Questões de EFAF Português
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Questão 8367743
UNESP UNESP 2010 1 Fase1 Gerais 2010
Pensar em nada
A maravilha da corrida: basta colocar um pé na frente do outro.
Assim como numa família de atletas um garoto deve encontrar certa resistência ao começar a fumar, fui motivo de piada entre alguns parentes - quase todos intelectuais - quando souberam que eu estava correndo. “O esporte é bom pra gente”, disse minha avó, num almoço de domingo. “Fortalece o corpo e emburrece a mente.”
Hoje, dez anos depois daquele almoço, tenho certeza de que ela estava certa. O esporte emburrece a mente e o mais emburrecedor de todos os esportes inventados pelo homem é, sem sombra de dúvida, a corrida - por isso que eu gosto tanto.
Antes que o primeiro corredor indignado atire um tênis em minha direção (número 42, pisada pronada, por favor), explico-me. É claro que o esporte é fundamental em nossa formação. Não entendo bulhufas de pedagogia ou pediatria, mas imagino que jogos e exercícios ajudem a formar a coordenação motora, a percepção espacial, a lógica e os reflexos e ainda tragam mais outras tantas benesses ao conjunto psico-moto-neuro-blá-blá-blá. Quando falo em emburrecer, refiro-me ao delicioso momento do exercício, àquela hora em que você se esquece da infiltração no teto do banheiro, do enrosco na planilha do Almeidinha, da extração do siso na próxima semana, do pé na bunda que levou da Marilu, do frio que entra pela fresta da janela e do aquecimento global que pode acabar com tudo de uma vez. Você começa a correr e, naqueles 30, 40, 90 ou 180 minutos, todo esse fantástico computador que é o nosso cérebro, capaz de levar o homem à Lua, compor músicas e dividir um átomo, volta-se para uma única e simplíssima função: perna esquerda, perna direita, perna esquerda, perna direita, inspira, expira, inspira, expira, um, dois, um, dois.
A consciência é, de certa forma, um tormento. Penso, logo existo. Existo, logo me incomodo. A gravidade nos pesa sobre os ombros. Os anos agarram-se à nossa pele. A morte nos espreita adiante e quando uma voz feminina e desconhecida surge em nosso celular, não costuma ser a última da capa da Playboy, perguntando se temos programa para sábado, mas a mocinha do cartão de crédito avisando que a conta do cartão “encontra-se em aberto há 14 dias” e querendo saber se “há previsão de pagamento”.
Quando estamos correndo, não há previsão de pagamento. Não há previsão de nada porque passado e futuro foram anulados. Somos uma simples máquina presa ao presente. Somos reduzidos à biologia. Uma válvula bombando no meio do peito, uns músculos contraindo-se e expandindo-se nas pernas, um ou outro neurônio atento aos carros, buracos e cocôs de cachorro.
Poder, glória, dinheiro, mulheres, as tragédias gregas, tá bom, podem ser coisas boas, mas naquele momento nada disso interessa: eis-nos ali, mamíferos adultos, saudáveis, movimentando-nos sobre a Terra, e é só.
Antonio Prata. Pensar em nada. Runner S World, n. 7, São Paulo: Editora Abril, mai. 2009.
Pensar em nada
A maravilha da corrida: basta colocar um pé na frente do outro.
Assim como numa família de atletas um garoto deve encontrar certa resistência ao começar a fumar, fui motivo de piada entre alguns parentes - quase todos intelectuais - quando souberam que eu estava correndo. “O esporte é bom pra gente”, disse minha avó, num almoço de domingo. “Fortalece o corpo e emburrece a mente.”
Hoje, dez anos depois daquele almoço, tenho certeza de que ela estava certa. O esporte emburrece a mente e o mais emburrecedor de todos os esportes inventados pelo homem é, sem sombra de dúvida, a corrida - por isso que eu gosto tanto.
