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Questão 8364051
COTIL COTIL 2014 1 FaseU Gerais 2014Jovens e velhos
Nelson Rodrigues
Às vezes, eu quero pensar que o jovem é uma figura antiga, obsoleta, espectral. Outras vezes, acontecem coisas que provam exatamente o contrário. O jovem está vivo, talvez mais vivo do que nunca. Ontem, dizia-me um amigo: - Meu filho toma droga! Você entende? Droga!
Ele falava, como se o filho fosse o único num mundo imaculado. Sabe, mas esquece, que no mesmo momento, no mundo inteiro, outros filhos, outros sobrinhos, outros netos, também tomam drogas e se autodestroem.
(...)
Comecei dizendo:
- O defeito do jovem é o velho. Ou pluralizando: são os velhos que, no momento, em toda parte e em qualquer idioma, corrompem os jovens.
(...)
Falo dos que erguem a cínica bandeira da imaturidade. Nem se pense que a idealização da imaturidade começa nos jornais, nas universidades, nas rádios, nas TVs, nos sermões. Não. Começa em casa. O moço começa a ter razão na altura da primeira chupeta e quase no berçário. Eu gostaria de saber qual teria sido o primeiro pai, mãe, ou tia, ou avó, ou cunhada, que inaugurou o Poder Jovem. O Poder Jovem é, portanto, anterior a si mesmo. Começa a exercitar a sua ferocidade muito antes, ainda na infância profunda. Há por aí toda uma geração de pequeninos possessos. São garotinhos de quatro, cinco anos, de uma intensa malignidade. Um dia, a família achou que a criança está certa quando mete a mão na cara da mãe, do pai, tia ou avó.
Outro dia, eu próprio vi uma cena admirável. Uma garotinha de cinco anos foi impedida de fazer não sei o quê. Como uma pequenina fera, investiu contra o pai, às caneladas. Desatinada, a mãe vai apanhar a menina e a carrega no colo. E então, acontece isto: a filha mete-lhe a mão na cara. Sempre digo que precisamos tirar o som da bofetada. Uma bofetada muda seria menos ultrajante. Mas a bofetada da garotinha estalou na cara materna. (Até hoje, não entendi como aquele pingo de gente foi capaz de bater com uma violência adulta.)
Fiquei olhando. Mas o episódio familiar não parou aí. A mãe, agarrada à filhinha, soluçava:
- Coitadinha! Coitadinha! Tias se arremessavam. A menina passou de colo em colo. Numa das vezes, chutou o seio de uma tia e meteu a mão na cara da seguinte; e na imediata, cuspiu na boca. Foi um horror. Eis o que eu queria dizer: imagino que a origem do Poder Jovem estará numa bofetada consentida, de filha em mãe, ou de filho em pai. Hoje, o adolescente tem uma sensação de onipotência. O homem maduro tem, por vezes, um olhar estrábico de pavor. Sim, o homem maduro traz o medo no coração. Se alguém gritar: — Olha o rapaz! — Uma dona de casa ou pai de família sairá correndo e pulando os muros da covardia. O jovem, não e nunca (...)
Questão 8364050
COTIL COTIL 2014 1 FaseU Gerais 2014Jovens e velhos
Nelson Rodrigues
Às vezes, eu quero pensar que o jovem é uma figura antiga, obsoleta, espectral. Outras vezes, acontecem coisas que provam exatamente o contrário. O jovem está vivo, talvez mais vivo do que nunca. Ontem, dizia-me um amigo: - Meu filho toma droga! Você entende? Droga!
Ele falava, como se o filho fosse o único num mundo imaculado. Sabe, mas esquece, que no mesmo momento, no mundo inteiro, outros filhos, outros sobrinhos, outros netos, também tomam drogas e se autodestroem.
(...)
Comecei dizendo:
- O defeito do jovem é o velho. Ou pluralizando: são os velhos que, no momento, em toda parte e em qualquer idioma, corrompem os jovens.
(...)
Falo dos que erguem a cínica bandeira da imaturidade. Nem se pense que a idealização da imaturidade começa nos jornais, nas universidades, nas rádios, nas TVs, nos sermões. Não. Começa em casa. O moço começa a ter razão na altura da primeira chupeta e quase no berçário. Eu gostaria de saber qual teria sido o primeiro pai, mãe, ou tia, ou avó, ou cunhada, que inaugurou o Poder Jovem. O Poder Jovem é, portanto, anterior a si mesmo. Começa a exercitar a sua ferocidade muito antes, ainda na infância profunda. Há por aí toda uma geração de pequeninos possessos. São garotinhos de quatro, cinco anos, de uma intensa malignidade. Um dia, a família achou que a criança está certa quando mete a mão na cara da mãe, do pai, tia ou avó.
