Questões de EFAF Português
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Questão 8366903
ESPM ESPM 2011 1 FaseU Gerais 2011
As minhas traições SOU UM traidor. Sou um hipócrita. Não tenho defesa. Nem perdão. Mas guardar segredo é pior que partilhá-lo. Partilho. Imagine o leitor: eu, num círculo de amigos literatos, discutindo as últimas novidades da “rentrée”. Subitamente, alguém fala sobre o futuro do livro. E elogia as qualidades do livro eletrônico. É nesse preciso momento que eu faço cara de nojo, limpo o suor da testa com meu lenço de renda e disparo um “jamais!” que faz tremer o salão. O meu mundo é o mundo de Gutenberg: o mundo arcaico do papel e da tinta, não de “pixels”, “bits” e outras barbaridades linguísticas. Livro eletrônico? É como fazer amor com uma boneca insuflável. “Um livro é um livro”, disparava eu, em conhecido clichê. Nada substitui o objeto físico que transportamos, dobramos, sublinhamos. Tocamos. Cheiramos. Por vezes, rasgamos ou queimamos. A ideia de ler um romance, uma biografia, um mero ensaio em suporte eletrônico chegava para cobrir a minha costela conservadora de um horror herético. Nem morto.

Mas então aconteceu: uma oferta familiar em dia de aniversário. Bateram à porta. Entregaram a encomenda. Era o famoso Kindle da Amazon, com capa de pele, bonitinho. Perigosamente bonitinho. Farejei o bicho com desconfiança primitiva. Cocei o crânio com pasmo neandertal e senti-me um dos macacos de Stanley Kubrick, na sequência inicial de “2001 - Uma Odisseia no Espaço”. Como se um objeto estranho tivesse vindo diretamente do futuro. Por milagre não quebrei o aparelho com a força das minhas ossadas. Um livro eletrônico era aquilo" “Jamais, jamais”, gritava a minha pobre consciência. Os dias passaram. O objeto, a um canto, mendigava a minha atenção sempre que passava por ele. “Jamais, jamais”, repetia ainda. E sempre com menor convicção. Uma tarde, aproximei-me. Tentei ignorá-lo, lendo ostensivamente as “Páginas Amarelas”. O objeto soltou um suspiro de tristeza, quem sabe de abandono. E eu, com caridade cristã, decidi dedicar-lhe dois minutos de atenção, não mais. Liguei o Kindle. Com enfado, fui lendo as instruções. E, por cada página lida, a pergunta mefistofélica: experimentar nunca fez mal a ninguém, certo" Experimentei. Diretamente do site da Amazon, fui importando livros grátis. Os clássicos gregos. Os clássicos romanos. Algum Maquiavel, algum Hobbes, algum Swift. Os pensamentos de Pascal. Uma edição completa das peças do bardo. Tudo a preço zero. Em 60 segundos, a Biblioteca de Alexandria viajava até minha casa. O meu entusiasmo começava a ser perigoso. Embaraçoso. Numa tarde, descarregara 50 livros. Outros 50 vinham a caminho. E, pior, já começara a ler um: a autobiografia de Tony Blair, que comprei a preço reduzido. Lia. Inacreditavelmente, sublinhava. Mais inacreditavelmente ainda, escrevia notas. Aquilo não era um livro. Era melhor que um livro. Que foi mesmo que eu disse" Hoje, levo uma vida dupla. Em público, passeio os meus grossos volumes da “Enciclopédia Britânica”, em gesto de resistência ao mundo virtual. Finjo. Quando me falam nas virtudes do Kindle, ou do e-book, as minhas gargalhadas são jocosas, ofensivas, delirantes. Mas são também forçadas e encenadas: chego em casa e chamo logo pelo meu Kindle como quem chama pelo gato. E ele vem, pronto para miar centenas e centenas de obras-primas. Se um dia a casa arder e eu estiver em estado delirante, o leitor já sabe o que significa “Salvem o gato! Salvem o gato!”. Moral da história" A internet foi a primeira grande revolução da minha existência literária. Mas o livro eletrônico será a segunda ao introduzir a mais importante divisão intelectual da vida. Haverá sempre livros que desejarei ter; e “ter” no sentido tangível do verbo: como objetos físicos, artísticos, existenciais. Nesse sentido, as livrarias continuarão a ser os únicos templos laicos que frequento com religioso fervor. Mas depois existirão os livros que quero ler. Simplesmente ler. Não amanhã, ou depois, ou um dia qualquer. Mas hoje. Agora. Já. O sonho de qualquer leitor curioso, insaciável, ditatorial. Regresso ao início: sou um traidor. E no dia em que os meus amigos literatos, cansados de minhas mentiras, vierem buscar-me para a fogueira, nada peço em minha defesa. Espero apenas que poupem o gato.