Antes que o primeiro corredor indignado atire um tênis em minha direção (número 42, pisada pronada, por favor), explico-me. É claro que o esporte é fundamental em nossa formação. Não entendo bulhufas de pedagogia ou pediatria, mas imagino que jogos e exercícios ajudem a formar a coordenação motora, a percepção espacial, a lógica e os reflexos e ainda tragam mais outras tantas benesses ao conjunto psico-moto-neuro-blá-blá-blá. Quando falo em emburrecer, refiro-me ao delicioso momento do exercício, àquela hora em que você se esquece da infiltração no teto do banheiro, do enrosco na planilha do Almeidinha, da extração do siso na próxima semana, do pé na bunda que levou da Marilu, do frio que entra pela fresta da janela e do aquecimento global que pode acabar com tudo de uma vez. Você começa a correr e, naqueles 30, 40, 90 ou 180 minutos, todo esse fantástico computador que é o nosso cérebro, capaz de levar o homem à Lua, compor músicas e dividir um átomo, volta-se para uma única e simplíssima função: perna esquerda, perna direita, perna esquerda, perna direita, inspira, expira, inspira, expira, um, dois, um, dois.
A consciência é, de certa forma, um tormento. Penso, logo existo. Existo, logo me incomodo. A gravidade nos pesa sobre os ombros. Os anos agarram-se à nossa pele. A morte nos espreita adiante e quando uma voz feminina e desconhecida surge em nosso celular, não costuma ser a última da capa da Playboy, perguntando se temos programa para sábado, mas a mocinha do cartão de crédito avisando que a conta do cartão “encontra-se em aberto há 14 dias” e querendo saber se “há previsão de pagamento”.
Quando estamos correndo, não há previsão de pagamento. Não há previsão de nada porque passado e futuro foram anulados. Somos uma simples máquina presa ao presente. Somos reduzidos à biologia. Uma válvula bombando no meio do peito, uns músculos contraindo-se e expandindo-se nas pernas, um ou outro neurônio atento aos carros, buracos e cocôs de cachorro.
Poder, glória, dinheiro, mulheres, as tragédias gregas, tá bom, podem ser coisas boas, mas naquele momento nada disso interessa: eis-nos ali, mamíferos adultos, saudáveis, movimentando-nos sobre a Terra, e é só.
Antonio Prata. Pensar em nada. Runner S World, n. 7, São Paulo: Editora Abril, mai. 2009.
O esporte é bom pra gente, fortalece o corpo e emburrece A MENTE. - Antes que o primeiro corredor indignado atire UM TÊNIS em minha direção (...) - Quando estamos correndo, não há PREVISÃO DE PAGAMENTO.
Os termos grafados com letras maiúsculas nas passagens acima, extraídas do texto apresentado, identificam-se pelo fato de exercerem a mesma função sintática nas orações de que fazem parte. Indique essa função:
Questão 8367741
UNESP UNESP 2010 1 Fase1 Gerais 2010
Pensar em nada
A maravilha da corrida: basta colocar um pé na frente do outro.
Assim como numa família de atletas um garoto deve encontrar certa resistência ao começar a fumar, fui motivo de piada entre alguns parentes - quase todos intelectuais - quando souberam que eu estava correndo. “O esporte é bom pra gente”, disse minha avó, num almoço de domingo. “Fortalece o corpo e emburrece a mente.”
Hoje, dez anos depois daquele almoço, tenho certeza de que ela estava certa. O esporte emburrece a mente e o mais emburrecedor de todos os esportes inventados pelo homem é, sem sombra de dúvida, a corrida - por isso que eu gosto tanto.
Antes que o primeiro corredor indignado atire um tênis em minha direção (número 42, pisada pronada, por favor), explico-me. É claro que o esporte é fundamental em nossa formação. Não entendo bulhufas de pedagogia ou pediatria, mas imagino que jogos e exercícios ajudem a formar a coordenação motora, a percepção espacial, a lógica e os reflexos e ainda tragam mais outras tantas benesses ao conjunto psico-moto-neuro-blá-blá-blá. Quando falo em emburrecer, refiro-me ao delicioso momento do exercício, àquela hora em que você se esquece da infiltração no teto do banheiro, do enrosco na planilha do Almeidinha, da extração do siso na próxima semana, do pé na bunda que levou da Marilu, do frio que entra pela fresta da janela e do aquecimento global que pode acabar com tudo de uma vez. Você começa a correr e, naqueles 30, 40, 90 ou 180 minutos, todo esse fantástico computador que é o nosso cérebro, capaz de levar o homem à Lua, compor músicas e dividir um átomo, volta-se para uma única e simplíssima função: perna esquerda, perna direita, perna esquerda, perna direita, inspira, expira, inspira, expira, um, dois, um, dois.
