Questões de EFAF Português
15.488 Questões
Questão 13 169753
IFMT 2014/1TEXTO 4
FÁBULAS NADA FABULOSAS
Josué Marcilio
Bom cabrito é o que mais berra onde canta o sabiá.
A raposa chegou junto à videira. Uma cerca alta de arame farpado impedia o acesso. As uvas estavam altas e
imaturas. A raposa deu três ou quatro pulos, não alcançou. Então ela se lembrou de que era carnívora. “Estão
verdes”, disse desdenhosamente, quando lhe caiu uma jabuticaba no focinho. Ela pensou: E se fosse uma
[5] melancia? Ficou num alumbramento, então atingiu a iluminação.
A cigarra trabalhou o verão inteiro. A formiga, só na gandaia. A cigarra, só na batalha. A formiga foi pro motel
com mil machos, curtiu incríveis bacanais. A cigarra buscou a quintessência do som paschoal-hermético, foi ao
Xingu ouvir a música dos xavantes, aprendeu a tocar cítara. Chegou o Inverno, a formiga se mandou pro
[10] formigueiro. A cigarra foi organizar seu show. A formiga se cansou da monotonia do formigueiro, tanto mais que
naquele país não havia inverno, e foi procurar a cigarra. Não sabia tocar nada, não podia sentir cheiro de
açúcar que saía correndo e largava tudo. A cigarra, com uma paciência de gênio, ia aguentando tudo. No dia da
estreia, uma frente fria do sul, os cuiabanos ficaram todos encorujados em casa. Na noite, só o silêncio,
quebrado por uma ou outra muriçoca, seu violino desafinado.
[15] A formiga queria atravessar o lago. O elefante, depois de muita insistência dela, concordou em levá-la no
lombo. Apanhou a formiga com a tromba e botou nas costas, arriando as pernas sob o peso. No meio da
travessia, ela se lembrou de que estava sem calcinha e cravou o ferrão no elefante. “Mas você não prometeu
que desta vez ia se controlar?”, protestou o elefante. “É que eu quero afogar o ganso”, disse a formiga, e tome
ferroada. O elefante começou a despertar seu lado masoquista, então disse: “Judia de mim, judia, se eu não
[20] sou merecedor desse amor...”.
À beira dum riacho, lobo e cordeiro. O primeiro, feroz, procurando pretexto, e os dois bebendo água. “Vê se não
suja a água que eu tou bebendo, ô guri.” “Tou sujando não, tio, a água corre daí pra cá.” “Tio é a vó. Foi você
que me insultou mês passado, não foi?” “Nasci há quinze dias.” “Se não foi você, foi seu irmão.” O lobo olhava
míope, não distinguia entre o cordeiro e o reflexo. Ventava. “Precisa tremer não, meu filho”, de repente ficou
[25] paternal. “Não tou tremendo. Por que não usa óculos? Esta fábula já perdeu o suspense, foi repetida mais de
mil vezes para todas as crianças do planeta, perdi o medo e o suspense. Acaba logo com essa lengalenga.” “Tá
bem. Você não tem irmãos, né?” “Não, mas se quiser posso citar Cervantes, Platão e Nietzsche.” Não foi
preciso.
Toda vez que o rato da cidade ia visitar o primo do campo ficava bestificado. O campo não era mais aquele.
[30] Máquinas cada vez mais sofisticadas, aditivos e defensivos cada vez mais ofensivos. Tecnologia e química
davam nova cor à roça. Quando o rato caipira ia à cidade, só via desolação e queixas. O barraco onde o primo
urbano morava não tinha nada, a comida cada vez mais minguada na panela. Mas o mundo é pequeno e as
coisas mudam. O rato da cidade comprou um aparelho de som barulhento, e quando o primo do campo vinha
fazer-lhe visita, nunca mais pôde dormir tranquilo: às cinco da manhã começava a choradeira abominável. Foi
[35] assim que o rato da roça veio a conhecer as drupa caipira.