(João Pereira Coutinho, Folha de S. Paulo, 05/10/2010)
1. rentrée: em francês, regresso, retorno, reentrada.
2. herético: relativo a ou que envolve heresia.
A frase que expressa um conceito paradoxal é:
As minhas traições SOU UM traidor. Sou um hipócrita. Não tenho defesa. Nem perdão. Mas guardar segredo é pior que partilhá-lo. Partilho. Imagine o leitor: eu, num círculo de amigos literatos, discutindo as últimas novidades da “rentrée”. Subitamente, alguém fala sobre o futuro do livro. E elogia as qualidades do livro eletrônico. É nesse preciso momento que eu faço cara de nojo, limpo o suor da testa com meu lenço de renda e disparo um “jamais!” que faz tremer o salão. O meu mundo é o mundo de Gutenberg: o mundo arcaico do papel e da tinta, não de “pixels”, “bits” e outras barbaridades linguísticas. Livro eletrônico? É como fazer amor com uma boneca insuflável. “Um livro é um livro”, disparava eu, em conhecido clichê. Nada substitui o objeto físico que transportamos, dobramos, sublinhamos. Tocamos. Cheiramos. Por vezes, rasgamos ou queimamos. A ideia de ler um romance, uma biografia, um mero ensaio em suporte eletrônico chegava para cobrir a minha costela conservadora de um horror herético. Nem morto.
Mas então aconteceu: uma oferta familiar em dia de aniversário. Bateram à porta. Entregaram a encomenda. Era o famoso Kindle da Amazon, com capa de pele, bonitinho. Perigosamente bonitinho. Farejei o bicho com desconfiança primitiva. Cocei o crânio com pasmo neandertal e senti-me um dos macacos de Stanley Kubrick, na sequência inicial de “2001 - Uma Odisseia no Espaço”. Como se um objeto estranho tivesse vindo diretamente do futuro. Por milagre não quebrei o aparelho com a força das minhas ossadas. Um livro eletrônico era aquilo" “Jamais, jamais”, gritava a minha pobre consciência. Os dias passaram. O objeto, a um canto, mendigava a minha atenção sempre que passava por ele. “Jamais, jamais”, repetia ainda. E sempre com menor convicção. Uma tarde, aproximei-me. Tentei ignorá-lo, lendo ostensivamente as “Páginas Amarelas”. O objeto soltou um suspiro de tristeza, quem sabe de abandono. E eu, com caridade cristã, decidi dedicar-lhe dois minutos de atenção, não mais. Liguei o Kindle. Com enfado, fui lendo as instruções. E, por cada página lida, a pergunta mefistofélica: experimentar nunca fez mal a ninguém, certo" Experimentei. Diretamente do site da Amazon, fui importando livros grátis. Os clássicos gregos. Os clássicos romanos. Algum Maquiavel, algum Hobbes, algum Swift. Os pensamentos de Pascal. Uma edição completa das peças do bardo. Tudo a preço zero. Em 60 segundos, a Biblioteca de Alexandria viajava até minha casa. O meu entusiasmo começava a ser perigoso. Embaraçoso. Numa tarde, descarregara 50 livros. Outros 50 vinham a caminho. E, pior, já começara a ler um: a autobiografia de Tony Blair, que comprei a preço reduzido. Lia. Inacreditavelmente, sublinhava. Mais inacreditavelmente ainda, escrevia notas. Aquilo não era um livro. Era melhor que um livro. Que foi mesmo que eu disse" Hoje, levo uma vida dupla. Em público, passeio os meus grossos volumes da “Enciclopédia Britânica”, em gesto de resistência ao mundo virtual. Finjo. Quando me falam nas virtudes do Kindle, ou do e-book, as minhas gargalhadas são jocosas, ofensivas, delirantes. Mas são também forçadas e encenadas: chego em casa e chamo logo pelo meu Kindle como quem chama pelo gato. E ele vem, pronto para miar centenas e centenas de obras-primas. Se um dia a casa arder e eu estiver em estado delirante, o leitor já sabe o que significa “Salvem o gato! Salvem o gato!”. Moral da história" A internet foi a primeira grande revolução da minha existência literária. Mas o livro eletrônico será a segunda ao introduzir a mais importante divisão intelectual da vida. Haverá sempre livros que desejarei ter; e “ter” no sentido tangível do verbo: como objetos físicos, artísticos, existenciais. Nesse sentido, as livrarias continuarão a ser os únicos templos laicos que frequento com religioso fervor. Mas depois existirão os livros que quero ler. Simplesmente ler. Não amanhã, ou depois, ou um dia qualquer. Mas hoje. Agora. Já. O sonho de qualquer leitor curioso, insaciável, ditatorial. Regresso ao início: sou um traidor. E no dia em que os meus amigos literatos, cansados de minhas mentiras, vierem buscar-me para a fogueira, nada peço em minha defesa. Espero apenas que poupem o gato.