A consciência é, de certa forma, um tormento. Penso, logo existo. Existo, logo me incomodo. A gravidade nos pesa sobre os ombros. Os anos agarram-se à nossa pele. A morte nos espreita adiante e quando uma voz feminina e desconhecida surge em nosso celular, não costuma ser a última da capa da Playboy, perguntando se temos programa para sábado, mas a mocinha do cartão de crédito avisando que a conta do cartão “encontra-se em aberto há 14 dias” e querendo saber se “há previsão de pagamento”.
Quando estamos correndo, não há previsão de pagamento. Não há previsão de nada porque passado e futuro foram anulados. Somos uma simples máquina presa ao presente. Somos reduzidos à biologia. Uma válvula bombando no meio do peito, uns músculos contraindo-se e expandindo-se nas pernas, um ou outro neurônio atento aos carros, buracos e cocôs de cachorro.
Poder, glória, dinheiro, mulheres, as tragédias gregas, tá bom, podem ser coisas boas, mas naquele momento nada disso interessa: eis-nos ali, mamíferos adultos, saudáveis, movimentando-nos sobre a Terra, e é só.
Antonio Prata. Pensar em nada. Runner S World, n. 7, São Paulo: Editora Abril, mai. 2009.
A série de cinco períodos curtos com que se inicia o quarto parágrafo expressa, num crescendo, algumas preocupações existenciais do cronista. A partir do sexto período, porém, a expressão dessas grandes preocupações se frustra com a ocorrência trivial da ligação da moça do cartão de crédito. Essa técnica de enumeração ascendente que termina por uma súbita descendente constitui um recurso estilístico denominado:
Pensar em nada
A maravilha da corrida: basta colocar um pé na frente do outro.
Assim como numa família de atletas um garoto deve encontrar certa resistência ao começar a fumar, fui motivo de piada entre alguns parentes - quase todos intelectuais - quando souberam que eu estava correndo. “O esporte é bom pra gente”, disse minha avó, num almoço de domingo. “Fortalece o corpo e emburrece a mente.”
Hoje, dez anos depois daquele almoço, tenho certeza de que ela estava certa. O esporte emburrece a mente e o mais emburrecedor de todos os esportes inventados pelo homem é, sem sombra de dúvida, a corrida - por isso que eu gosto tanto.
Antes que o primeiro corredor indignado atire um tênis em minha direção (número 42, pisada pronada, por favor), explico-me. É claro que o esporte é fundamental em nossa formação. Não entendo bulhufas de pedagogia ou pediatria, mas imagino que jogos e exercícios ajudem a formar a coordenação motora, a percepção espacial, a lógica e os reflexos e ainda tragam mais outras tantas benesses ao conjunto psico-moto-neuro-blá-blá-blá. Quando falo em emburrecer, refiro-me ao delicioso momento do exercício, àquela hora em que você se esquece da infiltração no teto do banheiro, do enrosco na planilha do Almeidinha, da extração do siso na próxima semana, do pé na bunda que levou da Marilu, do frio que entra pela fresta da janela e do aquecimento global que pode acabar com tudo de uma vez. Você começa a correr e, naqueles 30, 40, 90 ou 180 minutos, todo esse fantástico computador que é o nosso cérebro, capaz de levar o homem à Lua, compor músicas e dividir um átomo, volta-se para uma única e simplíssima função: perna esquerda, perna direita, perna esquerda, perna direita, inspira, expira, inspira, expira, um, dois, um, dois.