O corvo estava com um beço pedalo de quico no beijo, ou seja, um belo pedaço de queijo no bico. A raposa
ainda estava com dor de barriga porque comera muita uva verde, com casca, semente e tudo, mas não podia
perder a ocasião. E começou a elogiar o corvo. Que ele tinha as asas mais pretas que as asas da graúna –
original, hein? Que ele tinha o rabo mais bonito que o do pavão. O corvo não se conteve. Quando ouviu tão
[40] babosos elogios, segurou o pedaço de quico, não, pedico de quaço, ah sei lá, com um dos pés, e disse: “Toda
essa demagogia só por causa de um mísero pedeijo de caço? Pode ficar com ele, eu não gosto”. E jogou o
queijo aos pés da raposa. Nisso, ia passando o rato do campo, de volta da visita ao seu primo da cidade; mais
que ligeiro, apanhou o queijo e fugiu. A raposa ficou vendo navios. Navios e estrelas.
Quem nunca comeu melado dá bom dia pra cachorro.
(Adaptado de: MARCILIO, Josué. Fábulas nada fabulosas. In: _____. Fábulas nada fabulosas. Cuiabá: Edição do Autor, 1999. p. 39- 41).
Hoje, um escritor possui certa liberdade para pontuar o texto que produz, o que contribui para definir seu estilo. No texto, o sinal de pontuação escolhido pelo escritor para marcar o discurso direto foi:
Questão 12 169752
IFMT 2014/1TEXTO 4
FÁBULAS NADA FABULOSAS
Josué Marcilio
Bom cabrito é o que mais berra onde canta o sabiá.
A raposa chegou junto à videira. Uma cerca alta de arame farpado impedia o acesso. As uvas estavam altas e
imaturas. A raposa deu três ou quatro pulos, não alcançou. Então ela se lembrou de que era carnívora. “Estão
verdes”, disse desdenhosamente, quando lhe caiu uma jabuticaba no focinho. Ela pensou: E se fosse uma
[5] melancia? Ficou num alumbramento, então atingiu a iluminação.
A cigarra trabalhou o verão inteiro. A formiga, só na gandaia. A cigarra, só na batalha. A formiga foi pro motel
com mil machos, curtiu incríveis bacanais. A cigarra buscou a quintessência do som paschoal-hermético, foi ao
Xingu ouvir a música dos xavantes, aprendeu a tocar cítara. Chegou o Inverno, a formiga se mandou pro
[10] formigueiro. A cigarra foi organizar seu show. A formiga se cansou da monotonia do formigueiro, tanto mais que
naquele país não havia inverno, e foi procurar a cigarra. Não sabia tocar nada, não podia sentir cheiro de
açúcar que saía correndo e largava tudo. A cigarra, com uma paciência de gênio, ia aguentando tudo. No dia da
estreia, uma frente fria do sul, os cuiabanos ficaram todos encorujados em casa. Na noite, só o silêncio,
quebrado por uma ou outra muriçoca, seu violino desafinado.
[15] A formiga queria atravessar o lago. O elefante, depois de muita insistência dela, concordou em levá-la no
lombo. Apanhou a formiga com a tromba e botou nas costas, arriando as pernas sob o peso. No meio da
travessia, ela se lembrou de que estava sem calcinha e cravou o ferrão no elefante. “Mas você não prometeu
que desta vez ia se controlar?”, protestou o elefante. “É que eu quero afogar o ganso”, disse a formiga, e tome
ferroada. O elefante começou a despertar seu lado masoquista, então disse: “Judia de mim, judia, se eu não
[20] sou merecedor desse amor...”.