Outro dia, eu próprio vi uma cena admirável. Uma garotinha de cinco anos foi impedida de fazer não sei o quê. Como uma pequenina fera, investiu contra o pai, às caneladas. Desatinada, a mãe vai apanhar a menina e a carrega no colo. E então, acontece isto: a filha mete-lhe a mão na cara. Sempre digo que precisamos tirar o som da bofetada. Uma bofetada muda seria menos ultrajante. Mas a bofetada da garotinha estalou na cara materna. (Até hoje, não entendi como aquele pingo de gente foi capaz de bater com uma violência adulta.)
Fiquei olhando. Mas o episódio familiar não parou aí. A mãe, agarrada à filhinha, soluçava:
- Coitadinha! Coitadinha! Tias se arremessavam. A menina passou de colo em colo. Numa das vezes, chutou o seio de uma tia e meteu a mão na cara da seguinte; e na imediata, cuspiu na boca. Foi um horror. Eis o que eu queria dizer: imagino que a origem do Poder Jovem estará numa bofetada consentida, de filha em mãe, ou de filho em pai. Hoje, o adolescente tem uma sensação de onipotência. O homem maduro tem, por vezes, um olhar estrábico de pavor. Sim, o homem maduro traz o medo no coração. Se alguém gritar: — Olha o rapaz! — Uma dona de casa ou pai de família sairá correndo e pulando os muros da covardia. O jovem, não e nunca (...)
Com base no texto, complete com (V) para verdadeiro e (F) para falso. Em seguida, marque a resposta que contém a sequência correta.
() “Às vezes, eu quero pensar que o jovem é uma figura antiga...” (01) - a palavra “jovem” não é classificada como adjetivo na oração.
()“Ou pluralizando: são os velhos...” (02) - o verbo “pluralizando” é derivado do singular.
() “Falo dos que erguem a cínica bandeira da imaturidade” (03) - “imaturidade” é uma palavra derivada por prefixação e sufixação, assim como “berçário” e “malignidade”.
() “... e na imediata, cuspiu na boca” (04) - O verbo “cuspir” é empregado de forma diferente na linguagem coloquial, assim como a palavra “privilégio”.
Questão 8364049
COTIL COTIL 2014 1 FaseU Gerais 2014Jovens e velhos
Nelson Rodrigues
Às vezes, eu quero pensar que o jovem é uma figura antiga, obsoleta, espectral. Outras vezes, acontecem coisas que provam exatamente o contrário. O jovem está vivo, talvez mais vivo do que nunca. Ontem, dizia-me um amigo: - Meu filho toma droga! Você entende? Droga!
Ele falava, como se o filho fosse o único num mundo imaculado. Sabe, mas esquece, que no mesmo momento, no mundo inteiro, outros filhos, outros sobrinhos, outros netos, também tomam drogas e se autodestroem.
(...)
Comecei dizendo:
- O defeito do jovem é o velho. Ou pluralizando: são os velhos que, no momento, em toda parte e em qualquer idioma, corrompem os jovens.
(...)
Falo dos que erguem a cínica bandeira da imaturidade. Nem se pense que a idealização da imaturidade começa nos jornais, nas universidades, nas rádios, nas TVs, nos sermões. Não. Começa em casa. O moço começa a ter razão na altura da primeira chupeta e quase no berçário. Eu gostaria de saber qual teria sido o primeiro pai, mãe, ou tia, ou avó, ou cunhada, que inaugurou o Poder Jovem. O Poder Jovem é, portanto, anterior a si mesmo. Começa a exercitar a sua ferocidade muito antes, ainda na infância profunda. Há por aí toda uma geração de pequeninos possessos. São garotinhos de quatro, cinco anos, de uma intensa malignidade. Um dia, a família achou que a criança está certa quando mete a mão na cara da mãe, do pai, tia ou avó.