A consciência é, de certa forma, um tormento. Penso, logo existo. Existo, logo me incomodo. A gravidade nos pesa sobre os ombros. Os anos agarram-se à nossa pele. A morte nos espreita adiante e quando uma voz feminina e desconhecida surge em nosso celular, não costuma ser a última da capa da Playboy, perguntando se temos programa para sábado, mas a mocinha do cartão de crédito avisando que a conta do cartão “encontra-se em aberto há 14 dias” e querendo saber se “há previsão de pagamento”.
Quando estamos correndo, não há previsão de pagamento. Não há previsão de nada porque passado e futuro foram anulados. Somos uma simples máquina presa ao presente. Somos reduzidos à biologia. Uma válvula bombando no meio do peito, uns músculos contraindo-se e expandindo-se nas pernas, um ou outro neurônio atento aos carros, buracos e cocôs de cachorro.
Poder, glória, dinheiro, mulheres, as tragédias gregas, tá bom, podem ser coisas boas, mas naquele momento nada disso interessa: eis-nos ali, mamíferos adultos, saudáveis, movimentando-nos sobre a Terra, e é só.
Antonio Prata. Pensar em nada. Runner S World, n. 7, São Paulo: Editora Abril, mai. 2009.
Questão 8367596
EFOMM EFOMM 2010 1 FaseU PORING 2010Bruno Lichtenstein
Rubem Braga
18 de Julho de 1939
Foi preso o menino Bruno Lichtenstein, que arrombou a Faculdade de Medicina. O menino Bruno Lichtenstein não é arrombador profissional. Apenas acontece que o menino Bruno Lichtenstein tem um amigo, e esse amigo é um cachorro, e esse cachorro ia ser trucidado cientificamente, para estudos, na Faculdade de Medicina. O poeta mineiro Djalma Andrade tem um soneto que acaba mais ou menos assim:
"se entre os amigos encontrei cachorros,
entre os cachorros encontrei-te, amigo”.
Mas com toda a certeza o menino Bruno Lichtenstein jamais leu esses versos. Também com certeza nunca lhe explicaram o que é vivissecção, nem lhe disseram que seu cão ia ser vivisseccionado. Tudo o que ele sabia é que lhe haviam carregado o cachorro e que iam matá-lo. Se fosse pedi-lo, naturalmente, não o dariam. Quem, neste mundo, haveria de se preocupar com o pobre menino Bruno Lichtenstein e o seu pobre cão? Mas o cachorro era seu amigo — e estava lá, metido em um porão, esperando a hora de morrer. E só uma pessoa no mundo podia salvá-lo: um menino pobre chamado Bruno Lichtenstein. Com esse sobrenome de principado, Bruno Lichtenstein é um garoto sem dinheiro. Não pagará a licença de seu amigo. Mas Bruno Lichtenstein havia de salvar a vida de seu amigo — de qualquer jeito. E jeito só havia um: ir lá e tirar o cachorro. De longe, Bruno Lichtenstein chorava, pensando ouvir o ganido triste de um condenado à morte. Via homens cruéis metendo o bisturi na carne quente de seu amigo: via sangue derramado. Horrível, horrível. Bruno Lichtenstein sentiu que seria o último dos infames se não agisse imediatamente.
Agiu. Escalou uma janela, arrebentou um vidro, saltou. Estava dentro do edifício. Andando pelas salas desertas, foi até onde estava o seu amigo. Sentiu que o seu coração batia mais depressa. Deu um assovio, um velho assovio de amizade.
Um vulto se destacou em um salto - e um focinho quente e úmido lambeu a mão de Bruno Lichtenstein. Agora era fugir para a rua, para a liberdade, para a vida...
Bruno Lichtenstein, da cabeça aos pés, tremia de susto e de alegria. Foi aí que ele ouviu uma voz áspera e espantada de homem. Era o dr. Loforte. O dr. Loforte surpreendeu o menino. Um menino podre, que tremia, que havia arrombado a Faculdade. Só podia ser um ladrão! Bruno Lichtenstein não explicou nada — e fez bem. Para o dr. Loforte um cachorro não é um cachorro — é um material de estudo como outro qualquer.
Na polícia apareceu o pai do menino. O pai, o professor e o delegado conversaram longamente — e Bruno Lichtenstein não ouvia nada. Só ouvia, lá longe, o ganir de um condenado à morte.
