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Questão 8379380
AUTORAIS POR 7AF 010 ENU003 2019O Ateu

Era uma vez, já faz muito tempo, havia um homem que era ateu. Naquele pequeno povoado onde morava não existia nenhum outro ateu igual a ele, de forma que o coitado vivia em grande isolamento. Mas era orgulhoso e não se queixava, mesmo quando se sentia mais solitário, por exemplo, nos dias de domingo em que todo o povo da terra ia ouvir missa e ele ficava vagando entre as árvores da praça; ou na véspera de Natal, quando as pessoas só se preocupavam com o Presépio e com a Missa do Galo. Tocavam os foguetes, os sinos repicavam, todo o mundo se alegrava e ia cear, mas o ateu declinava os convites que lhe faziam: não tendo rezado, não se achava com direito à ceia, pois ele, mesmo ateu, não deixava de ser honesto; trancava-se em casa e ficava de vela acesa, lendo um dos seus livros de ateísmo. E, se alguma das pessoas vindas de longe para assistir às festas naquele povoado, estranhava a silhueta do homem solitário a ler junto à fresca da janela e perguntava por que não estava ele na missa ou na ceia, o povo da terra explicava:
— Ele não pode, coitado. É o nosso ateu.
No mais, o ateu vivia como os outros. Trabalhava no seu ofício, plantava couve e orégano no quintal, criava dois cachorros perdigueiros e, à boca da noite, tomava parte na roda dos conterrâneos que conversavam sentados nos degraus do chafariz. E, quando a conversa tocava em assunto de religião, sempre havia um a observar:
— Você, que é ateu...
Mas, então chegou um ano em que o nosso ateu, por diversas razões, parece que deu para se sentir ainda mais só. Esqueci-me de contar que ele era solteiro. Embora a cidade alimentasse certo orgulho em possuir aquela singularidade — um ateu público —, as moças não sentiam coragem de se casar com um homem assim marcado e que, mal expirasse, iria decretado para o inferno. Veio uma peste canina e lhe matou os dois cachorros perdigueiros; parecia castigo para mais agravar a solidão do pobre ateu. E os livros dele, de tão lidos e relidos, já não lhe contavam mais nada. De dia, o trabalho ajudava a fazer companhia; e de tarde tinha os amigos. Mas nessas eras antigas os homens eram muito religiosos e grande parte do tempo levavam na igreja: de manhã era a missa, de tarde o terço, de noite a novena e, a qualquer pequena festa, as procissões. E nessas horas numerosas em que toda a gente se metia na igreja, o ateu saía de casa, sentava à sombra do cruzeiro, sentia o cheiro bom do incenso queimando nos turíbulos, e lhe dava uma certa vontade de entrar, de ver o dourado nas vestes dos santos, e escutar o belo latim do padre. Mas continha-se; que diria o povo se o visse lá dentro?
Outras ocasiões de inveja tinha-as nos dias de procissão, quando todos os seus amigos vestiam uma opa de seda colorida e iam carregar o andor, as varas do pálio ou os tocheiros acesos, e ele ficava nas esquinas, as mãos penduradas dos cotovelos, na sua roupa velha do diário. Então voltava a trabalhar, embora fosse dia de festa, e ninguém se escandalizava com isso, pois todos compreendiam a sua condição de ateu, embora lhe lamentassem a desventura.
E foi aí, na altura do fim desse ano, apareceu uma moça — por sinal sobrinha do padre — que se apaixonou pelo ateu. Como começou ninguém sabe, mas o amor tem disso: vai passando uma moça pela rua, vê um homem que toda a vida viu, e de repente sente um baque no peito e está amando aquele homem.
Ele a princípio ficou apenas enternecido, ante os olhos que ela lhe punha, tão doces e amigos; mas depois, descobrindo-se amado — ele, a quem ninguém amava —, começou a amá-la também.
E todas as pessoas do lugarejo lamentavam os namorados, sabendo que não podiam pensar em casamento, que o padre não iria entregar a sua ovelhinha inocente às mãos de um ateu confesso.
