Questões de EFAF Português
15.488 Questões
Questão 8 168614
IFRJ 2017Após a leitura do poema ÉTICA, de Agamenon Almeida, responda à questão.
TEXTO III
Confesso amargurado, envelheci precocemente
São tantos os conceitos que não compreendo mais
Valores que norteavam o procedimento humano
Perderam-se sem sentido no meio dos mortais
[5] Vejo a ÉTICA desfigurada pelo engodo traiçoeiro.
Vejo homens que se prestam a servis interesseiros.
Vejo pragas que se alastram e embaçam a visão
Em condutas vergonhosas, lamentável aberração.
[10] Vejo aqueles que ponderam de forma tão sutil
Preparando argumentos para um tropeço vil
Que por vezes escancara as raias do absurdo
Que não resta outra saída: seja cego, surdo, mudo.
[15] Mas ainda temos loucos de loucura tão pungente
Que acreditam ser possível salvar a nossa mente
Da tortura tão em voga sem perder a condição
De ser gente decente sem de a ÉTICA abrir mão.
Por isso sempre digo, já não passo de um louco.
[20] Acredito nos motivos que movem estes poucos
Que colocam atrevidos, a ÉTICA por condição
Para erguer toda decência - não há outra solução.
Disponível em: . Acesso em: 20 out. 2016.
Com relação ao tema desse texto, pode-se afirmar que o/a
Questão 7 168612
IFRJ 2017Texto II

Disponível em: https://vg4dow.blu.live filestore.com/y3mdZCxPR4Bykj ALUfQ20HQu4I 6jJRZyk IUONSCZD3S_CjeiUFuUevxkDbRvzzhP2W7_O_pJ92Rq-veiZgrsc9i_Y5slgxQTL Fl-zjkxrsHdfeg9VgHnXV v20u7sVtht21YrMUQUAfWWi3chsYq05kzZ nm13YILGEI-0OD-N5bbrVQrpolíticos-vii thumb%5b2%5d. jpp. Acesso em: 20 out. 201 6.
Levando-se em conta a fala do policial na tirinha lida, é CORRETO afirmar que 'por fora
Questão 5 168610
IFRJ 2017Pequenas corrupções
Todo mundo se escandaliza com o petrolão. Eu também, óbvio. Atinge cifras que escapam a minha
imaginação. Mas que tal pensar sobre qual é o meu, o seu, o nosso grau individual de corrupção, como
cidadãos comuns?
No caixa eletrônico, por exemplo, tem uma fila grande. Alguém se aproxima. Conversa com um amigo
[5] lá na frente e, como se fosse a coisa mais natural, fura a fila. Uma vez reclamei para uma mulher:
– Desculpe, mas seu lugar é lá no fim da fila.
Ficou ofendida, respondeu agressiva. Sinceramente, se ela tivesse dito algo como:
– Eu sei, mas estou com um problema particular e tenho pressa.
Eu entenderia. Já me aconteceu, na fila do aeroporto, para verificação de bagagem. Ia perder o voo.
[10] Expliquei e me deixaram passar na frente. Mas e na fila do avião? Por que a pressa, se o lugar é marcado? O
motivo das prioridades é facilitar a entrada de grávidas, crianças, deficientes e idosos. Também há acesso VIP
para quem tem milhagens expressivas. Já vi cada atropelo! Uma vez, enquanto tentava proteger da correria
uma senhora com um filho pequeno, aconselhei:
– Vá lá para a frente, tem direito de entrar primeiro.
[15] Ela fez que não. Corria o risco de ser atropelada.
Se dá para furar uma fila, você fura?
No restaurante, sempre alguém dá uma carteirada com o maître e passa na frente. Vi isso acontecer
muitas vezes. Eu não gosto de esperar. Paro em frente ao restaurante e pergunto se tem espera. Se tem,
agradeço e vou a outro. Restaurantes mais vazios, com donos saltando como caranguejos sobre possíveis
[20] clientes, também não faltam.
E a nota fiscal? Houve uma época em que até o dentista perguntava se era sem nota. Com, era mais
caro. E depois, ele esquecia de dar. Fazia cara de ofendido se eu insistia. Graças aos cruzamentos da Receita
Federal, isso está acabando. Eu declaro se paguei e pronto. Acho justo. Em São Paulo, foi instituída a nota
fiscal paulista, com estímulos financeiros a quem pede. Na hora de pagar sempre perguntam:
[25] – Quer nota fiscal paulista?
