Questões de EFAF Português
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Questão 8369765
EFOMM EFOMM 2007 1 FaseU MATPOR 2007Leia atentamente o seguinte texto:
Seca
Era hora do almoço dos trabalhadores. Enquanto os homens comiam lá dentro, o fazendeiro velho sentava-se na rede do alpendre, à frente de casa espiando o sol no céu, que tinia como vidro; procurando desviar os olhos da água do açude, lá além, que dentro de mais um mês estaria virada de lama.
Os dois cabras se aproximaram sem que ele pressentisse. Era um alto e um baixo; o baixo grosso e escuro, vestido numa camisa de algodãozinho encardido. O alto era alourado e não se podia dizer que estivesse vestido de coisa nenhuma, porque era farrapo só. O grosso na mão trazia um couro de cabra, ainda pingando sangue, esfolado que fora fazia pouco. E nem tirou o caco de chapéu da cabeça, nem salvou ao menos.
O velho até se assustou e bruscamente se pôs a cavalo na rede, a escutar a voz grossa e áspera, tal e qual quem falava:
— Cidadão, vim lhe vender este couro de bode. Aquele “cidadão”, assim desabrido, já dizia tudo. Ninguém chega de boa atenção em terreno alheio sem dar bom-dia. E tratando o dono da casa de cidadão. Assim, o fazendeiro achou melhor fingir que não ouvira e foi-se pondo de pé.
— O quê" Que é que você quer"
O homem escuro botou o couro em cima do parapeito e o sangue escorreu num fio pelo cal da parede:
— Estou arranchado com minha família debaixo daquele juazeiro grande, ali. Essa cabra passou perto — não sei de quem era. Matei, e a mulher está cozinhando a carne para comer. Agora, o couro — o senhor ou me dá dinheiro por ele, ou me dá farinha.
— E de quem é essa cabra" É minha" Quem lhe deu ordem para matar?
O velho estava tão furioso que o dedo dele, espetado no ar, tremia. E o loureba esfarrapado chegou perto e deu a sua risadinha:
— Ninguém perguntou a ela o nome do dono...
Mas o outro, sempre sério, olhou o velho na cara:
— Matei com ordem da fome. O senhor quer ordem melhor?
Nesse meio, os homens que almoçavam lá dentro escutaram as vozes alteradas e vieram ver o que havia. Eram uns doze — foram aparecendo pelo oitão da casa, de um em um, e se abriram em redor dos estranhos no terreiro.
Aí o velho se vendo garantido, começou a gritar:
— Na minha terra só eu dou ordem! Vocês são muito é atrevidos — me matarem o bicho e ainda me trazerem o couro pra vender, por desaforo! Chico Luís, veja aí de quem é o sinal dessa criação.
O feitor largou a foice no chão, puxou as orelhas do couro, e virou-se achando graça para um dos companheiros: era a sua cabrinha, não era mesmo, compadre Augusto? Está aqui o sinal...
O Augusto veio olhar também e ficou danado:
— Seus perversos, a cabra era da minha menina beber leite, estava cheia de cabrito novo!
Mas o olho do homem escuro era feio e, se ele se assustara vendo-se cercado pelos cabras da fazenda, não deu parecença. O loureba é que virava a cara de um lado para outro, procurando saída; ainda levou a mão ao quadril, tateou o cabo da faca — mas cada um dos homens tinha uma foice, um terçado, um ferro na mão.
Nesse pé o fazendeiro, para acabar com a história, resolveu mostrar bom coração; e gritou para o corredor:
— Menina! Manda aí uma cuia com um bocado de farinha!
Depois, retornando ao homem:
— Eu podia mandar prender vocês, para aprenderem a não matar bicho alheio! Mas têm crianças, não é? Tenho pena das crianças! Leve essa farinha, comam e tratem de ir embora. Daqui a uma hora quero o pé de juazeiro limpo e vocês na estrada. Podem ir!
