Questões de EFAF Português
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Questão 22 15325622
CMBH 1 Ano 2021Leia o Texto e responda à questão.
Texto
Ser brotinho
Ser brotinho não é viver num píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar o dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. [...] É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento certo de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois reais com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. [...] Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. [...]
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite [...]. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho engraçado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema, mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. [...] É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão de festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado balé e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gato que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue jeans. Ter horror de gente morta, [...] fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. [...] Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. [...]
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.
CAMPOS, Paulo Mendes. Ser brotinho. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 91-3.
Glossário:
brotinho: jovem, especialmente do sexo feminino, no início da adolescência.
píncaro: o grau mais elevado, auge.
timbre: característica acústica de um som da fala.
vã: vazia, sem fundamento.
inflexão: determinada entonação na pronúncia de uma frase.
anacoluto: frase quebrada, sem sequência.
criptográfico: cifrado; oculto.
hermético: difícil de entender e/ou interpretar.
esparso: espalhado, solto.
dissonante: que destoa; desarmônico, discordante.
soneto: pequena composição poética composta de 14 versos.
minueto: dança da aristocracia francesa, leve, graciosa e solene.
Releia o trecho: “É ficar eufórica à vista de uma cascata.” (6º parágrafo, linhas 21-22). No trecho transcrito, o acento grave indicativo de crase foi corretamente empregado.
Em qual das alternativas a seguir o uso do acento de crase configura INCORREÇÃO gramatical?
Questão 21 15325619
CMBH 1 Ano 2021Leia o Texto e responda à questão.
Texto
Ser brotinho
Ser brotinho não é viver num píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar o dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. [...] É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento certo de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois reais com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. [...] Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. [...]
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite [...]. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho engraçado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema, mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. [...] É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão de festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado balé e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gato que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue jeans. Ter horror de gente morta, [...] fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. [...] Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. [...]
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.
CAMPOS, Paulo Mendes. Ser brotinho. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 91-3.
Glossário:
brotinho: jovem, especialmente do sexo feminino, no início da adolescência.
píncaro: o grau mais elevado, auge.
timbre: característica acústica de um som da fala.
vã: vazia, sem fundamento.
inflexão: determinada entonação na pronúncia de uma frase.
anacoluto: frase quebrada, sem sequência.
criptográfico: cifrado; oculto.
hermético: difícil de entender e/ou interpretar.
esparso: espalhado, solto.
dissonante: que destoa; desarmônico, discordante.
soneto: pequena composição poética composta de 14 versos.
minueto: dança da aristocracia francesa, leve, graciosa e solene.
Podem-se observar efeitos de sentido construídos por meio de escolha lexical feita pelo autor, que utiliza um tom lírico em algumas passagens, quando escolhe e organiza as palavras de forma harmônica no texto.
Todos os exemplos a seguir comprovam a afirmação acima, EXCETO:
Questão 20 15325613
CMBH 1 Ano 2021Leia o Texto e responda à questão.
Texto
Ser brotinho
Ser brotinho não é viver num píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar o dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. [...] É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento certo de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois reais com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. [...] Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. [...]
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite [...]. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho engraçado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema, mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. [...] É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão de festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado balé e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gato que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue jeans. Ter horror de gente morta, [...] fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. [...] Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. [...]
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.
CAMPOS, Paulo Mendes. Ser brotinho. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 91-3.
Glossário:
brotinho: jovem, especialmente do sexo feminino, no início da adolescência.
píncaro: o grau mais elevado, auge.
timbre: característica acústica de um som da fala.
vã: vazia, sem fundamento.
inflexão: determinada entonação na pronúncia de uma frase.
anacoluto: frase quebrada, sem sequência.
criptográfico: cifrado; oculto.
hermético: difícil de entender e/ou interpretar.
esparso: espalhado, solto.
dissonante: que destoa; desarmônico, discordante.
soneto: pequena composição poética composta de 14 versos.
minueto: dança da aristocracia francesa, leve, graciosa e solene.
