Questões de EFAF Português - Leitura e Interpretação de Texto
7.497 Questões
Questão 2 15409530
CAp-UERJ 1 Ano - Ensino Médio 2024BANHOS DE MAR
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão
feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.
Meu pai também acreditava que o banho de mar benéfico era o tomado antes do sol nascer.
Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde
[5] vazio que nos levaria de Recife para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço,
eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o
[10] bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta
do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive
de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos
banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um
[15] porco de verdade!”, gritei uma vez. E a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente
caía-se num fundo de dois metros, calculo.
[20] Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-
vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as
senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou
transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando
[25] pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de
Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em
concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente
o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo.
[30] Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na
cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus
cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia
seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
CLARICE LISPECTOR Adaptado de Crônicas para jovens: de bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
Analise o gráfico abaixo, que indica a quantidade de passageiros transportados ao longo de um dia em um bonde do Recife. Sabe-se que cada passageiro pegou o bonde apenas uma vez no dia.

Com base no gráfico, o número total de passageiros transportados nesse dia foi igual a:
Questão 1 15409524
CAp-UERJ 1 Ano - Ensino Médio 2024BANHOS DE MAR
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão
feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.
Meu pai também acreditava que o banho de mar benéfico era o tomado antes do sol nascer.
Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde
[5] vazio que nos levaria de Recife para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço,
eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o
[10] bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta
do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive
de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos
banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um
[15] porco de verdade!”, gritei uma vez. E a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente
caía-se num fundo de dois metros, calculo.
[20] Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-
vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as
senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou
transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando
[25] pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de
Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em
concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente
o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo.
[30] Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na
cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus
cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia
seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
CLARICE LISPECTOR Adaptado de Crônicas para jovens: de bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
No texto, a narradora conta, em primeira pessoa, memórias de uma experiência que viveu na infância junto com a família.
Um trecho que exemplifica dois usos da primeira pessoa, um no singular e outro no plural, é:
Questão 10 15407093
CEFET-RJ Integrado 2024TEXTO
Cruzamento
Vou para o dentista, duas da tarde, meu carro corta com esforço a geleia modorrenta1 em que o ar se transformou esses dias. Um casal de adolescentes começa a atravessar a rua, de mãos dadas, à minha frente. Eles dão uma olhada para o meu carro, de leve, calculando. A garota faz menção de apressar o passo, o garoto a dissuade com um olhar de esguelha e, talvez, um discretíssimo aperto na mão. Eles seguem seu ritmo, lento, rumo a outra calçada.
Se nenhum de nós mudarmos nossas velocidades, acabarei por atropelá-los. É evidente que eles sabem disso, como é evidente que isso não acontecerá, pois eu venho devagar e basta pisar de leve no freio e pronto, saímos todos, são e salvos, eu para o dentista, e eles para a casa dos pais de um deles, onde se deitarão numa cama de solteiro, embaixo de uma parede cheia de fotos e pôsteres e frases de canetinha hidrocor tipo Ju-eu-te-amo-amiga! e descobrirão que a vida é boa.
Esse pequeno acontecimento me atinge em algum calo das minhas neuroses urbanas. Irrito-me porque fingiram que a velocidade deles estava certa. No entanto, sabem que, se não morreram atropelados, é porque eu diminuí o ritmo. Mais ainda, talvez, porque o garoto passou para a menina a ideia, naquele olhar fugaz, de que com ele ela estava segura, de que era só confiar e tudo daria certo, eles chegariam ao outro lado da rua, depois ao outro lado do mundo, se quisessem, e seriam felizes para sempre. Mas foi o tiozão aqui quem tornou a travessia possível.
Percebo então que quem atravessou a rua à minha frente não foi um casal de adolescentes, foi a adolescência em si. E quem freou o carro não fui eu, mas a idade adulta. É assim que a adolescência lida com o mundo. Não capitula2 : arrisca, peita. “Imagina, se eu mudo meu ritmo, o mundo é que se acostume a ele!”. E porque os adolescentes têm um anjo protetor dos mais poderosos, ou, pelo menos, uma sorte do tamanho de um bonde, acontece de chegarem, quase sempre, sãos e salvos do outro lado da rua.
Já a idade adulta pondera, põe o pé no freio quando convém, faz concessões ao mundo, dirige afinado com a sinfonia dos outros, dentro dessa outra geleia modorrenta cujo nome, hoje, soa tão adolescente: sistema. E por isso me irrito, porque ali, naquela rua, diminuindo meu ritmo, me percebo velho, adequado, apascentado3 . Eles vão no ritmo deles, a realidade que se vire.
É assim, distraídos, que mudam o mundo.
PRATA, Antonio. Estadão, 23/12/2008. Disponível em: http://blogdoantonioprata. blogspot.com/2007/10/cruzamento.html. Acesso em: 20 out 2024. Adaptado.
Vocabulário:
1. modorrenta – desinteressante
2. capitula – cede
3. apascentado – adequado
TEXTO 2
E vamos à luta
Eu acredito é na rapaziada,
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada,
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude,
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade,
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada
Aquele que sabe que é negro o couro da gente
E segura a batida da vida o ano inteiro
Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro
E apesar dos pesares, ainda se orgulha de ser brasileiro
Aquele que sai da batalha, entra no botequim
Pede uma cerva gelada e agita na mesa uma batucada
Aquele que manda o pagode e sacode a poeira suada
[da luta
E faz a brincadeira, pois o resto é besteira
E nós estamos pelaí...