À beira dum riacho, lobo e cordeiro. O primeiro, feroz, procurando pretexto, e os dois bebendo água. “Vê se não
suja a água que eu tou bebendo, ô guri.” “Tou sujando não, tio, a água corre daí pra cá.” “Tio é a vó. Foi você
que me insultou mês passado, não foi?” “Nasci há quinze dias.” “Se não foi você, foi seu irmão.” O lobo olhava
míope, não distinguia entre o cordeiro e o reflexo. Ventava. “Precisa tremer não, meu filho”, de repente ficou
[25] paternal. “Não tou tremendo. Por que não usa óculos? Esta fábula já perdeu o suspense, foi repetida mais de
mil vezes para todas as crianças do planeta, perdi o medo e o suspense. Acaba logo com essa lengalenga.” “Tá
bem. Você não tem irmãos, né?” “Não, mas se quiser posso citar Cervantes, Platão e Nietzsche.” Não foi
preciso.
Toda vez que o rato da cidade ia visitar o primo do campo ficava bestificado. O campo não era mais aquele.
[30] Máquinas cada vez mais sofisticadas, aditivos e defensivos cada vez mais ofensivos. Tecnologia e química
davam nova cor à roça. Quando o rato caipira ia à cidade, só via desolação e queixas. O barraco onde o primo
urbano morava não tinha nada, a comida cada vez mais minguada na panela. Mas o mundo é pequeno e as
coisas mudam. O rato da cidade comprou um aparelho de som barulhento, e quando o primo do campo vinha
fazer-lhe visita, nunca mais pôde dormir tranquilo: às cinco da manhã começava a choradeira abominável. Foi
[35] assim que o rato da roça veio a conhecer as drupa caipira.
O corvo estava com um beço pedalo de quico no beijo, ou seja, um belo pedaço de queijo no bico. A raposa
ainda estava com dor de barriga porque comera muita uva verde, com casca, semente e tudo, mas não podia
perder a ocasião. E começou a elogiar o corvo. Que ele tinha as asas mais pretas que as asas da graúna –
original, hein? Que ele tinha o rabo mais bonito que o do pavão. O corvo não se conteve. Quando ouviu tão
[40] babosos elogios, segurou o pedaço de quico, não, pedico de quaço, ah sei lá, com um dos pés, e disse: “Toda
essa demagogia só por causa de um mísero pedeijo de caço? Pode ficar com ele, eu não gosto”. E jogou o
queijo aos pés da raposa. Nisso, ia passando o rato do campo, de volta da visita ao seu primo da cidade; mais
que ligeiro, apanhou o queijo e fugiu. A raposa ficou vendo navios. Navios e estrelas.
Quem nunca comeu melado dá bom dia pra cachorro.
(Adaptado de: MARCILIO, Josué. Fábulas nada fabulosas. In: _____. Fábulas nada fabulosas. Cuiabá: Edição do Autor, 1999. p. 39- 41).
Marque a alternativa que mostra que o narrador (aquele que conta a história) sabe o que o personagem está pensando.
Questão 11 169751
IFMT 2014/1TEXTO 4
FÁBULAS NADA FABULOSAS
Josué Marcilio
Bom cabrito é o que mais berra onde canta o sabiá.
A raposa chegou junto à videira. Uma cerca alta de arame farpado impedia o acesso. As uvas estavam altas e
imaturas. A raposa deu três ou quatro pulos, não alcançou. Então ela se lembrou de que era carnívora. “Estão
verdes”, disse desdenhosamente, quando lhe caiu uma jabuticaba no focinho. Ela pensou: E se fosse uma
[5] melancia? Ficou num alumbramento, então atingiu a iluminação.
A cigarra trabalhou o verão inteiro. A formiga, só na gandaia. A cigarra, só na batalha. A formiga foi pro motel
com mil machos, curtiu incríveis bacanais. A cigarra buscou a quintessência do som paschoal-hermético, foi ao
Xingu ouvir a música dos xavantes, aprendeu a tocar cítara. Chegou o Inverno, a formiga se mandou pro
[10] formigueiro. A cigarra foi organizar seu show. A formiga se cansou da monotonia do formigueiro, tanto mais que
naquele país não havia inverno, e foi procurar a cigarra. Não sabia tocar nada, não podia sentir cheiro de
açúcar que saía correndo e largava tudo. A cigarra, com uma paciência de gênio, ia aguentando tudo. No dia da
estreia, uma frente fria do sul, os cuiabanos ficaram todos encorujados em casa. Na noite, só o silêncio,
quebrado por uma ou outra muriçoca, seu violino desafinado.