O homem recebeu a cuia, não disse nada, saiu sem olhar para trás. O outro acompanhou, meio temeroso, tirou ainda o chapéu em despedida, e pegou no passo do companheiro. O velho reclamava em voz alta — cabra desgraçado, além de fazer o malfeito, recebe o favor e nem sequer abana o rabo.
Os trabalhadores, calados, acompanhavam com os olhos os dois estranhos que marchavam um atrás do outro, na direção do juazeiro, do qual só se avistava a copa alta ali no terreiro. Ninguém sabe o que pensavam; o dono da cabra deu de mão no couro e foi com ele para trás da casa.
Aí a sineta bateu e os homens saíram para o serviço. Passando pelo juazeiro, lá viram a família ao redor do fogo, os meninos procurando pescar pedaços da carne que fervia numa lata. Mas o homem escuro, encostado ao tronco, via-os passar, de braços cruzados, sem baixar os olhos. Ainda foi o dono da cabra que baixou os seus; explicou depois que não gostava de briga.
MORALIDADE: Este caso aconteceu mesmo. Faz mais de trinta anos escrevi uma história de cabra morta por retirante, mas era diferente. Então, o homem sentia dor de consciência, e até se humilhou quando o dono do bicho morto o chamou de ladrão. Agora não é mais assim. Agora eles sabem que a fome dá um direito que passa por cima de qualquer direito dos outros. A moralidade da história é mesmo esta: tudo mudou, mudou muito.
QUEIROZ, Rachel de. Cenas brasileiras. São Paulo: Ática, 1997, p. 14-17. (Para gostar de ler).
Lido o texto, observe atentamente cada quesito e assinale somente uma alternativa correta.
Questão 8369764
EFOMM EFOMM 2007 1 FaseU MATPOR 2007Leia atentamente o seguinte texto:
Seca
Era hora do almoço dos trabalhadores. Enquanto os homens comiam lá dentro, o fazendeiro velho sentava-se na rede do alpendre, à frente de casa espiando o sol no céu, que tinia como vidro; procurando desviar os olhos da água do açude, lá além, que dentro de mais um mês estaria virada de lama.
Os dois cabras se aproximaram sem que ele pressentisse. Era um alto e um baixo; o baixo grosso e escuro, vestido numa camisa de algodãozinho encardido. O alto era alourado e não se podia dizer que estivesse vestido de coisa nenhuma, porque era farrapo só. O grosso na mão trazia um couro de cabra, ainda pingando sangue, esfolado que fora fazia pouco. E nem tirou o caco de chapéu da cabeça, nem salvou ao menos.
O velho até se assustou e bruscamente se pôs a cavalo na rede, a escutar a voz grossa e áspera, tal e qual quem falava:
— Cidadão, vim lhe vender este couro de bode. Aquele “cidadão”, assim desabrido, já dizia tudo. Ninguém chega de boa atenção em terreno alheio sem dar bom-dia. E tratando o dono da casa de cidadão. Assim, o fazendeiro achou melhor fingir que não ouvira e foi-se pondo de pé.
— O quê" Que é que você quer"
O homem escuro botou o couro em cima do parapeito e o sangue escorreu num fio pelo cal da parede:
— Estou arranchado com minha família debaixo daquele juazeiro grande, ali. Essa cabra passou perto — não sei de quem era. Matei, e a mulher está cozinhando a carne para comer. Agora, o couro — o senhor ou me dá dinheiro por ele, ou me dá farinha.
— E de quem é essa cabra" É minha" Quem lhe deu ordem para matar?
O velho estava tão furioso que o dedo dele, espetado no ar, tremia. E o loureba esfarrapado chegou perto e deu a sua risadinha:
— Ninguém perguntou a ela o nome do dono...
Mas o outro, sempre sério, olhou o velho na cara:
— Matei com ordem da fome. O senhor quer ordem melhor?
Nesse meio, os homens que almoçavam lá dentro escutaram as vozes alteradas e vieram ver o que havia. Eram uns doze — foram aparecendo pelo oitão da casa, de um em um, e se abriram em redor dos estranhos no terreiro.