GONZAGUINHA. E vamos à luta. São Paulo: EMI Records, 1980. LP, 39 min.
Os jovens da crônica “Cruzamento” (Texto 1) e os jovens retratados na canção “E vamos à luta” (Texto 2), diante da necessidade de buscar soluções no contexto em que vivem, apresentam uma reação:
Questão 9 15407092
CEFET-RJ Integrado 2024TEXTO
E vamos à luta
Eu acredito é na rapaziada,
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada,
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude,
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade,
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada
Aquele que sabe que é negro o couro da gente
E segura a batida da vida o ano inteiro
Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro
E apesar dos pesares, ainda se orgulha de ser brasileiro
Aquele que sai da batalha, entra no botequim
Pede uma cerva gelada e agita na mesa uma batucada
Aquele que manda o pagode e sacode a poeira suada
[da luta
E faz a brincadeira, pois o resto é besteira
E nós estamos pelaí...
GONZAGUINHA. E vamos à luta. São Paulo: EMI Records, 1980. LP, 39 min.
O pronome relativo “que”, presente no início de quatro versos da primeira estrofe, além de conferir ritmo à canção, atua estabelecendo conexão entre:
Questão 8 15407091
CEFET-RJ Integrado 2024TEXTO
E vamos à luta
Eu acredito é na rapaziada,
Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada,
Que não foge da fera e enfrenta o leão
Eu vou à luta com essa juventude,
Que não corre da raia a troco de nada
Eu vou no bloco dessa mocidade,
Que não tá na saudade e constrói
A manhã desejada
Aquele que sabe que é negro o couro da gente
E segura a batida da vida o ano inteiro
Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro
E apesar dos pesares, ainda se orgulha de ser brasileiro
Aquele que sai da batalha, entra no botequim
Pede uma cerva gelada e agita na mesa uma batucada
Aquele que manda o pagode e sacode a poeira suada
[da luta
E faz a brincadeira, pois o resto é besteira
E nós estamos pelaí...
GONZAGUINHA. E vamos à luta. São Paulo: EMI Records, 1980. LP, 39 min.
Na letra da canção de Gonzaguinha, percebe-se a visão do eu lírico a respeito de uma juventude resistente e forte.
Essa afirmativa pode ser comprovada a partir de uma criteriosa seleção de palavras, evidenciada pela presença de substantivos tais como:
Questão 6 15407089
CEFET-RJ Integrado 2024TEXTO
Cruzamento
Vou para o dentista, duas da tarde, meu carro corta com esforço a geleia modorrenta1 em que o ar se transformou esses dias. Um casal de adolescentes começa a atravessar a rua, de mãos dadas, à minha frente. Eles dão uma olhada para o meu carro, de leve, calculando. A garota faz menção de apressar o passo, o garoto a dissuade com um olhar de esguelha e, talvez, um discretíssimo aperto na mão. Eles seguem seu ritmo, lento, rumo a outra calçada.
Se nenhum de nós mudarmos nossas velocidades, acabarei por atropelá-los. É evidente que eles sabem disso, como é evidente que isso não acontecerá, pois eu venho devagar e basta pisar de leve no freio e pronto, saímos todos, são e salvos, eu para o dentista, e eles para a casa dos pais de um deles, onde se deitarão numa cama de solteiro, embaixo de uma parede cheia de fotos e pôsteres e frases de canetinha hidrocor tipo Ju-eu-te-amo-amiga! e descobrirão que a vida é boa.
Esse pequeno acontecimento me atinge em algum calo das minhas neuroses urbanas. Irrito-me porque fingiram que a velocidade deles estava certa. No entanto, sabem que, se não morreram atropelados, é porque eu diminuí o ritmo. Mais ainda, talvez, porque o garoto passou para a menina a ideia, naquele olhar fugaz, de que com ele ela estava segura, de que era só confiar e tudo daria certo, eles chegariam ao outro lado da rua, depois ao outro lado do mundo, se quisessem, e seriam felizes para sempre. Mas foi o tiozão aqui quem tornou a travessia possível.
Percebo então que quem atravessou a rua à minha frente não foi um casal de adolescentes, foi a adolescência em si. E quem freou o carro não fui eu, mas a idade adulta. É assim que a adolescência lida com o mundo. Não capitula2 : arrisca, peita. “Imagina, se eu mudo meu ritmo, o mundo é que se acostume a ele!”. E porque os adolescentes têm um anjo protetor dos mais poderosos, ou, pelo menos, uma sorte do tamanho de um bonde, acontece de chegarem, quase sempre, sãos e salvos do outro lado da rua.
Já a idade adulta pondera, põe o pé no freio quando convém, faz concessões ao mundo, dirige afinado com a sinfonia dos outros, dentro dessa outra geleia modorrenta cujo nome, hoje, soa tão adolescente: sistema. E por isso me irrito, porque ali, naquela rua, diminuindo meu ritmo, me percebo velho, adequado, apascentado3 . Eles vão no ritmo deles, a realidade que se vire.
É assim, distraídos, que mudam o mundo.
PRATA, Antonio. Estadão, 23/12/2008. Disponível em: http://blogdoantonioprata. blogspot.com/2007/10/cruzamento.html. Acesso em: 20 out 2024. Adaptado.
Vocabulário:
1. modorrenta – desinteressante
2. capitula – cede
3. apascentado – adequado
A crônica é um gênero textual em que, muitas vezes, verifica-se o registro coloquial.
O trecho que revela uma construção mais próxima desse registro é:
06
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