(João Pereira Coutinho, Folha de S. Paulo, 05/10/2010)
1. rentrée: em francês, regresso, retorno, reentrada.
2. herético: relativo a ou que envolve heresia.
Questão 8366902
ESPM ESPM 2011 1 FaseU Gerais 2011
As minhas traições SOU UM traidor. Sou um hipócrita. Não tenho defesa. Nem perdão. Mas guardar segredo é pior que partilhá-lo. Partilho. Imagine o leitor: eu, num círculo de amigos literatos, discutindo as últimas novidades da “rentrée”. Subitamente, alguém fala sobre o futuro do livro. E elogia as qualidades do livro eletrônico. É nesse preciso momento que eu faço cara de nojo, limpo o suor da testa com meu lenço de renda e disparo um “jamais!” que faz tremer o salão. O meu mundo é o mundo de Gutenberg: o mundo arcaico do papel e da tinta, não de “pixels”, “bits” e outras barbaridades linguísticas. Livro eletrônico? É como fazer amor com uma boneca insuflável. “Um livro é um livro”, disparava eu, em conhecido clichê. Nada substitui o objeto físico que transportamos, dobramos, sublinhamos. Tocamos. Cheiramos. Por vezes, rasgamos ou queimamos. A ideia de ler um romance, uma biografia, um mero ensaio em suporte eletrônico chegava para cobrir a minha costela conservadora de um horror herético. Nem morto.

Mas então aconteceu: uma oferta familiar em dia de aniversário. Bateram à porta. Entregaram a encomenda. Era o famoso Kindle da Amazon, com capa de pele, bonitinho. Perigosamente bonitinho. Farejei o bicho com desconfiança primitiva. Cocei o crânio com pasmo neandertal e senti-me um dos macacos de Stanley Kubrick, na sequência inicial de “2001 - Uma Odisseia no Espaço”. Como se um objeto estranho tivesse vindo diretamente do futuro. Por milagre não quebrei o aparelho com a força das minhas ossadas. Um livro eletrônico era aquilo" “Jamais, jamais”, gritava a minha pobre consciência. Os dias passaram. O objeto, a um canto, mendigava a minha atenção sempre que passava por ele. “Jamais, jamais”, repetia ainda. E sempre com menor convicção. Uma tarde, aproximei-me. Tentei ignorá-lo, lendo ostensivamente as “Páginas Amarelas”. O objeto soltou um suspiro de tristeza, quem sabe de abandono. E eu, com caridade cristã, decidi dedicar-lhe dois minutos de atenção, não mais. Liguei o Kindle. Com enfado, fui lendo as instruções. E, por cada página lida, a pergunta mefistofélica: experimentar nunca fez mal a ninguém, certo" Experimentei. Diretamente do site da Amazon, fui importando livros grátis. Os clássicos gregos. Os clássicos romanos. Algum Maquiavel, algum Hobbes, algum Swift. Os pensamentos de Pascal. Uma edição completa das peças do bardo. Tudo a preço zero. Em 60 segundos, a Biblioteca de Alexandria viajava até minha casa. O meu entusiasmo começava a ser perigoso. Embaraçoso. Numa tarde, descarregara 50 livros. Outros 50 vinham a caminho. E, pior, já começara a ler um: a autobiografia de Tony Blair, que comprei a preço reduzido. Lia. Inacreditavelmente, sublinhava. Mais inacreditavelmente ainda, escrevia notas. Aquilo não era um livro. Era melhor que um livro. Que foi mesmo que eu disse" Hoje, levo uma vida dupla. Em público, passeio os meus grossos volumes da “Enciclopédia Britânica”, em gesto de resistência ao mundo virtual. Finjo. Quando me falam nas virtudes do Kindle, ou do e-book, as minhas gargalhadas são jocosas, ofensivas, delirantes. Mas são também forçadas e encenadas: chego em casa e chamo logo pelo meu Kindle como quem chama pelo gato. E ele vem, pronto para miar centenas e centenas de obras-primas. Se um dia a casa arder e eu estiver em estado delirante, o leitor já sabe o que significa “Salvem o gato! Salvem o gato!”. Moral da história" A internet foi a primeira grande revolução da minha existência literária. Mas o livro eletrônico será a segunda ao introduzir a mais importante divisão intelectual da vida. Haverá sempre livros que desejarei ter; e “ter” no sentido tangível do verbo: como objetos físicos, artísticos, existenciais. Nesse sentido, as livrarias continuarão a ser os únicos templos laicos que frequento com religioso fervor. Mas depois existirão os livros que quero ler. Simplesmente ler. Não amanhã, ou depois, ou um dia qualquer. Mas hoje. Agora. Já. O sonho de qualquer leitor curioso, insaciável, ditatorial. Regresso ao início: sou um traidor. E no dia em que os meus amigos literatos, cansados de minhas mentiras, vierem buscar-me para a fogueira, nada peço em minha defesa. Espero apenas que poupem o gato.