Já te entregaram o cachorro, esse cachorro ia ser trucidado cientificamente, para estudos, na Faculdade de Medicina. Tu o mereceste, porque tu foste amigo. Não te deram nem te darão medalha nenhuma — porque não há medalha nenhuma para distinguir a amizade. Mas te entregaram o teu cachorro, o cachorro que reivindicaste como um pequeno herói. Tu é um homem, Bruno Lichtenstein — um homem no sentido decente da palavra, muito mais homem que muito homem. Um aperto de mão, Bruno Lichtenstein.
BRAGA, Rubem. 1939 — Um episódio em Porto Alegre (Uma fada no front). Rio de Janeiro. Record, 2002. pg 37.
"Quem, neste mundo, haveria de se preocupar com o pobre menino Bruno Lichtenstein e o seu pobre cão?" (2º parágrafo)
Nessa passagem, encontra-se a rigor um período
Questão 8367592
ENEM (2ª APLICAÇÃO) ENEM 2010 1 FaseU LINMAT (2) 2010

Figura I. Disponível em: http://zuperdido.wordpress.com. Acesso em: 27 abr. 2010.
Figura II. Disponível em: http://jornale.com.br. Acesso em: 27 abr. 2010.
Figura III. Disponível em: http://www.alamedavirtual.com. Acesso em: 27 abr. 2010.

Figura I. Disponível em: http://zuperdido.wordpress.com. Acesso em: 27 abr. 2010.
Figura II. Disponível em: http://jornale.com.br. Acesso em: 27 abr. 2010.
Figura III. Disponível em: http://www.alamedavirtual.com. Acesso em: 27 abr. 2010.
O salto, movimento natural do homem, está presente em ações cotidianas e também nas artes, nas lutas, nos esportes, entre outras atividades. Com relação a esse movimento, considera-se que:
Questão 8367561
ETECSP ETECSP 2010 2 FaseU Gerais 2010
Final feliz
Há uma casa morrendo na minha rua. Penso em quem a pôs de pé. Tinha certamente um sonho, um projeto em que devem ter entrado amor e filhos, talvez netos e esperanças. Deve ter chegado com ar triunfante ao alto da colina das Perdizes, quando os raros moradores ainda dividiam espaços com as preás*, pois consta que perdizes não havia. Ele deve ter descortinado lá embaixo o vale desabitado do Pacaembu; na colina oposta, as elegantes chaminés de Higienópolis e, lá longe, as fumaças da laboriosa Lapa. E deve ter pensado: é aqui o lugar! A casa deve ter sido imponente: seis enormes janelas laterais, uma espaçosa e comprida varanda voltada para um extenso terreno onde houve, algum dia, um pomar e um jardim. Dois bancos de alvenaria protegidos por quatro colunas sugerem a existência de uma pérgula*. Atrevo-me a imaginar que alguém, às tardes, ficava ali a ler, ou a bordar, sob uma parreira de uvas roxas... Mas agora, abandonada, é como se a casa tivesse desistido aos poucos de viver. moradores levianos param de amá-las, depois que desaparecem aqueles que mandaram erguê-las e, assim, a casa ressente-se da ausência humana e logo perde o viço*. A tinta das janelas racha, as paredes estalam, o vento levanta sua pele de cal e silêncios, os telhados cedem ao peso da responsabilidade de décadas sem uma palavra d e agradecimento, vidraças explodem castigadas e ratos e morcegos se instalam oportunistas. Mas, para ter um final feliz, imaginei contar, ao contrário, a história de um desses casarões que se deixam morrer nessa cidade. Ela começaria com um sem-teto arrancando a janela rachada para aquecer-se numa noite fria, assustando os morcegos e ratos, e iria caminhando para trás, ano após ano, a pintura refazendo-se, o pó sumindo, o verde voltando, os moradores a desfrutando, prazerosamente, a festa de inauguração, a janela de pinho-de-riga sendo instalada, a mesma janela viajando de navio para o Brasil, junto com outros materiais, e terminaria com um senhor trajado de roupas do início do século passado dizendo com confiança e energia:
— Vou construir aqui uma casa que meus netos e bisnetos vão amar!