Aí o velho se vendo garantido, começou a gritar:
— Na minha terra só eu dou ordem! Vocês são muito é atrevidos — me matarem o bicho e ainda me trazerem o couro pra vender, por desaforo! Chico Luís, veja aí de quem é o sinal dessa criação.
O feitor largou a foice no chão, puxou as orelhas do couro, e virou-se achando graça para um dos companheiros: era a sua cabrinha, não era mesmo, compadre Augusto? Está aqui o sinal...
O Augusto veio olhar também e ficou danado:
— Seus perversos, a cabra era da minha menina beber leite, estava cheia de cabrito novo!
Mas o olho do homem escuro era feio e, se ele se assustara vendo-se cercado pelos cabras da fazenda, não deu parecença. O loureba é que virava a cara de um lado para outro, procurando saída; ainda levou a mão ao quadril, tateou o cabo da faca — mas cada um dos homens tinha uma foice, um terçado, um ferro na mão.
Nesse pé o fazendeiro, para acabar com a história, resolveu mostrar bom coração; e gritou para o corredor:
— Menina! Manda aí uma cuia com um bocado de farinha!
Depois, retornando ao homem:
— Eu podia mandar prender vocês, para aprenderem a não matar bicho alheio! Mas têm crianças, não é? Tenho pena das crianças! Leve essa farinha, comam e tratem de ir embora. Daqui a uma hora quero o pé de juazeiro limpo e vocês na estrada. Podem ir!
O homem recebeu a cuia, não disse nada, saiu sem olhar para trás. O outro acompanhou, meio temeroso, tirou ainda o chapéu em despedida, e pegou no passo do companheiro. O velho reclamava em voz alta — cabra desgraçado, além de fazer o malfeito, recebe o favor e nem sequer abana o rabo.
Os trabalhadores, calados, acompanhavam com os olhos os dois estranhos que marchavam um atrás do outro, na direção do juazeiro, do qual só se avistava a copa alta ali no terreiro. Ninguém sabe o que pensavam; o dono da cabra deu de mão no couro e foi com ele para trás da casa.
Aí a sineta bateu e os homens saíram para o serviço. Passando pelo juazeiro, lá viram a família ao redor do fogo, os meninos procurando pescar pedaços da carne que fervia numa lata. Mas o homem escuro, encostado ao tronco, via-os passar, de braços cruzados, sem baixar os olhos. Ainda foi o dono da cabra que baixou os seus; explicou depois que não gostava de briga.
MORALIDADE: Este caso aconteceu mesmo. Faz mais de trinta anos escrevi uma história de cabra morta por retirante, mas era diferente. Então, o homem sentia dor de consciência, e até se humilhou quando o dono do bicho morto o chamou de ladrão. Agora não é mais assim. Agora eles sabem que a fome dá um direito que passa por cima de qualquer direito dos outros. A moralidade da história é mesmo esta: tudo mudou, mudou muito.
QUEIROZ, Rachel de. Cenas brasileiras. São Paulo: Ática, 1997, p. 14-17. (Para gostar de ler).
Lido o texto, observe atentamente cada quesito e assinale somente uma alternativa correta.
Questão 8369763
EFOMM EFOMM 2007 1 FaseU MATPOR 2007Leia atentamente o seguinte texto:
Seca
Era hora do almoço dos trabalhadores. Enquanto os homens comiam lá dentro, o fazendeiro velho sentava-se na rede do alpendre, à frente de casa espiando o sol no céu, que tinia como vidro; procurando desviar os olhos da água do açude, lá além, que dentro de mais um mês estaria virada de lama.
Os dois cabras se aproximaram sem que ele pressentisse. Era um alto e um baixo; o baixo grosso e escuro, vestido numa camisa de algodãozinho encardido. O alto era alourado e não se podia dizer que estivesse vestido de coisa nenhuma, porque era farrapo só. O grosso na mão trazia um couro de cabra, ainda pingando sangue, esfolado que fora fazia pouco. E nem tirou o caco de chapéu da cabeça, nem salvou ao menos.
