Questões de EFAF Português - Leitura e Interpretação de Texto
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Questão 11 15438005
CBNB 1 ano Ensino Médio 2024TEXTO
Minha primeira ascensão
Alberto Santos-Dumont
Guardo uma recordação indelével das deliciosas sensações de minha primeira tentativa aérea.
Cheguei cedo ao parque de aerostação de Vaugirard, a fim de não perder nenhum dos preparativos. O balão, de uma capacidade de setecentos e cinqüenta metros cúbicos, jazia estendido sobre a grama. A uma ordem do Sr. Lachambre, os operários começaram a enchê-lo de gás. E em pouco a massa informe começou a se transformar numa vasta esfera.
Às 11 horas, os preparativos estavam terminados. Uma brisa fresca acariciava a barquinha, que se balançava suavemente sob o balão. A um dos cantos dela, com um saco de lastro na mão, eu aguardava com impaciência o momento da partida. Do outro, o Sr. Machuron gritou:
– Larguem tudo!
No mesmo instante, o vento deixou de soprar. Era como se o ar em volta de nós se tivesse imobilizado. É que havíamos partido, e a corrente que atravessávamos nos comunicava sua própria velocidade. Eis o primeiro grande fato que se observa quando se sobe num balão esférico.
Esse movimento imperceptível de marcha possui um sabor infinitamente agradável. A ilusão é absoluta. Acreditar-se-ia, não que é o balão que se move, mas que é a Terra que foge dele e se abaixa.
No fundo do abismo que se cavava sob nós, a mil e quinhentos metros, a Terra, em lugar de parecer redonda como uma bola, apresentava a forma côncava de uma tigela (...).
Aldeias e bosques, prados e castelos desfilavam como quadros movediços, em cima dos quais os apitos das locomotivas desferiam notas agudas e longínquas. Com os latidos dos cães, eram os únicos sons que chegavam ao alto. A voz humana não vai a essas solidões sem limites. As pessoas apresentavam o aspecto de formigas caminhando sobre linhas brancas, as estradas, as filas de casas assemelhavam-se a brinquedos de crianças.
Meu olhar sentia ainda a fascinação do espetáculo quando uma nuvem passou diante do Sol. A sombra assim produzida provocou um esfriamento do gás do balão, que, murchando, começou a descer, a princípio lentamente, depois com velocidade cada vez maior. Para reagir, deitamos lastro fora. E eis a segunda grande observação a que se é levado com os balões esféricos: alguns quilos de areia bastam para restituir ao indivíduo o domínio da altitude! (...)
O som de um alegre carrilhão chegou aos nossos ouvidos. Os sinos tocavam o Angelus do meio-dia. Havíamos levado uma refeição substancial: ovos duros, vitela e frango frios, queijo, gelo, frutos, doces, champanha, café e licor. Nada mais delicioso do que semelhante repasto acima das nuvens. Que salão de refeições oferecia mais maravilhosa decoração? (...).
Acabava eu de beber um cálice de licor quando uma cortina desceu subitamente sobre esse admirável cenário de Sol, nuvens e céu azul. O barômetro elevou-se rapidamente cinco milímetros, indicando uma brusca ruptura do equilíbrio e uma descida precipitada. O balão devia ter-se sobrecarregado de muitos quilos de neve; caía com uma nuvem. (...)
Após alguns minutos de uma queda que amortecemos soltando lastro, vimo-nos abaixo das nuvens, a uma distância de cerca de trezentos metros do solo. Uma aldeia fugia debaixo de nós. Localizamos o ponto e comparamos nossa carta com a imensa carta natural que a vista lobrigava. Foi-nos fácil identificar as estradas, os caminhos de ferro, as aldeias, os bosques. Tudo isso avançava para o horizonte com a própria rapidez do vento.
A nuvem que provocara a nossa descida era prenúncio de uma mudança de tempo. Pequenas rajadas começavam a impelir o balão da direita para a esquerda e de cima para baixo. De espaço a espaço, o cabopendente – uma grande corda de uns cem metros de comprido, que flutuava fora da barquinha – tocava no chão. A barquinha não tardou, por sua vez, a roçar as copas das árvores. (...)
Mais de cinqüenta metros do cabo arrastavam-se já pelo chão. Não era preciso tanto para nos mantermos em equilíbrio a uma altitude inferior a cem metros, pois havíamos decidido não exceder disso até o fim da viagem. (...)
Quando franqueávamos um pequeno maciço de árvores, um balanço mais forte do que os outros atirou-me para trás, na barquinha. Imobilizado de súbito, o balão estremecia açoitado pelas lufadas de vento, na extremidade do seu cabo-pendente enrolado nas franças de um carvalho. Durante um quarto de hora fomos sacudidos como um cesto de legumes e só nos libertamos aliviando um pouco de lastro. O balão deu então um pulo terrível e foi como uma bala furar as nuvens. Estávamos ameaçados de atingir alturas que depois nos podiam ser perigosas para a descida, dada a pequena provisão de lastro de que já dispúnhamos. Era tempo de recorrer a meios mais eficazes: abrir a válvula e deixar fugir gás.