(João Pereira Coutinho, Folha de S. Paulo, 05/10/2010)
1. rentrée: em francês, regresso, retorno, reentrada.
2. herético: relativo a ou que envolve heresia.
A traição ou a hipocrisia que o narrador assume no início do texto estão ligadas ao fato de:
As minhas traições SOU UM traidor. Sou um hipócrita. Não tenho defesa. Nem perdão. Mas guardar segredo é pior que partilhá-lo. Partilho. Imagine o leitor: eu, num círculo de amigos literatos, discutindo as últimas novidades da “rentrée”. Subitamente, alguém fala sobre o futuro do livro. E elogia as qualidades do livro eletrônico. É nesse preciso momento que eu faço cara de nojo, limpo o suor da testa com meu lenço de renda e disparo um “jamais!” que faz tremer o salão. O meu mundo é o mundo de Gutenberg: o mundo arcaico do papel e da tinta, não de “pixels”, “bits” e outras barbaridades linguísticas. Livro eletrônico? É como fazer amor com uma boneca insuflável. “Um livro é um livro”, disparava eu, em conhecido clichê. Nada substitui o objeto físico que transportamos, dobramos, sublinhamos. Tocamos. Cheiramos. Por vezes, rasgamos ou queimamos. A ideia de ler um romance, uma biografia, um mero ensaio em suporte eletrônico chegava para cobrir a minha costela conservadora de um horror herético. Nem morto.
Mas então aconteceu: uma oferta familiar em dia de aniversário. Bateram à porta. Entregaram a encomenda. Era o famoso Kindle da Amazon, com capa de pele, bonitinho. Perigosamente bonitinho. Farejei o bicho com desconfiança primitiva. Cocei o crânio com pasmo neandertal e senti-me um dos macacos de Stanley Kubrick, na sequência inicial de “2001 - Uma Odisseia no Espaço”. Como se um objeto estranho tivesse vindo diretamente do futuro. Por milagre não quebrei o aparelho com a força das minhas ossadas. Um livro eletrônico era aquilo" “Jamais, jamais”, gritava a minha pobre consciência. Os dias passaram. O objeto, a um canto, mendigava a minha atenção sempre que passava por ele. “Jamais, jamais”, repetia ainda. E sempre com menor convicção. Uma tarde, aproximei-me. Tentei ignorá-lo, lendo ostensivamente as “Páginas Amarelas”. O objeto soltou um suspiro de tristeza, quem sabe de abandono. E eu, com caridade cristã, decidi dedicar-lhe dois minutos de atenção, não mais. Liguei o Kindle. Com enfado, fui lendo as instruções. E, por cada página lida, a pergunta mefistofélica: experimentar nunca fez mal a ninguém, certo" Experimentei. Diretamente do site da Amazon, fui importando livros grátis. Os clássicos gregos. Os clássicos romanos. Algum Maquiavel, algum Hobbes, algum Swift. Os pensamentos de Pascal. Uma edição completa das peças do bardo. Tudo a preço zero. Em 60 segundos, a Biblioteca de Alexandria viajava até minha casa. O meu entusiasmo começava a ser perigoso. Embaraçoso. Numa tarde, descarregara 50 livros. Outros 50 vinham a caminho. E, pior, já começara a ler um: a autobiografia de Tony Blair, que comprei a preço reduzido. Lia. Inacreditavelmente, sublinhava. Mais inacreditavelmente ainda, escrevia notas. Aquilo não era um livro. Era melhor que um livro. Que foi mesmo que eu disse" Hoje, levo uma vida dupla. Em público, passeio os meus grossos volumes da “Enciclopédia Britânica”, em gesto de resistência ao mundo virtual. Finjo. Quando me falam nas virtudes do Kindle, ou do e-book, as minhas gargalhadas são jocosas, ofensivas, delirantes. Mas são também forçadas e encenadas: chego em casa e chamo logo pelo meu Kindle como quem chama pelo gato. E ele vem, pronto para miar centenas e centenas de obras-primas. Se um dia a casa arder e eu estiver em estado delirante, o leitor já sabe o que significa “Salvem o gato! Salvem o gato!”. Moral da história" A internet foi a primeira grande revolução da minha existência literária. Mas o livro eletrônico será a segunda ao introduzir a mais importante divisão intelectual da vida. Haverá sempre livros que desejarei ter; e “ter” no sentido tangível do verbo: como objetos físicos, artísticos, existenciais. Nesse sentido, as livrarias continuarão a ser os únicos templos laicos que frequento com religioso fervor. Mas depois existirão os livros que quero ler. Simplesmente ler. Não amanhã, ou depois, ou um dia qualquer. Mas hoje. Agora. Já. O sonho de qualquer leitor curioso, insaciável, ditatorial. Regresso ao início: sou um traidor. E no dia em que os meus amigos literatos, cansados de minhas mentiras, vierem buscar-me para a fogueira, nada peço em minha defesa. Espero apenas que poupem o gato.