O velho até se assustou e bruscamente se pôs a cavalo na rede, a escutar a voz grossa e áspera, tal e qual quem falava:
— Cidadão, vim lhe vender este couro de bode. Aquele “cidadão”, assim desabrido, já dizia tudo. Ninguém chega de boa atenção em terreno alheio sem dar bom-dia. E tratando o dono da casa de cidadão. Assim, o fazendeiro achou melhor fingir que não ouvira e foi-se pondo de pé.
— O quê" Que é que você quer"
O homem escuro botou o couro em cima do parapeito e o sangue escorreu num fio pelo cal da parede:
— Estou arranchado com minha família debaixo daquele juazeiro grande, ali. Essa cabra passou perto — não sei de quem era. Matei, e a mulher está cozinhando a carne para comer. Agora, o couro — o senhor ou me dá dinheiro por ele, ou me dá farinha.
— E de quem é essa cabra" É minha" Quem lhe deu ordem para matar?
O velho estava tão furioso que o dedo dele, espetado no ar, tremia. E o loureba esfarrapado chegou perto e deu a sua risadinha:
— Ninguém perguntou a ela o nome do dono...
Mas o outro, sempre sério, olhou o velho na cara:
— Matei com ordem da fome. O senhor quer ordem melhor?
Nesse meio, os homens que almoçavam lá dentro escutaram as vozes alteradas e vieram ver o que havia. Eram uns doze — foram aparecendo pelo oitão da casa, de um em um, e se abriram em redor dos estranhos no terreiro.
Aí o velho se vendo garantido, começou a gritar:
— Na minha terra só eu dou ordem! Vocês são muito é atrevidos — me matarem o bicho e ainda me trazerem o couro pra vender, por desaforo! Chico Luís, veja aí de quem é o sinal dessa criação.
O feitor largou a foice no chão, puxou as orelhas do couro, e virou-se achando graça para um dos companheiros: era a sua cabrinha, não era mesmo, compadre Augusto? Está aqui o sinal...
O Augusto veio olhar também e ficou danado:
— Seus perversos, a cabra era da minha menina beber leite, estava cheia de cabrito novo!
Mas o olho do homem escuro era feio e, se ele se assustara vendo-se cercado pelos cabras da fazenda, não deu parecença. O loureba é que virava a cara de um lado para outro, procurando saída; ainda levou a mão ao quadril, tateou o cabo da faca — mas cada um dos homens tinha uma foice, um terçado, um ferro na mão.
Nesse pé o fazendeiro, para acabar com a história, resolveu mostrar bom coração; e gritou para o corredor:
— Menina! Manda aí uma cuia com um bocado de farinha!
Depois, retornando ao homem:
— Eu podia mandar prender vocês, para aprenderem a não matar bicho alheio! Mas têm crianças, não é? Tenho pena das crianças! Leve essa farinha, comam e tratem de ir embora. Daqui a uma hora quero o pé de juazeiro limpo e vocês na estrada. Podem ir!
O homem recebeu a cuia, não disse nada, saiu sem olhar para trás. O outro acompanhou, meio temeroso, tirou ainda o chapéu em despedida, e pegou no passo do companheiro. O velho reclamava em voz alta — cabra desgraçado, além de fazer o malfeito, recebe o favor e nem sequer abana o rabo.
Os trabalhadores, calados, acompanhavam com os olhos os dois estranhos que marchavam um atrás do outro, na direção do juazeiro, do qual só se avistava a copa alta ali no terreiro. Ninguém sabe o que pensavam; o dono da cabra deu de mão no couro e foi com ele para trás da casa.
Aí a sineta bateu e os homens saíram para o serviço. Passando pelo juazeiro, lá viram a família ao redor do fogo, os meninos procurando pescar pedaços da carne que fervia numa lata. Mas o homem escuro, encostado ao tronco, via-os passar, de braços cruzados, sem baixar os olhos. Ainda foi o dono da cabra que baixou os seus; explicou depois que não gostava de briga.