Acho um absurdo a pergunta. É regra dar a nota. Se eu pago meus impostos, por que o comerciante
não? Ah, tem muito imposto. Tem mesmo. Mas, então, o certo é protestar, votar melhor. Não sobreviver à
custa de pequenas corrupções. Não é só no Brasil. Tenho um amigo modelo que mora na Cidade do Cabo, na
África do Sul. Conheceu uma finlandesa que passou maus bocados. Simples: finlandeses são honestos. Então,
[30] ela, logo no primeiro dia de férias, fez o que fazia na Finlândia. Deixou a bolsa embaixo de uma árvore e foi
correr num parque. Na volta, cadê? Perdeu grana, passaporte, tudo. Aqui, alguém tem coragem de deixar
qualquer coisa embaixo de uma árvore? Já contei a história de um amigo que sofreu um acidente de carro, dois
rapazes pararam para ajudar e o assaltaram enquanto sangrava?
Outro dia li sobre uma moradora de rua que encontrou dinheiro e devolveu. Virou notícia, como ocorre
[35] cada vez que um ato de honestidade, ainda mais praticado por um necessitado, acontece. Há algo muito errado
num país onde honestidade é notícia.
Quando devolvo o troco que veio a mais, a mocinha do caixa me olha como se estivesse diante de São
Sebastião. Claro, isso iria para a conta dela. Não sou eu que vou roubar de uma trabalhadora que está no caixa.
[40] Mas é tão pouco comum gente que devolve! Assim como caixas também frequentemente não têm moedinhas
e arredondam o troco. Já estive em restaurantes que ‘arredondaram’ em vários reais, sem nem dar explicação.
Agora, pagando com cartão, a prática está acabando. O que eu falo vale para gente rica, classe média ou pobre.
Um amigo meu, dermatologista, tinha duas clientes que viviam à base de champanhe. Se encheram de Botox.
(E o produto custa para o médico.) Deram um cheque sem fundos e foram meses para receber. Botar Botox não
[45] é o mesmo que passar fome, onde a gente até entende o roubo de comida por desespero. Mas acontece. Como
ocorre também entre os médicos. Se você for a qualquer médico e ele disser:
– Eu prefiro que o remédio seja manipulado, tenho mais confiança.
E depois indicar a farmácia, já sabe. São 30% que vão para o bolso dele. Exatamente. As farmácias de
manipulação têm o costume de pagar essa percentagem aos médicos que dão a receita.
[50] Os exemplos não acabariam nunca. A verdade é esta: nós todos vivemos cercados de pequenas
corrupções. Acorrupção maior é apenas a expressão de um tipo de vida que achamos até normal.
CARRASCO, Walcyr. Disponível em: . Acesso em: 20 out. 2016
Averdade é esta:[...] (l.50)
Nesse trecho destacado, o pronome esta
Questão 4 168609
IFRJ 2017Pequenas corrupções
Todo mundo se escandaliza com o petrolão. Eu também, óbvio. Atinge cifras que escapam a minha
imaginação. Mas que tal pensar sobre qual é o meu, o seu, o nosso grau individual de corrupção, como
cidadãos comuns?
No caixa eletrônico, por exemplo, tem uma fila grande. Alguém se aproxima. Conversa com um amigo
[5] lá na frente e, como se fosse a coisa mais natural, fura a fila. Uma vez reclamei para uma mulher:
– Desculpe, mas seu lugar é lá no fim da fila.
Ficou ofendida, respondeu agressiva. Sinceramente, se ela tivesse dito algo como:
– Eu sei, mas estou com um problema particular e tenho pressa.
Eu entenderia. Já me aconteceu, na fila do aeroporto, para verificação de bagagem. Ia perder o voo.
[10] Expliquei e me deixaram passar na frente. Mas e na fila do avião? Por que a pressa, se o lugar é marcado? O
motivo das prioridades é facilitar a entrada de grávidas, crianças, deficientes e idosos. Também há acesso VIP
para quem tem milhagens expressivas. Já vi cada atropelo! Uma vez, enquanto tentava proteger da correria
uma senhora com um filho pequeno, aconselhei:
– Vá lá para a frente, tem direito de entrar primeiro.
[15] Ela fez que não. Corria o risco de ser atropelada.
Se dá para furar uma fila, você fura?
No restaurante, sempre alguém dá uma carteirada com o maître e passa na frente. Vi isso acontecer
muitas vezes. Eu não gosto de esperar. Paro em frente ao restaurante e pergunto se tem espera. Se tem,
agradeço e vou a outro. Restaurantes mais vazios, com donos saltando como caranguejos sobre possíveis
[20] clientes, também não faltam.