Assim chegou o Natal e foi arrumado o Presépio e começou a romaria dos visitantes que iam beijar o pé do Menino. E a namorada do ateu deu de teimar que ele a acompanhasse nessa visita obrigatória. Ele dizia que não e só com muito custo consentiria em entrar na sala e ficar a um canto, enquanto ela fizesse a sua devoção. Mas assim a rapariga não aceitava:
— Que é que custa um beijo" Você não me beija" Ele sorria:
— Mas você é gente, é de carne e eu lhe quero bem. O Menino, como vocês chamam, é um bonequinho de louça.
A moça argumentou que de louça também era a xícara que ele levava aos lábios e não lhe fazia mal nenhum. Ele então alegou o seu amor-próprio. Afinal era o ateu dali, o único. A moça nesse ponto começou a chorar, a dizer que se ele tinha mais amor-próprio do que amor a ela, estava tudo acabado. O ateu se assustou com a ameaça e consentiu, embora constrangido. Acompanhou a moça triunfante; entrou na fila atrás dela, enfrentou os olhares de espanto. De um em um, os devotos paravam diante da manjedoura, dobravam o joelho, rezavam uma jaculatória e beijavam o pé do Menino. Chegou a vez da namorada que, feita a sua reverência e dado o beijo, virou-se e sorriu para o seu bom ateu, a fim de o animar. Ele correu o olhar em torno e viu em todos o mesmo ar de animação e esperança. Resolveu-se: dobrou o joelho áspero, curvou a cabeça sobre os pezinhos do santo. E sentiu debaixo dos lábios, não o frio da porcelana, mas o calor da carne, o movimento, a pulsação da carne. Ergueu os olhos assombrado. Encarou o Menino e viu que Ele lhe sorria radioso, e dos olhos lhe saía uma luz que jamais olhos de louça teriam.
Dizem que o ateu caiu no chão, com os braços em cruz, chorando e adorando. E naquela noite de Natal acabou-se o único ateu do povoado.
Mas dizem também que ele não se casou com a namorada. Não podia, pois largou tudo e foi ser frade.
QUEIROZ, Rachel. O Brasileiro Perplexo. Porto Alegre: Editora do Autor, 1963, pp. 112-115.
Glossário:
opa: tipo de veste ou capa com aberturas em lugar das mangas, geralmente usada em cerimônias religiosas.
turíbulo: recipiente circular de metal, usado em funções litúrgicas, provido de tampa e pendente de correntes que permitem movê-lo, em cujo interior se queima incenso; incensário.
jaculatória: oração breve, pronunciada ou rezada mentalmente.
enternecido: comovido
Analise a frase “Dizem que o ateu caiu no chão, com os braços em cruz, chorando e adorando.” e assinale a alternativa incorreta. A seguir, corrija o erro da proposição assinalada.Questão 8379294
AUTORAIS POR 6AF 010 ENU008 2019Fábula canina
As crianças tanto insistiram que o pai acabou cedendo: compraria um cachorro. Como não conhecia nada de cachorros, procurou o sogro, que conhecia tudo. O sogro disse que sabia onde conseguir o cachorro ideal para as crianças: um “spaslov siberiano”. Uma raça criada especificamente para os filhos da família imperial russa.
O “spaslov” era branco, peludo e pacífico. As crianças poderiam fazer o que quisessem com ele. Era um cachorro inteligente, facilmente treinável, que só dava algum trabalho porque tinha certos hábitos peculiares. Não só suas refeições tinham que ser em dois serviços ― primeiro uma entrada, depois o prato principal ― como, entre os dois serviços, ele precisava de um sorbet para limpar o paladar. Também precisava de uma máscara para dormir, pois era extremamente sensível à luz. E, em certos meses do ano, que correspondiam ao inverno europeu, era dado a períodos de depressão, que os especialistas chamavam de “nostalgia da neve”. Fora isso, era um ótimo animal, dócil como poucos e excelente companheiro.