MORALIDADE: Este caso aconteceu mesmo. Faz mais de trinta anos escrevi uma história de cabra morta por retirante, mas era diferente. Então, o homem sentia dor de consciência, e até se humilhou quando o dono do bicho morto o chamou de ladrão. Agora não é mais assim. Agora eles sabem que a fome dá um direito que passa por cima de qualquer direito dos outros. A moralidade da história é mesmo esta: tudo mudou, mudou muito.
QUEIROZ, Rachel de. Cenas brasileiras. São Paulo: Ática, 1997, p. 14-17. (Para gostar de ler).
Lido o texto, observe atentamente cada quesito e assinale somente uma alternativa correta.
Questão 8369762
EFOMM EFOMM 2007 1 FaseU MATPOR 2007Leia atentamente o seguinte texto:
Seca
Era hora do almoço dos trabalhadores. Enquanto os homens comiam lá dentro, o fazendeiro velho sentava-se na rede do alpendre, à frente de casa espiando o sol no céu, que tinia como vidro; procurando desviar os olhos da água do açude, lá além, que dentro de mais um mês estaria virada de lama.
Os dois cabras se aproximaram sem que ele pressentisse. Era um alto e um baixo; o baixo grosso e escuro, vestido numa camisa de algodãozinho encardido. O alto era alourado e não se podia dizer que estivesse vestido de coisa nenhuma, porque era farrapo só. O grosso na mão trazia um couro de cabra, ainda pingando sangue, esfolado que fora fazia pouco. E nem tirou o caco de chapéu da cabeça, nem salvou ao menos.
O velho até se assustou e bruscamente se pôs a cavalo na rede, a escutar a voz grossa e áspera, tal e qual quem falava:
— Cidadão, vim lhe vender este couro de bode. Aquele “cidadão”, assim desabrido, já dizia tudo. Ninguém chega de boa atenção em terreno alheio sem dar bom-dia. E tratando o dono da casa de cidadão. Assim, o fazendeiro achou melhor fingir que não ouvira e foi-se pondo de pé.
— O quê" Que é que você quer"
O homem escuro botou o couro em cima do parapeito e o sangue escorreu num fio pelo cal da parede:
— Estou arranchado com minha família debaixo daquele juazeiro grande, ali. Essa cabra passou perto — não sei de quem era. Matei, e a mulher está cozinhando a carne para comer. Agora, o couro — o senhor ou me dá dinheiro por ele, ou me dá farinha.
— E de quem é essa cabra" É minha" Quem lhe deu ordem para matar?
O velho estava tão furioso que o dedo dele, espetado no ar, tremia. E o loureba esfarrapado chegou perto e deu a sua risadinha:
— Ninguém perguntou a ela o nome do dono...
Mas o outro, sempre sério, olhou o velho na cara:
— Matei com ordem da fome. O senhor quer ordem melhor?
Nesse meio, os homens que almoçavam lá dentro escutaram as vozes alteradas e vieram ver o que havia. Eram uns doze — foram aparecendo pelo oitão da casa, de um em um, e se abriram em redor dos estranhos no terreiro.
Aí o velho se vendo garantido, começou a gritar:
— Na minha terra só eu dou ordem! Vocês são muito é atrevidos — me matarem o bicho e ainda me trazerem o couro pra vender, por desaforo! Chico Luís, veja aí de quem é o sinal dessa criação.
O feitor largou a foice no chão, puxou as orelhas do couro, e virou-se achando graça para um dos companheiros: era a sua cabrinha, não era mesmo, compadre Augusto? Está aqui o sinal...
O Augusto veio olhar também e ficou danado:
— Seus perversos, a cabra era da minha menina beber leite, estava cheia de cabrito novo!