E a nota fiscal? Houve uma época em que até o dentista perguntava se era sem nota. Com, era mais
caro. E depois, ele esquecia de dar. Fazia cara de ofendido se eu insistia. Graças aos cruzamentos da Receita
Federal, isso está acabando. Eu declaro se paguei e pronto. Acho justo. Em São Paulo, foi instituída a nota
fiscal paulista, com estímulos financeiros a quem pede. Na hora de pagar sempre perguntam:
[25] – Quer nota fiscal paulista?
Acho um absurdo a pergunta. É regra dar a nota. Se eu pago meus impostos, por que o comerciante
não? Ah, tem muito imposto. Tem mesmo. Mas, então, o certo é protestar, votar melhor. Não sobreviver à
custa de pequenas corrupções. Não é só no Brasil. Tenho um amigo modelo que mora na Cidade do Cabo, na
África do Sul. Conheceu uma finlandesa que passou maus bocados. Simples: finlandeses são honestos. Então,
[30] ela, logo no primeiro dia de férias, fez o que fazia na Finlândia. Deixou a bolsa embaixo de uma árvore e foi
correr num parque. Na volta, cadê? Perdeu grana, passaporte, tudo. Aqui, alguém tem coragem de deixar
qualquer coisa embaixo de uma árvore? Já contei a história de um amigo que sofreu um acidente de carro, dois
rapazes pararam para ajudar e o assaltaram enquanto sangrava?
Outro dia li sobre uma moradora de rua que encontrou dinheiro e devolveu. Virou notícia, como ocorre
[35] cada vez que um ato de honestidade, ainda mais praticado por um necessitado, acontece. Há algo muito errado
num país onde honestidade é notícia.
Quando devolvo o troco que veio a mais, a mocinha do caixa me olha como se estivesse diante de São
Sebastião. Claro, isso iria para a conta dela. Não sou eu que vou roubar de uma trabalhadora que está no caixa.
[40] Mas é tão pouco comum gente que devolve! Assim como caixas também frequentemente não têm moedinhas
e arredondam o troco. Já estive em restaurantes que ‘arredondaram’ em vários reais, sem nem dar explicação.
Agora, pagando com cartão, a prática está acabando. O que eu falo vale para gente rica, classe média ou pobre.
Um amigo meu, dermatologista, tinha duas clientes que viviam à base de champanhe. Se encheram de Botox.
(E o produto custa para o médico.) Deram um cheque sem fundos e foram meses para receber. Botar Botox não
[45] é o mesmo que passar fome, onde a gente até entende o roubo de comida por desespero. Mas acontece. Como
ocorre também entre os médicos. Se você for a qualquer médico e ele disser:
– Eu prefiro que o remédio seja manipulado, tenho mais confiança.
E depois indicar a farmácia, já sabe. São 30% que vão para o bolso dele. Exatamente. As farmácias de
manipulação têm o costume de pagar essa percentagem aos médicos que dão a receita.
[50] Os exemplos não acabariam nunca. A verdade é esta: nós todos vivemos cercados de pequenas
corrupções. Acorrupção maior é apenas a expressão de um tipo de vida que achamos até normal.
CARRASCO, Walcyr. Disponível em: . Acesso em: 20 out. 2016
Na conclusão do texto, relacionam-se as pequenas e as grandes corrupções.
Para o autor, a corrupção maior
Questão 3 168608
IFRJ 2017Pequenas corrupções
Todo mundo se escandaliza com o petrolão. Eu também, óbvio. Atinge cifras que escapam a minha
imaginação. Mas que tal pensar sobre qual é o meu, o seu, o nosso grau individual de corrupção, como
cidadãos comuns?
No caixa eletrônico, por exemplo, tem uma fila grande. Alguém se aproxima. Conversa com um amigo
[5] lá na frente e, como se fosse a coisa mais natural, fura a fila. Uma vez reclamei para uma mulher:
– Desculpe, mas seu lugar é lá no fim da fila.
Ficou ofendida, respondeu agressiva. Sinceramente, se ela tivesse dito algo como:
– Eu sei, mas estou com um problema particular e tenho pressa.
Eu entenderia. Já me aconteceu, na fila do aeroporto, para verificação de bagagem. Ia perder o voo.
[10] Expliquei e me deixaram passar na frente. Mas e na fila do avião? Por que a pressa, se o lugar é marcado? O
motivo das prioridades é facilitar a entrada de grávidas, crianças, deficientes e idosos. Também há acesso VIP
para quem tem milhagens expressivas. Já vi cada atropelo! Uma vez, enquanto tentava proteger da correria
uma senhora com um filho pequeno, aconselhei:
– Vá lá para a frente, tem direito de entrar primeiro.
[15] Ela fez que não. Corria o risco de ser atropelada.