(João Pereira Coutinho, Folha de S. Paulo, 05/10/2010)
1. rentrée: em francês, regresso, retorno, reentrada.
2. herético: relativo a ou que envolve heresia.
Questão 8366901
PUC-RS PUCRS 2011 1 FaseU FBP 2011
TEXTO 1
Não vai dar certo
Outro dia, (06) dois cientistas americanos apresentaram um pedido ao Serviço de Marcas e Patentes dos Estados Unidos para registrar uma criatura que estão produzindo em laboratório. A tal criatura (01)(07) seria uma mistura de homem com animal. Não se sabe direito que animal é este, mas deram a entender que tanto pode ser um macaco como um camundongo.
É fácil imaginar (03) um homem-macaco. Afinal, todos nós, no passado, já protagonizamos essa dobradinha. (08) E nem faz tanto tempo. Conheço gente que ainda se lembra de quando o avô desceu da árvore.(...) Já cruzamento de um homem com um camundongo é mais difícil de visualizar. (04) O único parâmetro conhecido é o Mickey, o rato mais bem-sucedido da história. Em cima dele, construiu-se um império que é, na verdade, uma ratoeira humana (...). (02)
A ideia de cruzar artificialmente seres humanos com animais não é nova. Já foi imaginada no começo do século pelo inglês H. G. Wells, em A Ilha do Dr. Moreau e, nos anos 50, pelo americano James Clavell, em A Mosca da Cabeça Branca. Ambas as histórias renderam vários filmes. Em todos eles, a parte humana levou um baita prejuízo. No filme do homem que virou mosca, o pobre Vincent Price ficou desesperado porque, com seu corpinho (09) de mosca, não conseguia chamar a atenção de sua mulher, para que esta o fizesse voltar ao normal. E olhe que ele foi o cientista que resolveu fazer a experiência.
Boa ideia. O ideal seria se os dois cientistas se oferecessem como cobaias de suas experiências. Um cruzaria o outro com o macaco. E o outro cruzaria o um (05) com o camundongo.
(Ruy Castro. Manchete, 19/04/98 (adaptado))
TEXTO 2

(JAGUAR. Atila, você é bárbaro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p. 166-167.)
TEXTO 3
A zona franca do pensamento
Qual é a invenção que lhe (18) deixa mais perplexo, aquela que foge à sua compreensão" Tantas. (07) O avião, por exemplo. Como consegue voar aquele zepelin de aço, (02) com 300 passageiros e suas respectivas bagagens provenientes de Miami" Internet: (08) eu aqui e você em Cingapura, conversando a um custo de eu aqui e você ali na esquina. Fax: (08) coloco uma folha de papel num aparelhinho e ele sai reproduzido, (13) no mesmo instante, (13) em Guiné-Bissau. Televisão: (08) uma câmera capta minha imagem e eu apareço,(14) ao mesmo tempo, (14) num casebre do Morro da Cruz e numa mansão da Barra da Tijuca, ao vivo e em cores. Ultrassonografia. Gestação in vitro. (09) Clonagem. (09) Reverencio a tecnologia e hoje me arrependo de ter matado algumas aulas de física e biologia, que me ajudariam a entender melhor como funciona o mundo que me cerca. (01)Só numa invenção (03) pisoteio e cuspo em cima (03)(05) no detector de mentiras. (...) Uma geringonça que se julga capaz de adivinhar o que pensamos! (01)
O pensamento é o território mais protegido do mundo, e ao mesmo tempo o mais livre. Nele cabe um mundaréu de gente, todas as que conhecemos (10) e mais aquelas que imaginamos, e delas somos seu deus e seu diabo. (04) (...) O pensamento (11) não tem fronteiras, lógica, advogado de defesa ou carrasco. (12) É zona franca, (15)(16) terra de ninguém.
Vivemos cercados de micro câmeras, pardais, caetanos, alarmes. Somos constantemente vigiados, (17) qualquer um nos localiza, identifica, surpreende. O pensamento é o único lugar onde ainda estamos seguros, onde nossa loucura é permitida e todos os nossos atos são inocentes. Que se instale um novo mundo cibernético, mas que virem sucata (06) esses detectores de mentiras, tão sujeitos a falhas. Dentro do pensamento, não há tecnologia que consiga nos achar.
