    Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os

tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não

tinha forças para rompê-los. [...]

    Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata

[40] fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos

da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos

braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles

olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

    – A senhora é conformada.

[45]– Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

    – Deus - repeti vagamente.

    – A senhora não acredita em Deus?

    – Acredito -murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,

perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que

[50] removia montanhas...[...]

    E começou com voz quente de paixão:

     – Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua

afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do

jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e

[55] sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha

mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era

tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

     Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,

levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para

[60] rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.

[...]

    – Estamos chegando- anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.

    Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr

para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]

[65]  Aproximei-me evitando encará-la.

    – Acho melhor nos despedirmos aqui - disse atropeladamente, estendendo a mão.

    Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a

sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-

lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

[70]– Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]

    – Acordou?!

    Ela sorriu:

    – Veja...

    Inclinei-me. A criança abrira os olhos – aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.

[75] [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.

    – Então, bom Natal! - disse ela, enfiando a sacola no braço.

    Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a

mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barcа.

Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.

[80] Verde e quente.

Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024. (Com adaptações)

Assinale a única alternativa em que todos os pronomes retomam um mesmo e único referente.

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Questão 23 15291235
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CMB 1 Ano 2024
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Após a leitura do Texto 1, responda à questão.

 

TEXTO 1

Natal na barca

Lígia Fagundes Telles

 

[1]    Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor

tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,

apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher

com uma criança e eu.

[5]    O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um

vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que

estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça

dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

    Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e

[10] até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca

tão despojada, tão sem artificios, a ociosidade de um diálogo. [...]

    Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,

silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos

vivos. E era Natal.

[15]    A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-

la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na

água.

     – Tão gelada - estranhei, enxugando a mão.

     – Mas de manhã é quente. [...]

[20] Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-

me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]

     – De manhã esse rio é quente - insistiu ela, me encarando.

     – Quente?

     – Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a

[25] roupa fosse sair esverdeada. E a primeira vez que vem por estas bandas?

     Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:

     – Mas a senhora mora aqui perto?

     – Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...

     – Seu filho?

[30]– É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um

médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]

     – É o caçula? [...]

     – É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico

quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,

[35] contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]

    Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os

tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não

tinha forças para rompê-los. [...]

    Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata

[40] fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos

da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos

braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles

olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

    – A senhora é conformada.

[45]– Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

    – Deus - repeti vagamente.

    – A senhora não acredita em Deus?

    – Acredito -murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,

perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que

[50] removia montanhas...[...]

    E começou com voz quente de paixão:

     – Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua

afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do

jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e

[55] sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha

mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era

tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

     Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,

levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para

[60] rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.

[...]

    – Estamos chegando- anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.

    Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr

para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]

[65]  Aproximei-me evitando encará-la.

    – Acho melhor nos despedirmos aqui - disse atropeladamente, estendendo a mão.

    Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a

sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-

lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

[70]– Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]

    – Acordou?!

    Ela sorriu:

    – Veja...

    Inclinei-me. A criança abrira os olhos – aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.

[75] [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.

    – Então, bom Natal! - disse ela, enfiando a sacola no braço.

    Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a

mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barcа.

Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.

[80] Verde e quente.

Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024. (Com adaptações)

Nas alternativas a seguir, todas as palavras em destaque estão sendo usadas como articuladores semântico-discursivos.

 

A alternativa que estabelece corretamente a relação indicada é:

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Questão 22 15291222
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Após a leitura do Texto 1, responda à questão.

 

TEXTO 1

Natal na barca

Lígia Fagundes Telles

 

[1]    Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor

tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,

apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher

com uma criança e eu.

[5]    O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um

vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que

estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça

dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

    Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e

[10] até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca

tão despojada, tão sem artificios, a ociosidade de um diálogo. [...]

    Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,

silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos

vivos. E era Natal.

[15]    A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-

la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na

água.

     – Tão gelada - estranhei, enxugando a mão.

     – Mas de manhã é quente. [...]

[20] Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-

me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]

     – De manhã esse rio é quente - insistiu ela, me encarando.

     – Quente?

     – Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a

[25] roupa fosse sair esverdeada. E a primeira vez que vem por estas bandas?

     Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:

     – Mas a senhora mora aqui perto?

     – Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...

     – Seu filho?

[30]– É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um

médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]

     – É o caçula? [...]

     – É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico

quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,

[35] contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]

    Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os

tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não

tinha forças para rompê-los. [...]

    Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata

[40] fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos

da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos

braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles

olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

    – A senhora é conformada.

[45]– Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

    – Deus - repeti vagamente.

    – A senhora não acredita em Deus?

    – Acredito -murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,

perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que

[50] removia montanhas...[...]

    E começou com voz quente de paixão:

     – Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua

afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do

jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e

[55] sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha

mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era

tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

     Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,

levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para

[60] rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.

[...]

    – Estamos chegando- anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.

    Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr

para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]

[65]  Aproximei-me evitando encará-la.

    – Acho melhor nos despedirmos aqui - disse atropeladamente, estendendo a mão.

    Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a

sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-

lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

[70]– Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]

    – Acordou?!

    Ela sorriu:

    – Veja...

    Inclinei-me. A criança abrira os olhos – aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.

[75] [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.

    – Então, bom Natal! - disse ela, enfiando a sacola no braço.

    Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a

mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barcа.

Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.

[80] Verde e quente.

Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024. (Com adaptações)

A respeito do diálogo que se estabelece entre a narradora e sua interlocutora, é possível concluir que:

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Questão 21 15290966
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Após a leitura do Texto 1, responda à questão.

 

TEXTO 1

Natal na barca

Lígia Fagundes Telles

 

[1]    Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor

tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,

apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher

com uma criança e eu.

[5]    O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um

vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que

estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça

dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.

    Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e

[10] até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca

tão despojada, tão sem artificios, a ociosidade de um diálogo. [...]

    Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,

silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos

vivos. E era Natal.

[15]    A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-

la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na

água.

     – Tão gelada - estranhei, enxugando a mão.

     – Mas de manhã é quente. [...]

[20] Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-

me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]

     – De manhã esse rio é quente - insistiu ela, me encarando.

     – Quente?

     – Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a

[25] roupa fosse sair esverdeada. E a primeira vez que vem por estas bandas?

     Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:

     – Mas a senhora mora aqui perto?

     – Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...

     – Seu filho?

[30]– É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um

médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]

     – É o caçula? [...]

     – É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico

quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,

[35] contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]

    Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os

tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não

tinha forças para rompê-los. [...]

    Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata

[40] fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos

da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos

braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles

olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.

    – A senhora é conformada.

[45]– Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.

    – Deus - repeti vagamente.

    – A senhora não acredita em Deus?

    – Acredito -murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,

perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que

[50] removia montanhas...[...]

    E começou com voz quente de paixão:

     – Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua

afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do

jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e

[55] sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha

mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era

tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.

     Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,

levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para

[60] rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.

[...]

    – Estamos chegando- anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.

    Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr

para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]

[65]  Aproximei-me evitando encará-la.

    – Acho melhor nos despedirmos aqui - disse atropeladamente, estendendo a mão.

    Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a

sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-

lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.

[70]– Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]

    – Acordou?!

    Ela sorriu:

    – Veja...

    Inclinei-me. A criança abrira os olhos – aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.

[75] [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.

    – Então, bom Natal! - disse ela, enfiando a sacola no braço.

    Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a

mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barcа.

Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.

[80] Verde e quente.

Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024. (Com adaptações)

Após leitura atenta do texto "Natal na barca", é correto afirmar que

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