[15] A formiga queria atravessar o lago. O elefante, depois de muita insistência dela, concordou em levá-la no
lombo. Apanhou a formiga com a tromba e botou nas costas, arriando as pernas sob o peso. No meio da
travessia, ela se lembrou de que estava sem calcinha e cravou o ferrão no elefante. “Mas você não prometeu
que desta vez ia se controlar?”, protestou o elefante. “É que eu quero afogar o ganso”, disse a formiga, e tome
ferroada. O elefante começou a despertar seu lado masoquista, então disse: “Judia de mim, judia, se eu não
[20] sou merecedor desse amor...”.
À beira dum riacho, lobo e cordeiro. O primeiro, feroz, procurando pretexto, e os dois bebendo água. “Vê se não
suja a água que eu tou bebendo, ô guri.” “Tou sujando não, tio, a água corre daí pra cá.” “Tio é a vó. Foi você
que me insultou mês passado, não foi?” “Nasci há quinze dias.” “Se não foi você, foi seu irmão.” O lobo olhava
míope, não distinguia entre o cordeiro e o reflexo. Ventava. “Precisa tremer não, meu filho”, de repente ficou
[25] paternal. “Não tou tremendo. Por que não usa óculos? Esta fábula já perdeu o suspense, foi repetida mais de
mil vezes para todas as crianças do planeta, perdi o medo e o suspense. Acaba logo com essa lengalenga.” “Tá
bem. Você não tem irmãos, né?” “Não, mas se quiser posso citar Cervantes, Platão e Nietzsche.” Não foi
preciso.
Toda vez que o rato da cidade ia visitar o primo do campo ficava bestificado. O campo não era mais aquele.
[30] Máquinas cada vez mais sofisticadas, aditivos e defensivos cada vez mais ofensivos. Tecnologia e química
davam nova cor à roça. Quando o rato caipira ia à cidade, só via desolação e queixas. O barraco onde o primo
urbano morava não tinha nada, a comida cada vez mais minguada na panela. Mas o mundo é pequeno e as
coisas mudam. O rato da cidade comprou um aparelho de som barulhento, e quando o primo do campo vinha
fazer-lhe visita, nunca mais pôde dormir tranquilo: às cinco da manhã começava a choradeira abominável. Foi
[35] assim que o rato da roça veio a conhecer as drupa caipira.
O corvo estava com um beço pedalo de quico no beijo, ou seja, um belo pedaço de queijo no bico. A raposa
ainda estava com dor de barriga porque comera muita uva verde, com casca, semente e tudo, mas não podia
perder a ocasião. E começou a elogiar o corvo. Que ele tinha as asas mais pretas que as asas da graúna –
original, hein? Que ele tinha o rabo mais bonito que o do pavão. O corvo não se conteve. Quando ouviu tão
[40] babosos elogios, segurou o pedaço de quico, não, pedico de quaço, ah sei lá, com um dos pés, e disse: “Toda
essa demagogia só por causa de um mísero pedeijo de caço? Pode ficar com ele, eu não gosto”. E jogou o
queijo aos pés da raposa. Nisso, ia passando o rato do campo, de volta da visita ao seu primo da cidade; mais
que ligeiro, apanhou o queijo e fugiu. A raposa ficou vendo navios. Navios e estrelas.
Quem nunca comeu melado dá bom dia pra cachorro.
(Adaptado de: MARCILIO, Josué. Fábulas nada fabulosas. In: _____. Fábulas nada fabulosas. Cuiabá: Edição do Autor, 1999. p. 39- 41).
Analise as afirmativas e marque V para as verdadeiras e F para as falsas.
( ) Em “No dia da estreia, uma frente fria do sul, os cuiabanos ficaram todos encorujados em casa” (linhas 12-13), ocorre a elipse do verbo vir.
( ) Em “O elefante começou a despertar seu lado masoquista [...]” (linha 19), o pronome possessivo grifado refere-se à personagem formiga, que dialoga com o elefante.