Mas o olho do homem escuro era feio e, se ele se assustara vendo-se cercado pelos cabras da fazenda, não deu parecença. O loureba é que virava a cara de um lado para outro, procurando saída; ainda levou a mão ao quadril, tateou o cabo da faca — mas cada um dos homens tinha uma foice, um terçado, um ferro na mão.
Nesse pé o fazendeiro, para acabar com a história, resolveu mostrar bom coração; e gritou para o corredor:
— Menina! Manda aí uma cuia com um bocado de farinha!
Depois, retornando ao homem:
— Eu podia mandar prender vocês, para aprenderem a não matar bicho alheio! Mas têm crianças, não é? Tenho pena das crianças! Leve essa farinha, comam e tratem de ir embora. Daqui a uma hora quero o pé de juazeiro limpo e vocês na estrada. Podem ir!
O homem recebeu a cuia, não disse nada, saiu sem olhar para trás. O outro acompanhou, meio temeroso, tirou ainda o chapéu em despedida, e pegou no passo do companheiro. O velho reclamava em voz alta — cabra desgraçado, além de fazer o malfeito, recebe o favor e nem sequer abana o rabo.
Os trabalhadores, calados, acompanhavam com os olhos os dois estranhos que marchavam um atrás do outro, na direção do juazeiro, do qual só se avistava a copa alta ali no terreiro. Ninguém sabe o que pensavam; o dono da cabra deu de mão no couro e foi com ele para trás da casa.
Aí a sineta bateu e os homens saíram para o serviço. Passando pelo juazeiro, lá viram a família ao redor do fogo, os meninos procurando pescar pedaços da carne que fervia numa lata. Mas o homem escuro, encostado ao tronco, via-os passar, de braços cruzados, sem baixar os olhos. Ainda foi o dono da cabra que baixou os seus; explicou depois que não gostava de briga.
MORALIDADE: Este caso aconteceu mesmo. Faz mais de trinta anos escrevi uma história de cabra morta por retirante, mas era diferente. Então, o homem sentia dor de consciência, e até se humilhou quando o dono do bicho morto o chamou de ladrão. Agora não é mais assim. Agora eles sabem que a fome dá um direito que passa por cima de qualquer direito dos outros. A moralidade da história é mesmo esta: tudo mudou, mudou muito.
QUEIROZ, Rachel de. Cenas brasileiras. São Paulo: Ática, 1997, p. 14-17. (Para gostar de ler).
Lido o texto, observe atentamente cada quesito e assinale somente uma alternativa correta.
Questão 8369761
EFOMM EFOMM 2007 1 FaseU MATPOR 2007Leia atentamente o seguinte texto:
Seca
Era hora do almoço dos trabalhadores. Enquanto os homens comiam lá dentro, o fazendeiro velho sentava-se na rede do alpendre, à frente de casa espiando o sol no céu, que tinia como vidro; procurando desviar os olhos da água do açude, lá além, que dentro de mais um mês estaria virada de lama.
Os dois cabras se aproximaram sem que ele pressentisse. Era um alto e um baixo; o baixo grosso e escuro, vestido numa camisa de algodãozinho encardido. O alto era alourado e não se podia dizer que estivesse vestido de coisa nenhuma, porque era farrapo só. O grosso na mão trazia um couro de cabra, ainda pingando sangue, esfolado que fora fazia pouco. E nem tirou o caco de chapéu da cabeça, nem salvou ao menos.
O velho até se assustou e bruscamente se pôs a cavalo na rede, a escutar a voz grossa e áspera, tal e qual quem falava:
— Cidadão, vim lhe vender este couro de bode. Aquele “cidadão”, assim desabrido, já dizia tudo. Ninguém chega de boa atenção em terreno alheio sem dar bom-dia. E tratando o dono da casa de cidadão. Assim, o fazendeiro achou melhor fingir que não ouvira e foi-se pondo de pé.
— O quê" Que é que você quer"
O homem escuro botou o couro em cima do parapeito e o sangue escorreu num fio pelo cal da parede:
— Estou arranchado com minha família debaixo daquele juazeiro grande, ali. Essa cabra passou perto — não sei de quem era. Matei, e a mulher está cozinhando a carne para comer. Agora, o couro — o senhor ou me dá dinheiro por ele, ou me dá farinha.