Releia o trecho: “Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito.” (4º parágrafo, linhas 12-13).
Se o autor houvesse escrito: “[...] Sou brotinho e posso usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito”, o texto:
Questão 19 15325609
CMBH 1 Ano 2021Leia o Texto e responda à questão.
Texto
Ser brotinho
Ser brotinho não é viver num píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar o dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. [...] É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento certo de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois reais com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. [...] Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. [...]
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite [...]. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho engraçado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema, mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. [...] É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão de festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado balé e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gato que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue jeans. Ter horror de gente morta, [...] fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. [...] Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. [...]
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.
CAMPOS, Paulo Mendes. Ser brotinho. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 91-3.
Glossário:
brotinho: jovem, especialmente do sexo feminino, no início da adolescência.
píncaro: o grau mais elevado, auge.
timbre: característica acústica de um som da fala.
vã: vazia, sem fundamento.
inflexão: determinada entonação na pronúncia de uma frase.
anacoluto: frase quebrada, sem sequência.
criptográfico: cifrado; oculto.
hermético: difícil de entender e/ou interpretar.
esparso: espalhado, solto.
dissonante: que destoa; desarmônico, discordante.
soneto: pequena composição poética composta de 14 versos.
minueto: dança da aristocracia francesa, leve, graciosa e solene.
Releia o trecho: “[...] e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte [...]”. (2º parágrafo, linhas 4-5).
No trecho acima, a palavra em destaque possui o mesmo sentido de:
Questão 18 15325595
CMBH 1 Ano 2021Leia o Texto e responda à questão.
Texto
Ser brotinho
Ser brotinho não é viver num píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar o dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. [...] É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento certo de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois reais com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. [...] Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. [...]
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite [...]. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho engraçado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema, mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. [...] É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão de festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado balé e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gato que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue jeans. Ter horror de gente morta, [...] fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. [...] Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. [...]
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.
CAMPOS, Paulo Mendes. Ser brotinho. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 91-3.
Glossário:
brotinho: jovem, especialmente do sexo feminino, no início da adolescência.
píncaro: o grau mais elevado, auge.
timbre: característica acústica de um som da fala.
vã: vazia, sem fundamento.
inflexão: determinada entonação na pronúncia de uma frase.
anacoluto: frase quebrada, sem sequência.
criptográfico: cifrado; oculto.
hermético: difícil de entender e/ou interpretar.
esparso: espalhado, solto.
dissonante: que destoa; desarmônico, discordante.
soneto: pequena composição poética composta de 14 versos.
minueto: dança da aristocracia francesa, leve, graciosa e solene.
O Texto (“Ser brotinho”) é uma crônica escrita pelo escritor, poeta e jornalista mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991). O tema central da crônica é:
Questão 17 15320254
CMBH 1 Ano 2021Leia o Texto e responda à questão de número.
Texto
Conversa com jovens
Que conselhos dar aos jovens? Ou melhor, se lhe convidassem para fazer uma palestra para a meninada entre doze e dezessete anos a respeito da vida e do nosso tempo, o que você diria? Nelson Rodrigues, que gostava de fazer frases de efeito, dizia que devemos aconselhar ao jovem: “envelheça!” — como se isso fosse uma fórmula salvadora. Não é verdade. Muita gente envelhece e não cresce, cria casca e não amadurece.
Digo isto porque nesses dias fui falar para jovens em São Paulo e Minas. Primeiro, lembrei-me da célebre “Oração aos moços”, proferida por Ruy Barbosa em 1920 aos formandos de Direito. Fui ler o texto do “Águia de Haia”. Quase ilegível hoje. Se espremer sai pouca coisa, além da velha retórica. Lembrei-me também de peças de teatro e romances em que um velho dá conselhos a um jovem que parte para a guerra ou para a vida.