Se dá para furar uma fila, você fura?
No restaurante, sempre alguém dá uma carteirada com o maître e passa na frente. Vi isso acontecer
muitas vezes. Eu não gosto de esperar. Paro em frente ao restaurante e pergunto se tem espera. Se tem,
agradeço e vou a outro. Restaurantes mais vazios, com donos saltando como caranguejos sobre possíveis
[20] clientes, também não faltam.
E a nota fiscal? Houve uma época em que até o dentista perguntava se era sem nota. Com, era mais
caro. E depois, ele esquecia de dar. Fazia cara de ofendido se eu insistia. Graças aos cruzamentos da Receita
Federal, isso está acabando. Eu declaro se paguei e pronto. Acho justo. Em São Paulo, foi instituída a nota
fiscal paulista, com estímulos financeiros a quem pede. Na hora de pagar sempre perguntam:
[25] – Quer nota fiscal paulista?
Acho um absurdo a pergunta. É regra dar a nota. Se eu pago meus impostos, por que o comerciante
não? Ah, tem muito imposto. Tem mesmo. Mas, então, o certo é protestar, votar melhor. Não sobreviver à
custa de pequenas corrupções. Não é só no Brasil. Tenho um amigo modelo que mora na Cidade do Cabo, na
África do Sul. Conheceu uma finlandesa que passou maus bocados. Simples: finlandeses são honestos. Então,
[30] ela, logo no primeiro dia de férias, fez o que fazia na Finlândia. Deixou a bolsa embaixo de uma árvore e foi
correr num parque. Na volta, cadê? Perdeu grana, passaporte, tudo. Aqui, alguém tem coragem de deixar
qualquer coisa embaixo de uma árvore? Já contei a história de um amigo que sofreu um acidente de carro, dois
rapazes pararam para ajudar e o assaltaram enquanto sangrava?
Outro dia li sobre uma moradora de rua que encontrou dinheiro e devolveu. Virou notícia, como ocorre
[35] cada vez que um ato de honestidade, ainda mais praticado por um necessitado, acontece. Há algo muito errado
num país onde honestidade é notícia.
Quando devolvo o troco que veio a mais, a mocinha do caixa me olha como se estivesse diante de São
Sebastião. Claro, isso iria para a conta dela. Não sou eu que vou roubar de uma trabalhadora que está no caixa.
[40] Mas é tão pouco comum gente que devolve! Assim como caixas também frequentemente não têm moedinhas
e arredondam o troco. Já estive em restaurantes que ‘arredondaram’ em vários reais, sem nem dar explicação.
Agora, pagando com cartão, a prática está acabando. O que eu falo vale para gente rica, classe média ou pobre.
Um amigo meu, dermatologista, tinha duas clientes que viviam à base de champanhe. Se encheram de Botox.
(E o produto custa para o médico.) Deram um cheque sem fundos e foram meses para receber. Botar Botox não
[45] é o mesmo que passar fome, onde a gente até entende o roubo de comida por desespero. Mas acontece. Como
ocorre também entre os médicos. Se você for a qualquer médico e ele disser:
– Eu prefiro que o remédio seja manipulado, tenho mais confiança.
E depois indicar a farmácia, já sabe. São 30% que vão para o bolso dele. Exatamente. As farmácias de
manipulação têm o costume de pagar essa percentagem aos médicos que dão a receita.
[50] Os exemplos não acabariam nunca. A verdade é esta: nós todos vivemos cercados de pequenas
corrupções. Acorrupção maior é apenas a expressão de um tipo de vida que achamos até normal.
CARRASCO, Walcyr. Disponível em: . Acesso em: 20 out. 2016
Já contei a história de um amigo que sofreu um acidente de carro, dois rapazes pararam para ajudar e o assaltaram enquanto sangrava? (l. 32-33)
No fragmento destacado, os conectivos para e enquanto assumem, respectivamente, a ideia de
Questão 2 168607
IFRJ 2017Pequenas corrupções
Todo mundo se escandaliza com o petrolão. Eu também, óbvio. Atinge cifras que escapam a minha
imaginação. Mas que tal pensar sobre qual é o meu, o seu, o nosso grau individual de corrupção, como
cidadãos comuns?
No caixa eletrônico, por exemplo, tem uma fila grande. Alguém se aproxima. Conversa com um amigo
[5] lá na frente e, como se fosse a coisa mais natural, fura a fila. Uma vez reclamei para uma mulher:
– Desculpe, mas seu lugar é lá no fim da fila.
Ficou ofendida, respondeu agressiva. Sinceramente, se ela tivesse dito algo como:
– Eu sei, mas estou com um problema particular e tenho pressa.