O pai hesitou, mas as crianças ficaram entusiasmadíssimas com a descrição do “spaslov” (um cachorro russo!) e exigiram a sua compra. Já tinham até um nome pronto ― Natasha ― que teve que ser mudado quando o “spaslov” chegou e descobriram que era macho. Todos se apaixonaram pelo Natasho. Inclusive o pai, que volta e meia se pegava estudando o cachorro, e no outro dia notou que o cachorro também o estudava, com algo no olhar.
O que será que ele pensa de nós? — pensava o pai. Nós o tratamos bem, mas não podemos lhe dar o tratamento imperial que a sua linhagem exige. Passadas as primeiras semanas ninguém mais se preocupava em lhe servir os dois pratos com um sorbet no meio. E ninguém mais lhe botava a máscara para dormir. Ele tinha que enterrar a cabeça numa coberta, na sua caixa de dormir no canto da cozinha, para que a vaga fosforescência do relógio do micro-ondas não impedisse seu sono.
O pai não sabe se sonhou ou se aconteceu. Acordou no meio da noite e viu o Natasho sentado ao lado da cama, olhando para o seu rosto. Como era uma noite de lua cheia, o cachorro talvez não conseguira dormir nem com o cobertor tapando os olhos. Que agora estavam fixos nos olhos do homem, querendo dizer o quê? O pai não contou para ninguém, mas teve a impressão que o cachorro o olhava como se olha um enigma. Era um olhar de incompreensão.
Podia ser cansaço. Fora um dia cheio para Natasho, que correra com as crianças na calçada e servira de cavalo para o caçula. Podia ser melancolia, a tal “nostalgia da neve”. Mas não, o cachorro estava tentando decifrá-lo.
Eu também não sou o que deveria ser, pensou o pai. Estou na profissão errada, possivelmente na família errada, certamente no lugar errado. Meus genes estão programados para outro continente, para outra vida. O que o olhar do Natasho dizia era que para um cachorro não tinha remédio, suas alternativas eram limitadas e, mesmo, a Rússia estava longe. Mas e ele" Qual era a sua desculpa"
Mas o pai acha que pode ter sido um sonho.
(Adaptado: VERÍSSIMO, Luís Fernando. disponível em: <principo.org/um-homem-chamado-cordeiro-abre-a-agenda-em-cima-da-sua-mesa-de.html?page=69>)
1. Sorbet: (pronuncia-se “sorbê”) tipo de sorvete feito à base de água, mais macio e granuloso que os sorvetes tradicionais, não contêm gordura nem gemas de ovos.
2. Nostalgia: Saudade.
3. Fosforescência: A fosforescência é um caso particular de um fenômeno geral denominado luminescência, sendo um tipo de fotoluminescência relacionado à capacidade que uma espécie química tem de emitir luz, mesmo no escuro.
4. Genes: é a unidade funcional da hereditariedade onde estão presentes os ácidos nucleicos, portadores de informações genéticas que proporcionam a diversidade entre os indivíduos.
Leia as sentenças abaixo para responder ao teste.
“Como não nada de cachorros, procurou o sogro, que conhecia tudo.”
“O “spaslov” branco, peludo e pacífico.”
“Os especialistas de nostalgia da neve.”
Os verbos podem expressar ação, estado ou mudança de estado e fenômenos da natureza. Considerando o contexto, os verbos destacados acima exprimem, respectivamente:
Questão 8378670
AUTORAIS POR 7AF 002 ENU004 2019Assinale a alternativa em que todas as palavras destacadas são artigos.
Questão 8378669
AUTORAIS POR 7AF 002 ENU004 2019Na frase "Pedro é tão baixo quanto a Ana", o adjetivo está no grau:
Questão 8378614
AUTORAIS POR 7AF 002 ENU004 2019Analise as regras de acentuação das palavras colégio, sanduíche e época. Qual das alternativas abaixo possuem a mesma regra de acentuação?
Questão 8376818
AUTORAIS POR 6AF 018 ENU006 2019Existem muitas definições de sujeito. Uma delas diz que o sujeito é aquele que pratica a ação verbal.
Assinale a alternativa que contraria tal definição.
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