Foi obra de um minuto. O balão retomou a descida e o cabo-pendente tocou de novo o solo. Não nos restava senão dar por encerrada aí a excursão; a areia estava quase esgotada.
(...) Atiramos a âncora, ao mesmo tempo que abríamos completamente a válvula para dar escapamento ao gás.
A dupla manobra colocou-nos em terra sem menor abalo. Saltamos e assistimos ao balão murchar. Alongado no chão, ele esvaziava-se do restante do seu conteúdo em estremecimentos convulsivos, como um grande pássaro batendo as asas ao morrer.
(...) Às seis e meia estávamos novamente em Paris. Havíamos efetuado um percurso de cem quilômetros e passado quase duas horas nos ares.
No dia 23 de março de 1898, Alberto Santos-Dumont voou pela primeira vez em um balão. O vôo custou 400 francos e o brasileiro embarcou em um invento construído pela firma Lachambre e Machuron. Santos-Dumont registrou todas as sensações que a experiência lhe proporcionou em seu livro Meus balões. Dessa obra, publicada pela Biblioteca do Exército Editora, retiramos parte do relato feito pelo inventor para que, a partir das próprias palavras do pai da aviação, você saiba como é voar ao sabor do vento, a bordo de um balão.
Disponível em: https://chc.org.br/wp-content/uploads/2006/09/172otimizado.pdf. Acesso em 31/05/2023.
Considere o texto e ASSINALE V para as proposições verdadeiras e F para as falsas. A seguir, MARQUE a sequência correta entre as alternativas subsequentes.
( ) O texto foi escrito pelo pai da aviação.
( ) O texto relata o primeiro voo de Santos-Dumont em um avião.
( ) O título do texto “Minha primeira ascensão” refere-se à ascensão social de Dumont.
( ) “Minha primeira ascensão” faz alusão ao voo de Dumont em um balão.
MARQUE a alternativa CORRETA:
Questão 9 15409539
CAp-UERJ 1 Ano - Ensino Médio 2024BANHOS DE MAR
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão
feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.
Meu pai também acreditava que o banho de mar benéfico era o tomado antes do sol nascer.
Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde
[5] vazio que nos levaria de Recife para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço,
eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o
[10] bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta
do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive
de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos
banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um
[15] porco de verdade!”, gritei uma vez. E a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente
caía-se num fundo de dois metros, calculo.
[20] Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-
vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as
senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou
transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando
[25] pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de
Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em
concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente
o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo.
[30] Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na
cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus
cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia
seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
CLARICE LISPECTOR Adaptado de Crônicas para jovens: de bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
E quando eu me lembrava de que no dia seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura. (l. 34-35)
Ao longo da narrativa, observa-se a importância que o mar assume na vida da narradora.
Na oração sublinhada, essa importância é destacada pelo fato de a expressão “o mar” assumir a função de:
Questão 8 15409538
CAp-UERJ 1 Ano - Ensino Médio 2024BANHOS DE MAR
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão
feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.
Meu pai também acreditava que o banho de mar benéfico era o tomado antes do sol nascer.
Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde
[5] vazio que nos levaria de Recife para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço,
eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o
[10] bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta
do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive
de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos
banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um
[15] porco de verdade!”, gritei uma vez. E a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente
caía-se num fundo de dois metros, calculo.
[20] Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-
vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as
senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou
transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando
[25] pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de
Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em
concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente
o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo.
[30] Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na
cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus
cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia
seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
CLARICE LISPECTOR Adaptado de Crônicas para jovens: de bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
Há passagens do texto em que a narradora mostra que está refletindo sobre o próprio ato de narrar uma história.
Uma dessas passagens está presente no seguinte parágrafo:
Questão 6 15409536
CAp-UERJ 1 Ano - Ensino Médio 2024BANHOS DE MAR
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão
feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.
Meu pai também acreditava que o banho de mar benéfico era o tomado antes do sol nascer.
Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde
[5] vazio que nos levaria de Recife para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço,
eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o
[10] bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta
do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive
de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos
banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um
[15] porco de verdade!”, gritei uma vez. E a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente
caía-se num fundo de dois metros, calculo.
[20] Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-
vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as
senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou
transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando
[25] pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de
Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em
concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente
o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo.
[30] Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na
cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus
cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia
seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
CLARICE LISPECTOR Adaptado de Crônicas para jovens: de bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
Os dois-pontos podem introduzir a especificação de um termo citado anteriormente.