— E de quem é essa cabra" É minha" Quem lhe deu ordem para matar?
O velho estava tão furioso que o dedo dele, espetado no ar, tremia. E o loureba esfarrapado chegou perto e deu a sua risadinha:
— Ninguém perguntou a ela o nome do dono...
Mas o outro, sempre sério, olhou o velho na cara:
— Matei com ordem da fome. O senhor quer ordem melhor?
Nesse meio, os homens que almoçavam lá dentro escutaram as vozes alteradas e vieram ver o que havia. Eram uns doze — foram aparecendo pelo oitão da casa, de um em um, e se abriram em redor dos estranhos no terreiro.
Aí o velho se vendo garantido, começou a gritar:
— Na minha terra só eu dou ordem! Vocês são muito é atrevidos — me matarem o bicho e ainda me trazerem o couro pra vender, por desaforo! Chico Luís, veja aí de quem é o sinal dessa criação.
O feitor largou a foice no chão, puxou as orelhas do couro, e virou-se achando graça para um dos companheiros: era a sua cabrinha, não era mesmo, compadre Augusto? Está aqui o sinal...
O Augusto veio olhar também e ficou danado:
— Seus perversos, a cabra era da minha menina beber leite, estava cheia de cabrito novo!
Mas o olho do homem escuro era feio e, se ele se assustara vendo-se cercado pelos cabras da fazenda, não deu parecença. O loureba é que virava a cara de um lado para outro, procurando saída; ainda levou a mão ao quadril, tateou o cabo da faca — mas cada um dos homens tinha uma foice, um terçado, um ferro na mão.
Nesse pé o fazendeiro, para acabar com a história, resolveu mostrar bom coração; e gritou para o corredor:
— Menina! Manda aí uma cuia com um bocado de farinha!
Depois, retornando ao homem:
— Eu podia mandar prender vocês, para aprenderem a não matar bicho alheio! Mas têm crianças, não é? Tenho pena das crianças! Leve essa farinha, comam e tratem de ir embora. Daqui a uma hora quero o pé de juazeiro limpo e vocês na estrada. Podem ir!
O homem recebeu a cuia, não disse nada, saiu sem olhar para trás. O outro acompanhou, meio temeroso, tirou ainda o chapéu em despedida, e pegou no passo do companheiro. O velho reclamava em voz alta — cabra desgraçado, além de fazer o malfeito, recebe o favor e nem sequer abana o rabo.
Os trabalhadores, calados, acompanhavam com os olhos os dois estranhos que marchavam um atrás do outro, na direção do juazeiro, do qual só se avistava a copa alta ali no terreiro. Ninguém sabe o que pensavam; o dono da cabra deu de mão no couro e foi com ele para trás da casa.
Aí a sineta bateu e os homens saíram para o serviço. Passando pelo juazeiro, lá viram a família ao redor do fogo, os meninos procurando pescar pedaços da carne que fervia numa lata. Mas o homem escuro, encostado ao tronco, via-os passar, de braços cruzados, sem baixar os olhos. Ainda foi o dono da cabra que baixou os seus; explicou depois que não gostava de briga.
MORALIDADE: Este caso aconteceu mesmo. Faz mais de trinta anos escrevi uma história de cabra morta por retirante, mas era diferente. Então, o homem sentia dor de consciência, e até se humilhou quando o dono do bicho morto o chamou de ladrão. Agora não é mais assim. Agora eles sabem que a fome dá um direito que passa por cima de qualquer direito dos outros. A moralidade da história é mesmo esta: tudo mudou, mudou muito.
QUEIROZ, Rachel de. Cenas brasileiras. São Paulo: Ática, 1997, p. 14-17. (Para gostar de ler).
Lido o texto, observe atentamente cada quesito e assinale somente uma alternativa correta.