( ) Em “O primeiro, feroz, procurando pretexto [...]” (linha 21), a palavra grifada refere-se ao personagem cordeiro.
( ) Em “Nisso ia passando o rato do campo, de volta da visita ao seu primo da cidade [...]” (linha 42), o vocábulo grifado refere-se ao personagem primo da cidade.
Assinale a sequência correta.
Questão 10 169750
IFMT 2014/1TEXTO 4
FÁBULAS NADA FABULOSAS
Josué Marcilio
Bom cabrito é o que mais berra onde canta o sabiá.
A raposa chegou junto à videira. Uma cerca alta de arame farpado impedia o acesso. As uvas estavam altas e
imaturas. A raposa deu três ou quatro pulos, não alcançou. Então ela se lembrou de que era carnívora. “Estão
verdes”, disse desdenhosamente, quando lhe caiu uma jabuticaba no focinho. Ela pensou: E se fosse uma
[5] melancia? Ficou num alumbramento, então atingiu a iluminação.
A cigarra trabalhou o verão inteiro. A formiga, só na gandaia. A cigarra, só na batalha. A formiga foi pro motel
com mil machos, curtiu incríveis bacanais. A cigarra buscou a quintessência do som paschoal-hermético, foi ao
Xingu ouvir a música dos xavantes, aprendeu a tocar cítara. Chegou o Inverno, a formiga se mandou pro
[10] formigueiro. A cigarra foi organizar seu show. A formiga se cansou da monotonia do formigueiro, tanto mais que
naquele país não havia inverno, e foi procurar a cigarra. Não sabia tocar nada, não podia sentir cheiro de
açúcar que saía correndo e largava tudo. A cigarra, com uma paciência de gênio, ia aguentando tudo. No dia da
estreia, uma frente fria do sul, os cuiabanos ficaram todos encorujados em casa. Na noite, só o silêncio,
quebrado por uma ou outra muriçoca, seu violino desafinado.
[15] A formiga queria atravessar o lago. O elefante, depois de muita insistência dela, concordou em levá-la no
lombo. Apanhou a formiga com a tromba e botou nas costas, arriando as pernas sob o peso. No meio da
travessia, ela se lembrou de que estava sem calcinha e cravou o ferrão no elefante. “Mas você não prometeu
que desta vez ia se controlar?”, protestou o elefante. “É que eu quero afogar o ganso”, disse a formiga, e tome
ferroada. O elefante começou a despertar seu lado masoquista, então disse: “Judia de mim, judia, se eu não
[20] sou merecedor desse amor...”.
À beira dum riacho, lobo e cordeiro. O primeiro, feroz, procurando pretexto, e os dois bebendo água. “Vê se não
suja a água que eu tou bebendo, ô guri.” “Tou sujando não, tio, a água corre daí pra cá.” “Tio é a vó. Foi você
que me insultou mês passado, não foi?” “Nasci há quinze dias.” “Se não foi você, foi seu irmão.” O lobo olhava
míope, não distinguia entre o cordeiro e o reflexo. Ventava. “Precisa tremer não, meu filho”, de repente ficou
[25] paternal. “Não tou tremendo. Por que não usa óculos? Esta fábula já perdeu o suspense, foi repetida mais de
mil vezes para todas as crianças do planeta, perdi o medo e o suspense. Acaba logo com essa lengalenga.” “Tá
bem. Você não tem irmãos, né?” “Não, mas se quiser posso citar Cervantes, Platão e Nietzsche.” Não foi
preciso.
Toda vez que o rato da cidade ia visitar o primo do campo ficava bestificado. O campo não era mais aquele.
[30] Máquinas cada vez mais sofisticadas, aditivos e defensivos cada vez mais ofensivos. Tecnologia e química
davam nova cor à roça. Quando o rato caipira ia à cidade, só via desolação e queixas. O barraco onde o primo
urbano morava não tinha nada, a comida cada vez mais minguada na panela. Mas o mundo é pequeno e as
coisas mudam. O rato da cidade comprou um aparelho de som barulhento, e quando o primo do campo vinha
fazer-lhe visita, nunca mais pôde dormir tranquilo: às cinco da manhã começava a choradeira abominável. Foi
[35] assim que o rato da roça veio a conhecer as drupa caipira.
