Questões de EFAF Português - Leitura e Interpretação de Texto
7.497 Questões
Questão 24 15354994
CMBH 1 Ano 2025Leia o Texto para responder à questão.
TEXTO
Jogo do bicho
[1] Camilo - ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade - ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
[5] depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
[10] Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não
[15] descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
[20] –Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
– Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
– De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
– Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
[25] Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação,
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada. a
[30] Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
[35] fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
– Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
[40] tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
– A cobra é boa - disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
[45] mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
[50] cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
– Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
[55] -Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
– Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
[60] A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
[65] - Hoje respiro - disse Camilo à esposa -. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
[70] cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
– Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
– Quanto?
– Cento e cinco mil-réis.
[75] Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
– Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
[80] Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, "um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago".
A sobremesa foi "um rico pudim", em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: "Viva
a esperança!". A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
[85] Ihe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
– Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava ео
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
[90] preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
Ihe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
– Não, senhor, o patrão não quer.
[95] - Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Considerando a construção do sentido a partir das escolhas lexicais feitas pelo autor, julgue as afirmativas abaixo utilizando (V) para as verdadeiras e (F) para as falsas.
( ) O leão tem andado esquivo, é provável que derrube tudo, mais hoje, mais amanhā. (l. 53-54) O trecho indica que para as personagens a probabilidade de o leão aparecer aumenta por ele andar esquivo.
( ) Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada mais claro. (1. 57-58) O trecho indica que, para as personagens envolvidas, o vago diálogo foi suficientemente preciso.
( ) Um dia não são dias. (1. 78) O trecho significa que um dia jamais se repete, portanto a personagem deve comemorar a sorte gastando nesse mesmo dia o recurso recebido.
( ) [...]"um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago" (1. 82). O trecho indica que o pastelão era caro, bonito e pequeno, bastando para encher os olhos apenas.
( ) Essa ideia só o assaltou no bonde, andando; [...] (l. 88-89) O trecho indica que apenas quando já estava no bonde ocorreu abruptamente à personagem a ideia de presentear a esposa.
Assinale a alternativa correta.
Questão 23 15354987
CMBH 1 Ano 2025Leia o Texto para responder à questão.
TEXTO
Jogo do bicho
[1] Camilo - ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade - ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
[5] depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
[10] Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não
[15] descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
[20] –Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
– Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
– De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
– Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
[25] Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação,
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada. a
[30] Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
[35] fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
– Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
[40] tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
– A cobra é boa - disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
[45] mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
[50] cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
– Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
[55] -Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
– Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
[60] A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
[65] - Hoje respiro - disse Camilo à esposa -. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
[70] cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
– Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
– Quanto?
– Cento e cinco mil-réis.
[75] Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
– Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
[80] Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, "um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago".
A sobremesa foi "um rico pudim", em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: "Viva
a esperança!". A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
[85] Ihe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
– Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava ео
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
[90] preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
Ihe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
– Não, senhor, o patrão não quer.
[95] - Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Assinale a citação que melhor reflete a mensagem apresentada no Texto, Jogo do bicho.
Questão 22 15354981
CMBH 1 Ano 2025Leia o Texto para responder à questão.
TEXTO
Jogo do bicho
[1] Camilo - ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade - ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
[5] depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
[10] Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não
[15] descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
[20] –Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
– Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
– De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
– Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
[25] Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação,
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada. a
[30] Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
[35] fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
– Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
[40] tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
– A cobra é boa - disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
[45] mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
[50] cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
– Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
[55] -Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
– Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
[60] A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
[65] - Hoje respiro - disse Camilo à esposa -. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
[70] cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
– Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
– Quanto?
– Cento e cinco mil-réis.
[75] Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
– Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
[80] Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, "um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago".
A sobremesa foi "um rico pudim", em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: "Viva
a esperança!". A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
[85] Ihe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
– Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava ео
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
[90] preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
Ihe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
– Não, senhor, o patrão não quer.
[95] - Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
A atitude de comprar um pastelão, pudim, vinho e, depois, um broche para a esposa, revela, de forma implícita, traços psicológicos de Camilo que o caracterizam como uma personagem
Questão 21 15354809
CMBH 1 Ano 2025Leia o Texto para responder à questão.
TEXTO
Jogo do bicho
[1] Camilo - ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade - ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
[5] depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
[10] Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não
[15] descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
[20] –Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
– Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
– De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
– Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
[25] Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação,
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada. a
[30] Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
[35] fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
– Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
[40] tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
– A cobra é boa - disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
[45] mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
[50] cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
– Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
[55] -Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
– Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
[60] A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
[65] - Hoje respiro - disse Camilo à esposa -. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
[70] cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
– Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
– Quanto?