Questão 8369714
CN CN 2006 1 FaseU POR 2007O amigo da onça
A Onça, que é bicho valente - mas nem sempre atilado, como se pensa — , estava quietinha no seu canto, quando lhe apareceu o compadre Lobo e lhe foi dizendo:— Saiba de uma coisa, comadre Onça: você - com perdão da palavra - não é, como supõe, o bicho mais valente e destemido que existe no mundo , nem também o Leão, com toda a sua prosa de rei dos animais.
— Como assim! - gritou a Onça, enfurecida — Então, como é isso, grande pedaço de idiota" Haverá bicho mais valente e poderoso do que eu"
O Lobo, adoçando a voz, respondeu:
— Ó comadre, me perdoe. Estou arrependido de dizer tal coisa ... Mas a minha intenção foi preveni-la contra um bicho terrível que apareceu nesta paragem. Uma pessoa prevenida vale por duas.
— Sim, não deixa você de ter alguma razão — acudiu a Onça mais acomodada. — Mas sempre quero saber o nome desse bicho. Como se chama?
— Esse bicho, comadre, chama-se homem, conforme me disse o amigo papagaio. Nunca vi em minha vida animal de mais perigosa valentia . Ele sim, e ninguém mais, é o que me parece ser mesmo o verdadeiro rei dos animais. Basta dizer que, de longe, o vi matar, com dois espirros, nada menos do que um leão e uma hiena . Ih! Comadre, com o estrondo dos espirros parecia que tudo ia pelos ares. Deus nos livre!
— Oh! Compadre, não me diga!
— É como lhe conto. E o que mais admira ê ser o bicho-homem de pequeno porte. Parece até fraco, e é muito mal servido de unhas e dentes. Deve ser um bicho misterioso e encantado.
— Pois bem, compadre, estou curiosa, e desejo que, sem demora, me conduza ao lugar onde se encontra tão estranho animal.
— Ah, comadre, peça-me tudo, menos isso. Pelos estragos que, de longe, vi o homem fazer com seus malditos espirros, nunca me atreveria a tal aventura ...
— Pois queira ou não queira, tem de mostrar-me o bicho, ou então, agora mesmo perderá a vida.
— Lá por isso não seja - disse o Lobo amedrontado. —Iremos. Mas havemos de tomar todas as precauções. —Eu com a sua licença— posso correr mais do que a comadre. Assim, levaremos uma embira daquelas que não arrebentam nuncaAmarro uma das pontas no pescoço da comadre e a outra em minha cintura. Em caso de perigo, se for preciso fugir, a comadre e eu corremos.
— Fugir! Veja lá o que diz! Você já viu, seu podrela, alguma vez onça fugir?
— Não me expliquei bem. Eu é que fugirei. A comadre será apenas arrastada por mim. Isso não é fugir. Está certo?
— Está bem. Faremos como propõe.
E partiram. A Onça com a embira atada ao pescoço, e o Lobo, muito respeitoso e tímido, a puxá-la.
Quando chegaram ao destino , o bicho-homem, surpreendido ao avistá-los, tirou da cinta a garrucha, e, atarantado, bateu fogo, isto é, espirrou, uma, duas vezes, que foi mesmo um estrondo de todos os diabos.
O Lobo então mais que depressa disparou numa corrida desabalada, redobrando quanto podia as forças para arrastar a Onça pela forte embira que tinha atado nopescoço dela .
De repente, já muito distante, o Lobo sentiu que a Onça estava mais pesada. Parou então e contemplou a companheira estendida no chão, com os dentes arreganhados, sem o mais leve movimento.
O Lobo, sem perceber que a Onça havia morrido enforcada no laço da embira - antes pensando que estivesse apenas cansada —, disse-lhe, tremendo como varas verdes.
— He lá, comadre! Não ri não que o negócio é sério!
GOMES, Lindolfo. IN:Os 100 melhores contos de humor da literatura universal. Org. Flávio Moreira da Costa. Rio de Janeiro: Ediouro, 2001, p. 522-3.
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