O corvo estava com um beço pedalo de quico no beijo, ou seja, um belo pedaço de queijo no bico. A raposa
ainda estava com dor de barriga porque comera muita uva verde, com casca, semente e tudo, mas não podia
perder a ocasião. E começou a elogiar o corvo. Que ele tinha as asas mais pretas que as asas da graúna –
original, hein? Que ele tinha o rabo mais bonito que o do pavão. O corvo não se conteve. Quando ouviu tão
[40] babosos elogios, segurou o pedaço de quico, não, pedico de quaço, ah sei lá, com um dos pés, e disse: “Toda
essa demagogia só por causa de um mísero pedeijo de caço? Pode ficar com ele, eu não gosto”. E jogou o
queijo aos pés da raposa. Nisso, ia passando o rato do campo, de volta da visita ao seu primo da cidade; mais
que ligeiro, apanhou o queijo e fugiu. A raposa ficou vendo navios. Navios e estrelas.
Quem nunca comeu melado dá bom dia pra cachorro.
(Adaptado de: MARCILIO, Josué. Fábulas nada fabulosas. In: _____. Fábulas nada fabulosas. Cuiabá: Edição do Autor, 1999. p. 39- 41).
Em “Foi assim que o rato da roça veio a conhecer as drupa caipira” (linha 35), o vocábulo sublinhado
Questão 9 169749
IFMT 2014/1TEXTO 4
FÁBULAS NADA FABULOSAS
Josué Marcilio
Bom cabrito é o que mais berra onde canta o sabiá.
A raposa chegou junto à videira. Uma cerca alta de arame farpado impedia o acesso. As uvas estavam altas e
imaturas. A raposa deu três ou quatro pulos, não alcançou. Então ela se lembrou de que era carnívora. “Estão
verdes”, disse desdenhosamente, quando lhe caiu uma jabuticaba no focinho. Ela pensou: E se fosse uma
[5] melancia? Ficou num alumbramento, então atingiu a iluminação.
A cigarra trabalhou o verão inteiro. A formiga, só na gandaia. A cigarra, só na batalha. A formiga foi pro motel
com mil machos, curtiu incríveis bacanais. A cigarra buscou a quintessência do som paschoal-hermético, foi ao
Xingu ouvir a música dos xavantes, aprendeu a tocar cítara. Chegou o Inverno, a formiga se mandou pro
[10] formigueiro. A cigarra foi organizar seu show. A formiga se cansou da monotonia do formigueiro, tanto mais que
naquele país não havia inverno, e foi procurar a cigarra. Não sabia tocar nada, não podia sentir cheiro de
açúcar que saía correndo e largava tudo. A cigarra, com uma paciência de gênio, ia aguentando tudo. No dia da
estreia, uma frente fria do sul, os cuiabanos ficaram todos encorujados em casa. Na noite, só o silêncio,
quebrado por uma ou outra muriçoca, seu violino desafinado.
[15] A formiga queria atravessar o lago. O elefante, depois de muita insistência dela, concordou em levá-la no
lombo. Apanhou a formiga com a tromba e botou nas costas, arriando as pernas sob o peso. No meio da
travessia, ela se lembrou de que estava sem calcinha e cravou o ferrão no elefante. “Mas você não prometeu
que desta vez ia se controlar?”, protestou o elefante. “É que eu quero afogar o ganso”, disse a formiga, e tome
ferroada. O elefante começou a despertar seu lado masoquista, então disse: “Judia de mim, judia, se eu não
[20] sou merecedor desse amor...”.