Ivan Ângelo, Veja SP, 24 jan. 2001. (Adaptado)
*preás: pequenos roedores.
*pérgula: espécie de galeria coberta de barrotes espacejados assentados em pilares.
*viço: força; beleza.
Final feliz
Há uma casa morrendo na minha rua. Penso em quem a pôs de pé. Tinha certamente um sonho, um projeto em que devem ter entrado amor e filhos, talvez netos e esperanças. Deve ter chegado com ar triunfante ao alto da colina das Perdizes, quando os raros moradores ainda dividiam espaços com as preás*, pois consta que perdizes não havia. Ele deve ter descortinado lá embaixo o vale desabitado do Pacaembu; na colina oposta, as elegantes chaminés de Higienópolis e, lá longe, as fumaças da laboriosa Lapa. E deve ter pensado: é aqui o lugar! A casa deve ter sido imponente: seis enormes janelas laterais, uma espaçosa e comprida varanda voltada para um extenso terreno onde houve, algum dia, um pomar e um jardim. Dois bancos de alvenaria protegidos por quatro colunas sugerem a existência de uma pérgula*. Atrevo-me a imaginar que alguém, às tardes, ficava ali a ler, ou a bordar, sob uma parreira de uvas roxas... Mas agora, abandonada, é como se a casa tivesse desistido aos poucos de viver. moradores levianos param de amá-las, depois que desaparecem aqueles que mandaram erguê-las e, assim, a casa ressente-se da ausência humana e logo perde o viço*. A tinta das janelas racha, as paredes estalam, o vento levanta sua pele de cal e silêncios, os telhados cedem ao peso da responsabilidade de décadas sem uma palavra d e agradecimento, vidraças explodem castigadas e ratos e morcegos se instalam oportunistas. Mas, para ter um final feliz, imaginei contar, ao contrário, a história de um desses casarões que se deixam morrer nessa cidade. Ela começaria com um sem-teto arrancando a janela rachada para aquecer-se numa noite fria, assustando os morcegos e ratos, e iria caminhando para trás, ano após ano, a pintura refazendo-se, o pó sumindo, o verde voltando, os moradores a desfrutando, prazerosamente, a festa de inauguração, a janela de pinho-de-riga sendo instalada, a mesma janela viajando de navio para o Brasil, junto com outros materiais, e terminaria com um senhor trajado de roupas do início do século passado dizendo com confiança e energia:
— Vou construir aqui uma casa que meus netos e bisnetos vão amar!
Ivan Ângelo, Veja SP, 24 jan. 2001. (Adaptado)
*preás: pequenos roedores.
*pérgula: espécie de galeria coberta de barrotes espacejados assentados em pilares.
*viço: força; beleza.
Considere o trecho:
Ela começaria com um sem-teto arrancando a janela rachada para aquecer-se numa noite fria, assustando os morcegos e ratos, e iria caminhando para trás, ano após ano, a pintura refazendo-se, o pó sumindo, o verde voltando...