Outro dia, eu próprio vi uma cena admirável. Uma garotinha de cinco anos foi impedida de fazer não sei o quê. Como uma pequenina fera, investiu contra o pai, às caneladas. Desatinada, a mãe vai apanhar a menina e a carrega no colo. E então, acontece isto: a filha mete-lhe a mão na cara. Sempre digo que precisamos tirar o som da bofetada. Uma bofetada muda seria menos ultrajante. Mas a bofetada da garotinha estalou na cara materna. (Até hoje, não entendi como aquele pingo de gente foi capaz de bater com uma violência adulta.)
Fiquei olhando. Mas o episódio familiar não parou aí. A mãe, agarrada à filhinha, soluçava:
- Coitadinha! Coitadinha! Tias se arremessavam. A menina passou de colo em colo. Numa das vezes, chutou o seio de uma tia e meteu a mão na cara da seguinte; e na imediata, cuspiu na boca. Foi um horror. Eis o que eu queria dizer: imagino que a origem do Poder Jovem estará numa bofetada consentida, de filha em mãe, ou de filho em pai. Hoje, o adolescente tem uma sensação de onipotência. O homem maduro tem, por vezes, um olhar estrábico de pavor. Sim, o homem maduro traz o medo no coração. Se alguém gritar: — Olha o rapaz! — Uma dona de casa ou pai de família sairá correndo e pulando os muros da covardia. O jovem, não e nunca (...)
Questão 8364006
CN CN 2013 1 FaseU Demais 2014TEXTO I
Campeonato do desperdício
No campeonato do desperdício, somos campeões em várias modalidades. Algumas de que nos orgulhamos e outras de que nem tanto.(6) Meu amigo Adamastor, antropólogo das horas vagas, não me deu as causas(7) primeiras de nossa primazia, mas forneceu-me(18) uma lista em que somos imbatíveis. Claro, das modalidades que "nem tanto".
Vocês já ouviram falar em lixo rico?(31) Somos os campeões. Nosso lixo faria a fartura de um Haiti. Com o que jogamos fora e que poderia ser aproveitado, poder-se-ia alimentar(8) muito mais do que a população do Haiti.(5) Há pesquisas do assunto e cálculos exatos que "nem tanto". Somos um país pobre com mania de rico.(22) E nosso lixo é mais rico do que o lixo dos países ricos. Meu falecido pai costumava dizer: rico raspa o queijo com as costas da faca;(32) remediado corta uma casca bem fininha; pobre, contudo, arranca uma lasca imensa do queijo. Meu pai dizia, e tenho a impressão que meu pai era(13) um homem preconceituoso,(30) mas em termos de manuseio dos alimentos nacionais, arrancamos uma lasca imensa do queijo, ah, sim, arrancamos.
Outra modalidade em que somos campeões absolutos, o desperdício do transporte.(25) Ninguém no mundo consegue, tanto quanto nós, jogar grãos nas estradas.(15) Não viajo pouco e me considero testemunha ocular.(20) A Anhanguera, por exemplo, tem verdadeiras plantações de soja(33) em suas margens. Quando pego uma traseira de caminhão e aquela chuva de grãos me assusta, penso rápido e fico calmo: faz parte da competição, e temos de ser campeões.(2)
Na construção civil o desperdício chega a ser escandaloso.(1) Um dia o Adamastor, antropólogo das horas vagas, me veio com uma folha de jornal onde se liam estatísticas indecentes.(10) Com o que se joga fora(19) de material (do mais bruto ao mais sofisticado),(26) o Brasil poderia construir todos os estádios que a FIFA exige(11) e ainda poderia exportar cidades para o mundo.(27)
Antigamente, este que vos atormenta, levava um litro lavado para trocar por outro cheio de leite.(28) Você, caro leitor, talvez nem tenha notícia disso. Mas era assim. Agora, compram-se o leite e sua embalagem internamente aluminizada para jogá-la no lixo.(3) Quanto de nosso petróleo vai para o lixo em forma de sacos plásticos"(21) Vocês já ouviram falar que o petróleo é um recurso inesgotável"(29) Claro que não! Mas sente algum remorso ao jogar os sacos trazidos do supermercado no lixo?(16) Claro que não. Nossa cultura de mosaico nos tirou a capacidade(9) de ligar os fenômenos entre si.(14)
E o que desperdiçamos de talentos, de esforço educacional? São advogados atendendo em balcão de banco,(34) engenheiros vendendo cachorro-quente nas avenidas de São Paulo,(4) são gênios que se desperdiçam diariamente(12) como se fossem recursos,(17) eles também, inesgotáveis. No dia em que a gente precisar, vai lá e pega.(23) No dia em que a gente precisar, pode não existir mais. Não importa, vivemos no melhor dos mundos, segundo a opinião do Adamastor, o gigante, plagiando um tal de Dr. Pangloss, que ironizava um tal de Leibniz.(24)
BRAFF, Menalton. Campeonato do desperdício. Disponível em: www.cartacapital.com.br. Acesso em: 14 jan. 2013 (adaptado).