– Cento e cinco mil-réis.
[75] Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
– Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
[80] Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, "um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago".
A sobremesa foi "um rico pudim", em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: "Viva
a esperança!". A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
[85] Ihe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
– Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava ео
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
[90] preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
Ihe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
– Não, senhor, o patrão não quer.
[95] - Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa. Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Assinale a alternativa correta.
Questão 29 15307033
CMPA 1 Ano 2025Texto
Trecho do poema O Rio, escrito pelo poeta João Cabral de Melo Neto e publicado em 1953. Leia-o para responder à questão.
O Rio
[1] Vou pensando no mar
que daqui ainda estou vendo;
em toda aquela gente
numa terra tão viva morrendo.
[5] Através deste mar
vou chegando a São Lourenço,
que de longe é como ilha
no horizonte de cana aparecendo;
através deste mar,
[10] como um barco na corrente,
mesmo sendo eu o rio,
que vou navegando parece.
Navegando este mar,
até o Recife irei,
[15] que as ondas deste mar
somente lá se detêm.
Ao entrar no Recife,
não pensem que entro só.
Entra comigo a gente
[20] que comigo baixou
por essa velha estrada
que vem do interior;
entram comigo rios
a quem o mar nos chamou,
[25] entra comigo a gente
que com o mar sonhou,
e também retirantes
em quem só o suor não secou;
e entra essa gente triste,
[30] a mais triste que já baixou,
a gente que a usina,
depois de mastigar, largou.
Entra a gente que a usina
depois de mastigar largou;
[35] entra aquele usineiro
que outro maior devorou;
entra esse banguezeiro
reduzido a fornecedor;
entra detrás um destes,
[40] que agora é um simples morador;
detrás, o morador
que nova safra já não fundou;
entra, como cassaco,
esse antigo morador;
[45] entra enfim o cassaco,
que por todas aquelas bocas passou.
Detrás de cada boca,
ele vê que há uma boca maior.
NETO, J. C. D. M. Poesia completa. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020. p.133-134.
Glossário
Retirante: aquele que, durante as grandes secas, migra isoladamente ou em grupo.
Banguezeiro: proprietário de banguê (engenho).
Cassaco: trabalhador em engenhos de cana-de-açúcar.
Na organização semântico-coesiva de um texto, duas classes de palavras costumam assumir um lugar de protagonismo: os pronomes e os advérbios. Nesse poema de João Cabral de Melo Neto, isso não é diferente.
Sabendo disso, marque a alternativa correta.
Questão 28 15307028
CMPA 1 Ano 2025Texto
Trecho do poema O Rio, escrito pelo poeta João Cabral de Melo Neto e publicado em 1953. Leia-o para responder à questão.
O Rio
[1] Vou pensando no mar
que daqui ainda estou vendo;
em toda aquela gente
numa terra tão viva morrendo.
[5] Através deste mar
vou chegando a São Lourenço,
que de longe é como ilha
no horizonte de cana aparecendo;
através deste mar,
[10] como um barco na corrente,
mesmo sendo eu o rio,
que vou navegando parece.
Navegando este mar,
até o Recife irei,
[15] que as ondas deste mar
somente lá se detêm.
Ao entrar no Recife,
não pensem que entro só.
Entra comigo a gente
[20] que comigo baixou
por essa velha estrada
que vem do interior;
entram comigo rios
a quem o mar nos chamou,
[25] entra comigo a gente
que com o mar sonhou,
e também retirantes
em quem só o suor não secou;
e entra essa gente triste,
[30] a mais triste que já baixou,
a gente que a usina,
depois de mastigar, largou.
Entra a gente que a usina
depois de mastigar largou;
[35] entra aquele usineiro
que outro maior devorou;
entra esse banguezeiro
reduzido a fornecedor;
entra detrás um destes,
[40] que agora é um simples morador;
detrás, o morador
que nova safra já não fundou;
entra, como cassaco,
esse antigo morador;
[45] entra enfim o cassaco,
que por todas aquelas bocas passou.
Detrás de cada boca,
ele vê que há uma boca maior.
NETO, J. C. D. M. Poesia completa. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020. p.133-134.
Glossário
Retirante: aquele que, durante as grandes secas, migra isoladamente ou em grupo.
Banguezeiro: proprietário de banguê (engenho).
Cassaco: trabalhador em engenhos de cana-de-açúcar.
A considerar especialmente a terceira estrofe desse trecho (versos 33 a 48), é correto afirmar que o poema O Rio é marcado, entre outros aspectos, pelo interesse do poeta em
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