Os trechos em destaque colaboram para expressar, correta e respectivamente, as ideias de
Questão 8367560
ETECSP ETECSP 2010 2 FaseU Gerais 2010
Final feliz
Há uma casa morrendo na minha rua. Penso em quem a pôs de pé. Tinha certamente um sonho, um projeto em que devem ter entrado amor e filhos, talvez netos e esperanças. Deve ter chegado com ar triunfante ao alto da colina das Perdizes, quando os raros moradores ainda dividiam espaços com as preás*, pois consta que perdizes não havia. Ele deve ter descortinado lá embaixo o vale desabitado do Pacaembu; na colina oposta, as elegantes chaminés de Higienópolis e, lá longe, as fumaças da laboriosa Lapa. E deve ter pensado: é aqui o lugar! A casa deve ter sido imponente: seis enormes janelas laterais, uma espaçosa e comprida varanda voltada para um extenso terreno onde houve, algum dia, um pomar e um jardim. Dois bancos de alvenaria protegidos por quatro colunas sugerem a existência de uma pérgula*. Atrevo-me a imaginar que alguém, às tardes, ficava ali a ler, ou a bordar, sob uma parreira de uvas roxas... Mas agora, abandonada, é como se a casa tivesse desistido aos poucos de viver. moradores levianos param de amá-las, depois que desaparecem aqueles que mandaram erguê-las e, assim, a casa ressente-se da ausência humana e logo perde o viço*. A tinta das janelas racha, as paredes estalam, o vento levanta sua pele de cal e silêncios, os telhados cedem ao peso da responsabilidade de décadas sem uma palavra d e agradecimento, vidraças explodem castigadas e ratos e morcegos se instalam oportunistas. Mas, para ter um final feliz, imaginei contar, ao contrário, a história de um desses casarões que se deixam morrer nessa cidade. Ela começaria com um sem-teto arrancando a janela rachada para aquecer-se numa noite fria, assustando os morcegos e ratos, e iria caminhando para trás, ano após ano, a pintura refazendo-se, o pó sumindo, o verde voltando, os moradores a desfrutando, prazerosamente, a festa de inauguração, a janela de pinho-de-riga sendo instalada, a mesma janela viajando de navio para o Brasil, junto com outros materiais, e terminaria com um senhor trajado de roupas do início do século passado dizendo com confiança e energia:
— Vou construir aqui uma casa que meus netos e bisnetos vão amar!
Ivan Ângelo, Veja SP, 24 jan. 2001. (Adaptado)
*preás: pequenos roedores.
*pérgula: espécie de galeria coberta de barrotes espacejados assentados em pilares.
*viço: força; beleza.
Final feliz
Há uma casa morrendo na minha rua. Penso em quem a pôs de pé. Tinha certamente um sonho, um projeto em que devem ter entrado amor e filhos, talvez netos e esperanças. Deve ter chegado com ar triunfante ao alto da colina das Perdizes, quando os raros moradores ainda dividiam espaços com as preás*, pois consta que perdizes não havia. Ele deve ter descortinado lá embaixo o vale desabitado do Pacaembu; na colina oposta, as elegantes chaminés de Higienópolis e, lá longe, as fumaças da laboriosa Lapa. E deve ter pensado: é aqui o lugar! A casa deve ter sido imponente: seis enormes janelas laterais, uma espaçosa e comprida varanda voltada para um extenso terreno onde houve, algum dia, um pomar e um jardim. Dois bancos de alvenaria protegidos por quatro colunas sugerem a existência de uma pérgula*. Atrevo-me a imaginar que alguém, às tardes, ficava ali a ler, ou a bordar, sob uma parreira de uvas roxas... Mas agora, abandonada, é como se a casa tivesse desistido aos poucos de viver. moradores levianos param de amá-las, depois que desaparecem aqueles que mandaram erguê-las e, assim, a casa ressente-se da ausência humana e logo perde o viço*. A tinta das janelas racha, as paredes estalam, o vento levanta sua pele de cal e silêncios, os telhados cedem ao peso da responsabilidade de décadas sem uma palavra d e agradecimento, vidraças explodem castigadas e ratos e morcegos se instalam oportunistas. Mas, para ter um final feliz, imaginei contar, ao contrário, a história de um desses casarões que se deixam morrer nessa cidade. Ela começaria com um sem-teto arrancando a janela rachada para aquecer-se numa noite fria, assustando os morcegos e ratos, e iria caminhando para trás, ano após ano, a pintura refazendo-se, o pó sumindo, o verde voltando, os moradores a desfrutando, prazerosamente, a festa de inauguração, a janela de pinho-de-riga sendo instalada, a mesma janela viajando de navio para o Brasil, junto com outros materiais, e terminaria com um senhor trajado de roupas do início do século passado dizendo com confiança e energia:
— Vou construir aqui uma casa que meus netos e bisnetos vão amar!
Ivan Ângelo, Veja SP, 24 jan. 2001. (Adaptado)
*preás: pequenos roedores.
*pérgula: espécie de galeria coberta de barrotes espacejados assentados em pilares.
*viço: força; beleza.
Reconheça o discurso empregado na frase a seguir:
— Vou construir aqui a casa que meus netos e bisnetos vão amar!
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