Dr. Pangloss – personagem de Cândido, de Voltaire. Caracteriza-se pelo extremo otimismo.
Leibniz – autor da teoria de que nada acontece ao acaso. Estamos no melhor dos mundos possíveis, o ser só é, só existe, porque é o melhor possível.
Adamastor, o gigante – personificação do Cabo das Tormentas, em Os Lusíadas, do escritor português Luiz Vaz de Camões.
Assinale a opção na qual o vocábulo em destaque NÃO tem a mesma classificação morfológica dos demais.Questão 8363998
CN CN 2013 1 FaseU Demais 2014TEXTO I
Campeonato do desperdício
No campeonato do desperdício, somos campeões em várias modalidades. Algumas de que nos orgulhamos e outras de que nem tanto.(6) Meu amigo Adamastor, antropólogo das horas vagas, não me deu as causas(7) primeiras de nossa primazia, mas forneceu-me(18) uma lista em que somos imbatíveis. Claro, das modalidades que "nem tanto".
Vocês já ouviram falar em lixo rico?(31) Somos os campeões. Nosso lixo faria a fartura de um Haiti. Com o que jogamos fora e que poderia ser aproveitado, poder-se-ia alimentar(8) muito mais do que a população do Haiti.(5) Há pesquisas do assunto e cálculos exatos que "nem tanto". Somos um país pobre com mania de rico.(22) E nosso lixo é mais rico do que o lixo dos países ricos. Meu falecido pai costumava dizer: rico raspa o queijo com as costas da faca;(32) remediado corta uma casca bem fininha; pobre, contudo, arranca uma lasca imensa do queijo. Meu pai dizia, e tenho a impressão que meu pai era(13) um homem preconceituoso,(30) mas em termos de manuseio dos alimentos nacionais, arrancamos uma lasca imensa do queijo, ah, sim, arrancamos.
Outra modalidade em que somos campeões absolutos, o desperdício do transporte.(25) Ninguém no mundo consegue, tanto quanto nós, jogar grãos nas estradas.(15) Não viajo pouco e me considero testemunha ocular.(20) A Anhanguera, por exemplo, tem verdadeiras plantações de soja(33) em suas margens. Quando pego uma traseira de caminhão e aquela chuva de grãos me assusta, penso rápido e fico calmo: faz parte da competição, e temos de ser campeões.(2)
Na construção civil o desperdício chega a ser escandaloso.(1) Um dia o Adamastor, antropólogo das horas vagas, me veio com uma folha de jornal onde se liam estatísticas indecentes.(10) Com o que se joga fora(19) de material (do mais bruto ao mais sofisticado),(26) o Brasil poderia construir todos os estádios que a FIFA exige(11) e ainda poderia exportar cidades para o mundo.(27)
Antigamente, este que vos atormenta, levava um litro lavado para trocar por outro cheio de leite.(28) Você, caro leitor, talvez nem tenha notícia disso. Mas era assim. Agora, compram-se o leite e sua embalagem internamente aluminizada para jogá-la no lixo.(3) Quanto de nosso petróleo vai para o lixo em forma de sacos plásticos"(21) Vocês já ouviram falar que o petróleo é um recurso inesgotável"(29) Claro que não! Mas sente algum remorso ao jogar os sacos trazidos do supermercado no lixo?(16) Claro que não. Nossa cultura de mosaico nos tirou a capacidade(9) de ligar os fenômenos entre si.(14)
E o que desperdiçamos de talentos, de esforço educacional? São advogados atendendo em balcão de banco,(34) engenheiros vendendo cachorro-quente nas avenidas de São Paulo,(4) são gênios que se desperdiçam diariamente(12) como se fossem recursos,(17) eles também, inesgotáveis. No dia em que a gente precisar, vai lá e pega.(23) No dia em que a gente precisar, pode não existir mais. Não importa, vivemos no melhor dos mundos, segundo a opinião do Adamastor, o gigante, plagiando um tal de Dr. Pangloss, que ironizava um tal de Leibniz.(24)
BRAFF, Menalton. Campeonato do desperdício. Disponível em: www.cartacapital.com.br. Acesso em: 14 jan. 2013 (adaptado).