À beira dum riacho, lobo e cordeiro. O primeiro, feroz, procurando pretexto, e os dois bebendo água. “Vê se não
suja a água que eu tou bebendo, ô guri.” “Tou sujando não, tio, a água corre daí pra cá.” “Tio é a vó. Foi você
que me insultou mês passado, não foi?” “Nasci há quinze dias.” “Se não foi você, foi seu irmão.” O lobo olhava
míope, não distinguia entre o cordeiro e o reflexo. Ventava. “Precisa tremer não, meu filho”, de repente ficou
[25] paternal. “Não tou tremendo. Por que não usa óculos? Esta fábula já perdeu o suspense, foi repetida mais de
mil vezes para todas as crianças do planeta, perdi o medo e o suspense. Acaba logo com essa lengalenga.” “Tá
bem. Você não tem irmãos, né?” “Não, mas se quiser posso citar Cervantes, Platão e Nietzsche.” Não foi
preciso.
Toda vez que o rato da cidade ia visitar o primo do campo ficava bestificado. O campo não era mais aquele.
[30] Máquinas cada vez mais sofisticadas, aditivos e defensivos cada vez mais ofensivos. Tecnologia e química
davam nova cor à roça. Quando o rato caipira ia à cidade, só via desolação e queixas. O barraco onde o primo
urbano morava não tinha nada, a comida cada vez mais minguada na panela. Mas o mundo é pequeno e as
coisas mudam. O rato da cidade comprou um aparelho de som barulhento, e quando o primo do campo vinha
fazer-lhe visita, nunca mais pôde dormir tranquilo: às cinco da manhã começava a choradeira abominável. Foi
[35] assim que o rato da roça veio a conhecer as drupa caipira.
O corvo estava com um beço pedalo de quico no beijo, ou seja, um belo pedaço de queijo no bico. A raposa
ainda estava com dor de barriga porque comera muita uva verde, com casca, semente e tudo, mas não podia
perder a ocasião. E começou a elogiar o corvo. Que ele tinha as asas mais pretas que as asas da graúna –
original, hein? Que ele tinha o rabo mais bonito que o do pavão. O corvo não se conteve. Quando ouviu tão
[40] babosos elogios, segurou o pedaço de quico, não, pedico de quaço, ah sei lá, com um dos pés, e disse: “Toda
essa demagogia só por causa de um mísero pedeijo de caço? Pode ficar com ele, eu não gosto”. E jogou o
queijo aos pés da raposa. Nisso, ia passando o rato do campo, de volta da visita ao seu primo da cidade; mais
que ligeiro, apanhou o queijo e fugiu. A raposa ficou vendo navios. Navios e estrelas.
Quem nunca comeu melado dá bom dia pra cachorro.
(Adaptado de: MARCILIO, Josué. Fábulas nada fabulosas. In: _____. Fábulas nada fabulosas. Cuiabá: Edição do Autor, 1999. p. 39- 41).
O texto remete-se a várias fábulas. Assinale a alternativa que melhor o caracteriza.
Questão 8 169748
IFMT 2014/1TEXTO 4
FÁBULAS NADA FABULOSAS
Josué Marcilio
Bom cabrito é o que mais berra onde canta o sabiá.
A raposa chegou junto à videira. Uma cerca alta de arame farpado impedia o acesso. As uvas estavam altas e
imaturas. A raposa deu três ou quatro pulos, não alcançou. Então ela se lembrou de que era carnívora. “Estão
verdes”, disse desdenhosamente, quando lhe caiu uma jabuticaba no focinho. Ela pensou: E se fosse uma
[5] melancia? Ficou num alumbramento, então atingiu a iluminação.
A cigarra trabalhou o verão inteiro. A formiga, só na gandaia. A cigarra, só na batalha. A formiga foi pro motel
com mil machos, curtiu incríveis bacanais. A cigarra buscou a quintessência do som paschoal-hermético, foi ao
Xingu ouvir a música dos xavantes, aprendeu a tocar cítara. Chegou o Inverno, a formiga se mandou pro
[10] formigueiro. A cigarra foi organizar seu show. A formiga se cansou da monotonia do formigueiro, tanto mais que
naquele país não havia inverno, e foi procurar a cigarra. Não sabia tocar nada, não podia sentir cheiro de
açúcar que saía correndo e largava tudo. A cigarra, com uma paciência de gênio, ia aguentando tudo. No dia da
estreia, uma frente fria do sul, os cuiabanos ficaram todos encorujados em casa. Na noite, só o silêncio,
quebrado por uma ou outra muriçoca, seu violino desafinado.