Um exemplo desse emprego dos dois-pontos está presente no seguinte trecho:
Questão 4 15409533
CAp-UERJ 1 Ano - Ensino Médio 2024BANHOS DE MAR
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão
feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.
Meu pai também acreditava que o banho de mar benéfico era o tomado antes do sol nascer.
Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde
[5] vazio que nos levaria de Recife para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço,
eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o
[10] bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta
do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive
de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos
banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um
[15] porco de verdade!”, gritei uma vez. E a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente
caía-se num fundo de dois metros, calculo.
[20] Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-
vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as
senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou
transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando
[25] pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de
Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em
concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente
o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo.
[30] Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na
cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus
cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia
seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
CLARICE LISPECTOR Adaptado de Crônicas para jovens: de bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. (l. 1)
Com o uso do verbo “acreditar”, a narradora sugere que os benefícios dos banhos de mar podem ser compreendidos como uma:
Questão 3 15409531
CAp-UERJ 1 Ano - Ensino Médio 2024BANHOS DE MAR
Meu pai acreditava que todos os anos se devia fazer uma cura de banhos de mar. E nunca fui tão
feliz quanto naquelas temporadas de banhos em Olinda.
Meu pai também acreditava que o banho de mar benéfico era o tomado antes do sol nascer.
Como explicar o que eu sentia de presente inaudito em sair de casa de madrugada e pegar o bonde
[5] vazio que nos levaria de Recife para Olinda ainda na escuridão?
De noite eu ia dormir, mas o coração se mantinha acordado, em expectativa. E de puro alvoroço,
eu acordava às quatro e pouco da madrugada e despertava o resto da família. Vestíamo-nos depressa
e saíamos em jejum. Porque meu pai acreditava que assim devia ser: em jejum.
Saíamos para uma rua toda escura, recebendo a brisa da pré-madrugada. E esperávamos o
[10] bonde. Até que lá de longe ouvíamos o seu barulho se aproximando. Eu me sentava bem na ponta
do banco: e minha felicidade começava. Atravessar a cidade escura me dava algo que jamais tive
de novo. No bonde mesmo o tempo começava a clarear e uma luz trêmula de sol escondido nos
banhava e banhava o mundo.
Eu olhava tudo: as poucas pessoas na rua, a passagem pelo campo com os bichos-de-pé. “Olhe um
[15] porco de verdade!”, gritei uma vez. E a frase de deslumbramento ficou sendo uma das brincadeiras
de minha família, que de vez em quando me dizia rindo: “Olhe um porco de verdade”.
No bonde mesmo começava a amanhecer. Meu coração batia forte ao nos aproximarmos de Olinda.
O mar de Olinda era muito perigoso. Davam-se alguns passos em um fundo raso e de repente
caía-se num fundo de dois metros, calculo.
[20] Outras pessoas também acreditavam em tomar banho de mar quando o sol nascia. Havia um salva-
vidas que, por uma ninharia de dinheiro, levava as senhoras para o banho: abria os dois braços, e as
senhoras, em cada um dos braços, agarravam o banhista para lutar contra as ondas fortíssimas do mar.
O cheiro do mar me invadia e me embriagava. As algas boiavam. Oh, bem sei que não estou
transmitindo o que significavam como vida pura esses banhos em jejum, com o sol se levantando
[25] pálido ainda no horizonte. Bem sei que estou tão emocionada que não consigo escrever. O mar de
Olinda era muito iodado e salgado. E eu fazia o que no futuro sempre iria fazer: com as mãos em
concha, eu as mergulhava nas águas, e trazia um pouco de mar até minha boca. Eu bebia diariamente
o mar, de tal modo queria me unir a ele.
Não demorávamos muito. O sol já se levantara todo, e meu pai tinha que trabalhar cedo.
[30] Mudávamos de roupa, e a roupa ficava impregnada de sal. Meus cabelos salgados me colavam na
cabeça.
Então esperávamos, ao vento, a vinda do bonde para Recife. No bonde a brisa ia secando meus
cabelos duros de sal. Eu às vezes lambia meu braço para sentir sua grossura de sal e iodo.
Chegávamos em casa e só então tomávamos café. E quando eu me lembrava de que no dia
seguinte o mar se repetiria para mim, eu ficava séria de tanta ventura e aventura.
CLARICE LISPECTOR Adaptado de Crônicas para jovens: de bichos e pessoas. Rio de Janeiro: Rocco Jovens Leitores, 2012.
Considere que, em uma das idas a Olinda, a narradora e sua família pegaram um bonde com onze lugares vazios.
O pai e a mãe ocuparam dois desses lugares, enquanto a narradora e suas duas irmãs escolheram um dos nove lugares restantes. Cada irmã se sentou em um lugar diferente.
A quantidade máxima de modos diferentes em que as três irmãs podiam escolher se sentar no bonde é:
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