Esses textos não me socorrem. O mundo é outro. Venho do paleolítico, ou seja, do século XX, um período assaz estranho, tanto na história do homo sapiens quanto na do homem ignorante. E constato que o século XXI, em que essas moças e esses moços estão, é bem diferente. No meu tempo pensava-se que a história seguia um rumo determinado. Havia a “guerra fria”, não havia internet nem celular. Como dizia Rubem Braga, sou do tempo em que telefone era preto, e geladeira era branca.
Olho o mundo dos jovens, essa sociedade a que chamam pós-moderna, sociedade pós-industrial, aldeia global. [...] Se pudesse fazer alguns alertas ou deixar algumas sinalizações na estrada, eu diria aos jovens: cuidado com algumas palavras como interatividade, transgressão, relativismo...
Por exemplo:
1. A interatividade é formidável, possibilita intercâmbios, mas há o risco do discurso vazio, troca apenas de ruídos, um blá-blá-blá que bloqueia os fones da consciência.
2. A ideologia dominante abomina a hierarquia. Mas hierarquias podem ser perversas ou construtivas. Não existe sistema sem leis, normas, regras. A pregação da quebra de normas é simplesmente outra norma.
3. Cuidado com o pensamento relativista. As coisas não se equivalem. O carbono tem certas propriedades que não são a do fósforo, todo ser humano tem algo pessoal. O relativismo tenta convencer de que os sujeitos são objetos que podem ser trocados uns pelos outros.
4. Nossa cultura apaixonou-se pela transgressão. Já se transgrediu tanto, que se poderia fazer um “museu da transgressão” Hoje perversamente se diz: “Transgrida.”; desse modo, quem obedece à ordem de transgredir não está transgredindo, mas obedecendo a ordens.
5. Nos globalizaram. Foi ótimo por um lado. Por outro lado, desnorteador. Ganhamos em aproximação com o “outro”, o longínquo ficou próximo. Mas o “outro” virou um invasor de nosso espaço econômico, social e subjetivo. Indivíduos e culturas estão se sentindo, de certo modo, desenraizados, uma universalidade aérea, vazia.
6. A natureza está cobrando dívidas. Gerações anteriores assinaram cheques em branco sobre o futuro, as riquezas pareciam inesgotáveis. A “mãe natureza” não cobrava nada. Não era verdade: vulcões, tsunâmis, secas, degelos e fome nos espreitam.
7. A sociedade atual é uma sociedade “matrix”. Mistura o falso e o verdadeiro, o real e o virtual. Cultiva o “fake”. Pior: toma o lixo por luxo. Com isso, narciso vive num jogo confuso diante do próprio espelho.
Ser jovem nunca foi fácil. E, desde que nos anos 1960 instituiu-se o “poder jovem”, tornou-se mais complexo. Estar no poder exige muita responsabilidade. Rimbaud dizia: “não se é sério aos dezessete anos”. Será?
Cabe a vocês demonstrar se ele tinha ou não razão.
18 de maio de 2010.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Conversa com jovens. In: _____. Como andar no labirinto. Porto Alegre: LP&M, 2012. Coleção LP&M Pocket, v. 1073. p. 75-8. Adaptado.
Glossário:
Nelson Rodrigues: (1912-1980) escritor e jornalista brasileiro.
Ruy Barbosa: (1849-1923) jurista, escritor e orador brasileiro, conhecido como “Águia de Haia”.
assaz: muito, demais.
Rubem Braga: (1913-1990), escritor brasileiro.
transgredir: agir de forma a desrespeitar padrões, leis, regras preestabelecidos.
espreitar: espionar.
“matrix”: referência ao filme de ficção científica “Matrix” (1999), no qual um sistema artificial inteligente
manipula a mente das pessoas, criando a ilusão de um mundo real.
“fake”: [Inglês] falso.
Narciso: personagem da mitologia grega que se apaixona pela própria imagem.
Rimbaud: Arthur Rimbaud (1854-1891), poeta francês.
Numa das “sinalizações” aos jovens, o autor desrespeita a norma-padrão da língua no que se refere à colocação pronominal. Assinale a alternativa em que o pronome sublinhado é um exemplo dessa infração.
06
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