[15] A formiga queria atravessar o lago. O elefante, depois de muita insistência dela, concordou em levá-la no
lombo. Apanhou a formiga com a tromba e botou nas costas, arriando as pernas sob o peso. No meio da
travessia, ela se lembrou de que estava sem calcinha e cravou o ferrão no elefante. “Mas você não prometeu
que desta vez ia se controlar?”, protestou o elefante. “É que eu quero afogar o ganso”, disse a formiga, e tome
ferroada. O elefante começou a despertar seu lado masoquista, então disse: “Judia de mim, judia, se eu não
[20] sou merecedor desse amor...”.
À beira dum riacho, lobo e cordeiro. O primeiro, feroz, procurando pretexto, e os dois bebendo água. “Vê se não
suja a água que eu tou bebendo, ô guri.” “Tou sujando não, tio, a água corre daí pra cá.” “Tio é a vó. Foi você
que me insultou mês passado, não foi?” “Nasci há quinze dias.” “Se não foi você, foi seu irmão.” O lobo olhava
míope, não distinguia entre o cordeiro e o reflexo. Ventava. “Precisa tremer não, meu filho”, de repente ficou
[25] paternal. “Não tou tremendo. Por que não usa óculos? Esta fábula já perdeu o suspense, foi repetida mais de
mil vezes para todas as crianças do planeta, perdi o medo e o suspense. Acaba logo com essa lengalenga.” “Tá
bem. Você não tem irmãos, né?” “Não, mas se quiser posso citar Cervantes, Platão e Nietzsche.” Não foi
preciso.
Toda vez que o rato da cidade ia visitar o primo do campo ficava bestificado. O campo não era mais aquele.
[30] Máquinas cada vez mais sofisticadas, aditivos e defensivos cada vez mais ofensivos. Tecnologia e química
davam nova cor à roça. Quando o rato caipira ia à cidade, só via desolação e queixas. O barraco onde o primo
urbano morava não tinha nada, a comida cada vez mais minguada na panela. Mas o mundo é pequeno e as
coisas mudam. O rato da cidade comprou um aparelho de som barulhento, e quando o primo do campo vinha
fazer-lhe visita, nunca mais pôde dormir tranquilo: às cinco da manhã começava a choradeira abominável. Foi
[35] assim que o rato da roça veio a conhecer as drupa caipira.
O corvo estava com um beço pedalo de quico no beijo, ou seja, um belo pedaço de queijo no bico. A raposa
ainda estava com dor de barriga porque comera muita uva verde, com casca, semente e tudo, mas não podia
perder a ocasião. E começou a elogiar o corvo. Que ele tinha as asas mais pretas que as asas da graúna –
original, hein? Que ele tinha o rabo mais bonito que o do pavão. O corvo não se conteve. Quando ouviu tão
[40] babosos elogios, segurou o pedaço de quico, não, pedico de quaço, ah sei lá, com um dos pés, e disse: “Toda
essa demagogia só por causa de um mísero pedeijo de caço? Pode ficar com ele, eu não gosto”. E jogou o
queijo aos pés da raposa. Nisso, ia passando o rato do campo, de volta da visita ao seu primo da cidade; mais
que ligeiro, apanhou o queijo e fugiu. A raposa ficou vendo navios. Navios e estrelas.
Quem nunca comeu melado dá bom dia pra cachorro.
(Adaptado de: MARCILIO, Josué. Fábulas nada fabulosas. In: _____. Fábulas nada fabulosas. Cuiabá: Edição do Autor, 1999. p. 39- 41).
A intertextualidade (diálogo entre textos) é um recurso exemplificado em:
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