(Marta Medeiros Zero Hora, 31/03/1999 (adaptado))
TEXTO 1
Não vai dar certo
Outro dia, (06) dois cientistas americanos apresentaram um pedido ao Serviço de Marcas e Patentes dos Estados Unidos para registrar uma criatura que estão produzindo em laboratório. A tal criatura (01)(07) seria uma mistura de homem com animal. Não se sabe direito que animal é este, mas deram a entender que tanto pode ser um macaco como um camundongo.
É fácil imaginar (03) um homem-macaco. Afinal, todos nós, no passado, já protagonizamos essa dobradinha. (08) E nem faz tanto tempo. Conheço gente que ainda se lembra de quando o avô desceu da árvore.(...) Já cruzamento de um homem com um camundongo é mais difícil de visualizar. (04) O único parâmetro conhecido é o Mickey, o rato mais bem-sucedido da história. Em cima dele, construiu-se um império que é, na verdade, uma ratoeira humana (...). (02)
A ideia de cruzar artificialmente seres humanos com animais não é nova. Já foi imaginada no começo do século pelo inglês H. G. Wells, em A Ilha do Dr. Moreau e, nos anos 50, pelo americano James Clavell, em A Mosca da Cabeça Branca. Ambas as histórias renderam vários filmes. Em todos eles, a parte humana levou um baita prejuízo. No filme do homem que virou mosca, o pobre Vincent Price ficou desesperado porque, com seu corpinho (09) de mosca, não conseguia chamar a atenção de sua mulher, para que esta o fizesse voltar ao normal. E olhe que ele foi o cientista que resolveu fazer a experiência.
Boa ideia. O ideal seria se os dois cientistas se oferecessem como cobaias de suas experiências. Um cruzaria o outro com o macaco. E o outro cruzaria o um (05) com o camundongo.
(Ruy Castro. Manchete, 19/04/98 (adaptado))
TEXTO 2

(JAGUAR. Atila, você é bárbaro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. p. 166-167.)
TEXTO 3
A zona franca do pensamento
Qual é a invenção que lhe (18) deixa mais perplexo, aquela que foge à sua compreensão" Tantas. (07) O avião, por exemplo. Como consegue voar aquele zepelin de aço, (02) com 300 passageiros e suas respectivas bagagens provenientes de Miami" Internet: (08) eu aqui e você em Cingapura, conversando a um custo de eu aqui e você ali na esquina. Fax: (08) coloco uma folha de papel num aparelhinho e ele sai reproduzido, (13) no mesmo instante, (13) em Guiné-Bissau. Televisão: (08) uma câmera capta minha imagem e eu apareço,(14) ao mesmo tempo, (14) num casebre do Morro da Cruz e numa mansão da Barra da Tijuca, ao vivo e em cores. Ultrassonografia. Gestação in vitro. (09) Clonagem. (09) Reverencio a tecnologia e hoje me arrependo de ter matado algumas aulas de física e biologia, que me ajudariam a entender melhor como funciona o mundo que me cerca. (01)Só numa invenção (03) pisoteio e cuspo em cima (03)(05) no detector de mentiras. (...) Uma geringonça que se julga capaz de adivinhar o que pensamos! (01)
O pensamento é o território mais protegido do mundo, e ao mesmo tempo o mais livre. Nele cabe um mundaréu de gente, todas as que conhecemos (10) e mais aquelas que imaginamos, e delas somos seu deus e seu diabo. (04) (...) O pensamento (11) não tem fronteiras, lógica, advogado de defesa ou carrasco. (12) É zona franca, (15)(16) terra de ninguém.
Vivemos cercados de micro câmeras, pardais, caetanos, alarmes. Somos constantemente vigiados, (17) qualquer um nos localiza, identifica, surpreende. O pensamento é o único lugar onde ainda estamos seguros, onde nossa loucura é permitida e todos os nossos atos são inocentes. Que se instale um novo mundo cibernético, mas que virem sucata (06) esses detectores de mentiras, tão sujeitos a falhas. Dentro do pensamento, não há tecnologia que consiga nos achar.
(Marta Medeiros Zero Hora, 31/03/1999 (adaptado))
Responda com base nas afirmativas sobre os três textos.
Os textos 2 e 3 apoiam-se em dados da realidade, enquanto o texto 1 restringe-se à fantasia.
Enquanto o texto 3 enfoca tecnologias de uso corrente, o texto 1 trata de um experimento ainda não popularizado.
Os autores procuram, cada um a seu modo, manter-se neutros em relação aos temas abordados.
Nos três textos, percebe-se que a ciência está em constante evolução.