Dr. Pangloss – personagem de Cândido, de Voltaire. Caracteriza-se pelo extremo otimismo.
Leibniz – autor da teoria de que nada acontece ao acaso. Estamos no melhor dos mundos possíveis, o ser só é, só existe, porque é o melhor possível.
Adamastor, o gigante – personificação do Cabo das Tormentas, em Os Lusíadas, do escritor português Luiz Vaz de Camões.
Em que opção a análise morfossintática do texto está adequada?Questão 20 4185989
CN 2° Dia 2014Texto para a questão.
Aumenta o número de adultos que não consegue focar sua atenção em uma única coisa por muito tempo. São tantos os estímulos e tanta a pressão para que o entorno seja completamente desvendado que aprendemos a ver e/ou fazer várias coisas ao mesmo tempo. Nós nos tornamos, à semelhança dos computadores, pessoas multitarefa, não é verdade?
Vamos tomar como exemplo uma pessoa dirigindo. Ela precisa estar atenta aos veículos que vêm atrás, ao lado e à frente, à velocidade média dos carros por onde trafega, às orientações do GPS ou de programas que sinalizam o trânsito em tempo real, às informações de alguma emissora de rádio que comenta o trânsito, ao planejamento mental feito e refeito várias vezes do trajeto que deve fazer para chegar ao seu destino, aos semáforos, faixas de pedestres etc.
Quando me vejo em tal situação, eu me lembro que dirigir, após um dia de intenso trabalho no retorno para casa, já foi uma atividade prazerosa e desestressante.
O uso da internet ajudou a transformar nossa maneira de olhar para o mundo. Não mais observamos os detalhes, por causa de nossa ganância em relação a novas e diferentes informações. Quantas vezes sentei em frente ao computador para buscar textos sobre um tema e, de repente, me dei conta de que estava em temas que em nada se relacionavam com meu tema primeiro.
Aliás, a leitura também sofreu transformações pelo nosso costume de ler na internet. Sofremos de uma tentação permanente de pular palavras e frases inteiras, apenas para irmos direto ao ponto. O problema é que alguns textos exigem a leitura atenta de palavra por palavra, de frase por frase, para que faça sentido. Aliás, não é a combinação e a sucessão das palavras que dá sentido e beleza a um texto?
Se está difícil para nós, adultos, focar nossa atenção, imagine, caro leitor, para as crianças. Elas já nasceram neste mundo de profusão de estímulos de todos os tipos; elas são exigidas, desde o início da vida, a dar conta de várias coisas ao mesmo tempo; elas são estimuladas com diferentes objetos, sons, imagens etc.
Aí, um belo dia elas vão para a escola. Professores e pais, a partir de então, querem que as crianças prestem atenção em uma única coisa por muito tempo. E quando elas não conseguem, reclamamos, levamos ao médico, arriscamos hipóteses de que sejam portadoras de síndromes que exigem tratamento etc.
A maioria dessas crianças sabe focar sua atenção, sim. Elas já sabem usar programas complexos em seus aparelhos eletrônicos, brincam com jogos desafiantes que exigem atenção constante aos detalhes e, se deixarmos, passam horas em uma única atividade de que gostam.
Mas, nos estudos, queremos que elas prestem atenção no que é preciso, e não no que gostam. E isso, caro leitor, exige a árdua aprendizagem da autodisciplina. Que leva tempo, é bom lembrar.
As crianças precisam de nós, pais e professores, para começar a aprender isso. Aliás, boa parte desse trabalho é nosso, e não delas.
Não basta mandarmos que elas prestem atenção: isso de nada as ajuda. O que pode ajudar, por exemplo, é analisarmos o contexto em que estão quando precisam focar a atenção e organizá-lo para que seja favorável a tal exigência. E é preciso lembrar que não se pode esperar toda a atenção delas por muito tempo: o ensino desse quesito no mundo de hoje é um processo lento e gradual.
SAYÃO, Rosely. Profusão de estímulos. Folha de São Paulo, 11 fev. 2014 - adaptado.
Assinale a opção que indica corretamente o valor semântico da preposição em destaque.
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