Eu entenderia. Já me aconteceu, na fila do aeroporto, para verificação de bagagem. Ia perder o voo.
[10] Expliquei e me deixaram passar na frente. Mas e na fila do avião? Por que a pressa, se o lugar é marcado? O
motivo das prioridades é facilitar a entrada de grávidas, crianças, deficientes e idosos. Também há acesso VIP
para quem tem milhagens expressivas. Já vi cada atropelo! Uma vez, enquanto tentava proteger da correria
uma senhora com um filho pequeno, aconselhei:
– Vá lá para a frente, tem direito de entrar primeiro.
[15] Ela fez que não. Corria o risco de ser atropelada.
Se dá para furar uma fila, você fura?
No restaurante, sempre alguém dá uma carteirada com o maître e passa na frente. Vi isso acontecer
muitas vezes. Eu não gosto de esperar. Paro em frente ao restaurante e pergunto se tem espera. Se tem,
agradeço e vou a outro. Restaurantes mais vazios, com donos saltando como caranguejos sobre possíveis
[20] clientes, também não faltam.
E a nota fiscal? Houve uma época em que até o dentista perguntava se era sem nota. Com, era mais
caro. E depois, ele esquecia de dar. Fazia cara de ofendido se eu insistia. Graças aos cruzamentos da Receita
Federal, isso está acabando. Eu declaro se paguei e pronto. Acho justo. Em São Paulo, foi instituída a nota
fiscal paulista, com estímulos financeiros a quem pede. Na hora de pagar sempre perguntam:
[25] – Quer nota fiscal paulista?
Acho um absurdo a pergunta. É regra dar a nota. Se eu pago meus impostos, por que o comerciante
não? Ah, tem muito imposto. Tem mesmo. Mas, então, o certo é protestar, votar melhor. Não sobreviver à
custa de pequenas corrupções. Não é só no Brasil. Tenho um amigo modelo que mora na Cidade do Cabo, na
África do Sul. Conheceu uma finlandesa que passou maus bocados. Simples: finlandeses são honestos. Então,
[30] ela, logo no primeiro dia de férias, fez o que fazia na Finlândia. Deixou a bolsa embaixo de uma árvore e foi
correr num parque. Na volta, cadê? Perdeu grana, passaporte, tudo. Aqui, alguém tem coragem de deixar
qualquer coisa embaixo de uma árvore? Já contei a história de um amigo que sofreu um acidente de carro, dois
rapazes pararam para ajudar e o assaltaram enquanto sangrava?
Outro dia li sobre uma moradora de rua que encontrou dinheiro e devolveu. Virou notícia, como ocorre
[35] cada vez que um ato de honestidade, ainda mais praticado por um necessitado, acontece. Há algo muito errado
num país onde honestidade é notícia.
Quando devolvo o troco que veio a mais, a mocinha do caixa me olha como se estivesse diante de São
Sebastião. Claro, isso iria para a conta dela. Não sou eu que vou roubar de uma trabalhadora que está no caixa.
[40] Mas é tão pouco comum gente que devolve! Assim como caixas também frequentemente não têm moedinhas
e arredondam o troco. Já estive em restaurantes que ‘arredondaram’ em vários reais, sem nem dar explicação.
Agora, pagando com cartão, a prática está acabando. O que eu falo vale para gente rica, classe média ou pobre.
Um amigo meu, dermatologista, tinha duas clientes que viviam à base de champanhe. Se encheram de Botox.
(E o produto custa para o médico.) Deram um cheque sem fundos e foram meses para receber. Botar Botox não
[45] é o mesmo que passar fome, onde a gente até entende o roubo de comida por desespero. Mas acontece. Como
ocorre também entre os médicos. Se você for a qualquer médico e ele disser:
– Eu prefiro que o remédio seja manipulado, tenho mais confiança.
E depois indicar a farmácia, já sabe. São 30% que vão para o bolso dele. Exatamente. As farmácias de
manipulação têm o costume de pagar essa percentagem aos médicos que dão a receita.
[50] Os exemplos não acabariam nunca. A verdade é esta: nós todos vivemos cercados de pequenas
corrupções. Acorrupção maior é apenas a expressão de um tipo de vida que achamos até normal.
CARRASCO, Walcyr. Disponível em: . Acesso em: 20 out. 2016
Uma leitura atenta do Texto I nos permite verificar duas marcas que são muito comuns nas crônicas de Walcyr Carrasco: a fluidez e a dinamicidade da narrativa.
O recurso linguístico empregado pelo autor para conferir essas marcas ao texto é
06
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