Conclui-se que as afirmativas corretas se encontram na alternativa
Questão 8366900
PUC-RS PUCRS 2011 1 FaseU FBP 2011Cientistas _________ buscando alternativas para uma tecnologia que, concebida como solução para os problemas da humanidade, __________ hoje um ecossistema ________ beira de um colapso inimaginável ________ algumas décadas.
A alternativa cujos itens completam a frase acima de acordo com a norma culta do idioma é:
Questão 8366898
PUC-RS PUCRS 2011 1 FaseU FBP 2011
A zona franca do pensamento
Qual é a invenção que lhe (18) deixa mais perplexo, aquela que foge à sua compreensão" Tantas. (07) O avião, por exemplo. Como consegue voar aquele zepelin de aço, (02) com 300 passageiros e suas respectivas bagagens provenientes de Miami" Internet: (08) eu aqui e você em Cingapura, conversando a um custo de eu aqui e você ali na esquina. Fax: (08) coloco uma folha de papel num aparelhinho e ele sai reproduzido, (13) no mesmo instante, (13) em Guiné-Bissau. Televisão: (08) uma câmera capta minha imagem e eu apareço,(14) ao mesmo tempo, (14) num casebre do Morro da Cruz e numa mansão da Barra da Tijuca, ao vivo e em cores. Ultrassonografia. Gestação in vitro. (09) Clonagem. (09) Reverencio a tecnologia e hoje me arrependo de ter matado algumas aulas de física e biologia, que me ajudariam a entender melhor como funciona o mundo que me cerca. (01)Só numa invenção (03) pisoteio e cuspo em cima (03)(05) no detector de mentiras. (...) Uma geringonça que se julga capaz de adivinhar o que pensamos! (01)
O pensamento é o território mais protegido do mundo, e ao mesmo tempo o mais livre. Nele cabe um mundaréu de gente, todas as que conhecemos (10) e mais aquelas que imaginamos, e delas somos seu deus e seu diabo. (04) (...) O pensamento (11) não tem fronteiras, lógica, advogado de defesa ou carrasco. (12) É zona franca, (15)(16) terra de ninguém.
Vivemos cercados de micro câmeras, pardais, caetanos, alarmes. Somos constantemente vigiados, (17) qualquer um nos localiza, identifica, surpreende. O pensamento é o único lugar onde ainda estamos seguros, onde nossa loucura é permitida e todos os nossos atos são inocentes. Que se instale um novo mundo cibernético, mas que virem sucata (06) esses detectores de mentiras, tão sujeitos a falhas. Dentro do pensamento, não há tecnologia que consiga nos achar.
(Marta Medeiros Zero Hora, 31/03/1999 (adaptado))
O uso do pronome “lhe” (18) no texto, como complemento do verbo “deixa”, embora aceitável na linguagem informal, contraria a língua culta formal. Situação semelhante ocorre com o uso desse pronome em:
A zona franca do pensamento
Qual é a invenção que lhe (18) deixa mais perplexo, aquela que foge à sua compreensão" Tantas. (07) O avião, por exemplo. Como consegue voar aquele zepelin de aço, (02) com 300 passageiros e suas respectivas bagagens provenientes de Miami" Internet: (08) eu aqui e você em Cingapura, conversando a um custo de eu aqui e você ali na esquina. Fax: (08) coloco uma folha de papel num aparelhinho e ele sai reproduzido, (13) no mesmo instante, (13) em Guiné-Bissau. Televisão: (08) uma câmera capta minha imagem e eu apareço,(14) ao mesmo tempo, (14) num casebre do Morro da Cruz e numa mansão da Barra da Tijuca, ao vivo e em cores. Ultrassonografia. Gestação in vitro. (09) Clonagem. (09) Reverencio a tecnologia e hoje me arrependo de ter matado algumas aulas de física e biologia, que me ajudariam a entender melhor como funciona o mundo que me cerca. (01)Só numa invenção (03) pisoteio e cuspo em cima (03)(05) no detector de mentiras. (...) Uma geringonça que se julga capaz de adivinhar o que pensamos! (01)
O pensamento é o território mais protegido do mundo, e ao mesmo tempo o mais livre. Nele cabe um mundaréu de gente, todas as que conhecemos (10) e mais aquelas que imaginamos, e delas somos seu deus e seu diabo. (04) (...) O pensamento (11) não tem fronteiras, lógica, advogado de defesa ou carrasco. (12) É zona franca, (15)(16) terra de ninguém.
Vivemos cercados de micro câmeras, pardais, caetanos, alarmes. Somos constantemente vigiados, (17) qualquer um nos localiza, identifica, surpreende. O pensamento é o único lugar onde ainda estamos seguros, onde nossa loucura é permitida e todos os nossos atos são inocentes. Que se instale um novo mundo cibernético, mas que virem sucata (06) esses detectores de mentiras, tão sujeitos a falhas. Dentro do pensamento, não há tecnologia que consiga nos achar.
(Marta Medeiros Zero Hora, 31/03/1999 (adaptado))
Questão 8366896
PUC-RS PUCRS 2011 1 FaseU FBP 2011
A zona franca do pensamento
Qual é a invenção que lhe (18) deixa mais perplexo, aquela que foge à sua compreensão" Tantas. (07) O avião, por exemplo. Como consegue voar aquele zepelin de aço, (02) com 300 passageiros e suas respectivas bagagens provenientes de Miami" Internet: (08) eu aqui e você em Cingapura, conversando a um custo de eu aqui e você ali na esquina. Fax: (08) coloco uma folha de papel num aparelhinho e ele sai reproduzido, (13) no mesmo instante, (13) em Guiné-Bissau. Televisão: (08) uma câmera capta minha imagem e eu apareço,(14) ao mesmo tempo, (14) num casebre do Morro da Cruz e numa mansão da Barra da Tijuca, ao vivo e em cores. Ultrassonografia. Gestação in vitro. (09) Clonagem. (09) Reverencio a tecnologia e hoje me arrependo de ter matado algumas aulas de física e biologia, que me ajudariam a entender melhor como funciona o mundo que me cerca. (01)Só numa invenção (03) pisoteio e cuspo em cima (03)(05) no detector de mentiras. (...) Uma geringonça que se julga capaz de adivinhar o que pensamos! (01)
O pensamento é o território mais protegido do mundo, e ao mesmo tempo o mais livre. Nele cabe um mundaréu de gente, todas as que conhecemos (10) e mais aquelas que imaginamos, e delas somos seu deus e seu diabo. (04) (...) O pensamento (11) não tem fronteiras, lógica, advogado de defesa ou carrasco. (12) É zona franca, (15)(16) terra de ninguém.
Vivemos cercados de micro câmeras, pardais, caetanos, alarmes. Somos constantemente vigiados, (17) qualquer um nos localiza, identifica, surpreende. O pensamento é o único lugar onde ainda estamos seguros, onde nossa loucura é permitida e todos os nossos atos são inocentes. Que se instale um novo mundo cibernético, mas que virem sucata (06) esses detectores de mentiras, tão sujeitos a falhas. Dentro do pensamento, não há tecnologia que consiga nos achar.
(Marta Medeiros Zero Hora, 31/03/1999 (adaptado))
Considerando que ler adequadamente significa compreender também o que está subentendido no texto, assinale a alternativa que contém a afirmativa incorreta.
A zona franca do pensamento
Qual é a invenção que lhe (18) deixa mais perplexo, aquela que foge à sua compreensão" Tantas. (07) O avião, por exemplo. Como consegue voar aquele zepelin de aço, (02) com 300 passageiros e suas respectivas bagagens provenientes de Miami" Internet: (08) eu aqui e você em Cingapura, conversando a um custo de eu aqui e você ali na esquina. Fax: (08) coloco uma folha de papel num aparelhinho e ele sai reproduzido, (13) no mesmo instante, (13) em Guiné-Bissau. Televisão: (08) uma câmera capta minha imagem e eu apareço,(14) ao mesmo tempo, (14) num casebre do Morro da Cruz e numa mansão da Barra da Tijuca, ao vivo e em cores. Ultrassonografia. Gestação in vitro. (09) Clonagem. (09) Reverencio a tecnologia e hoje me arrependo de ter matado algumas aulas de física e biologia, que me ajudariam a entender melhor como funciona o mundo que me cerca. (01)Só numa invenção (03) pisoteio e cuspo em cima (03)(05) no detector de mentiras. (...) Uma geringonça que se julga capaz de adivinhar o que pensamos! (01)
O pensamento é o território mais protegido do mundo, e ao mesmo tempo o mais livre. Nele cabe um mundaréu de gente, todas as que conhecemos (10) e mais aquelas que imaginamos, e delas somos seu deus e seu diabo. (04) (...) O pensamento (11) não tem fronteiras, lógica, advogado de defesa ou carrasco. (12) É zona franca, (15)(16) terra de ninguém.
Vivemos cercados de micro câmeras, pardais, caetanos, alarmes. Somos constantemente vigiados, (17) qualquer um nos localiza, identifica, surpreende. O pensamento é o único lugar onde ainda estamos seguros, onde nossa loucura é permitida e todos os nossos atos são inocentes. Que se instale um novo mundo cibernético, mas que virem sucata (06) esses detectores de mentiras, tão sujeitos a falhas. Dentro do pensamento, não há tecnologia que consiga nos achar.
(Marta Medeiros Zero Hora, 31/03/1999 (adaptado))
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